Se eu Conseguir, eu ganho um Beijo?
3 Uma Conversa de Séculos
Notas iniciais
Eu sempre quis ser normal, só mais uma garota como todas as outras, que sai com os amigos, vai ao shopping, ao cinema, fazer compras e comer fora... Queria até mesmo ser invisível, minúscula e totalmente dispensável, a última a ser escolhida na aula de Educação Física, a que não tem dupla para as provas, a que tem que andar com a professora nos passeios... Até isso seria normal.
Mas eu não era normal. Nunca fui. Eu não era popular, nem excluída... Eu era estranha e de alguma forma todos os meus colegas sempre souberam disso, com uma certeza que só as crianças têm sobre essas coisas... Sabiam que, mesmo que me deixassem sempre de fora, eu nunca estava sozinha...
Quando eu era só uma criança, acreditava que eu tinha um dom, mas eu estava errada, como costumo sempre errar sobre o que me diz respeito. A verdade é que eu sou amaldiçoada e sempre fui assim, desde que eu me lembro, desde antes de eu nascer, muito antes, muitas vidas antes... Mas eu não percebi, até ser tarde demais...
Eu sabia que tinha alguma coisa errada comigo, porque ninguém era capaz de acreditar em mim, mesmo eu sempre estando certa... Nem meu pai, nem minha mãe, nem meus dois irmãos, Heitor, o mais velho, ou Páris, o mais novo. O único que às vezes era capaz de me ouvir era meu irmão gêmeo, Heleno, que conseguia olhar dentro de mim e ver além da minha estranheza, porque um pouco dela também existia nele...
Ao contrário do que esperavam as garotas da vizinhança, eu não segui a regra e, mesmo ainda sendo muito, muito esquisita, até mesmo pra mim, eu não me tornei um patinho feio quando entramos no Ensino Médio... Talvez, mais um dedo da minha maldição... Porque foi assim que, no primeiro dia de aula, meus olhos, negros como a escuridão mais profunda, encontraram dois olhos azuis, tão azuis quanto o céu no dia mais ensolarado, me encarando como se me conhecessem...
Apolo tinha acabado de se mudar com seus pais e sua irmã gêmea, Ártemis, para a rua paralela à minha e, no primeiro dia do meu primeiro ano, todas as garotas do colégio o queriam como se nunca tivessem visto um garoto na vida... Ele era como uma luz muito forte para ficar encarando, loiro, alto, com músculos definidos e um sorriso charmoso, uma voz melodiosa e um talento para fazer os outros rirem.
As semanas foram passando como sempre passavam pra mim, com momentos que nunca chegavam e momentos que sempre chegavam rápidos demais e eu sentia aqueles olhos me acompanhando de longe, com curiosidade e diversão, quase como se estivessem me perseguindo. Eu sabia o que significava aquilo, o futuro nunca pode se esconder de mim... Não era um amor adolescente à primeira vista... Não... Era o dia do qual eu fugira a minha vida inteira e que, mesmo que cada escolha que eu tenha feito tivesse tentado evitá-lo, chegara.
“Você não vai conseguir fugir de mim pra sempre, Cassi...”
Mesmo assim, eu tentava...
Todas as noites, eu sonhava que era perseguida por um longo caminho escuro e eu não era capaz de enxergar nada pela primeira vez desde que abrira meus olhos ao nascer; eu só podia ouvir os passos que se aproximavam cada vez mais, meu coração martelando apavorado em meu peito, minha respiração prestes a falhar a qualquer segundo. Quando eu não podia mais correr, uma mão de dedos longos e finos, brancos e gelados me alcançava e prendia meu pulso, me fazendo encarar sua figura, toda vestida de preto e encapuzada... Era uma mulher, eu não sabia como eu sabia, mas era... E tudo o que eu conseguia ver eram seus olhos, negros como a última golfada de ar antes da morte... Quando acordava, se não estava chorando, meu coração parecia partido...
Apolo se aproximou dos meus irmãos e os três o adoravam; logo não era só na escola que eu precisava me afastar sorrateira de seus olhares gulosos...
— Você parece ter medo de ficar sozinha comigo, Cassandra... – sua voz me pegou desprevenida, quando eu me esgueirei uma tarde até a cozinha pra preparar um lanche, enquanto os escutava jogando videogame no quarto de Heitor.
— Medo? – eu me virei, tentando não parecer apavorada. – Por que eu teria medo de você, Apolo? – ele deu risada.
— Porque, se eu não me engano, essa é a primeira vez que isso acontece desde que eu comecei a vir aqui... E foi só porque você não conseguiu evitar!
Eu não tinha mesmo conseguido evitar e isso me aterrorizava... Como ele tinha conseguido fugir à minha visão?
— Não se preocupe – ele riu, como se pudesse ler meus pensamentos e isso me deixou ainda mais preocupada. Lentamente, Apolo contornou a bancada da cozinha e ficou ao meu lado. – Eu realmente não vou te fazer mal!
— E por que eu acharia uma coisa dessas? – ele riu e acariciou meu rosto.
— Você sabe... – sua voz soou quase inaudível e me arrepiou. Ele não estava respondendo a minha pergunta, talvez nem tivesse me escutado. Eu afastei sua mão, despertando-o.
— Como eu não saberia? – eu respondi como se aquela fosse uma conversa antiga, de muitos séculos. – Foi você mesmo quem me jogou essa maldição... Você... Você é um deus cruel... – seu semblante mudou pela primeira vez, como se eu o tivesse ferido.
— Cruel? – ele repetiu, indignado e eu não sabia se meus irmãos podiam ouvi-lo. – Você se recusa a ficar comigo e eu é que sou cruel?
— É um direito meu... – me justifiquei e ele bufou. – Viver com você não seria viver, Apolo...
— Seria melhor! – ele pegou minha mão, me puxando pra ele e enlaçando minha cintura com seus braços. – Você viveria pra sempre! Nós nunca nos separaríamos!
— Não, seria prolongar minha maldição pela eternidade! – eu tentei me soltar, mas ele não deixou, segurando meu rosto e me fazendo olhar fundo em seus olhos.
Naquele olhar, ele me mostrou uma coisa que eu não conseguiria ver sozinha... Quando me amaldiçoou, Apolo me permitiu ver o que aconteceria num futuro certo... Mas ali, naquela cozinha, ele me mostrava uma possibilidade de futuro que dependia da minha aceitação para existir... Ele mostrava a mim, mas eu não era a parte importante da visão... Uma menininha pequena, de rostinho redondo e cabelos encaracolados corria diante dos meus olhos cheios de adoração e amor e foi uma sensação tão forte que era quase como se ela fosse real e minha. Não tenho certeza de quanto tempo durou aquela visão, mas eu me senti vazia no instante em que seus olhos desviaram dos meus e eu não a vi mais.
— Nós podemos ficar juntos e então você a teria, exatamente como você quer – ele sorriu e ficou satisfeito com minha hesitação. – Eu posso fazê-la feliz, Cassi! Por que você não me deixa tentar?
Fechei meus olhos, sacudindo a cabeça e finalmente me soltei de seus braços, tão fraca que eu podia cair no chão a qualquer segundo.
— Eu não consigo desejar o que me oferece... – respondi, infeliz e eu sentia tanta dor em meu peito como se acabasse de ver minha bebezinha sendo assassinada diante de meus olhos. – Por que tinha de fazer isso comigo? Por que tinha de me mostrar...? Eu pensei que minha maldição fosse só sobre não acreditarem nas minhas previsões...
— Você precisa saber o que vai perder também – ele respondeu, seco, frio e amargurado. – Eu quero que você saiba como é sentir ter alguma coisa que nem sabia que queria tanto, quando não pode ter mais!
— Mas eu nunca lhe pedi isso... O que eu mais queria era ser normal...
— Eu posso te fazer esquecer de novo...
— Quantas vezes você já fez isso? – perguntei, como se soubesse que a resposta me deixaria exausta.
— Não é a primeira vez que você preferiria esquecer, com certeza... – ele deu de ombros, tão infeliz que seu brilho ia se apagando pouco a pouco... Pelos deuses, eu não sabia explicar como me matava de culpa apagar o brilho do Sol...
— Qual é minha outra opção?
— Conviver com isso... – Apolo suspirou. – Aprender que vai ver coisas que ninguém vai acreditar se lhes contar e não vai gostar...
— Minha maldição é sempre estar errada... – lamentei.
— Mesmo estando certa – ele concordou.
— Não é um grande prêmio de consolação...
— Então, sabe como eu me sinto.
Nós dois ficamos em silêncio e ele tornou a olhar fundo em meus olhos, vendo todas as possibilidades que existiam por trás deles e que, talvez por um breve golpe de piedade quando me amaldiçoou, eu não enxergava.
— Como isso não o enlouquece? – perguntei, não tão curiosa quanto preocupada.
— Porque minha mente é infinitamente maior do que a sua e pode compreender todos os aspectos que o futuro pode ter – ele explicou da maneira mais simples que conseguiu.
— Isso quer dizer que o que eu vejo pode ser mudado?
— Você sempre pode mudar o futuro, Cassandra... Mas isso não significa que vai ser pra um futuro melhor do que o anterior...
— E existe um desses futuros em que você...
— Não – ele disse, rápido e impaciente demais e eu me calei. – É melhor que entenda agora que eu sempre vou estar aqui, porque, mesmo que continue me afastando, eu não sou tão mutável como o futuro é.
Eu assenti, um pouco assustada com aquela declaração.
— Mesmo sendo uma mortal tão cruel... – eu tentei brincar e sua expressão relaxou depois de muito tempo. – Eu posso pedir um favor?
— Se eu fizer, eu ganho um beijo? – ele barganhou e eu ri, revirando os olhos. – É só um beijo, Cassi... O que há de errado num beijo?
— Acho que se lembra do que me aconteceu da última vez que eu te beijei...
— “Coitadinha da mortal que vê o futuro”... – ele zombou e eu bufei.
— Esquece. Você é tão idiota que não faria nem se eu aceitasse namorar com você!
— Existe essa possibilidade? – ele perguntou e, pela primeira vez, pareceu surpreso.
— Namorar não é amar – eu expliquei e ele pareceu entender dolorosamente o que eu dissera.
— O que você quer de mim? Já que não quer meu coração? – ele perguntou, amargurado.
— Da próxima vez... – eu disse, aceitando a inevitabilidade da situação. – Pode me deixar tentar viver? Só um pouco?
Ele acariciou meu rosto com o sorriso mais triste que existiria no mundo, porque Apolo não pertencia a ele de qualquer forma...
— Nós nos veremos de novo, Cassi – ele disse, solenemente, negando meu pedido com a cabeça. – E, no dia em que morrer, saberá que eu estive ali...
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