Notas iniciais
Boa leitura!

Enquanto todos se dispersam e saem do auditório, eu me mantenho no mesmo lugar. Parado, e pensativo. Tenho um interrogatório a fazer. Portanto, vou ficar aqui até que eu esteja sozinho com Sr. Friedrich.

Hoje Sr. Friedrich está com uma blusa social branca, e seu cabelo parcialmente grisalho está escondido por um chapéu parisiense — daqueles que um pintor estereotipado usaria. Ele sempre se veste assim: elegantemente. Isso me faz pensar que ele talvez tenha um senso de moda melhor que o meu, e isso, de certa forma, me faz pensar que talvez ele seja mais parecido com Diana que eu — o que, verdade seja dita, me deprime um pouco. Diana é o ser mais desprezível e superficial que eu conheço, e, mesmo que eu a ame, não posso negar isso. Não gosto de pensar que Sr. Friedrich tenha qualquer semelhança com ela, que seja.

Assim que me vê sentado e imóvel em meu lugar, Sr. Friedrich se aproxima de mim. Ele sabe que quero falar com ele. Ele tem uma incrível facilidade em me ler.

Isso me ajudou por muito tempo.

Manteve-me firme.

Sempre faço isso de conversar com ele sobre a vida, quando posso.

— Tenha um bom dia, Kenai — diz ele, com aquele imenso sorriso no rosto, que me faz pensar que ele realmente está feliz em me ver. — Quer conversar sobre o quê?

Eu sorrio, pela primeira vez no dia, com total sinceridade.

É incrível como Marlyse e Sr. Friedrich conseguem fazer eu me sentir bem, mesmo no meio de toda essa confusão que eu chamo de vida. E é incrível pensar em como ambos são felizes e sinceros, e bem mais velhos que eu. É como se eles tivessem conseguido toda essa felicidade ao decorrer dos anos.

São pessoas como eles que me fazem ter a esperança de me encontrar, um dia. São pessoas como eles que me fazem querer continuar tentando por mim, por alguém que um dia irei conhecer — pelos filhos que um dia irei ter — e, principalmente, me fazem ter a esperança de que um dia irei viver minha vida não padronizada de forma feliz.

— Você pode me responder uma coisa? — pergunto, assim que ele se senta na cadeira ao meu lado.

— Vá em frente — Sr. Friedrich acena.

— Naquele dia, em que você nos disse que nós não poderíamos mudar nosso destino, o que exatamente estava sugerindo? Que aceitássemos tudo de ruim em nossas vidas?

Sinto-me estúpido ao fazer essa pergunta, principalmente porque a ideia que tenho disso é totalmente contrária. Mas eu preciso que ele me diga. Preciso ouvi-lo dizer que estou errado.

Que tudo não passa de uma confusão.

A opinião de Sr. Friedrich nesta questão influencia e muito em minha sanidade, mais do que deveria.

Eu penso demais sobre isso. Esse é o problema.

Não suportaria se ele me dissesse que vou ser triste e sozinho para sempre e que não há nada que eu poça fazer.

Eu tenho que ter entendido errado.

No fundo eu sei que ele compreende. E de alguma forma Sr. Friedrich sabe que eu sei disso, porque ele sorri e meneia com a cabeça.

— O que você acha disso, Kenai? O que acha que eu quis dizer?

Eu suspiro. Estou prestes a trazer meus pensamentos estranhos e anacrônicos para fora.

Não quero parecer bizarro, por mais que eu já seja.

— Na verdade, eu acho que você quis dizer que nós não podemos mudar algo que ainda não está feito. Quer dizer, meu destino é construído de acordo com minhas escolhas, certo? E, se eu ainda não morri, meu destino pode variar. Pode se modificar várias e várias vezes. Eu posso acabar me desviando do trajeto completamente, e mesmo assim irei permanecer dentro de meu destino, porque meu destino não está de fato construído. Ele existe, creio que ele seja real, mas apenas não é fixo. E nem definido — arqueio as sobrancelhas. — É isso? Isso tudo realmente faz sentido fora de minha cabeça? Porque tenho certeza de que estava bem mais normal aqui dentro.

Sr. Friedrich sorri e fica em silêncio por alguns segundos, como se não conseguisse fazer nada além de sorrir.

— É exatamente isso. Você descobriu. Em todos esses anos, eu nunca vi uma pessoa diferir destino de futuro e compreendê-los tão bem quanto você.

Ele olha em meus olhos enquanto diz isso, e consegue me fazer acreditar nele.

Sr. Friedrich tem essa coisa segura em todo seu ser. Ele é sempre extremamente sincero, de forma que ninguém ousaria discordar de sua boa fé.

Sinto algo relaxar em mim.

É como se um peso fosse tirado de minhas costas.

Estou aliviado de diversas formas.

Uma delas é em saber que eu estava certo. Saber que Sr. Friedrich tem o mesmo pensamento, e, por tanto, ele também acredita que eu seja capaz de mudar para melhor meu futuro. Vocês não podem mudar seus destinos, porque são vocês que constroem eles. Foi essa mensagem que ele quis nos passar naquele dia. E isso de certa forma me deixa feliz, porque significa que poderei alterar meu futuro, construindo meu destino da maneira certa e, enfim, sendo feliz.

Estou realmente calmo agora, tão calmo que volto a me sentir estável.

Se Sr. Friedrich pensa igual a mim, então está tudo bem.

Depois disso, conversamos um pouco mais sobre futuro/destino, e ele me conta um pouco sobre sua peça, que retrata exatamente isso. E em meio a elogios e coisas assim, ele acaba me convencendo de fato a fazer o teste. Então posso dizer que terei ao menos algo para fazer até o fim do ano.

Sr. Friedrich se despede de mim assim que ele se dá conta de que está atrasado para outro compromisso.

Eu fico por mais alguns minutos no auditório sozinho, então decido sair logo, porque eu sei que Thomas deve estar querendo me matar neste momento, e eu não quero ser morto por meu único amigo de minha idade.

Marlyse não está mais aqui. E isso é uma grande decepção, porque preciso de seu carinho de vovó agora. Mas creio que eu possa superar mais este maravilhoso dia, como eu supero todos os dias de minha vida incrivelmente descomplicada e reconfortante.

Como citei anteriormente, o Brooklyn é feito de barulho, mendigos, ruas mal numeradas e ternos. Muitos ternos. O que só aumenta minha depressão, porque eu estou parcialmente vestido como eles.

Eu sempre me visto com roupas sociais demais para serem consideradas normais, e normais demais para serem consideradas sociais.

É algo meu. Um gosto peculiar, por assim um dizer.

Brega? Com toda certeza.

Mas eu gosto.

Eu nunca entendi muito bem a moda adolescente. Mas também não compreendo os adultos.

Eu ainda estou tentando descobrir o sentido nisso tudo, porque durante esses dezoito anos eu realmente não consegui cumprir tal meta.

Eu posso me considerar um desocupado que não tem absolutamente nada para fazer, a não ser observar as pessoas ao meu redor. Então é por isso que sigo para Williamsburg, que é onde fica a loja de CDs de Thomas, e ele geralmente gosta da minha companhia e confia em mim o suficiente para me deixar ser o caixa de sua loja.

Thomas surgiu em um período complicado de minha vida.

Ele surgiu quando as coisas ruins (Eric) ainda aconteciam.

Eu era só um garoto ingênuo naquela época. Era muito iludido pelo mundo.

Hoje eu consigo ter uma noção de como tudo isso funciona: você tem que se destacar. Tem que ser motivo de notícias. Ser útil para as massas.

Ninguém se importa com você se você não tem uma imagem boa e impactante a passar.

Se você for normal, um adolescente com escrúpulos, superdesinteressante e previsível, como eu costumava ser, você é insignificante.

Um nada.

Uma poeira sem importância.

Todos sabem disso.

Daí eu concluí que nada disso vale a pena, porque o mundo é passageiro. Nada que você um dia chegue a conquistar aqui na Terra terá importância depois da morte. E então você será esquecido.

Enterrado.

Ninguém além dos seus familiares se lembrará de você.

E você volta a ser uma poeira sem importância.

Bem, isso é horrível.

Um ciclo interminável e horrível.

Não tenho nenhum adjetivo para definir o mundo atual senão horrível.

Sei que pode parecer idiota e até mesmo forçado eu dizer que o mundo é ruim e coisa e tal, mas tudo isso é o que eu enxergo. Não estou dizendo que o mundo é um lugar horrível de se viver apenas por causa de minha vida ditada.

Saia um pouco de casa, observe as pessoas ao seu redor, e verá que é verdade.

Veja quantas delas trazem um sorriso no rosto, ou então quantas delas parecem relaxadas e satisfeitas. Sempre estão reclamando do que já têm, pedindo mais. Mas não dão valor a aquilo que já lhes foi dado.

Eu sinto pena dessas pessoas, principalmente porque a vida da maioria delas é completa.

Elas têm tudo para serem felizes, mas simplesmente não são.

E eu não me sinto um merda de um hipócrita dizendo tudo isso, porque eu não estou de fato insatisfeito com minha vida. Eu apenas procuro, pelo mundo, uma razão para eu chamar meus dias de felizes.

Não vou mentir. Minha vida não tem nenhum aspecto bom além do teatro, Thomas, Sr. Friedrich, Marlyse, e o fato de eu ter uma saúde relativamente boa — embora eu esteja desconfiando até disso. Todo o resto é enfeite, adorno da dor, diz Hamlet, e faço de suas palavras as minhas.

Dá pra imaginar, por acaso, um adolescente sendo feliz, tendo pais sádicos e alheios? Creio eu que não.

Mas, naquela época em que Eric era um problema, eu não sabia disso tudo. Eu achava que a atitude cruel de Diana era só uma espécie de punição temporária. Só que a verdade é que ela vem me punindo com esse comportamento ridículo há anos. Eu achava que aquele sentimento de culpa era só meu. Eu realmente não achava que meus próprios pais iam jogar a culpa em mim por serem indiferentes.

Tudo isso colaborou com entrada de Thomas em meu cotidiano, principalmente porque ele era gentil. E não era indiferente. Dava pra ver que ele se importava comigo. Mas o principal motivo de eu ter me simpatizado com ele tão rapidamente, foi por ele ser tão parecido com Benjamin e de uma maneira absurda.

Na verdade, eles não têm absolutamente nada a ver um com o outro no físico — até porque Thomas é louro, e seu tipo físico se encaixa bem como forte, ou musculoso. Enquanto Benjamin era assustadoramente magro, pequeno, fraco, e moreno. Contudo, eles eram praticamente a mesma pessoa no quesito personalidade.

Benjamin era aquele tipo de amigo que sempre estaria com você. Nunca te abandonaria e nunca te desprezaria. Era aquele tipo de amigo que não te deixaria sozinho nos problemas que poderiam vir, e por mais que fossemos apenas crianças, eu conseguia sentir isso nele.

Thomas é exatamente assim.

Ele foi o único que ficou ao meu lado como um amigo, quando todos os outros assim chamados e até meus próprios pais me viraram as costas.

Posso dizer que amo Thomas assim como amo Marlyse e Sr. Friedrich.

Eles são minha verdadeira família.

Não conseguiria imaginar meus dias aqui na Terra sem eles.

A loja de Thomas fica na parte menos movimentada de Williamsburg, e é por esse e outros motivos que Thomas não tem uma clientela. Ela é toda marrom. Literalmente, ela é marrom por completo. A pintura de fora um dia foi bege, mas como é bem mais fácil sujar que limpar, Thomas resolveu pintar tudo me marrom escuro para esconder as manchas de mofo que, aos poucos, tomavam conta das paredes de tijolos cozidos.

Na época eu achei aquilo engraçado, não levava muito a sério, e sempre repetia para Thomas que sua escolha era péssima, mas aos poucos eu fui me acostumando. E não só eu, diversos adolescentes góticos — daqueles que usam roupas pretas, unhas pretas, maquiagem preta, e cordões com cruzes penduradas em todos os lugares do corpo — começaram a notar que aquilo era uma loja de CDs marrom-escuro, que disponibilizava a venda desenfreada de seus discos de gente deprimida e arrependida, o que ajudou Thomas a manter a loja por meses e meses até que a pintura começasse a parecer piegas. Thomas se sentiu bem com isso por um momento, então eu também.

Foi algo passageiro, mas bacana.

Sempre que aparecia algum roqueiro tatuado, procurando “música boa”, eu e Thomas nos entreolhávamos e sorríamos. Era como se fossemos uma planta carnívora.

Atrair. Seduzir. Depois comer.

E era engraçado, porque a ideia se aplicava perfeitamente ao fato.

Ver a pintura incomum e brega da loja me causava um milhão de sentimentos nostálgicos. É. Mas, não é como se eu pudesse dizer que todos eram bons e agradáveis.

Aquela loja não era mais como uma planta carnívora, ela não era mais atrativa nem peculiar. Era apenas brega. Piegas. Enjoativa. E, por mais que eu lembrasse da “época lucrativa” de Thomas (nem sei se posso realmente a chamar disso), outras lembranças — ruins — abalavam minha cuca de adolescente sentimental toda bendita vez que eu me aproximava daquela construção mofada.

É meio estranho falar sobre isso, mas a loja de Thomas é localizada bem ao lado de uma casa que é absurdamente parecida com a minha antiga casa em Pensilvânia. Sempre que chego aqui, onde estou agora, e me deparo com esta casa, eu me lembro de tudo.

Tudo.

E é horrível.

Minha última crise foi aqui, de frente pra essa casa abandonada.

Eu estava bem mais perturbado naquela época. Não conhecia Sr. Friedrich, e nem Marlyse.

Estava uma semana sem me alimentar, e estava notavelmente mais magro. Meus pais não notaram nada de errado, obviamente. O que só me prejudicou mais, e fez com que eu me proibisse de comer qualquer coisa. Eu estava sobrevivendo de água, apenas.

Então, naquele dia, quando eu resolvi sair de casa para não ter que tomar o café da manhã, e caminhei cegamente em direção à loja de Thomas, eis que eu me deparei com essa casa pra lá de nostálgica.

Eu caminhava em uma corda-bamba de emoções, e aquilo só serviu para me desequilibrar.

Eu caí.

As lembranças invadiram minha mente em uma velocidade tão absurda, que tudo o que eu consegui fazer foi cair. Cair e chorar.

Eu chorei, berrei.

Gritei como uma criança.

E desmaiei.

Só acordei no dia seguinte, dentro de um hospital, com meus pulsos amarrados e uma bolsa de soro pendurada ao meu lado.

Foi horrível, sim. Mas ao menos rendeu-me uns três dias de atenção dentro de casa.

Minha mãe cuidou de mim, e se certificou de que eu comeria qualquer besteira de micro-ondas que ela viesse a comprar. Foram três ótimos dias. Mas assim que eu fiquei aparentemente bem, tudo voltou ao normal.

Ou melhor, tudo voltou duas vezes pior.

Então já dá para se ter uma ideia do porquê de eu ficar tão melodramático quando chego aqui.

Hoje é um belo dia, o céu não está completamente fechado e isso é algo raro — momento em que estamos no inverno congelante do Brooklyn. Mas ainda assim está frio, frio demais. E ventando — o que faz meu cabelo se debater em meu rosto numa orgia de fios dourados. Pra ficar mais fácil, eu apenas o prendo da maneira que posso dentro do capuz enorme que vem embutido no meu agasalho enorme.

Estou parado em frente à porta de entrada, fumê fosca, da loja de CDs. O sinal de open está bem visível acima da maçaneta, mas eu não quero entrar ainda. Thomas provavelmente vai reclamar e dizer que não estou levando o emprego de caixa a sério. E eu quero evitar isso o máximo de tempo possível, porque odeio quando Thomas fica me culpando por tudo.

Então, viro minhas costas para a porta, e desço meu corpo até conseguir ficar sentado na escada de granito na entrada, fora da visão de Thomas. A escada é pequena, tem três degraus, então eu consigo me sentar aqui sem atrair a atenção de quem está dentro da loja.

Daqui, eu tenho uma visão extremamente aconchegante das construções vermelhas e bege, que ficam do outro lado da estrada estreita que corta Williamsburg.

É meio engraçado observar isso porque a maioria das casas fica do lado de lá, e a maioria das lojas de conveniência ficam aqui, neste lado da rua. Centrado no meio de todas aquelas casinhas simetricamente perfeitas, está um café que só é frequentado por idosos e, uma vez ou outra, Isabel. O nome Cupful fica pendurado bem em cima do telhadinho vermelho-barro do café. É engraçado, porque ele realmente se parece com uma casa popular comum. Tijolos cozidos, pedras escovadas na decoração, e aquele toque de cozinha da vovó por todo o lugar.

Eu não perderia tanto do meu tempo o encarando se não fosse por Isabel. E, verdade seja dita, pensar nisso me anima, porque é mais ou menos neste horário que ela chega, se senta numa das mesinhas do lado de fora, come seus bagels, e bebe café expresso.

Eu ando a observando há algum tempo.

Isabel é uma loura alta, sorridente, que me faz imaginar o quão idiota eu sou por estar tão ridiculamente na dela. Eu nunca passei da etapa “observar” para “conversar”, e, por mim, isso pode demorar a acontecer. Não preciso de mais um motivo para me arrepender, por isso eu poderia apenas fazer aquela coisa de observá-la enquanto ela come tranquilamente seu doce francês.

Um dos motivos que contribuíram nessa suposta paixão platônica que sinto por ela, foi o fato dela ser tão radiante.

Ela é toda alegre, feliz, dourada.

Contagiante.

Isso me afeta muito, principalmente porque eu sempre quis ser feliz e normal como ela.

Eu sei que é loucura se apaixonar por uma pessoa que você nunca chegou a conhecer, mas aconteceu. Eu não pude evitar. E isso me deixa paranoico. Com medo de que algo aconteça a ela e tudo mais. Ou então que algo me impeça de vê-la todos os dias.

Sou tão bizarramente paranoico, que conto o tempo restante para ela chegar.

Sim, eu conto.

Neste exato momento, faltam cinco minutos. Eu tenho a escolha de apenas fingir que estou perdido em pensamentos, até que ela chegue, e então eu esteja livre para poder enfim admirá-la.

Isso.

Simples.

Prático.

Quatro minutos agora.

Um pouco mais de pensamentos vazios.

Observo os carros e as bicicletas do correio passarem de um lado para o outro.

Três minutos.

Começo a me sentir estranho.

Pensar nisso não é exatamente legal, mas é melhor do que ouvir as reclamações de Thomas.

Dois minutos restando e vejo de longe a bicicleta vermelha de Isabel vir lentamente em direção à esquina na qual estou. Sei que ela vai virar à direita para entrar no café, mas mesmo assim fico ansioso.

Seu cabelo está solto, e ela está usando um gorro verde-musgo. Está extremamente bonitinha — o que faz com que minha adrenalina aumente consideravelmente.

Apesar do frio, sinto meu rosto esquentar. Patético, eu sei. Mas não é como se eu pudesse controlar isso.

Isabel encosta a bicicleta em uma das mesas, e tira sua bolsa de dentro da cesta que vem no guidão. Então ela retira as luvas e entra no café.

Eu perco minha visão dela por um momento, e isso me deixa um pouco ansioso, mas tão rápido quanto entrou, ela sai novamente para fora. Ela está segurando uma bandeja de louça branca, com dois bagels e traz na mão um copo com café.

Seu rosto pálido está corado pelo frio, e tudo isso só a deixa mais delicada e angelical. Eu gostaria de passar o resto do dia observando-a, mas não posso fazer isso. Tenho que encarar Thomas de uma vez, antes que as coisas piorem. Portanto, eu apenas suspiro como um idiota algumas vezes enquanto me despeço mentalmente de Isabel, e volto a ficar de pé, virando-me para a porta de vidro.

Eu suspiro mais uma vez, e então forço a maçaneta de metal para baixo.

A porta range, e Thomas, que está atrás do balcão do caixa, olha pra mim automaticamente.

Eu o encaro, tentando descobrir o que ele está pensando agora. O que não é muito difícil, já que Thomas é tão transparente quanto Olívia.

Suas sobrancelhas estão franzidas, e seus lábios crispados. Antes que eu tenha a chance de cumprimentá-lo, ele solta um “onde você estava?” com uma frustração reprimida.

Percebo facilmente que Thomas está mais que irritado, ele tira o pano de limpeza do balcão, e o esmaga entre seus dedos.

Estou ferrado. Sinto isso.

— Estava no curso, você sabe — digo, com a voz mais baixa e calma possível. Não quero brigar com Thomas por um motivo tão bobo.

Thomas larga o pano, mergulha os dedos em seu cabelo, e começa a massagear as têmporas, em um sinal claro de impaciência.

— Está tudo bem, não tem problema — diz Thomas, rudemente. Sei que não está tudo bem, ele não está me olhando nos olhos.

— Ei, não precisa ficar assim — digo. — Eu só me atrasei um pouco.

Tento me aproximar dele, mas Thomas apenas se afasta do balcão e vira as costas.

— Eu já disse que está tudo bem — suspira. — Vou ver se ainda tenho minha vaga no curso de fotografia, e mais tarde eu volto.

Thomas empurra os óculos para cima do nariz, e põe sua bolsa atravessada no ombro, antes de ir em direção à porta. Mas eu não espero ele chegar nela, e o puxo pela manga do casaco.

— O que está acontecendo? — sussurro.

Mesmo que ele recuse a me dizer alguma coisa, eu sinto que algo está errado.

Thomas não está sorrindo. Seus olhos estão com olheiras, e ele está curvado para frente. Como um zumbi.

Sei que tem alguma coisa o deixando mal.

Ele me olha nos olhos, e eu consigo ver que ele está triste.

Consigo perceber isso. Eu não o largo. Ele tenta se soltar, mas eu não o largo.

— Não é nada, Kenai — diz ele, um pouco impaciente. — Só me deixe ir, por favor.

O jeito como ele está tentando se afastar e ir embora é tão urgente, que é como se meu toque estivesse o ferindo. Então eu o solto. Não faço a mínima ideia do que diabos está acontecendo com Thomas, mas não vou forçá-lo a dizer nada.

Isso me machuca um pouco, mas estou disposto a deixar pra lá. Não quero que meu dia fique pior do que já está.

Thomas abre a porta com um pouco de violência, trazendo uma rajada gelada de vento para dentro, e sai da loja.

Espero até que ele saia da minha visão, e então volto a respirar.

Sinto-me tonto.

Minha visão girando.

Estendo meu braço até o balcão, apoio meu corpo nele, e resolvo me sentar.

Eu suspiro.

Não é nada fácil lidar com esse mal-estar.

Olho para fora da janela e mais uma vez eu vejo Isabel do outro lado, sentada delicadamente numa das cadeiras do Cupful e lendo um livro. Isso faz meus batimentos cardíacos acelerarem um pouco — o que, consequentemente, faz eu me perguntar quando diabos eu comecei a me sentir assim em relação a ela.

Às vezes eu me pergunto se o motivo dessa repentina paixão que sinto por Isabel foi apenas o reflexo dos longos anos que passei sozinho. Por minha conta. Mas quase sempre chego à conclusão de que isso é uma bobagem. Obviamente não gosto de Isabel por causa disso.

Quer dizer, não é como se eu precisasse falar com outros seres humanos para sobreviver, ou me manter são. Claro que não. Basta uma caneta, um papel, e uma cadeira para que meu problema de solidão se resolva parcialmente.

Sei que é meio meloso e repetitivo falar isso, mas eu amo escrever. Acho que eu amo palavras. Elas mudam o mundo. Elas mudam ideias. Mudam vidas. E com certeza mudaram a minha.

Eu não teria sobrevivido todos esses anos se não tivesse escrito.

Posso afirmar com toda convicção: se eu não tivesse escrito nenhum daqueles textos, redações, e nenhuma daquelas cartas, hoje eu estaria bem pior.

Foi por causa de Sr. Friedrich que eu comecei a escrever. Ele é basicamente meu herói, sim. Só tenho que agradecê-lo por salvar minha vida um milhão de vezes.

Sr. Friedrich foi fundamental em minha estabilidade por um longo tempo, mas agora eu tenho Thomas.

Posso encher os ouvidos compreensivos de Thomas com minhas baboseiras depressivas, ele não se importa com isso.

É um bom ouvinte.

Se não fosse por Thomas, talvez hoje eu fosse uma grande massa de energia negativa. Um poço de escuridão.

Um ser completamente perdido.

Sim, Thomas também me salvou. Ele me salvou daquela depressão possessiva de minha pior fase, dos meus piores dias. Ele me livrou de muita coisa ruim com um simples “bom dia”. E eu gosto de relembrar isso, porque me faz pensar que talvez a humanidade ainda não esteja contaminada por completo. Ainda restam, felizmente, pessoas boas no mundo. E ainda existem seres humanos confiáveis em minha vida.

Eu sou imensamente grato por isso.

Imensamente grato por ter conseguido o que tanto desejei: um amigo.

Eu passei grande parte de meus dezoito anos almejando alguém que se importasse comigo de verdade, mas por um longo tempo tudo o que eu encontrei foi indiferença.

Quando eu era um garoto legal, normal e tedioso, como a maioria, a vida era uma beleza. E como era. Mas bastaram apenas alguns anos ruins para que eu começasse a me comportar de maneira bizarra, e meus problemas mentais começassem a dar sinal de existência, depois disso eu não era mais sociável. Eu não era nem mesmo uma pessoa de confiança para todos eles.

No início eu achei que o problema fosse comigo, eu me sentia uma ameba. Um estorvo. Mas quando fiquei com mais idade, e consequentemente comecei a entender o roteiro da vida de um adulto, eu simplesmente percebi que tinha me libertado.

Ser um anormal problemático me livrou de ser um zumbi. Livrou-me de ser um infectado. Não sei se sou visivelmente louco para todas as outras pessoas, mas eu sei que minha mente não funciona como a delas.

Adultos são manipuláveis.

Adolescentes são manipuláveis. Crianças são facilmente manipuláveis.

Até mesmo bebês são manipuláveis.

Eu consigo perceber isso. Dá pra ver nitidamente o quanto eles são diferentes de mim. Eu enxergo a vida e o mundo de uma forma completamente contrária.

Chega a ser assustador.

Eu não gosto de ser assim. Não é legal ter uma barreira em torno de si, te impedindo de ser um humano aceitável: dentro dos padrões. Isso só dificulta tudo quando se é depressivo e perturbado como eu.

Eu passo a maior parte dos meus dias decidindo entre acabar com minha vida, e acabar com tudo que eu amo (ambos me levariam a morte, de qualquer jeito), mas então eu penso em Thomas, Marlyse e em Sr. Friedrich, e percebo que não seria justo com eles.

Eu basicamente não vivo por mim. Viver por mim não vale a pena.

Pode parecer perturbador ter este tipo de pensamento, mas quando eu encontrei Thomas (ou quando ele me encontrou) eu era bem pior.

Estava prestes a morrer. Eu não queria viver mais, de forma alguma. Daí eu conheci Thomas da maneira mais horrível e improvável possível.

Eu tinha acabado de chegar a Williamsburg, pois estava evitando ir para casa. Eu já tinha andado por todo o Brooklyn, e estava considerando sair de Nova York. Diana não tinha me ligado para saber onde eu estava — o que só me motivou ainda mais a não voltar para lá.

Meu plano se resumia em: (a) andar sem rumo pela cidade; (b) me manter o mais longe possível de Eric e sua gangue de pervertidos, e (c) voltar para casa e dormir na garagem até que amanhecesse.

Nada daquilo funcionou, obviamente.

Eu nem consegui sair do Brooklyn, porque havia começado a chover monstruosamente e eu morreria de frio em questão de segundos, caso me molhasse. Então eu fui para debaixo de um ponto de ônibus que ficava a alguns quarteirões da loja de CDs de Thomas. Eu me sentei, e, da forma mais melancólica possível, esperei a chuva acabar.

Depois disso, as coisas começaram a dar errado.

Para o meu azar, Eric e seus trogloditas estavam cruzando a esquina que corta Williamsburg naquele exato momento.

Quando o vi, meu sangue pareceu congelar. Eu sabia que não poderia deixar ele me ver, senão aconteceria tudo de novo. Eu comecei a suar, mesmo que o clima estivesse absurdamente frio. Queria sair dali, me esconder. Mas não conseguia. Então eu só fiquei lá, como um idiota, com medo e tremendo. E numa tentativa falha de esconder meu rosto entre os cabelos, um dos amigos babacas de Eric acabou me reconhecendo. Ele gritou: “Aquele ali não é o seu coleguinha, Eric?” e então Eric virou automaticamente o rosto em minha direção. Mas eu não era tão idiota como antes, não ia deixar eles me machucarem de novo.

Então eu me levantei e comecei a correr.

Corri muito, me encharquei por causa da chuva, mas consegui fugir. Foi isso que eu pensei no momento. Mas então, eu não sei como diabos, Tony (o drogadinho que me reconheceu) me cercou em um cruzamento e colocou seus braços gigantescos e nojentos ao meu redor, me impedindo de continuar correndo. Eu sabia que Eric e sua turminha de perturbados estariam logo atrás, então eu nem tentei me livrar. Tony até pareceu um pouco surpreso, e me largou. Assim que ele fez isso, Eric apareceu acompanhado de seus seguidores viciados em maconha, e sorriu quando se aproximou o suficiente de mim.

Aquele sorriso me deixou furioso. Eu queria mais que tudo acabar com ele. Meu ódio era tanto, que naquele momento eu o mataria se pudesse. Eu senti meu rosto esquentar e minha visão ficar turva quando ele disse: “Por que estava fugindo de mim, Kenai?”. Eric era cínico e doentio o bastante para dizer isso em um tom amigável, e isso só fez minha raiva se multiplicar.

Em pensamento, eu comecei a socar ele até que ele ficasse irreconhecível. Mas fisicamente eu apenas tirei meu celular do bolso e tentei ligá-lo, só que, ironicamente, ele havia descarregado.

Não tinha muito que eu podia fazer, mas não ia deixar que Eric me ameaçasse de novo. Então eu me virei para ele e com a voz mais segura e menos amedrontada possível, eu disse: “Se você encostar um dedo em mim, eu vou contar seu maldito segredo para a polícia, e o mesmo serve para sua ganguezinha. Juro por Deus, eu vou contar pra todo mundo”, e então os olhos de Eric se estreitaram e ele me encarou de uma forma assustada. Por um momento, a cor deixou seu rosto.

Ele parecia aterrorizado.

“Você não faria isso” ele disse. Mas no fundo, ele sabia que eu faria. Eu não era mais o mesmo garoto.

Vi que os amigos dele ficaram encarando ora a mim, ora a Eric, esperando o momento certo de atacar, como um bando de cães treinados.

“Que segredo, Eric?” um deles perguntou. E foi aí que eu percebi que Eric também tinha medo de contar seu segredinho sujo para as outras pessoas. Eu percebi, só naquele momento, que ele tinha completa noção do monstro que se tornara.

“Nada” ele respondeu, mas inutilmente, porque todos ali já estavam desconfiados.

O único que não dava a mínima era Tony, ele voltou a me segurar e perguntou para Eric o que diabos estava acontecendo. E então Eric o encarou e disse mecanicamente: “Solte ele. Agora.”

Aquilo foi uma garantia para mim, eu havia pensado. Talvez Eric realmente me temesse. E eu estaria seguro.

Mas não.

Assim que Tony me soltou, Eric se aproximou de mim e me acertou no maxilar com o punho fechado. Senti meus ossos rangerem dentro do meu crânio, e automaticamente levei a mão ao queixo, enquanto caía para o lado.

A dor era insuportável, mas eu não o dei o prazer de me ver agonizando. Eu não era o mesmo garoto.

Ele se aproximou de mim novamente e me puxou pelo colarinho, me pondo de pé.

Eric era assustadoramente maior e mais forte que eu, mas também era muito mais medroso e inseguro. Ele me batia por medo, por defesa. E não por opressão. Eu sabia muito bem disso. Eu sabia de todas as suas fraquezas.

“Você não vai falar nada, Ramon” ele disse, tentando soar ameaçador, mas seus olhos transmitindo desespero. “Ou eu acabo com você.”

Eu me lembro de nitidamente ter rido disso. Eu gargalhei, na verdade. Meu maxilar doía como nunca. Toda minha cabeça estava latejando. Mas mesmo assim eu ri. Com força.

“Você acha mesmo que isso vai me impedir de falar? Deixar-me de olho roxo não faz eu lhe dar o que você quer. Você já deveria saber disso” disse eu, assim que parei de rir. Eu estava soando ressentido, e isso atrapalhou um pouco o meu tom de deboche, mas mesmo assim foi o suficiente para Eric me soltar.

“Vamos embora” disse ele para os seus capangas, sem desviar os olhos de mim. “Você vai pagar caro, Ramon. Bem caro” completou.

Então eles se reuniram como um típico grupinho de delinquentes e foram embora.

Aquela foi minha deixa. Foi meu total poder sobre Eric.

Ele me temia, agora sim.

Mas eu tinha certeza absoluta de que Eric voltaria, e com mais gente. Por isso decidi atravessar a rua e me esconder em qualquer loja aleatória até que a chuva parasse e eu pudesse ir para casa, já que minha visão estava embaçada e eu estava tonto e desorientado por causa do soco.

E foi aí que eu entrei na loja de Thomas.

Algo completamente aleatório e circunstancial, mas que me salvou no futuro. E eu só tenho que agradecer agora por isso.

Ter esses pensamentos me faz ficar triste, porque eu sei que fui extremamente grosseiro e idiota com Thomas quando eu o conheci.

Eu estava completamente molhado pela chuva e minha boca cortada sangrava. Estava assustador e estressado, mas também paranóico e com medo. Lembro-me de ter empurrado a porta da loja com agressividade e lançado meu corpo para dentro como se não estivesse consciente o suficiente para fazer isso de uma maneira normal.

Quando viu meu estado, Thomas se levantou rapidamente e disse um “minha nossa” sussurrando.

Não me lembro muito bem, mas acho que sorri. Ou não. A lembrança fica mais embaçada nessa parte. Mas eu sei que logo em seguida ele tentou tocar meu braço e me perguntou se eu estava bem. E eu, como o idiota que era, mandei ele se afastar. Então ele riu e perguntou se eu queria alguma coisa, e eu me lembro de mandar ele se ferrar, e depois de ter ido mancando para o fundo da loja.

Minutos depois, quando eu já estava sentado e encolhido em um canto, Thomas apareceu com um copo de água numa mão e uma toalha felpuda na outra. Eu o olhei torto, me perguntando o que diabos ele estava fazendo, mas não disse nada. Deixei que meu olhar venenoso dissesse por mim.

Então ele sorriu amigavelmente e disse: “Talvez seja melhor você tirar esse sangue do rosto” e aquilo me quebrou. Aquilo me destruiu. Eu não entendia por que alguém que eu nunca tinha visto em toda minha vida estava se preocupando comigo.

Eu me senti mal, como se eu precisasse vomitar. Eu me senti horrível por tê-lo tratado de uma maneira tão agressiva. Então comecei a pedir desculpas freneticamente, contendo a enorme vontade de chorar que eu sentia.

Achei que ele fosse rir de mim e me chamar de anormal como todo mundo, mas ele apenas sorriu e se sentou ao meu lado enquanto me estendia a toalha e o copo de água.

Até hoje, quando eu lembro disso, eu sorrio.

Conhecer Thomas foi uma das melhores coisas que aconteceu em minha vida, e eu sempre fiz questão de deixar isso claro para todas as pessoas idiotas de minha escola, quando elas, numa tentativa de me magoar, me perguntavam qual era o meu problema e por que eu não tinha amigos.

Muitas delas me perguntavam se eu era gay quando eu dizia o quanto eu gostava de Thomas, mas a resposta era sempre a mesma: “Isso por acaso mudaria algo?”, porque, de fato, caso eu fosse gay, isso não mudaria nada em nenhum aspecto de suas vidas medíocres e patéticas. E não, eu não sou gay. Mas isso não me impede de amar Thomas. Até porque ele é umas das únicas pessoas nesse mundo que talvez me amem, e amor é algo que eu posso retribuir sem nenhum problema.

As pessoas precisam mais disso: de amor.

Se todos os babacas de minha antiga escola amassem, mesmo que não fossem amados, eu tenho certeza de que minha época lá teria sido ao menos suportável — o que não foi o caso.

Relembrar isso agora é uma coisa meio ruim, porque eu, consequentemente, fico mais melancólico ao lembrar-me dos anos torturantes em que passei naquela porcaria de escola. Aqueles anos não foram nada agradáveis e só serviram para ferrar ainda mais minha cabeça.

E agora estou aqui, com uma dor insuportável estourando dentro do meu crânio, relembrando as inúmeras desgraças que me aconteceram ao decorrer dos anos, e jogando uma bolinha de borracha pra cima, numa tentativa falha de amenizar o tédio.

Nada disso funciona.

Eu me levanto, decido que vou limpar as prateleiras. Mas fico tonto só de tentar ficar em pé.

Eu não faço ideia de qual foi a última vez que me alimentei, e sinto as consequências disso agora. Meu estômago está roncando e eu estou começando a ficar trêmulo.

Eu me sinto patético.

E odeio ficar com fome. Fome é só mais uma das consequências de permanecer em casa com meus pais. Eles não se importam com este pequeno detalhe. Faz muito tempo que eu tenho que me virar, senão, morro.

Eu ponho os dedos sobre as têmporas, para tentar fazê-las parar de doer, mas tudo é em vão.

Parece que meu cérebro vai explodir, e eu não sei se fico feliz com isso ou decepcionado por morrer de forma não desinteressante.

Eu me levanto. Não aguento mais ficar nesta loja. Preciso respirar. Preciso sair daqui.

Eu saio.

Tiro minha chave do bolso e tranco a porta.

Fecho os olhos enquanto respiro fundo o ar frio, do lado de fora.

É um alívio sentir o vento gelado contra meu rosto, é quase relaxante, embora a ventania esteja jogando meu cabelo para cima e o fazendo serpentar em meu rosto como micros chicotes dourados. Isso é agradável, e tira um pouco a tensão em minha cabeça. Mas eu ainda continuo com fome, e muita. Consigo ouvir meu estômago roncar em um volume absurdo, quase bizarro.

Abro meus olhos e penso no que fazer. Eu só tenho duas opções: voltar para casa, o que eu desconsidero instantaneamente, e atravessar a rua para tomar um café no Cupful. Então, obviamente, eu só passo a ter uma solução: ir ao Cupful.

Sei que eu deveria estar mais a vontade com isso, mas estou sentido completamente o oposto. Não consigo relaxar diante da ideia de frequentar o mesmo lugar que Isabel frequenta. Então, por precaução, eu corro meus olhos pela vidraça do café e procuro Isabel. Felizmente, eu não a encontro. Isso me alivia.

Fica mais fácil fazer isso agora, então eu ponho as mãos dentro do bolso e atravesso a rua, e, no meu usual andar de ganso, vou em direção ao café.

A porta do café é bem a parecida com a da loja de Thomas, fumê e fosca. Eu ponho minha mão na maçaneta, e respiro fundo mais uma vez antes de empurrar a porta. Assim que entro, aqueles sinos orientais fazem seu típico barulhinho, o que provavelmente avisa a chegada de fregueses.

Aqui dentro não é muito claro, e isso me faz lembrar dos infinitos barzinhos de Filadélfia. É muito familiar. Algo reconfortante.

O café está completamente vazio. Não há ninguém aqui. Todas as mesas estão disponíveis. O lugar cheira a baunilha, café, glacê, e a chocolate quente — e isso faz meu estômago protestar novamente.

Se American Idiot da Green Day não estivesse tocando numa altura confortável, este lugar estaria num completo silêncio.

Eu procuro um lugar para me sentar, e escolho uma mesa redonda perto da janela, a última mesa.

Sentado aqui, eu consigo ouvir, lá no fundo, uma voz aguda gritando o refrão da música. E me pergunto se a pessoa que está cantando era a que deveria estar me atendendo, porque já se passaram alguns minutos e nada de alguém aparecer.

Começo a contar o tempo novamente.

16h30.

Nenhum movimento.

Bato com os dedos na mesa.

Minha dor de cabeça retorna. E mais forte.

16h35.

Nenhum movimento ainda.

A música para, e Hey Jude começa a soar pelo pequeno alto falante.

Essa música me traz lembranças horríveis, pois era a música favorita de Benjamin.

16h40, e começo a me lembrar de Benjamin.

Fico emotivo. Mais que o normal.

Sinto vontade de chorar.

Pela milésima vez, eu me lembro da tarde no parque. Lembro-me de sua pergunta. Lembro-me da nossa brincadeira. Lembro-me de chorar quando ele correu. Lembro-me dele gritando meu nome, enquanto todo aquele sangue manchava sua blusa. Lembro-me de seu olhar desesperado enquanto pedia ajuda.

Fico me perguntado se tudo seria diferente se eu tivesse corrido atrás de Benjamin naquela tarde e perguntado o que havia de errado.

Não consigo me livrar da culpa.

Tudo seria diferente?

Será que eu mudei tudo? Como pude estragar minha vida dessa maneira?

Eu me odeio.

Simplesmente me odeio.

Não sei por que diabos estou vivo.

Minha cabeça começa a girar, apoio-me em minhas mãos.

Deixo as lágrimas molharem meus dedos. É como se eu estivesse tirando um enorme curativo, mas quando mais eu seguro o choro, mais isso dói. Quanto mais eu tento ser forte, mais isso machuca. Eu já estou cansado de lidar com esses sentimentos.

Eu não quero ser um anormal.

É como se eu estivesse tentando engolir vidro.

Consigo ouvir a risada de Benjamin agora. O jeito como ele cantava Hey Jude preenche meus ouvidos.

Eu quero gritar.

Não quero me lembrar dessas coisas.

Está machucando.

A música recomeça. Ela não para.

Sinto-me fraco, impossibilitado.

Estou chorando muito, mais do que antes.

16h45.

Decido que odeio essa música. Ela não me faz bem. Quero destruir aquele autofalante.

16h50, nenhum movimento.

Eu quero sair daqui.

Só quero esquecer essa música. É a terceira vez que ela se repete. Eu não suporto mais.

Só preciso que ela pare. PARE.

17h00. E eu me levanto. Decido que vou embora mesmo sem comer, meia hora de espera e nada. Eu já não estou estável.

Novamente numa corda-bamba de emoções, eu tento chegar até a porta enxugando os olhos. Ponho a mão na maçaneta e tiro o cabelo do rosto, mas então a música para e eu sinto uma mão em meu ombro.

— Ei, espere. Sinto muito pela demora! — exclama uma voz feminina atrás de mim.

Eu me viro devagar, e olho para a menina que ainda está com a mão em meu ombro. Seus cabelos são curtos, castanho-claros, ela está com um vestido azul rodado e um suéter vermelho.

Quase imediatamente a reconheço: a menina do ônibus. A menina feliz do ônibus.

Eu não sei por que, mas vê-la agora só piora tudo. Eu não entendo. Mas é como se eu não a suportasse, não suportasse sua simplicidade ou a maneira gentil na qual ela se desculpou agora, mesmo que eu não faça a mínima ideia de quem ela seja. Isso é horrível.

Ódio gratuito é uma coisa horrível.

Eu não estou bem.

Sinto que preciso vomitar.

Eu quero tirar a mão dela do meu ombro, mas não quero ser rude e nem um babaca.

Ela me encara curiosamente, e então pende a cabeça um pouco para o lado, como uma criança.

É adorável, mas isso me irrita.

— Você está bem? — pergunta.

Tenho vontade de ir embora. Quero sair daqui, mas a forma como ela pergunta isso é tão sincera e amigável, que tudo o que eu consigo fazer é balançar a cabeça negativamente e me controlar para não cair no choro novamente.

Ela arqueia as sobrancelhas e então, lentamente, tira a mão do meu ombro.

— Por que não se senta de novo? — pergunta ela. — Vou trazer algo para você.

Eu não quero ir. Já não quero mais nada. Mas ela puxa minha manga gentilmente, sugerindo que eu volte para a mesa.

Com toda certeza eu não estou bem. Eu começo a andar e minha visão fica embaçada. Fico tonto de novo.

A menina está me encarando como se tentasse descobrir o que eu tenho, e a expressão dela é bem engraçada. Em qualquer outra situação, eu riria. Mas agora eu só consigo me concentrar em ficar de pé.

Eu me sento e apoio minha cabeça nas mãos novamente, prendendo a respiração para ver se o incômodo tremor em meu corpo cessa.

Ela ainda está aqui, do meu lado. Tenho a ligeira impressão de que ela está pedindo desculpas novamente, mas não faço questão de responder. Ao invés disso, eu apenas levanto minha cabeça e a encaro.

Daqui, de perto, consigo perceber que ela não é nada como imaginei que fosse, no ônibus, mais cedo. Achei que ela tivesse um rosto adolescente e esbelto, cheguei até a visualizar seus traços e suas maçãs do rosto em pensamento, mas imaginei tudo errado. Seu rosto não é exatamente bonito, ela tem traços meigos, como os de uma criança. Seu nariz é redondo e pequeno, se assemelha ao nariz de uma garotinha. Suas maçãs do rosto são bem salientes e são preenchidas por sardas. Ela é de um tipo diferente de garota, não do tipo que muitos rotulariam como “atraente”. Ela se encaixa mais no gênero “fofo”.

Contudo, seus olhos são o que mais chamam a atenção. Eles não são de uma cor normal, por isso me pergunto se ela está usando lentes. São amarelados. Um castanho puxado para o dourado-esverdeado, como âmbar. Lembram muito aos olhos de um gato. E o jeito como ela os usa, como se não olhasse só para uma direção, como se enxergasse até o fundo de minha alma, a faz parecer muito com a clássica femme fatale dos anos 40 — mesmo que ela esteja longe de ser uma figura sensual ou algo do gênero.

Sei que estou encarando-a demais, porque ela está fazendo aquela coisa de arquear as sobrancelhas novamente. E ela parece confusa e desorientada, prestes a correr.

Sinto-me mal por não prestar atenção no que ela diz.

— Desculpe? — digo, no intuito de entender o que ela está querendo me dizer. Minha voz está trêmula e patética, estou parecendo um garotinho chorão. Mas não há muito que eu possa fazer, pois realmente estou prestes a chorar.

Ela olha pra mim de uma forma interrogativa, e depois balança a cabeça sorrindo.

— Esqueça — ela diz. — O que você vai querer?

Eu não me concentro o suficiente, portanto, tudo o que digo é “hã, eu não sei” como um idiota.

Então ela começa a parecer preocupada de verdade.

— O que aconteceu com você? Você está bem? Parece que vai desmaiar. — E ela aparenta estar bem aterrorizada com essa possibilidade.

— Olha, desculpe-me pelas respostas desconexas, está bem? Eu não sou normal, você não precisa me perguntar se estou bem.

Ela me olha de um jeito estranho, e então sorri.

— Eu já volto — diz, saindo de perto de mim e entrando na cozinha.

Não fico sozinho por muito tempo, minutos depois ela aparece. E está caminhando em minha direção, carregando uma bandeja vermelha e a segurando no alto. As louças da bandeja estão tampando parte de sua cabeça, e ela cambaleia um pouco ao caminhar, o que é muito engraçado e a faz parecer ainda mais com uma criança.

Ela põe a bandeja em cima da mesa e só então me dou conta de que a bandeja está cheia demais. Obviamente as porções não são para uma pessoa apenas: um mocha de morango, um café expresso, dois bagels, e uma porção de biscoitos de canela.

Estou prestes a perguntar por que ela trouxe tanta coisa, quando ela puxa a cadeira no lado oposto à minha e se senta. Isso só me deixa mais confuso.

Então ela sorri e estende o café para mim, enquanto pega o mocha para ela.

— Você quer conversar? — pergunta. Eu tenho certeza de que minha cara denuncia minha confusão, porque ela me está praticamente segurando o riso agora.

E eu não a respondo, apenas encaro fixamente seu cabelo desastrosamente enrolado no topo de sua cabeça, e me pergunto o porquê de alguém querer ter um corte tão horrível desses.

Não estou acostumado a ver garotas como essa, ela é bem diferente das meninas de minha escola. Todas as meninas lá sentiam aquela necessidade de parecerem bonitas e atraentes, e estou percebendo agora que essa garota não aparenta ter esse tipo de preocupação. Ela é só uma garota estranha, com um cabelo estranho, que usa roupas estranhas e não tenta mudar isso. Posso perceber essas coisas ao notar que ela não está usando nenhum tipo de maquiagem.

Eu não sei por que diabos estou pensando nessas coisas agora, eu só não estou bem o bastante para falar. Ficar calado é a melhor opção no momento.

Dou de ombros, torcendo para que ela entenda que eu não consigo falar quando estou abalado dessa maneira, mas ela só franze as sobrancelhas e pega seu mocha com as duas mãos.

Ela fecha os olhos ao beber, e dá um sorrisinho, exatamente como uma criança.

Gosto disso.

Ela me parece ser extremamente inocente, principalmente agora, e isso me deixa um pouco mal, pois sei que estou sendo antipático com ela.

Não consigo evitar.

Eu mal penso quando estico minhas mãos mecanicamente até o café expresso e o trago aos lábios. Está forte, sem leite, e com açúcar — o que é totalmente sem graça, mas não posso culpar a pobre menina por errar feio na escolha do café. Ela não me conhece, mantenho isso em mente. Ela não faz a mínima ideia de quem eu sou.

Não desvio meus olhos dela em nenhum momento, e me pergunto se ela está tão desconfortável quanto eu. Logo decido que ela está perfeitamente confortável, porque, abrindo os olhos, ela sorri novamente para mim.

Eu tento retribuir, mas só levanto um pouco e de forma trêmula o lábio inferior, como alguém que sorri melancolicamente após horas de choro.

— Quem é você? — pergunta ela.

Essa pergunta me confunde ainda mais porque ela não perguntou meu nome, e sim quem eu sou. E eu não tenho a menor ideia de como responder isso sem parecer um deprimido perturbado, portanto, eu só digo:

— Sou Kenai Ramon.




Notas finais
O próximo capítulo sai em breve, espero que tenha gostado! :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.