Se não fosse a primeira vez...
5 A primeira vez que dissemos “Te amo”.
Depois de uma semana corrida, finalmente chegou a manhã de sábado. Eles se arrumavam para ir treinar na universidade, como já haviam combinado, depois de terem tomado um café da manhã reforçado. Ao concluírem a organização, saíram juntos rumo à quadra da universidade.
Eles gostavam de treinar lá na maioria das vezes, e não na quadra da praça mais próxima, pois lá servia para jogos oficiais e, assim, eles sentiam que continuavam no ritmo. Além disso, era gratificante poder reencontrar velhos amigos da Karasuno de vez em quando.
Andavam de mãos dadas mesmo, despreocupados, pois a região em que moravam era tranquila; isso e o caminho até lá não era muito longo, apesar de precisarem dar uma boa caminhada.
Quem os via assim tão íntimos e cheio de carinho e demonstrações de afeto em público, não imagina como foi difícil a declaração real surgir. Depois que eles oficializaram o namoro, Kageyama, por incrível que pareça, foi o primeiro a dizer que amava o companheiro, isso no dia que resolveram se mudar. Hinata disse mais tarde no mesmo dia, todo envergonhado e gaguejando, quando, pela primeira vez, dormiram na mesma cama. Sem saliência.
Foi um momento singelo.
Era uma manhã como outra qualquer, com pouca conversa e muita correria. Meio de semana, dá pra imaginar o quanto eles se encontravam atarefados e, naquele momento em específico, se apressavam para organizar algumas caixas da mudança antes de saírem.
Em certo ponto, eles tiveram que se despedir. O menor tinha que ir para a faculdade um pouco mais cedo. Se beijaram. Hinata ainda parou para organizar os alguns fios do cabelo do moreno e, enquanto o fazia, Kageyama se pronunciou.
— Amo tanto você, Shoyo…
O ruivo ficou vermelho na hora, apesar de sentir seu coração acelerar e um calor confortável crescer dentro de si. Parou imediatamente o que fazia e se perdeu nos olhos azuis do mais velho, assim como esse viajava nos seus olhos, feições, gestos… antes que pudesse responder algo para seu parceiro, escutou alguém buzinando lá fora. Era o carro escolar. Despertando do transe, Hinata deu um profundo suspiro e sorriu para Kageyama.
— Até mais. — Deu-lhe um selo e saiu apressado em direção ao amigo do lado de fora. É, não foi daquela vez que ele conseguiu falar. Mas teria o dia para se preparar. Se considerava uma pessoa corajosa, mas nesse momento se declarar vinha sendo um pouco complicado. Nada que um dia agitado, cheio de trabalhos e seminários e aulas, para dissipar um pouco a ansiedade não resolvesse. Só esperava que o maior não ficasse com raiva de si por não ter respondido à altura no mesmo instante.
…
Não, ele não ficou. Constatou isso ao chegar em casa e sentir um cheiro gostoso de café da cozinha, para logo depois ser recebido com um beijo molhado do moreno em questão.
Percebendo isso, ele seguiu com suas atividades caseiras pós dia turbulento de universitário: banho, comida, mais arrumação de caixas (dessa vez com foco na cozinha) e, por fim, cama. Isso mesmo, cama; o que é deixar um assunto pra estudar sábado quando se já tem vários?
Ao terminar de vestir seu pijama recheado de figuras de bolas de vôlei, ele se deitou ao lado de Kageyama, que lia algo ao celular, e se espreguiçou de uma maneira espalhafatosa, fazendo com que seu corpo ficasse em cima do de sua companhia.
Ficaram assim por um tempo, sentindo a respiração um do outro e apreciando o contato dos corpos, até Kageyama colocar o celular de lado e dar um abraço forte no menor, cheirando e beijando seus fios ruivos no processo.
— Tá tudo bem, baixinho? — perguntou ao perceber que o outro estava muito quieto. Ele tinha razão, Hinata estava se preparando na verdade.
— Está sim. Queria te dizer uma coisa.
— O que é tão importante assim que te deixou quieto esta noite? — Kageyama falou, o olhando sério. Ele conhecia Hinata e sabia que, mesmo depois de um dia agitado, antes de dormir, ele ainda conseguia ter energia para falar e falar por um momento.
Hinata encheu a barriga de ar e soltou bem devagar, depois, apoiou os cotovelos no colchão deixando a cabeça de Kageyama entre seus braços. Olhou nos seus olhos, criando alguma determinação, clareou a garganta. Kageyama já olhava desconfiado suas ações quando o pequeno começou com uma voz um tanto melódica.
— Deixa eu dizer que… que te… — E parou aí, sentido as orelhas arderem.
— Dizer o que, pequeno? — perguntou, sem entender muito bem todo aquele teatro. Ele estava tentando cantar uma música? Essa era nova.
— Ah... Bem… eu não sei como dizer isso, então estou tentando cantar isso. Isso que ‘tô querendo dizer, e que não sei como, entende? — falou com certa rapidez e ansiedade. Kageyama, meio acostumado com as ideias interessantes do outro, apenas deu de ombros e acariciou a bochecha do outro, dando um beijo. Apenas seus lábios se tocavam no ato calmo.
— Te amo. — disse Hinata, em meio a uma pequena pausa.
Kageyama pressionou os lábios em um sorriso.
— Era isso que queria me falar?
O ruivo, ao escutar a voz rouca do moreno, saiu do torpor que estava e percebeu que tinha falado. Sim, tinha conseguido, finalmente. Não foi tão difícil, na verdade, foi como se escorregasse da sua boca, era apenas… a verdade. Então, sorriu. Aquele seu sorriso que parecia iluminar tudo ao redor.
— Sim. Eu amo você, Kageyama, e, como na música que eu iria cantar na segunda tentativa. — Ambos riram. — “Preciso de você… você é tão irresistível… — E coraram. — A ponta dos seus dedos, seus pés, a cor dos seus lábios… eu te amo do jeito que você é…
Naquele momento, o coração de ambos era preenchido por um sentimento bom e caloroso, tinha declaração e tinha também muito descontração, afinal, isso era eles.
Eles não eram muito de estar falando o tempo todo esse sentimento, também demonstravam isso em pequenas formas, como andar de mãos dadas ou até mesmo num gostoso cafuné.
Enfim, depois da tranquila caminhada, chegaram na quadra, onde já se encontravam seus antigos amigos da Karasuno e alguns da universidade ali treinando. O lugar era gigante. Os meninos pararam um pouco ao notar eles entrando e vieram os cumprimentar.
— E aí, como vai a vida de casado? — comentou Tanaka ao abraçar Hinata, tirando onda e fazendo o grupo rir.
— Nós ainda não nos casamos de verdade, tenha paciência. Você e o seu medo de não ser chamado para ser padrinho! — rebateu o ruivo, no que o pessoal emitiu um sonoro "êêêhh".
— Claro, eu tenho que ser chamado, afinal, eu fui o pivô dessa relação. — disse o careca, sorrindo e se gabando, como sempre. E assim, continuaram conversando amenidades antes do início da partida. Estavam, além do casal principal, Daichi, Sugawara, Tanaka e Nishinoya naquela partida. Iniciaram o jogo do lado esquerdo da quadra, contra um pessoal da universidade. Com o passar do tempo, Ennoshita e Yamaguchi também jogaram algumas partidas.
Era assim quase todo sábado para eles, apesar de nem sempre poderem comparecer — o que foi o caso de alguns dos meninos naquele dia — por causa das responsabilidades como estudo e trabalho. Tentavam ao máximo não ficar sem se encontrar e viver aqueles momentos em quadra como tanto amavam. Sim, a paixão pelo esporte não diminuíra, mas quando você cresce é preciso dar prioridade a certas coisas que não essa diversão; isso claro, se você não for seguir carreira como jogador, como fez Oikawa, por exemplo.
Quando o jogo acabou, com o time dos antigos integrantes da Karasuno como vencedor, os meninos se despediram.
— Manda lembranças para Tsukishima — disse Hinata para Yamaguchi. O loiro era o que menos aparecia nos finais de semana e seu companheiro moreno dizia que, em algumas, muitas, das vezes, era pode pura preguiça de acordar cedo.
Enquanto alguns iam na direção da saída, e outros na direção do vestiário, Hinata e Kageyama foram se sentar no canto da quadra para se recuperar da atividade e beber água, antes de refazerem a caminhada para casa.
— Você está mais calado essa manhã — comentou Hinata.
Kageyama refletiu um pouco antes de responder.
— De repente, comecei a pensar mais nessa semana, sobre o que a gente vem fazendo.
— O que, especificamente, a gente vem fazendo? A gente vem fazendo muitas coisas.
— Sim, foi uma semana de muitas decisões na nossa vida. Mas estou me referindo ao fato de começarmos a relembrar nossas primeiras vezes sobre algumas coisas. Sabe, são momentos especiais, as primeiras vezes... Cansamos de ouvir o ditado “pra tudo tem uma primeira vez na vida”, geralmente quando é para aprontar, mas é isso. Depois da primeira vez experimentando o acontecimento, percebemos se aquilo é uma prática agradável ou não, e isso só adiciona no aprendizado para nossa vida, seja em relação à vida profissional ou pessoal, é algo que faz parte para podermos nos desenvolver. Quero continuar com isso? É um exercício que devo continuar a fazer? Gosto? Não gosto? Só a experiência dirá. Acaba que, além disso, da experiência, fica uma memória, seja para confortar ou para rir ou para chorar. É sempre bom continuar envolvido com esses momentos.
— Também adorei relembrar nossos momentos, Kageyama, acho que são pontos muito importantes para nossa história, apesar de cada dia fazer valer sempre mais um — falou, olhando com um sorriso ameno para o maior, sorriso esse que logo deu espaço a uma expressão de dúvida. — Então, está dizendo que quer continuar a reviver eles?
— No momento, não. Não reviver, e sim nos proporcionar novas experiências.
— Ah, que boa ideia! — Hinata se animou. — Vamos pensar em situações que ainda não vivemos e tentar fazer?!
— Exato — respondeu Kageyama. Ao notar como o ruivo ficou entusiasmado com a situação se sentiu feliz; podia perceber que a mente de Hinata trabalhava de forma ágil pensando em diversas coisas. O ruivo prestou bastante atenção na reflexão de Kageyama e podia dizer que concordava com o que o parceiro dizia. Um acontecimento, ao ser vivido pela primeira vez, pode tornar as outras vezes mais seguras. Nós aprendemos muito seja com a primeira vez que fazemos algo e erramos, seja quando acertamos e precisamos aprimorar. O importante é fazer acontecer e pensar em cada situação como um modo de evolução, uma fase que você passou e levar aquilo como experiência para seu desenvolvimento. Elas nem sempre irão ser acontecimentos positivos e o risco de falhas é alto, mas é assim que crescemos.
E ficaram um tempo ali, os dois juntos, suados, sentados no chão da quadra de vôlei que a universidade dispunha. Beberam bastante água e, logo após, seguraram na mão do outro, observando o cenário; a quadra ia se esvaziando e no fim, restaram apenas os dois ali, como nos tempos antigos.
— Podemos ter uma primeira vez em que fizemos um experimento químico caseiro — soltou Hinata, depois de algum tempo trabalhando em seu pensamento.
— Não começa com ideias malucas, Shoyo.
— Que tal, então, a primeira vez que realizo uma fantasia sua, hm?
Nesse momento, Kageyama demorou um pouco encarando o ruivo, mas logo respondeu com outra pergunta.
— Você ainda tem o uniforme da Karasuno?
Hinata apenas sorriu.
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