Notas iniciais
Essa é minha primeira fic de Hetalia, então tentem não apedrejar muito, por favor. ç_ç

- O que você disse, Roderich? Acho que não escutei direito.

Mas que ótimo. Eu achava que estava seguro em minha mente silenciosa, mas aparentemente eu pensara alto demais e Antonio acabou por ouvir-me. Não havia alternativa além de repetir o que eu dissera.

- O maldito ficou com o meu livro — repeti, com um suspiro, assistindo pela janela enevoada o cair da chuva fina do lado de fora.

- Poxa, que chato — respondeu ele, um tanto desatento. O moreno agora brincava com as peças de um quebra-cabeças esparramado sobre a mesa, mas, ao invés de montá-lo, desmontava-o. Antonio, eu bem sabia, tinha seus próprios problemas, embora se esforçasse para mantê-los longe de nosso conhecimento. — Mas quem sabe ele apareça e te devolva, um dia desses. Seria a cara dele. — O espanhol deu um sorriso triste. A despeito de nossos conflitos no passado, eu via em seus olhos que, talvez, ele sentisse a mesma melancolia que eu. Era como se Antonio sentisse falta de algo, sentisse um constante vazio... Exatamente como eu. No entanto, eu me recusava a aceitar a hipótese de que aquilo tivesse a ver com a partida de Gilbert. Podia até ser que Antonio sentisse saudades dele. Mas não eu.

- Elizaveta anda diferente desde que ele se foi. É como se ele tivesse deixado tudo de cabeça para baixo... — Eu falava praticamente sozinho. Antonio já não prestava muita atenção, preso a seus próprios pensamentos. Mesmo assim, respondeu-me.

- Pensei que você estivesse feliz. Quer dizer, sem Gilbert, já não há quem o possa incomodar.

- Mas é claro que estou — respondi, às pressas. Era verdade. Eu o detestava, afinal. — Estou apenas constatando. — Dirigi meu olhar ao piano antigo, no outro extremo da sala. — Que seja. Vou tocar.

O espanhol olhou-me com indiferença e me acompanhou. Sentei-me ao instrumento, enquanto Antonio esparramou-se sobre o sofá, cabelos bagunçados e olhar fixo no teto.

Iniciei com um réquiem. Não demorou para que eu trocasse de canção, empenhando-me numa tristonha interpretação do Inverno de Vivaldi. Era uma música fria. Fria como o tempo lá fora. Fria como o tempo dentro de mim.

- Roderich — interrompeu-me o moreno. Mantive os dedos sobre as teclas para ouvi-lo.

- Sim?

- Você acha que ele vai voltar?

O tempo parou à minha volta. Tudo me lembrava daquela longínqua madrugada, tanto tempo atrás... Meu coração preencheu-se de uma esperança melancólica, e o som da chuva em nada colaborava para desfazer aquela atmosfera nostálgica.

Era como se Gilbert estivesse à minha frente outra vez.

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- Eu odeio essa chuva maldita! — o prussiano sujava suas botas negras ao chutar, com raiva, a terra molhada. — Não vai parar de chover, não? Eu não tô nem um pouco a fim de me molhar, e quero vazar logo daqui!

- O que você pensa que está fazendo, seu estúpido? — segui-o até o lado de fora, onde a tempestade se agravava. — Você não pode ir embora, idiota! Pense no seu irmão!

Muito embora Gilbert parecesse hesitar quando falei-lhe do pequeno, não foi por muito tempo. Ele permanecia de costas para mim, à frente, mas parara de caminhar.

- Não é só sobre o Ludwig, né?

- O quê? — perguntei, surpreso. Eu não entendia o que estava acontecendo. — O que quer dizer?

- Vamos lá, Roderich — ele continuava sem encarar-me. — Uma frase sua e eu fico.

Ruborizei. Uma parte de mim queria desesperadamente gritar a ele que ficasse... Mas eu não podia. É claro que não. Era isso o que ele tanto queria: testar-me, brincar com meu orgulho.

E eu não iria satisfazê-lo.

- Diz pra eu ficar, Roderich — eu olhava para o chão, ainda sem responder. — Só isso. Não custa nada.

- Pois vai esperar sentado.

Gilbert não esperava por uma resposta como aquela. Se ele achava que me possuía na palma das mãos, eu mostrava que ele estava errado.

- Você me odeia tanto assim? — Ele virou-se para o chão, e pude ver em seu perfil molhado pela chuva a sombra de um sorriso triste. — Tanto que não te faz nenhuma diferença se eu nunca mais voltar?

Bufei, raivoso, e virei-me de costas.

- Você vai voltar. Eu sei. Não vou me livrar de você assim tão fácil.

- Ah, sim. Esqueci que cê só liga pra coisas importantes. Eu fiquei com um de seus queridos livros velhos, lembra? Quem sabe assim cê se importa.

- Para me ver livre de você, abro mão de uma biblioteca inteira.

Silêncio. Eu não ia me iludir a ponto de pensar que havia ferido os sentimentos de Gilbert. Ele estava jogando, apenas. E eu ia vencer.

- Então você vai mesmo embora, não vai?

- Depende.

- Depende de quê? — sorri, com sarcasmo.

- Cê vai sentir minha falta, Roderich? — ele virou-se e pude ver seu rosto outra vez. Seriam lágrimas ou gotas de chuva sobre sua face?

Chuva. É claro que era chuva.

Olhei para ele novamente.

- Que diferença isso faria? — provoquei-o, irritado.

- Eu sei que não. Mas não custava tentar. — havia nele um quê de tristeza, de dor... Como se não quisesse partir. O que acontecera com Gilbert, por Deus?

Ele parecia estranhamente mais próximo de mim a cada instante. Eu me sentia inquieto.

- Vá embora, Gilbert. Ninguém te quer aqui.

- Eu vou — ele caminhou em minha direção. — Vou me mandar. Mas cê tem que me prometer uma coisa. — ele retomara sua característica expressão de prepotência e presunção, e estava exatamente à minha frente quando respondi.

- Qualquer coisa para nunca mais ver a tua cara.

- Promete que vai sentir minha falta.

Não tive tempo para responder. Ou tive, mas não o quis... O que sei é logo nossos rostos estavam unidos, seus lábios nos meus, molhados pela chuva.

Eu queria gritar. Mostrar o quanto precisava dele.

Mas não fiz nada.

Se o fizesse, eu perderia a partida.

E foi ele quem se separou de mim.

- Diz que quer que eu fique, Roderich. — sua voz assumira um tom quase doce. Não me parecia ele.

- Eu te odeio. Te odeio e quero que vá embora para sempre. É isso o que você queria ouvir?

Gilbert sorriu e deu um suspiro. Virou-se de costas e então, sem qualquer despedida, partiu.

A cada passo, eu desejava em silêncio que ele voltasse para mim. Ou que, ao menos, olhasse para trás.

Ele não olhou uma única vez.

- Maldito — minhas lágrimas se camuflavam na chuva que caía.

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- Sabe, acho que ele vai voltar. Espero que sim.

- Não sei para quê — respondi, com a mente de volta à sala.

- Espero que sim. Sua música... fica muito mais triste sem ele, Roderich.

Eu não acreditava no que ouvia, e principalmente no que sentia. Porque eu me importava tanto? Eu odiava Gilbert. Agora, mais do que nunca. Mas uma coisa era certa.

Ele podia ter nos abandonado, bagunçado minha mente, roubado-me um beijo e até mesmo estragado minha música.

Mas uma coisa era imperdoável.

- Droga, o maldito ficou com o meu livro...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!