Season of the Witch

3 Capítulo Dois — Passos


Notas iniciais
BOA NOITE LEITORES AMADOS DE SEASON OF THE WITCH! Gente, tô muito feliz com o crescimento da fic! Em dois capítulos, já contabilizamos 33 leitores e 14 favoritos. Fora a marca de oito comentários e meio por capítulo. Tô realmente animadíssima com a história, e espero que esse incentivo maravilhoso que vocês estão me dando continue. Sério, o feedback de todos faz muita diferença! Não só gosto de saber da opinião de vocês, como isso me deixe energizada pra continuar escrevendo mais, buscando melhorar sempre. Por isso, muito obrigada a todos os comentaristas do último capítulo: Chicobo e seu namorado (ahusuhhs adoro saber que tenho um casal de leitores), shadowxcat, KarelSan, Sami, Arrriba, Sofia Veras, Holanda, Babi Prongs (que comenta por áudio) e Cris, amigo meu que comenta também por fora. Nesse capítulo, temos desenvolvimento de personagens e muitas interações entre eles. A continuação do diálogo da Einmyria com a Brigit, demonstrações de inteligência e sagacidade de parte das duas. E IMPORTANTE! Devo avisar que há um trigger warning nesse capítulo, ou seja, um aviso de conteúdo sensível: há a narrativa de um abuso. Não chega a ser estupro, mas acredito que é importante alertar, para que alguém que possa ser sensível a esse gatilho pule alguns parágrafos do POV da Brigit, se não quiser ler. O segundo POV pertence ao nosso rei saxão, que o que tem de estrategista fdp tem de charmoso, viu. Não nego que sou "paxonada" no Ecbert auhuhshus! Veremos a trama andar e mais conflitos e interações surgirem. No próximo capítulo, teremos um pouco da viagem do Aethelwulf e do Ulstan, e, acredito, mais um POV da Brigit, que aparentemente é a preferida da galera (minha também, admito auuhsuhsus). Dedico este capítulo a duas leitoras em especial: shadowxcat e Sofia Veras! A primeira, por ser uma linda que deu a fic um trailer, que vocês podem ver aqui: https://www.youtube.com/watch?v=45wOxsiGm2I. A segunda, por ter dado uma aesthetic da Brigit de presente pra mim, que vocês podem ver aqui: https://68.media.tumblr.com/92872fadbf0afff98035836c1bc3ee00/tumblr_oo3yndClrb1w99kr8o1_500.jpg. VOCÊS DUAS SÃO MARAVILHOSAS! Sério, estou muito gratificada com tanto retorno positivo! Obs: no meio do POV do Ecbert tem um link para uma música medieval que considero combinar bastante com certa cena do capítulo. Além disso, deixo pra vocês o link do tumblr da fic: seasonofthewitchfic.tumblr.com! Com as artes da Sofi postadas, o trailer e outras "fic arts" que eu mesma fiz! ^^ Tem um material bem interessante sobre a fic por lá, se tiverem interesse de ver. Beijos e que a magia da boa leitura flua em todos vocês!

A jovem princesa fitava o rosto da serviçal, mas não a enxergava de fato. Todavia, não por acessar as memórias de Einmyria, ou profetizar algo que diria respeito ao seu futuro.

Distraiu-se dentro de sua mente ao recordar-se de uma dolorosa experiência.

Acontecera há sete anos. Tinha apenas treze anos de idade, mal havia se tornado uma mulher. Naquela época, suas formas eram esguias, infantis e seu rosto, como sempre fora, aparentava traços mais juvenis do que sua idade.

Brigit piscou os olhos, por um segundo os fechando com força. Um zumbido soou aos seus ouvidos, como um inseto desagradável a flanar ao seu redor.

Lembrou-se de um particular cheiro acre. Um fedor amargo de suor e sangue. Depois, rememorou o som de uma língua detestável, rascante.

Pensou no que sentira, insistindo para tentar não se lembrar. Fora horrível. Fora como se sentir na pele de um dos animais que os celtas costumavam abater em sacrifício. Uma presa. Vulnerável. Um composto de carne e sangue cuja ínfima existência só tinha valor para ser utilizado ao bel-prazer alheio.

Vivenciara o maior horror de sua vida durante um saque que ocorrera na capital da província de Tara. Naquela época, Brigit era uma bastarda, cujo único privilégio era poder ter a honra de ser uma servente pessoal da família real. Ainda não tinha sido legitimada como uma filha do Rei Áed. Quando soube da invasão, passeava com a mãe fora dos limites do castelo, enquanto ela lhe instruía com cuidado sobre os preparativos para o próximo Beltane*.

Tudo ocorrera em uma sucessão veloz de acontecimentos. Um grupo de homens avançara correndo da mata fechada. Logo depois, a corneta de aviso soou da murada do castelo.

Atônita, Brigit viu arqueiros disparando contra a multidão que corria na direção dos muros, composta de homens portando escudos enormes, redondos e rudimentares. À distância, anteviu guerreiros altos, de pele pálida, com olhos brilhantes em tons claros e cabelos mais dourados do que trigo.

Por pouco mãe e filha conseguiram entrar antes que os portões fossem fechados. Sua mãe mandou que se escondesse atrás do casebre, e a disse para entrar em uma das caixas nas quais guardavam provisões. Prometeu que se esconderia perto da garota, que assim seguiu a ordem, tremendo por todo o tempo.

Por frestas da caixa, podia ver os portões tremerem. Os invasores avançavam com força bruta, e a cada investida contra o portão, Brigit sentia como se escutasse trovões se impondo contra as defesas do castelo. E logo eles romperam a madeira, impávidos, invadindo além das muradas.

Apavorada, a menina se esforçava para continuar silente, respirando o mais baixo que podia. A maior parte dos nortenhos se dissipou, mas alguns passaram a vistoriar as casas próximas aos limites dos muros. E, algum tempo depois, um homem desconhecido parou na frente de seu esconderijo.

Brigit colocou as duas mãos na boca, arregalando seus olhos de corça. O saqueador bradou, usando seu ominoso idioma para se comunicar com alguém a distância. A bastarda conteve uma exclamação de medo, podendo apenas enxergar parte das pernas do guerreiro.

Nisso, a tampa da caixa foi levantada.

Surpreso, o homem abaixou seu escudo, que carregava em uma mão só. Tinha cabelos compridos loiros, presos em tranças e penteados que ela nunca vira antes. Seus olhos azuis, mais claros do que a cor do céu de verão, cintilaram ameaçadores. Sua expressão surpreendida deu lugar para a cobiça, e ele largou o escudo na terra batida, junto da tampa da caixa.

Logo depois, puxou a garota para fora, a erguendo pelos braços como se não pesasse mais do que uma pena. Atirou-a contra o chão, fazendo com que tropeçasse e caísse. Um segundo depois, estava sobre ela, forçando seus braços para o lado e rasgando seu vestido simplório.

A garota de apenas treze anos gritava e chorava, sem conseguir se debater. Aquele homem era muito mais forte do que ela, e cada vez que tentava resistir, ele impunha o próprio peso, a machucando mais. O saqueador murmurava palavras hostis em sua língua apavorante, sons que Brigit não compreendeu o significado idiomático, mas entendeu que pretendiam lhe ferir.

Como as ações dele.

A pequena menina tinha parte dos seios ainda nem formados à mostra, o vestido rasgado até a altura do antebraço esquerdo. Seu algoz tentava levantar suas saias, sorrindo por todo o tempo, enquanto os sons da batalha acontecendo ao seu redor mal preenchiam os ouvidos da garota. O pavor tomava seu corpo com mais ímpeto do que a violação que estava prestes a sofrer, a impedindo de temer nada além daquele homem.

E, tão rápido como aquele abuso começou, acabou.

A bastarda demorou alguns segundos para entender o que fizera os olhos azuis do invasor se esbugalharem, enquanto ele cuspia sangue em seu rosto.

Soltou uma exclamação temerosa e confusa, mas o viking caiu para o lado. Desabou sem vida em seus olhos claros, posteriormente escurecidos. Moveu o rosto e viu sua mãe de pé, fitando o abusador com seus olhos cinzentos repletos de uma emoção que nunca antevira no rosto materno: ódio inexpugnável.

O punho e a mão direita de sua mãe estavam empapados com o sangue do agressor de sua filha. Segurava consigo uma garrafa de vidro partida, usada para perfurar o pescoço do invasor e assassina-lo.

— Senhora? Está se sentindo bem?

A voz de Einmyria despertou a princesa das memórias aflitivas.

Brigit pestanejou. Fechou os lábios que deixara entreabertos e retomou a compostura.

— Sim, perdão. Apenas me distraí por um momento.

— Parecia preocupada com algo. Se eu puder ajudar... — a aia ofereceu-se, baixando os olhos em uma postura dócil. A princesa abriu um curto sorriso.

Não era justo direcionar sua ojeriza para aquela jovem. Ela mesma testemunhara Einmyria sofrer uma violência similar naquela manhã.

Os homens poderiam ser cruéis, sendo saxões ou vikings.

— Pode. Me ajude a desafivelar esse vestido — pediu em meio a um sorriso gentil, entrando no lavatório junto com a serviçal.

Einmyria fez o que lhe foi demandado em silêncio, auxiliando a garota a se despir. Dobrou as vestimentas da nobre, a colocando em um banco de madeira próximo da banheira feita do mesmo material. Pelo vapor que saía da água, a princesa podia notar que estava bem quente.

A servente se punha a pegar um jarro cheio de água para lavar os cabelos de Brigit, que entrava na banheira. Permitiu-se relaxar por alguns segundos, se distraindo com a água que abria seus poros e acariciava seu corpo. Fechou os olhos e inclinou a cabeça, ao passo que Einmyria lavava suas madeixas.

Abriu-os e fitou o rosto da jovem, curvado próximo dela. Era mesmo uma moça muito bonita. Não lhe admirava que os outros servos ingleses a fitassem com olhares cobiçosos naquela manhã. Um nariz bem delineado, olhos verdes expressivos, a boca rubra de lábios cheios...

— Algo de errado, senhora? — a plebeia interpelou-a em um tom submisso. O olhar fixo de Brigit talvez a tenha incomodado.

— Você me chamar de senhora. Pode me chamar de Brigit. Ou Bree — falou a outra jovem, retirando os cabelos da mão dela e se voltando para fitar seu rosto melhor.

— Receio que não seja uma boa ideia. Sou uma mera...

— Você é uma serva, sim, e eu já estive no seu lugar — confidenciou-lhe a irlandesa. A escandinava franziu as sobrancelhas, sem compreender.

— Eu fui legitimada por meu pai somente aos meus quinze anos. Depois que perdeu todos os seus filhos legítimos. Alguns de meus meio-irmãos morreram em batalha contra o seu povo — contou, erguendo o cenho. Einmyria desviou o olhar por instantes. — Outros, contra clãs rivais. Até não sobrar mais nenhum herdeiro, eu era uma bastarda. Filha da concubina favorita do Rei Áed.

Não era perigoso contar aquilo. Já era uma Oirdnide oficialmente. Além de que sabiam que o Rei Ecbert dispunha de toda a informação pública sobre sua família.

— Eu não poderia imaginar — disse a aia, com um sorriso breve. Retribuiu-o.

— Então, Einmyria, ao menos quando estivermos a sós, pode me chamar apenas de Brigit. Eu iria preferir, se não se importar — pediu novamente.

— Se minha senhor... Se você insiste, Brigit — a serva aceitou, desembaraçando os fios da nobre.

— Insisto. Nós, mulheres, precisamos nos unir — mencionava implicitamente o que fez por Einmyria naquela manhã. Fingiu que a garota tinha sido designada para ser sua serva pessoal, e assim impediu que fosse esganada por aquele plebeu desconhecido que a atacava. — Afinal, não importa nossa origem, todas nós somos colocadas como inferiores aos homens. Mesmo as de sangue mais nobre — assegurou, dando um olhar repleto de empatia para a bela jovem próxima dela.

Depois, levantou-se da banheira e passou a se secar. Einmyria a ajudou a se vestir com novas vestes. Rumaram até os aposentos da princesa, no qual a serva penteou seu cabelo, enquanto Brigit colocava jóias e ornamentos especiais, pois compareceria a um banquete importante naquela tarde.

Em homenagem a primeira missão dos Oirdnide e dos nobres de Wessex: a ida do príncipe Ulstan, seu marido, e do príncipe Aethelwulf, filho do Rei Ecbert, para a província de Tara, na Irlanda. Junto a um massivo exército de ingleses e irlandeses.

— Não concorda comigo, Einmyria? — indagou, curiosa. Algo lhe dizia que aquela serviçal escondia muito em seus modos pacatos.

— Em parte — respondeu, a fitando com seu típico olhar subserviente.

Brigit continuou a mirando curiosa, pelo espelho.

— Se me permite a ousadia... — a serviçal começou, desembaraçando os cabelos ondulados da nobre.

— Pode ser sincera, não me incomodo.

— É um pensamento um pouco... Ingênuo. — A aia guardou a escova na bela penteadeira cuja madeira era trabalhada em fios de ouro.

A princesa ergueu uma sobrancelha, dando um sorriso surpreso.

— Eu aprendi, ao longo de minha vida, que é melhor desconfiar das intenções dos outros. A regra costuma ser: todos tentarão tirar vantagem de você, se puderem. Independente se são homens ou mulheres — aconselhou, unindo as mãos subservientes na frente do colo. Mirava Brigit de volta por seu reflexo na penteadeira.

A garota irlandesa se voltou para a jovem servente.

— Isso é um bom conselho — a jovem de herança celta fingiu agradecer. — Mas que estranho... Também me soa como uma ameaça — retorquiu, sua voz jamais deixando de ter o tom calmo e gentil que costumava usar. Seus olhos de corça, sempre doces, direcionados para a garota loira sem revelar nenhum traço de sua própria astúcia.

Einmyria ficou desconcertada por um momento, cruzando os dedos em um movimento rápido.

— Jamais. Brigit — acresceu, com um sorriso amistoso, quase como se estivesse ofendida pela assertiva.

A irlandesa fitou o vinho que Einmyria deixara separado. Algo em sua intuição lhe dizia que a aia tivera segundos pensamentos sobre o que poderia fazer com aquela bebida.

— Um brinde a nossa amizade, então. — Ergueu-se, e ela mesma serviu o vinho nos dois copos. Deu uma taça a serviçal, que, surpresa por estar sendo servida, a olhava com certo nervosismo. Seu rosto mantinha a expressão submissa, mas Brigit era arguta. Notou uma centelha ansiosa cintilar nos olhos verdes da servente. Como se a tivesse flagrado.

A jovem loira ergueu sua taça, encrespando as sobrancelhas, e bebeu um gole. Apenas depois, a princesa fez o mesmo.

Einmyria tinha razão sobre aquele conselho. Brigit andava em terreno perigoso.

Mas a serviçal passara em seu teste.

Seria bom ter uma aliada inteligente como aquela nortenha.

***

O anoitecer chegara, com mais uma noite de lua minguante. O Rei vagava pelos corredores de seu castelo construído em meio a vila romana, as tochas acesas tremeluzindo e deixando vestígios de sombras dançarinas pelas paredes de pedra.

Lembrou-se da despedida de seu filho naquela tarde, que deixou o território de Wessex junto ao Príncipe Ulstan Leinster e alguns de seus guerreiros mais habilidosos. Iriam para o porto em Dummonia, no extremo oeste do país, e a partir disso seguiriam para a ilha vizinha, a Irlanda.

“Não me desaponte”, ordenou o Rei Ecbert de Wessex para o seu filho, ao se despedirem.

“Não o farei”, respondeu o príncipe Aethelwulf, seus olhos estreitos de uma tonalidade azul escura como os de sua mãe tomados de uma certeza ardorosa.

Ao rememorar aquilo, por instinto, Ecbert ergueu alguns de seus dedos compridos a testa e ao osso do nariz, preocupado. Não havia outra escolha. Tentara preparar o terreno o melhor que pudera para a ação de seu filho, mas ainda tinha seus próprios receios.

Sabia que Aethelwulf sempre conseguia decepcioná-lo.

Seu filho era ingênuo, impulsivo, emotivo. E tolamente amoroso.

Se soubesse o quanto me lembra da mãe. O Rei respirou fundo, repreendendo seu último pensamento. Era contraditório.

Sua finada esposa, Raedburgh, jamais fora tão manipulável quanto seu filho. Era mais parecida com Judith: bela e sagaz. Mas compartilhava com Aethelwulf aquela característica que poderia ser uma desgraça: uma capacidade de amar que parecia infindável.

Depois da morte de sua esposa, Ecbert prometera a si mesmo que jamais casaria de novo. A dor de perde-la no parto superou qualquer vontade de conseguir outros herdeiros. Afinal, o nascimento de Aethelwulf mais lhe parecera uma maldição do que uma benção. Sabia que, se pudesse ter escolhido entre sua esposa e o único filho, não pensaria duas vezes.

Escolheria sempre Raedburgh.

Enquanto se concentrava naqueles pensamentos, passou na frente dos aposentos onde Alfred e Aethelred — seus netos — recebiam as lições de latim do monge Prudentius. Edmund, o bispo de Wessex, estava presente na sala de estudos, o que despertou a curiosidade do Rei.

Adentrou a câmara, fazendo com que todos se levantassem. O bispo pareceu surpreso em vê-lo.

— Meu senhor — curvou-se com humildade, mas Ecbert dispensou o tratamento.

— Algo de errado? — o Rei interpelou Edmund, que deu um curto olhar para o monge. Seus netos saudaram o avô, que se permitiu um sorriso mais caloroso para as crianças.

— Estávamos conversando sobre os recém-chegados... — começou o bispo, mas o Rei o interrompeu.

Nossos hóspedes — enunciou a forma mais respeitosa de tratamento.

O monarca fitou o bispo com um olhar significativo, em seguida dirigindo suas íris para a porta. O homem religioso entendeu, e seguiu seu governante.

Do lado de fora, Ecbert os guiou pelos corredores até pararem na frente da câmara na qual o monarca saxão escondia suas relíquias romanas.

— Meu senhor... Nossos informantes temem a repercussão da aliança para o nosso país — tentou Edmund, da maneira amedrontada que lhe era costumeira.

— Já conversamos sobre isso — o Rei o repreendeu em um tom severo.

— Sabemos pouco sobre os costumes desses... De nossos hóspedes. Não sabemos como isso será recebido pela Santa Igreja — ressaltou, embora o monarca já estivesse enfastiado daquele discurso.

— Eles foram catequizados há quatro séculos — ralhou Ecbert, fitando o bispo com inflexibilidade, como se quisesse que falasse mais baixo.

— Sabemos disso. — Edmund se aproximou mais um passo, abaixando o tom de voz. — Mas há rumores de que eles ainda não romperam com as raízes... Pagãs. Meu senhor, os riscos de confraternizar com um povo.... — O sacerdote ansioso foi calado assim que o governante de Wessex levantou uma das mãos.

— Eu sei de tudo isso. Tenho conhecimento sobre a preponderância celta em muitos territórios de nossos vizinhos. — Ergueu as sobrancelhas, austero. — Mais do que você, caro Edmund, eu lhe garanto, pois li todos os textos já traduzidos, produzidos por Júlio César e outros imperadores — soou arrogante de propósito, para que o bispo sossegasse. — Eu tenho certeza de que um Rei que pretende ser Alto-Rei da Irlanda não gostaria de ser excomungado da Igreja durante tal processo — acrescentou, segurando no ombro de Edmund. O bispo apenas abaixou o rosto, contrito.

— Meu senhor, há relatos de que Áed permite que os pagãos vivam em suas florestas. E concretizem sacrifícios, rituais de bruxaria e magia negra. Todo o tipo de sacrilégio. Conseguiu governar quase todo o território do país em poucos anos. Há quem diga que o homem tem um pacto... — Ecbert não segurou uma risada de escárnio, o que fez o sacerdote o olhar, surpreso.

— Eu esperaria muito de você, Edmund, menos que acreditasse nessas suposições simplórias. É um homem letrado ou um camponês rústico? — debochou o Rei, incrédulo. O bispo gaguejou, mas Ecbert continuou sua argumentação.

— E por acaso eu não fiz o mesmo? Não sou Rei de três dos maiores territórios da Inglaterra? — interpelou-o, e o sacerdote anuiu, constrangido. — Somos todos pecadores e falhos, bispo Edmund, mas a serviço de nossa Santa Igreja — assegurou, sua voz fleumática. Fez o sinal da cruz.

— O senhor é um homem abençoado e sábio — falou Edmund, parecendo desistir de retrucar, acompanhando o sinal.

— E você também. Não traia sua própria iluminação, meu caro. — Segurou outra vez no ombro do bispo, de maneira afetuosa.

Edmund era um tolo. Ecbert sabia disso, mas era o representante mais corrupto — e, portanto, útil — da Igreja em seu território. Não à toa o favoreceu. Sabia que o bispo lhe seria leal enquanto o mantivesse seguro e não estragasse sua reputação.

— Não se preocupe. Não seremos vistos como condescendentes, mas clementes. Nossos hóspedes são governantes de um povo menos abastado, menos poderoso e menos instruído. Mas detém guerreiros poderosos. Todos batizados — adicionou, com um sorriso enviesado. — Ajudaremos Áed e ele nos ajudará. A partir desta aliança, só poderemos subir. Inclusive aos olhos da Igreja — acautelou, e o bispo enfim pareceu mais calmo.

— O senhor está certo. Como sempre — bajulou-o, e o Rei fingiu se sentir lisonjeado.

Mais tarde naquela noite, para aprimorar os laços entre os hóspedes recebidos em Wessex — e para adular o Rei irlandês —, Ecbert mandou que alguns cantores e musicistas se reunissem no salão principal, permitindo que o jantar fosse celebrado com música e dança. Primeiro, o coro da igreja de Wessex cantou músicas sacras, e, ao fim do jantar, os bardos já declamavam poemas e entretinham os convivas com canções animadas.

Depois de passar bons minutos conversando com o Rei estrangeiro, propositalmente induzindo Edmund a travar algum diálogo com ele, Áed parecia ainda mais satisfeito do que na noite anterior. Sua barba crespa se movia enquanto ele gargalhava por alguma anedota contada por um dos nobres de sua corte. Os irlandeses pareciam ter um bom senso de humor. Ecbert riu também, não tão divertido quanto os demais.

— Meu senhor, não imaginaria que vocês nos dariam esta recepção tão generosa — o irlandês passou a bajular o monarca saxão, que apenas ergueu as sobrancelhas com um sorriso ensaiado, grato.

— Para que serve o vinho, a música e a dança se não para serem compartilhados com amigos? — soou simpático, enquanto abria um sorriso maior.

— Ao sucesso de nossos filhos. — O Rei estrangeiro ergueu seu cálice de vinho.

— Ao sucesso de nossos filhos e ao nosso sucesso — acrescentou o governante de Wessex. A mesa o acompanhou no brinde, e o Rei se permitiu varrer os olhos pelos ali reunidos. Na outra ponta de sua longa mesa, Judith se sentava defronte a princesa estrangeira. Seus olhos azuis demonstravam interesse no que quer que a jovem lhe contava, que a fitava de volta com seu ar delicado, sorrindo com leveza enquanto falava.

Não pôde deixar de notar que a expressão amável da princesa irlandesa não se assemelhava em nada com o olhar expressivo e nebuloso que lhe dera na noite anterior.

“A lua é mesmo uma deusa estranha, não é?”

Ecbert desviou os olhos da garota, franzindo o cenho por alguns instantes. Aquela frase fora estranhamente coincidente com o que uma vez indagara a sua nora, antes que cedesse aos seus apelos para tornar-se sua amante.

No mesmo momento, reparou que o Rei Áed se levantara, talvez instigado pelos nobres que se erguiam para dançar as músicas vibrantes.

— O senhor me concederia uma dança com a sua bela nora? — o Rei da província de Tara solicitou com polidez ao Rei de Wessex. Por um átimo de segundo, Ecbert pestanejou, surpreso.

— É claro. Fique à vontade para convidá-la — o monarca local respondeu, ao passo que Áed não se fez de rogado. Ecbert notou um olhar de soslaio do governante irlandês para sua amante.

Sentiu-se divertido. Judith jamais lhe daria mais do que um olhar. Mas era mesmo uma bela jovem, não o surpreendia que chamasse a atenção do outro Rei.

— Acho que isso significa que não se incomodaria se fizesse o mesmo convite para sua bela filha? — o rei saxão indagou com notas de humildade ensaiada.

Áed o fitou ligeiro, dando uma risada breve.

— Fique à vontade — repetiu o irlandês em seu sotaque forasteiro, enquanto o Rei inglês assentia com gentileza. Ambos se aproximaram das duas jovens, que, educadas a tanto, aceitaram o convite. Dentro da etiqueta da realeza, na verdade não poderia de fato ser considerado um pedido, visto que a recusa soaria terrivelmente deselegante.

Eram reis, afinal de contas.

Ambas beijaram as mãos dos respectivos reis, em uma postura de humildade aos seus títulos. Em seguida, aceitaram a mão estendida e seguiram para a dança, os outros nobres lhes dando mais espaço do que seria necessário, em respeito.

Ecbert cruzou um rápido olhar com Judith, e notou que ela parecia querer lhe dizer algo. Logo depois, voltou suas atenções para a princesa estrangeira, que se curvava para ele enquanto a nova música começava. Ecbert seguiu os passos que conhecia, reverenciando a princesa em resposta, inclinando-se menos do que ela.

Quando tocaram as palmas, dançando a distância seguindo o ritmo das flautas, alaúdes e outros instrumentos, Brigit começou a conversar.

— Mais uma bela noite — comentou, sorrindo com doçura para o Rei. Seu rosto de feições juvenis era meigo, inspirava que lhe sorrisse de volta.

— Sem dúvidas — respondeu cavalheiresco, enquanto outra vez tocavam as palmas e giravam, desta vez no sentido oposto. Em seguida, bateram palmas no ritmo da música, se afastando alguns passos.

Brigit girou em seus calcanhares, chamando a atenção pela maneira precisa com que seu corpo dançava em concomitância com o clímax da música. Ergueu os braços no ar em um movimento dançarino que chamou atenção de boa parte do salão, e inclusive surpreendeu o Rei.

Pelo visto os irlandeses também eram melhores na dança.

Alguns nobres próximos, com expressões surpresas ao rosto, aplaudiram a beleza da dança da irlandesa. Ela lhes deu um olhar grato, enquanto a música acabava, e em seguida fitou o Rei. Por um átimo de segundo, viu em seus olhos de corça a mesma expressão da noite anterior, que desvaneceu tão rápido quanto surgiu.

— Encantada com a lua novamente? — gracejou o Rei, enquanto Brigit se curvava defronte a ele em um movimento também dançarino, agradecida pelo convite.

Trocaram de pares, mas, antes disso, a princesa de Tara o fitou e disse em um sussurro:

— Não apenas com a lua.

Proferira a sugestão em um som tão baixo que mal podia ser ouvido. Seu rosto de feições joviais não denotava qualquer malícia, mas o Rei teve de entreabrir os lábios e sorrir, mais uma vez surpreendido. Além de misteriosa, pelo visto, a jovem era audaciosa.

Judith já estava defronte ao Rei quando este desviou o olhar, e notou que ela se curvava com recato para ele. Em meio a dança, Ecbert, um pouco embevecido pelo vinho e pela visão da amante tão próxima, teve de perguntar:

— Ainda a verei mais esta noite?

— Se eu estiver inclinada a tanto... — respondeu sua nora, dúbia, seus grandes olhos azuis o fitando com desprendimento. O Rei sorriu e nada disse.

Ao fim da música, a esposa de seu filho ainda o questionou.

— Parece satisfeito. — Ecbert sabia que aquilo não era uma suposição, mas uma afirmação.

— E por que não haveria de estar? Tudo corre às mil maravilhas. — Sorriu com um fingido ar paternal para a nora. Judith não parecia tão convencida.

— Nossos hóspedes são cheios de surpresas, não é? — indagou, enquanto aplaudia o fim da música junto de seu sogro.

— Mais do que eu supunha — admitiu o governante, e Judith lhe deu um sorriso sarcástico. Ecbert a fitou, curioso.

— Suponho que já saiba que a princesa é letrada em latim? — Apontou discretamente com o queixo para Brigit, que recebia acima de seus cabelos acobreados um beijo casto de seu pai, depois de terminarem a dança. Pelo visto, eram mais abertos até para demonstrações de afeto.

— Realmente? — Ecbert perguntou em resposta, tentando não demonstrar interesse. Judith meneou o rosto imperceptivelmente. Aquela esperta moça já o lia bem.

— Espero mesmo que o sucesso de nossa Aliança renda frutos. Para nós e para Alfred — falou em um tom delicado, porém direto. Ele compreendeu.

Tencionava recordar Ecbert da promessa que ele lhe fizera: se fosse sua concubina, seu legado seria deixado para seu filho bastardo. O filho que tivera com Athelstan, fora do casamento com Aethelwulf.

— Sabe que não penso diferente — o Rei respondeu em um tom afetivo, a fitando devagar. Judith e Alfred eram muito importantes para si. Sua nora, no entanto, o mirava com feições inescrutáveis.

— Realmente? — interpelou com certo tom de deboche. Logo em seguida, afastou-se para voltar a se sentar ao fim do banquete.

O Rei se permitiu encará-la se afastando, divertido e um tanto provocado com a resposta. Em seguida, deu um olhar de esguelha para a filha do Rei Áed, que, de pé, ainda conversava com seu pai, o escutando com olhos subservientes.

Ecbert estava cercado de mais mulheres inteligentes do que presumia. Encantadoras como a lua.

E isso tanto o incitava quanto inquietava.

Notas finais
*Beltane: "Beltane ou Bealtaine significa literalmente "fogo brilhante" ou "fogos de Bel", em homenagem a Bilé, considerado o pai dos Deuses e dos homens. Foi em Beltane que os Tuatha de Danann chegaram à Irlanda. Este festival se dedica à purificação, cura e criatividade. No Hemisfério Norte celebra-se no dia 1° de maio. Beltane é o oposto de Samhain e representa o início do verão e o final do inverno" [fonte: http://www.templodeavalon.com/modules/mastop_publish/?tac=celebra%E7%F5es_solares#5] ~ POV da Brigit com uma conversa instigante entre a Brigit e a Einmyria, com direito a uma lembrança pesada da princesinha celta. O preconceito dela com os nortenhos vai além da invasão das terras irlandesas, como podem ver. Mas a verdade corta dos dois lados. Einmyria esconde sofrimentos tão ruins ou piores do que os da Bree. Vocês logo descobrirão! ~ O que o Ecbert tem de cretino, tem também de charmoso. Olha, ele é uma cobra, um pai horrível, um sogro idem, um "gênio do crime" medieval, mas admito que caía em dois tempos na conversinha dele, ahusuhshue! Como diriam hoje em dia, "que homão da porra"! Judith e Brigit não ficam atrás dele em termos de inteligência. Da nora ele já sabe, mas sobre a Bree vai descobrir com o tempo. ~ Em tempo, eu imagino a Raedburgh (falecida esposa do Ecbert) assim: https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/b5/03/8c/b5038c3a26dedf02562b938161dacbfe.jpg ~ E imagino a mãe da Brigit assim: http://24.media.tumblr.com/tumblr_m51gfcG8zH1qhiah7o1_500.gif; e ~ Aguardo reviews! MUITO curiosa pra opinião de todos vocês, hahahahaha!