Se não fosse a primeira vez...
3 A primeira vez que cozinhamos juntos.
Notas iniciais
Eles voltaram para casa naquele domingo depois do encontro inusitado e arrumaram as compras em seus devidos lugares. Logo se colocaram a fazer o almoço, um ajudando o outro. Enquanto Hinata era melhor no trato da carne, Kageyama se ocupava em fazer os acompanhamentos, ainda assim com um pouco da ajuda do mais baixo.
Na cozinha, quem comandava era Hinata. Por gostar muito de comer e as vezes não ter a mãe presente em casa, aprendeu a cozinhar diversas especiarias, era uma coisa que aprendia fácil, chegou a acreditar que em outra vida fora um chefe de cozinha. Kageyama apenas sabia fazer coisas básicas e foi melhorando com o tempo com a ajuda do ruivo.
Depois de dedicar algumas horas naquela preparação, emendada com o pouco que restava para a arrumação completa da casa, eles sentaram-se na mesa já disposta para finalmente comer decentemente. Um ao lado do outro. Os silêncios confortáveis vinha intercalados com uma conversa ou outra. Em um momento, quando Hinata elogiou um petisco elaborado por Kageyama e este se gabou, acusando o ruivo de não reconhecer seu verdadeiro potencial, o pequeno soltou:
— Você era um desastre na cozinhando, Kageyama, admita! É claro que fico surpreso com seu progresso, e elogio para que continue a dar seu melhor e não repita os erros, como aquele da primeira vez.
— Sei que você está na vibe de relembrar nossos momentos, Hinata — respondeu o maior, com uma face não muito boa — mas não acho que esse seja um muito adequado. Eu te machuquei, lembra?
Hinata caiu na risada.
O acontecimento ocorreu logo na primeira semana em que passaram a viver juntos.
Logo depois de acabar a reserva de comidas prontas que tinham em casa, Hinata se pegou pensando no que dava para preparar com os ingredientes soltos que encontrou na geladeira e nos armários. ‘Parece que o almoço irá demorar para sair hoje’ pensou. Sem demora chamou Kageyama para lhe ajudar, assim agilizaria o longo trabalho.
— Mas eu não sei fazer muita coisa. — respondeu o moreno.
— Está certo, nesse caso, vejamos — disse, com as mãos apoiadas na cintura. — essa é uma boa oportunidade, posso lhe ensinar algumas coisas. Vamos aproveitar que hoje não tem aula na faculdade.
Então, o pequeno decidiu naquele dia fazer uma coisa fácil, mas gostosa: Strogonoff de frango. Explicou tudo ao moreno, desde a separação dos ingredientes, preparação e finalização do prato.
Eles faziam as coisas em uma sincronia tranquila, Kageyama aprendia rápido e era ágil. Algum tempo depois, enquanto Hinata estava cuidando da finalização, sendo que tinha feito grande parte do trabalho, o moreno decidiu por fazer algum lanche para mais tarde. Olhou na geladeira e, logo que encontrou a massa de pastel, não pensou duas vezes. Pelo que ele lembrava do que via na preparação em barraquinhas na rua parecia fácil. Sendo assim, ele deixou uma quantidade média de óleo esquentando no fogão enquanto colocava o recheio na massa e fechava. O problema foi que ele deixou em fogo alto e logo a panela pegou fogo. Foi instantâneo, os dois se viraram para a labareda em cima do fogão. Kageyama correu e desligou a respectiva boca e logo viu Hinata ao seu lado.
— Tobio, sai de perto! — gritou preocupado, logo pegado a panela pelo cabo e a levando correndo para o quintal da casa. Assim que chegou, foi abaixando a panela em direção ao chão, porém, quando estava na metade do caminho e o fogo ameaçava ir em direção ao seu braço, ele a soltou, o que resultou em alguns respingos de óleo na sua mão.
Depois, saiu de perto, ficando a observar, com Kageyama ao seu lado, a panela escurecendo e o fogo diminuindo. Respirou fundo e olho para o moreno, que tinha o olhar perdido. Mas esse, logo após percebê-lo, voltou-se para Hinata:
— Você está bem? Se machucou? Me desculpe, eu...
— Hey, Tobio... — O interrompeu — calma, já passou. — completou o menor, enquanto afagava a cabeça do parceiro para lhe acalmar.
Em seguida, um pouco mais calmo, Kageyama pegou a mão de Hinata do seu posto para dar um beijo, porém, este ato resultou em um resmungo de dor por parte do menor. O mais alto logo percebeu que o parceiro estava ferido e foi pegar o kit de primeiros socorros no banheiro, enquanto mandava o ruivo o esperar na sala.
Tobio, depois de cuidar da mão de Hinata, arrumou a bagunça que fez na cozinha e preparou a mesa, não aceitando a ajuda oferecida pelo ruivo nem para fazer as menores coisas. Logo após, eles comeram o almoço, que tinham conseguido preparar, em silêncio. O moreno estava remoendo o acontecimento, como uma receita tão simples poderia dar naquilo?
Enfim, ao ver Hinata bem alimentado e as coisas organizadas na cozinha, decidiu ficar aconchegado a este na sala descansando, o que era uma raridade depois que você cresce, mas eles se deram aquele luxo naquele dia.
Mais tarde, quando a fome bateu de novo, tendo como indício o estomago de Hinata roncando minutos após terem acordado de um cochilo gostoso, Kageyama logo se adiantou.
— Vou fazer um chocolate quente pra nós.
— Use o micro-ondas, é mais seguro. — Respondeu Hinata, sorrindo fraco.
Era claro que Hinata já tinha passado por alguns acidentes na cozinha enquanto aprendia a preparar algumas coisas, por isso não ficou tão preocupado e permaneceu calmo ao lado do maior para não o contrariar e o deixar mais apreensivo ou o fazer se sentir mais culpado.
— Foi só uma pequena queimadura, Tobio. E você cuidou de mim depois, foi tão carinhoso, não vou mentir que me aproveitei do seu colo. Antigamente, era raro você me dar atenção daquele jeito. — Seus olhos brilhavam com a lembrança. — Me deixou ficar em seus braços, me fez cafuné, distribuía beijos por todo o meu rosto — Enquanto falava isso, Hinata roçava o pé no de Kageyama e ia subindo por suas canelas aos poucos.
O moreno respirou fundo, já recuperado do sentimento que a lembrança o trouxe e olhou intensamente para os olhos do ruivo.
— Shoyo, por favor, termine sua comida. — disse Kageyama. Hinata vivia o provocando e ele sabia que, naquele momento, a intenção era desviar sua atenção para que não precisasse ingerir aqueles legumes que não gostava — Se você comer tudo, lhe darei vários beijos como recompensa depois. — falou um tanto envergonhado. Depois de tanto tempo, realmente, ser carinhoso e demonstrar afeto não era um dos seus fortes.
Hinata deu um de seus sorrisos gigantes e não se segurou, tascou um beijo estalado na bochecha do moreno encabulado.
— No final, a primeira vez que cozinhamos juntos não foi tão ruim assim. — disse o menor. — Descobri esse seu lado bastante protetor e cuidadoso, e naquele dia eu passei a te amar mais um pouco, levando em conta que eu já te amava bastante.
Depois de um tempo perdido na visão que tinha de Hinata, que voltou a comer numa velocidade impressionante, Kageyama o respondeu num sussurro que, ainda sim, pode ser ouvido pelo ruivo, sendo que este revelou um pequeno sorriso.
— Não poderia ser de outro jeito, também te amo, dumbass.
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