Scream 2016

9 Realezas do grito


Notas iniciais
Achei que os motivos do assassino ficaram mais bizarros do que imaginei, mas gostei do resultado final. Não sei de onde veio inspiração, mas já tenho o próximo capítulo terminado e a explicação de tudo. Pois é, está chegando ao fim! Se encontrar algum erro ortográfico medonho, da um toque que a gente arruma!

Olhei para a faca. Aquela lâmina metálica e afiada, capaz de tirar a vida. Havia sangue nela, de Victor, Marco e até mesmo meu. Tudo aquilo era tão diferente, tão fora do normal... Era até difícil acreditar. Era divertido. Levantei a máscara de ghostface, encostei a ponta da faca no rosto, abaixo do olho. Respirei fundo.

– Por que você gosta disso, Abel? – perguntei para mim mesmo.

Fechei os olhos, e deslizei a faca até próximo ao queixo. O sangue começou a escorrer entre a carne rasgada. Sorri.

– Eu não sei... – respondi a minha própria pergunta.

Subi até o segundo andar sorrateiramente. Ouvi passos se aproximando de algum lugar. Entrei em um quarto próximo e espiei pelo vão da porta. O inicio de amanhecer nublado trazia uma luz extremamente fraca e azulada para dentro da república. Emily passou as pressas, carregando Victor que deixava gotas de sangue pelo chão. Pararam por perto da escada que levava ao primeiro andar.

– Não da mais para mim – ouvi Victor dizer.

– Não Victor, por favor. Somos só você e eu agora. Aquele desgraçado do Abel é o ghostface, nós só temos que sobreviver até a polícia chegar.

– Eu não me sinto bem. Acho que... que perdi muito sangue, sei lá. Sinto-me estranho. Seu amigo é um doente...

– Victor levanta, precisamos nos esconder – ordenou Emily.

– Onde? Não tem onde se esconder nessa droga de casa.

Surpreendia-me que Victor ainda estava vivo, mesmo depois de ter esfaqueado ele no porão. Assim como me surpreendia Ross estar vivo, em algum lugar da casa. Consegui ver os dois no corredor. Victor estava sentado no chão e Emily estava parada em pé, focando sua atenção no rapaz. Victor era como um demônio do sangue. Tudo em que tocava se ensanguentava. O chão, as paredes, até mesmo Emily que o carregou. Eu queria ver todos eles mortos, um de cada vez. Senti um arrepio subir na espinha imaginando a morte de cada um, imaginando meu corpo coberto de sangue. Sai do quarto às pressas em direção aos dois. Quando notaram minha presença eu já estava perto demais. Empurrei Emily em direção as escadas. Ela rolou pelos degraus até o primeiro andar.

– Me deixe em paz! – berrou Victor. – Eu não quero morrer!

Agarrei em suas roupas enquanto tentava se arrastar inutilmente. Victor já não tinha forças para escapar uma segunda vez. E se não fosse por ele, Emily e Ross morreriam sem saber que eu era o ghostface esse tempo todo. A vida daquele sujeito praticamente desconhecido estava em minhas mãos. Aquela vontade estranha de querer vê-lo morto. Sentia-me tão diferente. Levantei a faca acima da cabeça. O golpe foi certeiro em seu pescoço, a faca transpassou sua carne e a ponta bateu no chão. Victor engasgou no próprio sangue. Cada fibra do meu corpo dizia para continuar, para agir contra a natureza humana. Retalhei seu pescoço, uma facada após a outra, decapitando-o. Agarrei a cabeça de Victor pelos cabelos e levantei na altura do rosto. Tinha uma expressão de pânico, os olhos revirados, sem vida. Sorri. Joguei a cabeça escada abaixo, rolando pelos degraus até parar diante de Emily que ainda se recuperava. Diante de mim, no fim do corredor, estava Ross. Pressionava o ferimento na lateral da barriga. Correu, e uma nova perseguição começou. Segui pelos corredores adentro do segundo andar, enquanto os gritos de Emily ecoavam ao fundo, ao ver a cabeça de Victor.

Esmurrei a parede por ter perdido Ross de vista. Desgraçado, ainda estava vivo. Segui com certo cuidado, atento. Algo bateu em minhas costas, desabei no chão. Era Ross, estava ali em pé. Apoiei-me nas paredes, e acabei ganhando um belo chute, e voltei para o chão. Atirei a faca no repórter, que rodopiou no ar, e o inofensivo cabo acertou seu olho. Tive tempo de me recompor. Era estranho tudo aquilo. Quando César entrou naquela noite pela porta do meu quarto, sedento por minha morte, meu instinto me dizia para sobreviver, para lutar até o fim, para usar o último resquício de força para me manter vivo. Agora, ali, na mesma república, meses depois, a situação era totalmente contrária. Meu instinto me dizia para matar, para usar o último resquício de força para tirar a vida de um ser humano, para ver o sangue quente escorrendo em minhas mãos. Eu queria carregar isso comigo, queria carregar o peso da morte da cada um. Queria ser o responsável pela morte de Ross, queria ver seus olhos perdendo vida lentamente enquanto eu o esfaqueava, cortava suas tripas a cada golpe. Aquele estranho instinto tomou conta de cada célula do meu corpo. Queria causar sua morte a qualquer custo. Aos berros, eu corri e saltei em cima de Ross. Rolamos pelo chão, e eu fiquei por cima. Matar. Era apenas isso que vinha em minha mente. Comecei a esmurrar o rosto do cara. Matar, e quanto mais violento, melhor. Ele revidava como podia. A faca? Não fazia ideia de onde foi parar. Por baixo da máscara, eu via o rosto do repórter manchando com o próprio sangue. Seus punhos acertavam meu rosto vez ou outra. Mas a vontade de matá-lo era tão intensa que eu sequer sentia a dores. Ele, desesperado pela sobrevivência, sequer devia sentir as dores também. Não sei se ele ouviu, mas eu, perdendo o controle de mim mesmo, não pude ouvir o chão estalando aos poucos. Focado em dar a Ross uma morte brutal, mal senti quando o assoalho do corredor se rompeu em pedaços. Íamos ter uma queda fatal, caindo em cima de uma mesa de vidro, mas eu me segurei na beirada do chão do corredor, e Ross agarrou em minha perna. Olhei para baixo, e notei em como a sala de estar da república era alta. A máscara escapou do meu rosto, esvoaçando até cair lá embaixo, revelando um rosto com hematomas e cortes. Olhamos um nos olhos do outro, Ross e eu. Seu nariz sangrava, além de várias feridas. Senti um fio de sangue escorrer pelo canto da minha boca, provavelmente algum soco que ele me deu, do qual nem senti. Podia chutar estar com um olho roxo também.

– Por favor... – implorou Ross.

Ainda tínhamos forças para nos salvar. Ross podia escalar agarrando meu corpo e depois me ajudar a subir também. Não seria difícil. Mas aquela vontade dentro de mim falava mais alto, aquela insanidade incontrolável que parecia até mesmo exalar da pele. Ela era muito mais divertida. Só então notei Ross me olhando de uma forma estranha, como se eu fosse um monstro de sete cabeças. Eu me peguei sorrindo, de um jeito sádico.

– Abel, não! – gritou Ross. – Seu desgraçado! Psicopata!

Fiz questão de olhar em seus olhos quando o chutei no rosto. Seu corpo caiu, os braços e pernas balançaram no ar por um período de tempo bem curto. A mesa de vidro estilhaçou com o impacto do seu corpo. Eu o vi se remexendo lentamente. Morto era como Ross devia estar, e não estava! Um vaso ruim de quebrar. Coloquei-me novamente no corredor do segundo andar. Liberei parte do ódio em mim na forma de um berro, simultaneamente soquei a parede. Agarrei a faca que estava jogada no chão e corri desesperadamente, um tanto desengonçado e manco. Desci o jogo de escadas para o primeiro andar. Encontrei Ross tentando se arrastar entre os cacos de vidro e hastes de metal da mesa destruída. Retirei o roupão negro e atirei para um lado qualquer, ficando com a roupa casual que estava usando desde o início.

– Eu me cansei de você Ross, cansei mesmo, de verdade. No começo achei que ia ser legal ter mais alguém para matar, mas você só faz merda aqui, uma atrás da outra. Eu cansei de você se intrometendo, cansei do seu documentário que nem vai existir. E cansei de ver que você está vivo!

Tive a impressão de ter algo vindo por trás. Quando me virei, senti um baque no rosto, e depois outro, que provavelmente quebrou meu nariz. Era Emily. Sua mão veio para mais um soco, e eu contra ataquei com a faca. A lâmina atravessou sua mão, e o grito de dor preencheu a sala. Foi bizarro, mas em seguida chutamos o estômago um do outro, ao mesmo tempo. Caímos os dois para trás, com uma iminente falta de ar. Estava pronto para atacar mais uma vez, quando Emily gritou.

– Chega!

Parei. Limpei o sangue que escorria do nariz com as costas da mão. Sem perceber, formamos um triângulo, Emily, Ross e eu.

– A verdade – ela disse. – Não me importo com o que vai acontecer depois. Eu só quero saber o motivo disso tudo.

Olhei para Ross, que se empenhava ao máximo apenas para respirar. Olhei para Emily, que pressionava a mão que a faca atravessou. Decidi dar a resposta aos dois, então comecei a explicar tudo...