Season of the Witch
7 Capítulo Seis — Gotas
Notas iniciais

O horizonte brumoso, permeado pela névoa densa e úmida daquele país estrangeiro embaçava sua visão. Longínquos, gritos e urros beligerantes podiam ser escutados, como ecos fantasmagóricos chegando através da mata fechada.
O príncipe deixou um olhar recair lesto na direção do castelo de Killeen, algumas milhas abaixo dos limites da floresta de Dunsany. Podia antever apenas parte de suas paredes de pedra, uma construção frondosa, imensa, de alicerces rijos. Muito adiante, o rio Boyne corria fagueiro, contornando o castelo fortificado pelo Lorde Donnchad Midi, o maior rival de Áed Oirdnide pela Coroa de Alto Rei irlandês.
Trêmulo ao seu lado direito, estava o monge Bressal, com uma tocha erguida perto de seus rostos. Era noite, o frio enregelante consumia seu esqueleto, mesmo que estivesse usando uma armadura grossa, protegida por uma couraça maciça. O símbolo da Coroa de Wessex estava costurado no peito de sua armadura. Era um símbolo derivado da insígnia de soldados romanos: um dragão dourado, mostrando suas garras afiadas, a língua reptiliana bifurcada saindo de sua boca aberta em uma expressão ameaçadora.
Aethelwulf firmou a mão no cabo da espada, se recordando de que jamais apreciara tal ícone, ao contrário de seu pai. Era uma figura pagã, de mitos oriundos de culturas politeístas. Dragões jamais foram reais, tampouco os deuses que representavam aquelas culturas.
Escutou o som das folhagens pisoteadas com suavidade por pés esmerados em caminhar naquela vegetação densa. Voltou o rosto para trás, e ali estava o líder do Clã celta que se unira aos ingleses e irlandeses. Duas enormes tochas queimando entre a bruma noturna, um sorriso discreto em seu rosto pintado de verde em símbolos desconhecidos para o príncipe inglês. Seus homens o seguiam de perto, em especial os druidas carecas com o crânio, a testa e todas as bochechas cobertas em alguma tinta azul, em outros desenhos indiscerníveis pelo filho de Ecbert. Ao redor de todos eles, seus cavalos aguardavam, prontos para serem montados na missão que logo se iniciaria.
Como em um rito preparatório, os sacerdotes pagãos juntavam pedras em seus dedos, estalando umas contra as outras e as jogando no ar, as recolhendo de volta com as mãos. O som estrepitante irritava Aethelwulf e lhe trazia calafrios na espinha. Pelas luzes bruxuleantes das chamas, o general inglês podia antever símbolos celtas naquelas pedras. Reparou que se tratavam de runas sagradas para aquele povo.
Um dos druidas o fitou, seus olhos afunilados se estreitando por um sorriso descarado. Ele sussurrou algo para o líder do Clã, que deu uma risada breve, e depois o sacerdote pagão voltou a fazer sua reza estranha e performática.
Fintan falou em gaélico irlandês mirando o padre irlandês que acompanhava Aethelwulf. O sacerdote cristão puxou o colarinho de seu gibão para baixo, parecendo incomodado com o que escutou.
— O druida lhe disse para não se preocupar. Falou que não é bem-vindo pelos deuses celtas, mas que eles não se incomodarão em protege-lo hoje. Parece que alguém está orando por você — traduziu-lhe Bressal, e os arrepios agourentos na pele de Aethelwulf se intensificaram. Fingindo indiferença o melhor que podia, o príncipe de Wessex apenas respondeu:
— Avise Fintan que estamos prontos. Podemos começar — articulou em um timbre vocálico severo. O monge assentiu e logo passou a falar em gaélico irlandês, transmitindo a mensagem.
A inusitada união entre soldados ingleses e o clã celta já estava em formação de ataque. Bastaria que Fintan Bás Glas e seus homens dessem início ao incêndio da floresta de Dunsany e desceriam para o cerco que já começara há algumas horas, no castelo de Killeen.
O líder celta e também druida não aguardou mais. Levantou as duas tochas o mais alto que podia com seus fortes braços também pintados de verde, e esbravejou:
— Beidh na tinte lasta ar feadh na hoíche!*
Um calafrio gelificou seus ossos, subindo por suas pernas até sua nuca. Aethelwulf não compreendeu o que aquilo queria dizer, mas sabia que era uma ordem para queimar tudo. Fintan tinha todo o seu Clã espalhado pela floresta de Dunsany, esperando o momento de queimá-la. Não tardou e a floresta passou a arder em chamas, milhas atrás deles, como se a ordem de Fintan fosse responsável por uma ignição de fogo.
Como um dragão cuspindo chamas, pensou o príncipe de Wessex, para logo em seguida reprimir aquele lapso. Era sua vez de se concentrar e dar a ordem para o início da batalha.
— Avante! — bradou Aethelwulf, subindo em sua montaria e galopando para a saída da floresta de Dunsany. A fumaça causada pelas árvores em chamas se misturava a névoa branca daquele lugar, cores alvas e escuras dançando em meio ao fogo serpenteante que consumia tudo.
Os cavalos galopavam milhas abaixo, fazendo a terra tremer. O filho de Ecbert segurava as rédeas de seu alazão negro com firmeza, as pernas rijas na sela, enquanto aquele contingente enorme de soldados atravessada as últimas fronteiras florestais. O castelo de Killeen estava ali defronte, poucos metros abaixo da colina que desciam como um trovão de passos galopantes.
As tochas dos soldados não seriam mais necessárias depois do incêndio na floresta de Dunsany, que fazia visível todo o terreno adiante. Os cavalos galopavam velozes, cortando a penumbra o mais rápido que podiam, seus cavaleiros erguendo espadas, lanças e armas diversas para a investida que logo se daria.
— Arqueiros! Preparem-se! — Aethelwulf vociferou, sabendo que a linha militar organizada algumas fileiras atrás da que ele mesmo liderava escutaria o comando. Galopou mais alguns metros.
— Soltem!
Uma saraivada de flechas zuniu pelo ar, atingindo os poucos soldados que podiam antever preparados na murada. Os sons da batalha que já havia começado do outro lado do castelo — por onde o genro do Rei Áed, o príncipe Ulstan Leinster, atacara antes — ficaram ainda mais audíveis. O odor nauseabundo de sangue, suor e metal chegou as narinas do general inglês, umidificado pela bruma e seco no mesmo instante pela fumaça negra que os seguia, vinda do incêndio.
— Alto! — Aethelwulf levantou um braço, repetindo o comando. Alguns de seus soldados, seguindo desembestados por conta de seus cavalos que se assustaram com o incêndio próximo, chegaram perto demais da murada do castelo.
O herdeiro de Wessex rangeu os dentes ao testemunhar alguns de seus homens serem queimados pelo óleo derramado dos muros do castelo. Desviou o olhar ao ver um deles cair do cavalo, tentando cobrir o rosto já em carne viva. O fedor de carne queimada invadiu seu nariz, e o príncipe inglês levou uma das mãos as narinas para suportar.
— ARQUEIROS! Lancem! — bradou novamente, e foi atendido. Seus homens soltaram outra saraivada, que varreu os homens irlandeses que atacaram parte de seu contingente.
O príncipe de Wessex passou a escutar um som retumbante, e olhou por cima dos ombros em sua direção. Pelas luzes da floresta queimando atrás deles, pôde ver perfeitamente aquela cena assombrosa. Três cavalos musculosos e de pelos compridos inclusive nas patas, negros como seu alazão, levavam uma espécie de carruagem aberta, ocupada por cinco homens, dentre eles Fintan “Morte Verde”. Todos seguravam o que era o maior aríete que Aethelwulf já vira em vida, feito do que parecia ser um material metálico.
Pouco depois a carruagem avançava defronte aos portões modestos e, portanto, mais frágeis, dos fundos do castelo de Killeen. Foi necessário forçar o aríete contra os portões de madeira apenas três vezes, enquanto os soldados ingleses eliminavam os guardas irlandeses que protegiam os muros do lado de fora. As portas caíram, e o caminho estava livre.
— AVANTE! — a voz do filho do rei inglês explodiu de vigor, enquanto ele puxava as rédeas de seu cavalo para avançar o mais rápido que podia. Logo estava dentro do pátio sul do castelo de Killeen, descendo sua espada contra os soldados irlandeses que tentavam avançar contra si. Cavalgava pela batalha, massacrando os inimigos, enquanto o sangue deles manchava sua armadura, sua cota de malha e seu rosto. O general de Wessex sorria, convicto da vitória.
Avistou ao longe a torre que deveria pertencer a ordem do monastério de Columban. Precisavam tomar todo aquele território, não bastaria apenas o trono do Lorde Donnchad Midi. Os padres de Columban teriam de dobrar os joelhos também.
Ao dirigir sua montaria naquela direção, Aethelwulf quase atropelou o monge Bressal, que havia descido de seu cavalo e buscava refúgio, apavorado em meio a batalha. Irritado e mais uma vez rangendo os dentes, o príncipe inglês lhe estendeu uma mão, aceita de pronto pelo sacerdote. Ele subiu atrás de si, e cavalgou consigo.
Poucos minutos depois, ambos chegaram a torre. Era modesta, em comparação as outras construções dentro do ostentoso forte de Killeen. Suas portas já estavam abertas, mas não havia sinal de conflito ali dentro.
Aethelwulf caminhou para dentro da torre, seguido por alguns soldados e o monge Bressal aterrorizado. Sua mão estava firme no cabo da espada, preparado para desferir qualquer golpe para se proteger.
Adiante dele, viu um altar simples, com uma cruz de madeira na parede de pedra. Não havia nada ali além dos itens cerimoniais de uma missa, e alguns vitrais que iluminavam o interior daquela capela improvisada no primeiro andar da torre. A luz era sanguínea, refletida pelo fogo que se alastrava por todo o território dominado pela união das tropas de Ulstan, Fintan e Aethelwulf.
O general inglês trocou a espada para a mão esquerda e fez o sinal da cruz, se curvando em respeito. Em pensamento, pedia perdão pelo que estava prestes a fazer, em nome da vontade de seu pai e supostamente de seu próprio Deus.
Logo depois, voltou a segurar a arma com a mão que a usava com maestria. Seguiu mais alguns passos adiante, e ergueu a toalha simples que recobria a mesa de madeira.
Um homem vestido com trajes de bispo, mais modestos do que os do bispo de Wessex, estava escondido embaixo da mesa. Sem alarde, o príncipe inglês o puxou debaixo do móvel e o ergueu, enquanto o homem falava em gaélico irlandês palavras incompreensíveis, em uma voz rouca, porém impositiva.
Bressal, atrás do general inglês, logo explicou:
— É o bispo de Columban. Roga por piedade, pela bondade em nossas almas — esclareceu o monge, e o príncipe de Wessex deu um olhar breve para o monge jovem. Ele suava de terror, abraçando os próprios braços.
O filho de Ecbert avaliou o bispo. Estava desarmado e segurava a própria cruz dourada que tinha ao redor de seu pescoço. Seus olhos escuros e aquosos miravam as íris do príncipe.
— Explique ao bispo que ele viverá, se jurar por nosso Senhor servir ao Rei Áed — demandou o príncipe inglês, seus olhos se demorando no rosto assustado, porém convicto do bispo irlandês.
Bressal proferiu as palavras naquele idioma rascante que tanto desagradava o general de Wessex. O bispo apenas fitou Aethelwulf de novo, após olhar para o monge de olhos fundos castanhos. Sua expressão era a mesma de antes. Respondeu algo que foi em seguida traduzido por Bressal.
— O bispo diz que Áed é um excomungado. Não servirá a um Rei que não serve ao nosso Deus — disse Bressal, sua voz se esganiçando.
Uma sombra se moveu por trás do bispo. Aethelwulf não notara o recém-chegado antes, e liberou o bispo irlandês, o empurrando para longe de sua mão esquerda. Empunhou a espada, preparado para atacar, mas no instante em que distinguiu quem era a figura misteriosa a se aproximar, o novo homem naquela cena desceu a espada em um golpe exato, brutal e atroz no crânio do bispo, o dividindo em dois por alguns centímetros. Sangue escorreu pelos cabelos brancos ralos do sacerdote de Columban, as gotas caindo de sua testa e rosto manchado pelas marcas da velhice, atingindo pouco a pouco o chão de madeira. Sequer teve tempo de gritar.
O bispo tombou para frente, não sem antes deixar seus olhos rígidos, sem vida, parecendo fitar Aethelwulf do Outro Mundo.
O príncipe inglês sentiu tontura. Teve de se esforçar, por alguns segundos, para se manter de pé. Depois de limpar a espada em um floreio que cortou o ar, Ulstan Leinster, o homem que matara o bispo a sangue frio, daquele jeito covarde e hediondo. Ele soltou uma gargalhada que reverberou pela capela. Seu braço direito estava sujo pelo sangue do homem que representava a ordem do monastério de Columban.
— Matamos todos. Os padres que lutavam, e os que não sabiam lutar. Killeen é nosso. A Irlanda será nossa. Salve o Alto Rei Áed! — bradou o príncipe irlandês, repetindo aquelas últimas palavras em sua língua nativa, e Aethelwulf reparou que outros soldados o seguiam, saindo de onde seria a sacristia daquela capela. Pelo cheiro de carniça, o inglês pôde deduzir que fizeram uma chacina no local.
Em gaélico irlandês, os soldados irlandeses repetiram o “salve” entoado por Ulstan. O estômago de Aethelwulf dava voltas, e, por uma janela aberta de um dos vitrais simples da ordem de Columban, ele julgou antever, em uma fração delirante de segundo, o rosto da druida ruiva que se dizia chamar Maella. Assim que piscou os olhos, ela desapareceu.
Atrás de Aethelwulf, Bressal juntou as mãos em prece, caindo de joelhos, movendo o corpo para frente e para trás. O general inglês fitou o monge, que rezava com o semblante assustado. Deveria estar afogado em culpa.
Tal como estava o príncipe inglês. Que tipo de cristão poderia agir daquela forma?
O general inglês baixou humilde o rosto, mirando a cruz de madeira, evitando olhar o cadáver do bispo que jazia tão perto de si. O que Ulstan fizera também era em parte sua responsabilidade.
Talvez aqueles druidas estivessem certos. Talvez não estivesse influenciado por seu Deus, mas sim pelos idólatras e seus descaminhos.
Senhor Deus Pai Todo-Poderoso, tende piedade de nós, pensou e implorou Aethelwulf.
♕♕♕
As gotas finas e rítmicas da chuva escassa caíam naquela tarde de meados de maio, banhando delicadas o terreno da vila romana de Wessex. Por fora da principal sala de estudos do Rei, apenas se escutava o ruído tamborilante das gotas batendo na pedra e na terra batida metros abaixo.
Chovia muito na Inglaterra, mesmo no verão. Aquilo não era novidade para nenhum nativo, tampouco para os recentes moradores dos domínios do Rei de Wessex. Mesmo com a chuva incessante, a rotina continuava a mesma. E, em meio as suas tarefas como governante de Wessex, no momento o Rei se dedicava a estudar mais uma pilha de novas correspondências recebidas.
Mais de uma semana havia se passado desde que Ecbert ouvira os primeiros rumores de seus espiões e informantes sobre a vitória da aliança de ingleses e irlandeses contra o castelo de Killeen e a ordem de Columban. Aethelwulf não entrara em contato com o pai desde então.
Algo, porém, incomodava o Rei inglês. Áed não tinha tantos informantes quanto Ecbert, e ainda assim agia, nos últimos dias e conferências políticas que participaram, como se já tivesse sido proclamado o Alto Rei da Irlanda. Como poderia estar tão certo da vitória, se qualquer um que chegasse até Áed teria de passar, primeiro, pelos olhos e ouvidos a mando do monarca de Wessex?
Alguém — ou algo — deveria lhe trazer aquelas informações. E isso não passava encoberto pela vigilância atenta e extremada de Ecbert. Era preciso descobrir mais a respeito.
O monarca inglês escutou algumas batidas na sua porta de madeira fechada. Impaciente, disse um ríspido entre, sem levantar os olhos do papel.
— Meu senhor... — A voz de timbre grave e manso feminino soou aveludada aos ouvidos de Ecbert. Reconheceu-a no mesmo momento, e ergueu o rosto para testemunhar Judith gloriosa em um vestido púrpura cinturado que contrastava belamente com sua pele branca e seus grandes olhos azuis. Estava linda, e tinha um sorriso radiante em seu rosto gentil.
— Sim, minha doce Judith? — O timbre outrora rude de Ecbert soou cortês e interessado.
— Trago excelentes notícias. — Ela manteve o sorriso e levantou uma mão espalmada, dando espaço para que outra pessoa passasse por trás de si. Um de seus guardas andou até o Rei, se curvando com respeito ao lhe entregar um envelope lacrado. Reconheceu o lacre do dragão dourado de Wessex.
Ecbert sorriu também, sentindo os músculos de seu rosto se contraírem pelo júbilo instantâneo. Abriu a correspondência e passou a ler a carta escrita por Bressal, a mando de Aethelwulf. Era verdade. Conquistaram Killeen, derrubaram a ordem de Columban. Bastava agora que Áed retornasse para a Irlanda para clamar seu trono. Não haviam mais opositores.
O Rei Ecbert fechou os olhos inspirando longamente, ainda sorrindo. Ergueu-se de um salto e caminhou até Judith, depois do guarda ter sido dispensado e os deixado a sós. Tocou-a nos ombros e puxou a nora para um beijo longo, lúbrico, com gosto de vitória. Ela o retribuiu, e ao se separarem, mantinha as pálpebras fechadas. Demorou a fita-lo, brindando-lhe com mais um sorriso.
— Seu marido cumpriu com destreza o papel que lhe foi dado, minha querida — disse o monarca, acariciando com uma das mãos o rosto da amante.
— Então é apenas uma questão de tempo para que possamos chamar você de Bretwalda — ela especulou, falando em uma voz sedosa para agradar o Rei, ele sabia.
— A vitória dos nossos aliados é nossa vitória também — confirmou o Rei Ecbert, deixando de tocar Judith e fitando a janela aberta em seus aposentos administrativos. A chuva afilada não fazia jus aquele momento de glória.
— Mande chamar o Rei Áed. Preciso conta-lo do ocorrido — demandou, e a nora assentiu, o deixando só.
Alguns minutos depois, o Rei irlandês adentrou aquela câmara, sendo saudado com alegria ensaiada por Ecbert. Ofereceu-lhe um pouco do vinho que tomava, sentando ambos a mesa repleta de mapas e correspondências. Áed aceitou a bebida, e enquanto tomava de um cálice o líquido, lia a carta que Ecbert lhe entregou.
— Por São Patrício! — comemorou o futuro Alto Rei irlandês. — Minha Brigit precisa saber disso! — exclamou, e mandou chamar a princesa irlandesa.
A menção do nome da filha de Áed, Ecbert sentiu uma espécie de fisgada indesejada.
Desde que oferecera sua biblioteca particular e os escritos romanos para que a princesa de Tara os traduzisse do latim, suas conversas e encontros supostamente bem intencionados com a jovem se tornaram muito mais frequentes.
De início, era uma forma divertida de distrair a mente, admirando a beleza juvenil e a inteligência afiada e quase sobrenatural da garota. Mas pouco a pouco aquelas reuniões quase diárias foram significando mais. A cada vez que Brigit lhe informava sobre novos manifestos romanos e fazia suas próprias considerações pertinentes, isso o lembrava do quanto, em outros tempos, ele não hesitaria em experimentar outros tipos de contatos com aquela princesa, além de uma união meramente intelectual.
Ela era uma jovem reflexiva, de pensamento rápido, com uma sede de conhecimento muito similar à de Ecbert. Interessava-se pelos tomos de filosofia, geografia e história romanos, sem distinção de dificuldade quanto aos temas diversos, capaz de assimilar conceitos complexos em uma velocidade que surpreendia o monarca.
Parecia ter uma predileção especial pela história da Hibernia, o que fazia sentido, afinal, era a história de seu país de origem. Nunca Ecbert aprendera tanto sobre a Irlanda celta quanto naqueles últimos dias.
Ao mesmo tempo que se sentia gradualmente mais atraído pela princesa irlandesa, Ecbert tentava suprir sua luxúria sendo agradável e galante com Judith. Brindava a amante com todos os mimos e carinhos, mas aquilo o distraía por pouco tempo. Bastava cruzar o caminho com Brigit, e seu interesse pela princesa despertava com toda a vitalidade.
Na verdade, se pudesse não hesitaria em tomar as duas para si. Mas os impedimentos políticos eram inúmeros. Fora que a própria Judith poderia não ver aquela aproximação com bons olhos, como já deduzia Ecbert. Outra mulher em seu caminho poderia significar a chance de novos herdeiros, e ele sabia que o maior objetivo de sua nora era garantir a Coroa para seu filho Alfred.
Segurando um suspiro, Ecbert refletiu sobre todas estas considerações mais uma vez, durante o tempo em que ele e Áed conversavam sozinhos. Logo Brigit foi levada para reunir-se a eles, e o Rei inglês controlou um olhar indiscreto para seu corpo jovem torneado no vestido justo, com uma sugestão de decote, e de tom esverdeado que ela vestia. Seus cachos acobreados desciam por seus ombros, e ela portava um sorriso casto em seu rosto.
Aquele sorriso provocava Ecbert em seu âmago. Diferente dos olhares de malícia contidos que Judith lhe dirigia, Brigit se escondia em uma fachada de jovialidade inocente que não enganava mais o monarca. Talvez fosse tão ou mais capciosa quanto sua nora, dada sua inteligência fora do comum, mas usava sua aparência juvenil e dócil como uma forma de não escancarar isso para o mundo.
— Meus senhores — Brigit disse em sua voz jovial e submissa, curvando-se com graça para ambos. Eles retribuíram com acenos. A princesa beijou os dedos do pai e em seguida os de Ecbert, em uma postura de respeito as suas posições de monarca. Todavia, ao trocar olhares com o Rei de Wessex, ele anteviu uma fagulha travessa em seus olhos castanhos. A fisgada contrariada retornou a perturbá-lo.
Sentou-se ao lado do pai, que já se punha a lhe explicar sobre a carta. Em silêncio e munido de um sorriso polido, Ecbert notou que a princesa parecia ter deduzido do que se tratava aquele convite no meio da tarde sem que Áed precisasse lhe esclarecer. Perguntou-se se o pai dela saberia do quão longe a astúcia de sua filha poderia enxergar.
— Seu marido e o príncipe Aethelwulf nos honraram em batalha! — bradou Áed, acarinhando a mão direita de sua filha com suas duas mãos. Brigit ainda tinha o mesmo sorriso discreto em sua face cândida. — Assim que Ulstan voltar, temos de comemorar. E, em seguida, terei muito trabalho a fazer na Irlanda. Voltarei imediatamente — afirmou o Rei irlandês, fazendo a princesa entreabrir os lábios e dar um curto olhar de esguelha para Ecbert, que notou o movimento sutil e conteve seu próprio sorriso satisfeito.
— Acompanharei o senhor se assim quiser, meu pai — ofereceu-se, mas o Rei inglês reparou que não era aquela a vontade da princesa.
— Não. Ficará aqui com seu marido. Ulstan precisará do seu apoio nas batalhas que ele e o príncipe Aethelwulf travarão aqui na Inglaterra — declarou o Rei de Tara. Brigit aquiesceu com o rosto, seu sorriso recatado aumentando quase imperceptivelmente. O monarca de Wessex pôde discernir as pequenas covinhas nas bochechas da princesa ficando aparentes.
Ecbert tinha certeza de que não era pelo marido que a princesa irlandesa se sentia agradada em ficar.
— Como quiser, meu senhor — ela disse, com deferência. Áed soltou as mãos da filha e a dispensou. Ela se despediu do Rei irlandês e do monarca inglês com o mesmo cumprimento de antes, mas não demonstrou travessura alguma ao tocar os dedos de Ecbert.
Ele a olhou fechar a porta, e, de novo restrito a companhia de Áed, piscou os olhos para se concentrar no rosto feio do monarca irlandês. Ele o inquiria sobre suas próximas investidas militares.
— Por enquanto, creio que o maior problema é Gales. Estão muito perto de Mércia. — Mostrou o mapa inglês para o Rei irlandês, que terminava seu cálice de vinho. Ecbert mal bebera. Não queria anuviar seus sentidos.
— Portanto, é mais proveitoso dominar Ânglia Oriental que oferecerá menor resistência. Os opositores de Gales tentarão se unir com os lordes de Mércia que se desagradaram com a minha coroação, mas não terão apoio suficiente. Provavelmente teremos um desfecho parecido por aqui com o que você teve em Meath — comentou o Rei Ecbert com um sorriso convencido.
— Estou certo disso — Áed lhe reforçou, enchendo um novo cálice de vinho. O monarca inglês arqueou as sobrancelhas por um breve momento. Não queria deliberar maiores estratégias com o aliado. Quanto mais guardasse consigo, mais protegido estaria contra possíveis desenvolturas imprevisíveis. Traições.
O governante de Wessex passou o restante da tarde distraindo Áed Oirdnide, sugerindo métodos que não necessariamente utilizaria. Depois de cansar-se, o outro Rei o deixou. Ecbert gastou o tempo restante estudando alguns dos tomos de guerra dos romanos, traduzidos tanto por Brigit quanto por Athelstan, em outra época. Depois, jantou com seus convivas, reparando no quanto a aia particular de Brigit, Einmyria, parecia muito próxima da princesa irlandesa. Após a refeição, decidiu continuar seus estudos de guerra naqueles mesmos aposentos.
Foi visitado tarde da noite por Judith, perguntando se não viria deitar-se consigo. Ecbert declinou gentilmente o convite, mal acreditando no que fazia. Mas estava entretido demais com seus próprios engenhos bélicos para pensar em dividir a cama com sua amante, o que poderia fazer em toda e qualquer outra noite.
Volta e meia, porém, reparava que deixava o olhar vagar perdido para seus dedos. Os mesmos que Brigit beijara mais cedo, lhe dando um olhar insinuante. Repreendia-se em pensamento sempre que notava o que fazia. Estava ficando mesmo velho, para deixar algo tolo como o desejo sexual nublar seu foco.
Era madrugada quando o Rei de Wessex ainda se punha a ler uma tradução de Athelstan dos feitos de Quinto Petílio Cerial**, sobre o combate da rebelião dos Batavos. A inspiração lhe surgira firme, e já havia pensado em um plano de invasão e dominação para Ânglia Oriental baseado naquelas técnicas.
A chuva aumentara. A janela aberta trazia um vento frio para a temperatura de quase verão, e Ecbert se ergueu de sua cadeira para fechá-la, arrumando a capa em seus ombros e braços.
Todavia, ao chegar ao parapeito, ficou estático. Olhou para baixo e arregalou os olhos. Um cavalo relinchava, incomodado com a torrente de água. Mas não era a figura do animal, tão fora de lugar, que o chocara. Mas sim a presença da pessoa que acabara de deixar a sela.
Ali estava ela, risonha, dançarina, assombrando sua madrugada com sua doçura quase infantil. Vestida com trajes triviais dançando em meio a água plúmbea. Brigit trajava algumas anáguas brancas que as moças costumavam usar para dormir, de saias longas e singelas.
Pensando rápido, o Rei Ecbert notou que aqueles aposentos onde estudava não ficavam muito longe do salgueiro que a princesa um dia visitara tarde da noite. “A lua... É mesmo uma deusa estranha, não é?” Arrepiou-se com aquela lembrança.
A chuva banhava a pele alva, delineada por algumas sardas, da princesa Brigit. Ela sorria com alegria genuína alguns metros abaixo daquela saleta real, erguendo as palmas abertas para os pingos e gotas de chuva a tocando. Incapaz de ver quem a via, silencioso e estarrecido. Em um momento benfazejo, Ecbert fechou os olhos, controlando um impulso instintivo ao ouvir o som da risada jovial dela ecoar até seus ouvidos.
Ao abrir suas pálpebras novamente, viu Brigit dançando em círculos pela chuva, correndo, rindo e cantarolando, as anáguas encharcadas. Os contornos delicados de sua pele começavam a ficar transparentes pela roupa branca, e o Rei engoliu mais um suspiro atiçado.
Sentindo uma mistura de pesar com anseio e curiosidade, não pôde evitar continuar a admirá-la, até que Brigit montou em seu cavalo, pondo-se a trotar suave na direção do salgueiro. O que ela faria naquelas localidades de Wessex a essa hora da noite, sozinha, naqueles trajes? Era inacreditável que ninguém além dele a tivesse flagrado ali.
Ao não mais avistar a figura da jovem metros abaixo, o Rei enfim puxou a janela, protegido da chuva e do frio, se sentindo tolo. Detestava aquele sentimento. Gostava de ter o controle de tudo e de todos ao seu redor, contudo a princesa de origem celta parecia tentar desafiar sua primazia.
Um tanto desagradado, se sentou de novo à sua mesa de estudos, se esforçando para ler o mesmo tomo militar e se esquecer daquela visão imprevisível. Queria mandar seguirem-na, mas não queria dividir aquele testemunho com mais ninguém. Confuso, sua mente o recordou de um poema de Publius Virgilius, chamado “Culpe a Chuva”, como se aqueles versos estivessem escritos nas páginas de traduções romanas que lia.
“Eu invejo a chuva
que abençoa
sua pele profana.
Enquanto se afoga
em seus lábios
em um doce beijo.
A chuva,
A bem-aventurada, maldita chuva
Pode tocar você
Como eu desejo fazer”.
Ecbert rememorava aqueles versos simplórios em pensamento, incapaz de desanuviar a mente daquela imagem excêntrica e atraente, que parecia saída dos contos de fada que ouviu contar de sua época de criança. Histórias extraordinárias, sobre fadas, ninfas e criaturas femininas que surgiam aos homens incautos e enfeitiçavam suas almas.
Aquilo não ficaria assim. Ele não era um homem incauto, tampouco um tolo. Brigit poderia divertir-se em tenta-lo... Mas provoca-lo era como brincar com fogo.
A chuva não a protegeria de se queimar.
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