Se eu fechar os olhos
1 Prólogo
Notas iniciais
— O que você vê quando fecha os olhos? — perguntou-me Benjamin com sua vozinha baixa, calma e curiosa, dando um novo início ao nosso ciclo interminável de brincadeiras.
Já tínhamos brincado disso milhões de vezes, mas nunca nos cansávamos. Acho que, naquela época, tudo era um mar de rosas para nós. Ao menos, foi isso que eu sempre pensei, já que eu amava Benjamin como um irmão. Nós vivíamos sempre juntos, quase nunca brigávamos.
Essa brincadeira que ele estava fazendo naquele momento era uma coisa um tanto boba que nós tínhamos inventado, mas não nos importávamos com o quão infantis pareceríamos. Nós sempre fazíamos isso, de nos isolar do mundo. Éramos só ele e eu. Tínhamos somente dez anos e a vida toda pela frente.
Éramos tão próximos que, se me perguntassem se eu daria minha vida por Benjamin, eu diria "sim", sem nem pestanejar. A pergunta "O que você vê quando fecha os olhos?" era a ideia central de um filme fictício fracassado, que eu e Benjamin havíamos assistido um milhão de vezes, quando estávamos entediados e sem nada legal para fazer na imensa "fazenda de férias" de seu pai. Nós sempre viajávamos para lá nas férias de verão e o lugar era realmente a nossa cara. Adorávamos aquilo lá. Tínhamos uns cinquenta esconderijos secretos, um em cada parte da casa.
O filme se passa num planeta Terra futurista, onde quase tudo é feito por robôs. Os robôs são essenciais. No filme, um inteligente cientista tenta dar continuação ao seu antigo e falho protótipo, com o objetivo de torná-lo tão perfeito e expressivo quanto um humano de verdade. Um robô com emoções. É obvio que nada daquilo funciona, e, no final, o protótipo não passa no teste de segurança.
Se observarmos bem, o filme é todo sem graça e o enredo é bem mal escrito, mas o que eu e Benjamin mais achávamos engraçado — a cada vez que assistíamos ao filme — era a frase que eles usavam para reiniciar e formatar um robô, que aparentemente tinha defeitos, ou que não passava em um teste de segurança: "O que você vê quando fecha os olhos?"
Sim, era essa a frase.
A graça da coisa toda era que a frase era bonita e complexa demais para ser um código de formatação e destruição.
Daí eu e Benjamin repetíamos isso um para o outro, e então fingíamos desmaiar e ficávamos dizendo: "O quê? Onde estou?", para dar a ideia de que tínhamos perdido a memória.
Nós nos desmanchávamos em risadas todas as vezes que fazíamos essa brincadeira de citar o filme.
Aquilo virou nossa piada interna. Algo que só nós entendíamos, e algo que ninguém mais sabia o significado — parte disso, porque ninguém normal teria assistido a um filme terrível daqueles.
Sentíamo-nos muito legais por isso e aquilo, de alguma forma, nos aproximou ainda mais. Éramos uma espécie de melhores amigos quase em extinção. Éramos como irmãos.
Mas quando Benjamin me perguntou pela milésima vez nossa pergunta secreta, naquela tarde ensolarada, na grama alta do campo de piquenique que nossos pais nos levavam aos sábados, eu soube que ele não queria que eu apenas continuasse com a encenação.
Nossas bicicletas estavam jogadas no chão à nossa frente e nós tínhamos acabado de nos sentarmos para descansar, após termos ficado o dia inteiro pedalando pela Filadélfia. Às vezes, nós fazíamos isso de pedalar e pedalar até que nossas pernas se recusassem a continuar se mexendo.
Estávamos exaustos, suados e ofegantes.
Benjamin me encarava com aqueles olhos castanho-claros esbugalhados dele e sua expressão estava séria.
Eu soube que ele queria uma resposta ao invés da continuação da brincadeira, principalmente porque ele não tentava segurar o riso como sempre fazia.
Ele me olhava de uma forma esperançosa, daquele jeito que a gente olha para alguém quando desejamos uma resposta específica. Uma resposta padrão.
Então eu resolvi responder sua pergunta da forma mais sincera possível.
Eu fechei os olhos por um breve momento e "nada, não vejo nada" foi a minha resposta para ele, quando tudo o que eu via debaixo de minhas pálpebras era o escuro.
Eu era só uma criança, não entenderia o real sentido da pergunta nem se me dissessem. Mas eu deveria ter me esforçado para lhe dar uma resposta melhor, porque de alguma forma eu sabia que estava sendo estúpido — e Benjamin era infinitamente mais reflexivo que eu.
Logo depois de eu ter dito isso, ele me olhou com a expressão decepcionada mais cruel que eu já tinha o visto fazendo. E eu me lembro nitidamente de ter me encolhido, como se o olhar dele estivesse me ferindo.
Ele nunca tinha me olhado daquela forma.
Era como se eu tivesse lhe dado um tapa no rosto e eu não sabia por quê. A minha resposta tinha deixado ele abalado de algum jeito.
Assim que vi aqueles olhos piscarem magoados na direção contrária, segurando o choro, eu percebi que tinha algo errado. Eu sabia que não estava entendendo nada. Estava tudo confuso naquele momento.
Ele balançou a cabeça negativamente, como se reprovasse a resposta. E eu fiquei mais confuso ainda. Quer dizer, o que ele queria que eu respondesse?
Eu só tinha dez anos!
Mas a resposta já tinha sido dada — e era a resposta errada.
Então Benjamin se levantou e correu.
Eu não o segui.
Por que não fiz isso?
Se naquela época eu tivesse corrido atrás dele e perguntado o que tinha acontecido, se eu tivesse ao menos entendido o que ele estava querendo me dizer, com certeza hoje Benjamin estaria vivo.
E eu não estaria morrendo.
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