Season of the Witch
6 Capítulo Cinco — Faíscas
Notas iniciais

O som de tambores a rufar reverberava por todos os cantos. Por sua experiência de general de guerra, sabia que não era incomum escutar tais batidas demarcando o ritmo da marcha das tropas que se dirigissem ao combate.
Mas, naquele final de tarde, os ruídos ritmados não preparavam os indivíduos ali reunidos para uma futura peleja. Eram sons festivos.
— Sorria, Lorde Lobo! Esta será uma noite memorável — Ulstan Leinster provocava o príncipe inglês, acercando-se de Aethelwulf e seu recente fiel companheiro, o monge Bressal. O sacerdote, acanhado, trocava olhares breves entre o irlandês e o inglês.
Tanto o filho de Ecbert quanto o monge tinham nas mãos canecas de madeira cheias de hidromel, bebida que Bressal explicou se tratar de um drinque feito de mel fermentado. Atrás de ambos, árvores altas fechavam a colina na qual se agrupavam, e o sol vespertino dourava as folhagens verdes.
O príncipe inglês levou dois dedos as pálpebras fechadas, as comprimindo em um gesto que herdara de seu pai. Estava irritado, contrariado e ansioso.
— Não há motivos para sorrir, príncipe de Leinster, a menos que o sol irlandês tenha derretido o que ainda resta de seus miolos, escondidos por baixo dessa cortina de cabelos — debochou o inglês, com um sorriso torto, rígido. — Perdemos mais um dia nas negociações com os donos destas terras. — Apontou para um grupo de homens e mulheres celtas que passavam perto.
— E perderemos também a noite em festejos, quando poderíamos usar a ausência de luz ao nosso favor nas investidas contra o castelo de Killeen. — Sua voz colérica, porém em um tom baixo, muito se assemelhava ao timbre do pai quando se exasperava.
Os olhos escuros de Ulstan pareceram cintilar, enquanto mantinha o sorriso irritante.
— Você se engana novamente, Lorde Lobo — O príncipe irlandês passou os dedos pelos cabelos, como que para enfadá-lo ainda mais — O que já não me surpreende — o genro do Rei Áed debochou. — Sabe a razão de todos eles caminharem com tochas? — Ulstan dirigiu seu olhar para os membros do clã de Fintan, todos vestidos com túnicas esbranquiçadas, adornadas com flores, ramos e folhagens. Cada um dos celtas andava portando uma tocha de madeira acesa, seus rostos pálidos rosáceos quando em contraste com a luz das labaredas.
— Porque está escurecendo — retorquiu o príncipe inglês, impaciente, franzindo o cenho.
Nisso, uma mulher de longos cabelos morenos que desciam além de sua cintura caminhou para perto de Aethelwulf, lhe medindo por inteiro com olhos lascivos. Uma coroa de flores lilases e azuis cobriam sua testa e cabeça, dando ainda mais suavidade aos seus belos traços. Seus olhos estreitos verdes sorriram junto com seus lábios rubros, e ela sussurrou uma frase ininteligível perto de seus ouvidos.
Ulstan riu, bebendo um longo gole da caneca de hidromel que tinha consigo.
— Você é muito divertido — falou em claro tom de troça, mirando Aethelwulf após baixar a caneca de seus lábios. — Não, não estão com tochas acesas porque o sol está se pondo. As tochas, no Beltane, estão por trás de todo o sentido deste rito — assegurou, parando de sorrir. Deu uma última risada seca e se afastou, dirigindo-se para uma espécie de tenda montada para o líder do clã, sua esposa e seus favorecidos.
O príncipe inglês olhou para Bressal, que mexia nervoso os dedos na caneca de madeira que tinha consigo. O sacerdote o fitou, e se pôs a tossir.
— Ulstan deve estar falando do casamento do Homem Verde com a Deusa — esclareceu, engasgando outra vez.
— O quê? — Aethelwulf retrucou entre dentes. Aos seus ouvidos, o som dos tambores aumentava, e o burburinho estridente em gaélico irlandês começava a soar convoluto. Efeito provável das doses de hidromel consumidas. Ele se recusava a tomar muito daquela bebida pagã. Não poderia ter seus sentidos esmaecidos pelo efeito de álcool herege.
Bressal bebeu um gole enorme de hidromel e tossiu ainda mais. O príncipe se controlou para não revirar os olhos.
— Beltane é um festival que gira em torno do fogo. A palavra “Beltane” vem do deus celta Bel, o deus do sol, conhecido também por Belenus, que significa “o brilhante”, e a palavra “teine” significa fogo. — Aethelwulf escutava o monge, fitando os celtas que iam e vinham, dançando, cantando, conversando alto, de braços dados, entusiasmados. Alguns traziam animais em coleiras, como cabras, bodes, cães, patos. Pareciam aguardar algum momento específico.
— Juntando-se, ficaria “Fogo Brilhante” ou “Grande Fogo”. É uma forma de honrar o sol, símbolo de Bel, perto do verão, quando os dias ficam mais quentes. No Beltane, pede-se a Bel que proteja a comunidade e que a luz abundante do sol dos dias por vir abençoem as futuras colheitas. Por isso a fartura de bebidas, comida e o ambiente animado — Bressal pigarreou, balbuciando um pouco ao terminar a última frase, pois uma mulher loira dançava de maneira insinuante perto de si.
— Por isso a profusão de fogo. Ainda não explicou o que diabos é esse tal de Homem Verde — Aethelwulf acresceu, encrespando as sobrancelhas e continuando a estudar os pagãos. Viu que o monge se esforçou para tirar os olhos da mulher de cabelos claros.
— Sim, isso está envolvido com a história por trás da festividade. Bel tem de ser convencido pelos celtas, por seus esforços, para ceder suas bênçãos — O monge indicou um grupo de homes e mulheres que cozinhavam animais em fogueiras, e organizavam frutas em cestos próximos dos assados — E, além de honrá-lo, o Beltane é um festival dedicado a celebrar a Vida. É a representação do pico da primavera e o início do verão. Tudo reflete a... F-fertilidade — gaguejou Bressal, enquanto a celta que o seduzia insistia em dançar em movimentos sinuosos.
— Concentre-se — ralhou o príncipe inglês, e o monge se retratou.
— É um festival vinculado a... Sexualidade — explicou o sacerdote, recompondo-se. — Nesta última noite de abril, eles celebram a plenitude da Deusa enquanto Donzela. As estações estão férteis, a Deusa está fértil. Está preparada para o casamento, e, conquistado por seus encantos, o Homem Verde quer ganhar sua mão.
Até mesmo Aethelwulf tinha dificuldades de se concentrar na voz entediante do monge. A dançarina acompanhava os sons dos tambores de forma hipnotizante.
— Nisso, há um momento em que todos os fogos são apagados, assim que o sol se põe por completo. Apenas uma fogueira é acesa para o Beltane. É chamada de “Teineigen”, ou o “fogo necessário” — continuou o monge, surpreendendo o filho de Ecbert com seu conhecimento vasto. — Por fim, os celtas levam tochas acesas com o fogo de “Teineigen” para suas casas, mantendo a proteção — terminou, coçando o maxilar, seus olhos fundos castanhos passeando pelas belas jovens que caminhavam ao redor deles. A dançarina loira se afastara dos dois, provavelmente desistente após a inércia do monge.
— Vamos assistir a um casamento, é isso? — indagou o príncipe inglês, coçando a barba.
Poderia ser pior. Os nórdicos tinham celebrações muito mais bárbaras.
— É... Quase — respondeu Bressal, tímido. Aethelwulf o fitou com severidade.
Não teve tempo de exigir maiores esclarecimentos do sacerdote, pois um brado agudo foi emitido pelo druida Fintan, que saíra de sua tenda. Andava de mãos dadas com uma mulher vestida com túnicas de um tom rosado e transparentes, exibindo suas curvas e formas femininas. Os dedos de Aethelwulf tremeram na caneca, consternado pela imoralidade.
— O que aquela mulher sussurrou para mim, momentos atrás? — murmurou o filho de Ecbert para o tradutor, enquanto soldados irlandeses, ingleses e membros do clã celta de Fintan caminhavam para perto do druida, que no momento os convocava para o centro da colina. O futuro governante de Wessex reparou que o olhar do monge vacilou, enquanto ele ajeitava seu hábito, um pouco sujo pela terra. Caminharam juntos até lá.
— Convidou-o para o mastro do espinheiro.
— O quê?
A última indagação do príncipe inglês não pôde ser respondida. O sol descera em totalidade, despedindo-se com os últimos raios luminosos acima da verdejante colina. A noite subira, violeta, o crepúsculo banhado por estrelas sem fim.
Uma ordem incompreensível de Fintan ressoou por toda a colina. Seu rosto estava inteiramente pintado de verde, seu torso parcialmente nu, coberto por uma pele de cervo aos ombros. Usava chifres do animal na cabeça, e estava de mãos dadas com sua mulher, em trajes precários, um véu translúcido cobrindo seus cabelos, flores dispostas por todo o tecido.
Reunidos em um círculo ao redor de um amontoado de lenha, pedras, ramos e folhagens, um dos druidas a mando de Fintan caminhou até a madeira com duas pederneiras em mãos. Tinha o rosto e a careca pintados de azul, com runas desconhecidas para o filho de Ecbert.
Começou a entoar cânticos estranhos para o general inglês, que deixava seus olhos percorrerem o entorno. Assim que terminava de proferi-los, os celtas os respondiam em outros cânticos. Era uma espécie de reza pagã.
Logo as pederneiras em atrito passaram a emitir faíscas. Queimaram aos poucos o monte de madeira e folhas secas banhadas em gordura animal. O druida que as acendia gritou algo, e seu povo o acompanhou. Um arrepio subiu pela espinha de Aethelwulf conforme o fogo se alastrava pela imensa fogueira preparada ao centro da colina. Os celtas bradavam “Teineigen” em uníssono, batendo cajados e tocos de madeira no chão, enquanto os tambores retumbavam.
Como se liberados do porte solene anterior, os pagãos logo se dispersaram pela colina. Voltaram a dançar, cantar, comer e festejar. Muitos ainda se reuniam ao redor da fogueira, pois agora seu líder não mais apenas caminhava de mãos dadas com sua esposa.
Fintan passara ele mesmo a dançar com a mulher, e muitos celtas batiam palmas. Os tambores agora acompanhavam o ritmo de seus passos, e Aethelwulf, atônito, percebia que a dança ia ganhando ares diferentes. Fintan passou a desnudar a mulher, deitando-a na grama, que sorria ao seu marido e gemia de maneira convidativa. As chamas da fogueira subiam e dançavam junto com o casal, o reflexo do fogo deixando suas peles avermelhadas.
— Este é o casamento? — murmurou Aethelwulf.
— Esta é a consumação — respondeu-o o monge, quase engolindo as próprias palavras.
Arregalando os olhos, o príncipe inglês não teve outra escolha além de beber todo o hidromel que tinha em sua caneca. Era heresia demais para testemunhar em plena sobriedade.
— Qual é o espinheiro? — indagou aos sussurros. Bressal somente apontou para uma árvore comprida já enrolada por inteiro pelas fitas coloridas dos celtas.
Não assistiria o líder do clã celta copular com a própria esposa em cima da grama, como se fosse um alazão montando uma égua. Significasse aquilo o Homem Verde desposando a Deusa Donzela ou o que quer que fosse. Pretendia manter um mínimo de respeito por Fintan, o suposto “Morte Verde”.
Os gemidos agudos da esposa do líder druida ainda alcançavam os ouvidos de Aethelwulf quando ele chegou ao espinheiro. Lá, um grupo de jovens mulheres dançava aos giros, segurando fitas coloridas em mãos que desciam presas da copa da árvore. Seguiam em sentido horário, enrolando os tecidos ao redor do mastro. Todavia, além da dança feminina, o general inglês recebeu mais uma surpresa.
Parada em uma árvore próxima, um salgueiro, a mulher que fizera a leitura de sua sorte poucas noites atrás o fitava com seus olhos prateados tranquilos.
O queixo do príncipe inglês caiu, enquanto, por sua vez, a celta morena que tentara seduzi-lo mais cedo foi até ele, largando a fita rosa que segurava. Tinha seus olhos verdes mergulhados nos dele, ao passo que a druidesa que adivinhara seu futuro o mirava silenciosa à distância.
A sedutora celta colocou os braços ao redor do príncipe estrangeiro e o beijou antes que o herdeiro de Wessex pudesse reagir. Ao abrir os olhos, encarou seus olhos verdes estreitos que pareciam faiscar como as chamas de Teineigen.
Aethelwulf olhou por cima dos ombros da mulher de cabelos negros, que dançava contra si, colando seu corpo junto ao seu. Fitou a druidesa vidente, que retribuiu o olhar e, sem nada dizer, assentiu com o rosto. Voltou-lhe as costas, seus cabelos rubros dançando com o movimento, enquanto sumia atrás do tronco do salgueiro. Desapareceu daquela colina tão rápido quanto surgira aos olhos do inglês.
Pestanejou, estupefato. A mulher que se remexia contra seu corpo no ritmo dos tambores brindou-lhe com mais um olhar cheio de promessas abrasadoras.
E o príncipe cedeu aos encantos do fogo celta.
♕♕♕
A manhã do primeiro dia de maio amadureceu em uma tarde modorrenta, com gotas de chuva morosas banhando os pátios e jardins senhoriais da vila romana do Rei Ecbert.
Ao contrário do clima preguiçoso, a mente ágil do Rei divagava em considerações frementes. Seus olhos atentos varriam os mapas que dispunha nas mesas de seu principal aposento de estudos, caminhando de um ao outro, refletindo sobre suas defesas e vulnerabilidades. Colocava pequenas peças acima de Mércia, Nortumbria e Wessex, regiões nas fronteiras entre Gales e Ânglia Oriental.
A viagem política junto ao Rei Áed não dera o resultado esperado. Ao conferenciar com os vassalos que dispôs em Mércia, território que governava, Ecbert descobriu que sofria represálias ao sudeste e ao noroeste daquele distrito. Camponeses e senhores de terra que cuidavam das regiões próximas sofriam constantes ataques de saqueadores e invasores, queimando suas plantações, derrubando suas casas, e, por vezes, até mesmo assassinando aqueles que tentavam se defender.
Para piorar, o Rei sequer poderia lhes oferecer alguma porção de seu exército ou dos exércitos estrangeiros aliados. A maior parte de seus contingentes estava em missão de guerra na Irlanda. Portanto, teve de acalmar os ânimos de seus vassalos prometendo-lhes vingança e oferecendo-lhes metade dos ganhos com suas terras mais ao sul, enquanto durassem aqueles atentados.
Estava consternado. Áed, o Rei do país vizinho, testemunhara de perto os poucos saxões contrários a ampliação dos domínios de Ecbert pretendendo se amotinar contra si, talvez em um último complô desesperançado. Seu aliado não disputava consigo pelo poder, mas não era o momento de mostrar fraqueza.
Isso porque o pai da princesa Brigit almejava tornar-se o Alto-Rei irlandês, e parecia ter o apoio massivo de sua população nessa empreitada. Se Áed julgasse o monarca de Wessex despreparado, inábil em sua missão unificadora de todas as Bretanhas, talvez não mais desejasse estar vinculado a si.
Talvez já planejasse uma traição.
Antes de contra-atacar, Ecbert sabia: precisava manter aquela aliança internacional. Não havia possibilidade de territórios menores como Gales e Ânglia Oriental ousarem resistir contra seus avanços, quando pudesse usufruir de um contingente massivo de aliados contra os saxões insurgentes.
Enquanto colocava um último peão acima do mapa de Ânglia Oriental, tamborilou os dedos na superfície do pergaminho. Ergueu os olhos para as janelas e observou a chuva, sem realmente enxerga-la. As chamas das velas acesas bruxuleavam, fazendo seus olhos espertos cintilarem.
O que poderia dobrar a vontade de Áed e mantê-lo em seu lugar? Ele era próximo ao genro, o príncipe Ulstan. Mas ele acompanhava as tropas irlandesas na mesma missão que seu filho Aethelwulf.
Desta forma, a pessoa mais relevante para o Rei irlandês ainda presente em Wessex era a princesa Brigit. Assim, precisaria aumentar sua proximidade com a irlandesa, para poder garantir, como duas cartas conjuntas de um mesmo jogo, também a lealdade de Áed. A influência da filha junto ao pai não deveria ser subestimada.
Ecbert ergueu os dedos fechados em punho aos lábios. Judith, sua nora e amante, passara os últimos tempos governando Wessex em seu lugar. Na última noite que desfrutaram da companhia um do outro em seu leito, sua concubina fizera comentários pontuais e mordazes sobre a presença da irlandesa em sua corte.
Era evidente que se sentia ameaçada.
O monarca sorriu. Judith, como sempre, pensava adiante. Temia qualquer possibilidade de perder os ganhos que conquistara ao ceder ao Rei. Ganhos como ter Alfred, seu filho bastardo com Athelstan, como parte da linha oficial de regência.
Talvez receasse que outra proximidade extraconjugal do monarca pudesse trazer frutos. Outros pretendentes ao trono que estavam prometidos para si e para Alfred.
Ou talvez esteja enciumada, Ecbert pensou e logo em seguida riu consigo mesmo. Certamente não estava. Não fora por tolices do tipo que se atraíra por Judith. Mas sim, por ver na nora uma mente afiada, objetiva, capaz de não ceder nem se envolver com sandices emocionais.
E, claro, por partilhar consigo a adoração que ambos nutriram pelo saudoso Athelstan.
Como poderia conciliar tantos interesses em jogo? Judith era a chave para Nortumbria. Seu pai, Aelle, era o Rei governante daquela Bretanha. Ter a admiração e o afeto da jovem era importante. E, em verdade, amava seu neto. Não conseguia se imaginar longe do filho de Athelstan, que decidira criar com todos os cuidados.
Com uma ideia que lhe surgira inadvertida, lembrou-se de um comentário que a princesa de Nortumbria fizera: Brigit era fluente em latim.
Ecbert olhou por cima dos ombros, na direção da porta, com um sorriso largo ao rosto. Encontrara a solução. Mandou entrar um de seus serviçais, e ordenou que buscasse a princesa Brigit. Deveria leva-la para a biblioteca do primeiro andar.
Momentos depois, Ecbert descera a sala que apenas ele e Athelstan, um dia, tiveram acesso. A câmara de suas masmorras na qual escondia seus pertences coletados do império romano. Estátuas, quadros, documentos, jóias, muitos deles retratando os deuses romanos.
Sabia que não seria bem visto pela sociedade saxã, ferrenhamente cristã, se soubessem de sua paixão pelo império outrora pagão. A ignorância de seu povo era, via de regra, maior do que sua capacidade de reflexão.
Procurou os manuscritos dos imperadores, papéis que guardava como tesouros inestimáveis. Imaginara que a continuação da tradução daqueles escritos seria feita por Alfred, quando tivesse completo domínio da língua latina. Mas aquilo demoraria alguns anos, e o projeto que colocava em prática não poderia esperar.
A continuação do trabalho de Athelstan seria passada para outras mãos competentes.
Com todos os fragmentos consigo, Ecbert rumou até a biblioteca e aguardou. Não tardou muito e a princesa estrangeira adentrava a sala de leitura e escrita, encaminhada por Einmyria, sua aia.
Quando ficaram a sós, o Rei notou que os olhos castanhos de corça da jovem demoraram-se, estudando as estantes e todo o ambiente literário. Assim que trocaram olhares, ela se curvou em respeito.
O monarca sorriu. Era raro conhecer pessoas interessadas em instrução acadêmica. Mais raro ainda era encontrar mulheres com aquela natureza curiosa.
— Boa tarde, princesa Brigit. Espero não ter lhe importunado com essa súbita convocação.
— Não, meu senhor. Lisonjeia-me poder conhecer estes aposentos — agradeceu-o com um sorriso meigo. Ecbert teve de retribuir. O semblante afável daquela jovem inspirava confiança, transparecia docilidade, mas ele não era um homem que se iludia pelas aparências.
Recordou-se de quando a viu caminhando de madrugada, na sua primeira noite de estadia em Wessex. E quando ela mesma sugerira-lhe estar encantada “não apenas com a lua”, após o jantar em que dançaram juntos.
O Rei piscou devagar, as lembranças trazendo-lhe um impulso instintivo e indiscreto.
— O que posso fazer pelo senhor, Vossa Graça? — A jovem ofertou-lhe outro sorriso cândido enquanto pestanejava seus olhos de corça. Ecbert teve a incomum impressão de que a princesa parecia acompanhar seus pensamentos.
O monarca pigarreou e deu alguns passos em sua direção, aprumando a postura e ajeitando a capa verde que trajava por cima dos ombros. Colocou um dos pergaminhos abertos em cima de uma das mesas de madeira, dispondo os outros ao lado. Abriu-o e mirou a princesa com um olhar cortês.
Brigit acompanhou o movimento e o fitou, cruzando as mãos na frente de seu vestido de um tom branco amarelado.
— Está escrito em latim? — interpelou-o, e Ecbert assentiu com um meneio de cabeça.
— Gostaria de dividir com você o acesso a uma das minhas coleções mais prezadas. — Levantou o olhar do pergaminho para o rosto da princesa, que o fitava com seus lábios rosáceos entreabertos. — Estimo a união entre nossos povos, e por meio deste gesto, acho que podemos ter trocas duplamente frutíferas. Estes fragmentos... São registros antigos dos imperadores romanos. Suas conquistas, táticas de guerra, a história do império — contou, e a irlandesa arregalou seus olhos de corça.
— Mas isto... — Ela retornou o olhar para os textos. — Não há sequer como se pôr um preço nisto — Brigit quase gaguejou, parecendo chocada. Ecbert levantou o canto esquerdo de seus lábios, satisfeito com a assertiva.
— Certamente. — O Rei ergueu um indicador e depois juntou os dedos das mãos, continuando a falar. — Poucos anos atrás, residia em Wessex um grande amigo meu. Seu nome era Athelstan, um monge erudito, mais ilustrado do que Prudentius — continuou, pensando com saudades no sacerdote. — Além das obrigações cumpridas junto a Igreja, Athelstan trabalhava também para mim, na tradução destes fragmentos. Pude aprender estratégias políticas inovadoras estudando história antiga, táticas que me ajudaram a derrotar nossos inimigos em comum — mencionava os vikings.
Brigit fitava o Rei, seu rosto no mesmo tom perplexo.
— O que quero dizer é que posso lhe oferecer a oportunidade de continuar o que ele começou. Não será um trabalho, é claro. Encare como uma forma de ocupar seu tempo. Se estiver interessada — ofereceu, caloroso. — Posso lhe ceder todas as tardes este espaço — Ergueu os braços — E o material necessário para a tradução. Livros para consultar, papel, tinta, pena — elencou, e a princesa levou uma das mãos aos próprios lábios.
— Eu... Não sei nem como agradecer, meu senhor — disse com humildade, baixando os olhos para os fragmentos. — Desde que cheguei aqui, fui recebida apenas com gentileza e hospitalidade. Mas isso é... Muito além do que eu poderia imaginar. O tanto de conhecimento que estes fragmentos contém... — atestou, e Ecbert notou um quê de bajulação em sua fala.
— Deixe os agradecimentos para mim. Não é sempre que tenho a chance de dividir meu teto com hóspedes tão cultos — enalteceu-a, e Brigit ergueu os olhos para ele, sorridente. Foi inevitável sorrir novamente.
— Muito obrigada, Vossa Graça. Sinto-me honrada — agradeceu piscando devagar seus castanhos olhos de corça. Ecbert lhe apontou com uma das mãos a cadeira próxima da mesa. Brigit seguiu e se sentou.
— O texto está suficientemente legível? — indagou o monarca com falsa curiosidade. Sabia que sim. Queria apenas testar a qualificação da princesa.
— As viagens de Agricola para além da Britannia e Caledônia — começou Brigit, lendo em voz alta. Ecbert abriu um sorriso triunfante, por cima dos ombros da irlandesa. O fino indicador esquerdo da princesa passava acima das letras, respeitosamente, sem tocar no papel.
— Com a companhia do príncipe irlandês exilado por clãs rivais, Tuathal Techmar, as expedições de Agricola e Tacitus para Hibernia deram início a conquista dos celtas no território outrora inexplorado... — Brigit não resistiu e interrompeu a própria leitura, levantando o rosto para fitar o Rei. Ele estava parado atrás de si, com as duas mãos apoiadas no espaldar alto da cadeira.
— Hibernia é o nome latino dado para a Irlanda — testificou, seus olhos castanhos cintilando empolgados, e o governante inglês anuiu, dando-lhe outro sorriso animado.
— Realmente é fluente, senhora — aduziu o Rei, e Brigit voltou a fitar os manuscritos. Mantinha o ar juvenil entusiasmado. — Fico estarrecido com seus conhecimentos. Seu pai instruiu-lhe sobre história e línguas?
— Não. — Ela meneou o rosto, rejeitando a premissa. — Meu pai só tem interesse nas instruções militares. Ele faz política com conhecimento de causa, tem anos de lutas — continuou, fazendo menção de se levantar.
Porém, Ecbert a impediu. Tocou com suavidade em seus ombros.
As mãos do monarca roçaram nos cabelos ondulados da princesa, que caíam pelas suas costas e pescoço, brilhantes em seu tom acobreado. Seus dedos sentiram a textura macia da pele da jovem, a mostra fora da renda do vestido. Poderia cobrir seus ombros delicados quase que por inteiro com suas duas mãos.
Por um segundo irascível, quis estender aquele contato. Contudo, apartou as mãos.
Brigit tremeu o lábio inferior, sua expressão ingênua desenhando-se em feições mais travessas por um lapso momentâneo. Logo depois, o mirava com seus olhos de falsa inocência.
— Fui educada pelos monges da ordem cristã a serviço de meu pai. Educar-me como uma princesa letrada aumentaria meu dote, e meu pai tomou essa decisão após mediar meu noivado com o príncipe Ulstan.
Naquele momento Ecbert se sentiu desagradado ao ser recordado da existência do príncipe irlandês.
— Áed segue se mostrando um homem sábio — bajulou-a.
— E o senhor segue como um homem deveras generoso. — Ela sorria com doçura.
Com um sorriso enviesado, ele abaixou o rosto para perto dos ouvidos da princesa, como se fosse segredar-lhe algo.
— Disse-me ter se encantado com a lua destas terras... E mais. Espero que esta noite de chuva não diminua seu fascínio por Wessex.
Fitou a princesa com despudor disfarçado. Brigit baixou os olhos e crispou seus lábios rosados, parecendo tentar controlar um sorriso peralta que vinha brincar em seu rosto.
— A chuva certamente não me impedirá de ler e refletir, Vossa Graça. Adiantarei estas leituras mesmo com a escuridão da noite tempestuosa — respondeu erguendo os olhos de maneira tímida, seu rosto denotando a ingenuidade que ele flagrara ser um disfarce.
O Rei quase se desapontou. Estava certo de que ela corresponderia ao flerte. Momentos depois, afastou o rosto e as mãos do espaldar da cadeira, roçando os dedos em parte das madeixas da princesa.
— ...E depois de hoje, creio ter me consolidado como uma admiradora de tardes chuvosas — ela confidenciou, e mirou as paredes da biblioteca.
— E os tesouros ocultos que podem trazer — disse, enquanto seus olhos deixavam os fragmentos para depois alcançar em cheio as íris do Rei.
O monarca manteve o olhar tórrido que ela lhe dirigia.
Se fosse outra época, outros interesses, não teria perdido mais tempo e mergulharia seus esforços na sedução da princesa. Mas ela era um objeto de desejo perigoso.
— Tenha uma boa tarde de leitura, princesa Brigit — Ecbert a saudou a distância, enquanto ela curvava o rosto em despedida, educada. O candelabro que iluminava a mesa de madeira fazia os cabelos castanhos acobreados da jovem parecerem ainda mais rubros.
— Tenha uma boa tarde, Vossa Graça — despediu-se com sua voz pueril.
O monarca saiu da biblioteca, caminhando pelos corredores enquanto continha um sorriso presunçoso em seu rosto. Forçou-se a recobrar a frieza de costume.
A cada vez que interagia com a princesa estrangeira, mais se divertia. Ela era mesmo interessante.
Mas, como aconselhara a Judith anos atrás, quanto mais interessante uma pessoa fosse, mais perigosa também seria.
Brigit deveria ser manipulada, e o primeiro passo já fora dado. Mimos, agrados, suposta cumplicidade, e em pouco tempo ela seria mais uma peça nas suas mãos.
Todavia, por mais divertida que fosse, era melhor evitar certos envolvimentos. Não precisava fomentar os receios de Judith, nem criar problemas para si com o genro de seu aliado estrangeiro. Ou com o próprio Rei Áed.
O ideal modesto seria se contentar apenas em dobrá-la politicamente, e, assim, ter uma ponte até seu pai e seu marido. Garantir que continuariam na linha.
A princesa era intocável, por prudência.
E por isso mesmo Brigit lhe parecia ainda mais cobiçável. Sempre fora um homem de grandes apetites e ambições, jamais quisera algo pela metade.
Ele era a serpente que queria abocanhar para si o fruto proibido, e devorá-lo por inteiro.
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