Se Chaves Fosse Um Shonen
1 Capítulo 1 - Chaves may cry
Notas iniciais
— Seu Madruga, preciso dessas luvas — Chaves de pé na montanha cinzenta e desolada com rochas escarpadas estendendo-se da borda. Apesar do céu tomado por nuvens, o lugar permanecia perfeitamente claro.
O homem a quem um dia chamara de vizinho pairava sentado numa cadeira de plástico branca perto da extremidade do cume, de costas ao jovem. Havia uma ventania suave e gélida os atravessando. Seu Madruga soltou um ´´hmph``, o rosto dele pendeu a lateral e a íris negra encarou o rapaz do oito. Um longo arrepio atravessou Chaves que fez o sinal da cruz ao tocar testa, ombros e barriga.
— Se você as deseja, Chavinho — a aura azulada do velho se tornou visível e fez a corrente de ar se agitar na direção contrária a dele, pondo os trapos do garoto a tremular. A mão de Chaves foi ao chapéu antes que este voasse. — Terá que tomá-las… mas você já sabia disso.
O garoto do oito pôs as próprias luvas.
— Imaginei que fosse falar algo assim.
Seu Madruga deixou a cadeira de plástico, pegou o item pelo qual duelariam do encosto para costas da mobília onde este ficara estendido pelos cordões. Os calçou.
— Está motivado o bastante, Chavinho?
O órfão socou com toda a força. Um jab de esquerda que se tornou uma singularidade sob o impulso de sua aura, o movimento abriu um caminho no tecido do espaço tempo, um buraco de minhoca, o levando imediatamente a onde o sujeito também conhecido pelo nome de Don Ramon se encontrava.
Mas ele não estava mais lá.
Um clarão branco consumiu a vista do rapaz e um sonoro ´´tomaaa!`` a audição por um instante. Quando a visão tornou ao normal tinha as pernas bambas, a coluna semidobrada e sangue o escapando pelo canto da boca.
— E só não te dou outra porque… — o tom era melancólico e vindo do Seu Madruga de pé a esquerda do rapaz. — Vá para casa Chavinho, é seu último aviso.
O orfão ajeitou a postura, limpou o sangue com as costas do punho e pôs-se de frente ao Don Ramon com as mãos fechadas à frente do queixo que por sua vez era apoiado na base da garganta, uma perna mais para trás e outra adiante, ligeiramente dobradas.
— Peek-a-boo? O estilo do Mike Tyson, Chavinho? Isso é para me deixar bravo? — a aura do senhor aumentou ao redor dele. O aprendiz de Cus D`Amato fora o único a derrotá-lo ao longo de sua carreira. — Mas fique sabendo que isso só me deixa mais motivado.
Chaves avançou com outro jab, só que erguendo mais ombro, o tecido do espaço foi rasgado novamente e… dessa vez viu os passos ágeis do Seu Madruga indo para esquerda e lançando um cruzado rumo a si que…
— Parece que não vai ser uma decepção — o homem cujo punho acertou o ombro do garoto que cobrira seu alvo original, o queixo, ruidosamente e fazendo-o deslizar por sete centímetros. O velho se afastou saltitando, a mão direita fechada na altura da bochecha e a outra esticada a frente do corpo posto lateralizado.
Ele ficou sério, está usando sua variação do estilo do Thomas Hearns.
Chaves investiu contra seu antigo mentor, socando tão rápido que o som era o mesmo de um caça voando a mach 5. Mas o torso do Don Ramon movia-se para trás, frente e laterais, o tirando da zona de impacto e os pés matinham-no numa distância da qual o órfão só poderia usar golpes longos para ter chance de alcançar
Então ´´bum``. O garoto do oito estremeceu, os punhos desceram um tanto abaixo do queixo e o tronco pendeu a dianteira. Algo o havia acertado. A vista ficava turva, o rosto tinha virado sob o golpe e um fiapo de sangue descia-o pela têmpora. Não pude sequer ver…
Cerrou os dentes e punhos com extremo vigor, os músculos
tensionados ao limite.
— Está sendo muito afobado, Chavinho. Não sabe que não pode simplesmente socar cegamente sem que uma hora ou outra seja pego por um contra golpe perfeitamente cronometrado…?
Um gancho tocou o queixo do Don Ramon, vindo de um buraco de minhoca, e o lançou há treze metros de onde estavam. O osso rachou esfarelou e a luva do órfão teve a área de contato estourada.
Fim?
Chaves arfava. Colocara uma absurda quantia de aura no golpe.
Mas Seu Madruga levantou fazendo todos os pelos do rapaz do oito se arrepiarem e sua mão realizar o sinal da cruz. A boca do velho estava empapada de sangue. Começaram a caminhar um na direção do outro. Ergueram os punhos ao estarem no alcance de uma troca de socos, os olhos fixos no do outro, o odor de poeira e eletricidade carregado pela brisa. A aura de ambos cresceu ao máximo fazendo o cume estremecer e fragmentos do solo irem para cima enquanto esfarelavam.
Os punhos voaram, partindo de ambos, acertando aos dois, mandando sangue e dentes e pondo os rostos a virarem a diferente lados sob os impactos.
Até que joelhos tocaram o solo.
— Esplêndido, Seu Madruga — arfando, os braços pendendo moles as laterais do corpo e a face escondida em meio a inchaços. Mas ainda de pé. — Enquanto eu viver, jamais o esquecerei.
Notas finais
Ou não.
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