Schizophrenia

1 Capitolo Unico



Song après songe tu me manques
Et les pas ne disparaissent pas
Et jour après jour je songe
À courir très doucement vers toi

Et sans rire, je souffre, car il a eu mon dernier souffle.
( Berceuse — Coeur de Pirate )

Chovia.

A tempestade começara repentinamente. A forte ventania fazia as janelas se debaterem umas contra as outras, o que somado a luminosidade dos relâmpagos e o barulho tenebroso dos trovões dava um aspecto assustador à mansão.

A ausência de luz nos corredores não impediu com que uma figura esguia saísse de seu quarto para passear pela mansão — pelo contrário, era o motivo de tal passeio. O ainda pequeno Itália não gostava de dias como aquele, pois os raios projetavam sombras assustadoras em seu quarto, e elas lhe davam medo. Elas se arrastavam até a sua cama e tentavam puxá-lo para junto delas, na escuridão; sussurravam-lhe ao pé do ouvido até que não aguentasse apenas ficar escondido embaixo das cobertas e tivesse que correr pelo casarão em busca de alguém.

Chegou ao final do corredor. Uma porta. Esperava que ela proteger-lhe-ia contra a Escuridão, mas mesmo quando abraçou o ocupante semi-adormecido do quarto pôde senti-las ao seu redor. Sacro Império Romano pareceu notar o que ocorria e apertou o italiano contra si, em um gesto de proteção.

E as vozes pararam, por um momento.

~~

O pequeno pintor correu até a janela, onde o loiro se encontrava olhando para a neve do lado de fora. Parou ao seu lado, em silêncio, e sentiu subitamente a sua mão ser pega por uma outra bem mais quente e ser entrelaçada na mesma. Sorriu. Era tão bom tê-lo por perto...

A porta abriu-se com um estrondo e lhes deu um susto, fazendo com que ambos se afastassem um do outro. Áustria encarava o mais novo com uma sobrancelha arqueada.

“Itália, o que estava fazendo?”

Olhou para baixo. “N-Nada, senhor Áustria.”

O musicista cruzou os braços, esperando uma resposta concreta. Itália suspirou.

“Só estávamos observando a neve lá fora, apenas isso.”

“Estávamos...?” Disse, logo depois ajeitando os óculos. Parecia inconfortado com algo. “Já não és meio grandinho para ter amigos imaginários?”

Itália franziu o cenho. “Imaginário? Sacro Império Romano não é imaginário, senhor Áustria.”

Roderich ficou pálido. Ao seu lado, o jovem de vestes negras se remexeu, desconfortável, e puxou o italiano para mais perto de si.

“Itália... Vamos embora...”

“Não!” Grunhiu o menor, soltando-se do outro bruscamente e encarando o homem de óculos. “O que houve com o senhor? Ficou tão estranho a ver o Sacro Império Romano. Ele voltou e... Vocês agem como se ele ainda estivesse... Fora.” Sua voz era apenas um sussurro quando terminou de falar.

A sala mergulhou em um absoluto silêncio por tempo, que parecera que ia durar para sempre, até que o austríaco tossiu para quebrar o gelo e se dirigiu lenta e silenciosamente para a porta.

Quando olhou para trás, seu rosto trazia pena.

~~


Hungria apoiou-se no parapeito da janela, olhando a sua pequena criança –pois Itália sempre seria uma criança para ela- lá fora, deitado sobre a grama, rindo e parecendo conversar com alguém.

Conversar... Era isso que a preocupava.

Áustria terminou de tocar o piano e seguiu o olhar da mulher.

“Estou preocupado com ele.” Comentou, levantando-se e se dirigindo até ela.

“Eu também.” Suspirou. “Ah, Rode, o que faremos? Ele nunca mais foi o mesmo desde... Desde que...”

Roderich afirmou com a cabeça. “Sim. Desde que ele partiu.”

“E... Ele age como se o Pequeno Império tivesse voltado. Já o ouvi falando sozinho pelos cantos... Rode, por favor... Isso não faz bem a ele.”

O austríaco suspirou. “Farei o que for possível para curá-lo.” E se retirou da sala.

~~

Os sussurros confortadores que a húngara lhe fazia não conseguiam acalmar as Sombras. Feliciano, envolto pelos braços da outra, se debatia, contorcia, esperneava tentando ir para longe da Escuridão, mas ela apenas ria. Conseguia ouvir os gritos do lado de fora, mas abafados pelos seus próprios.

Elas haviam levado o seu amor, e junto com ele a sua sanidade.

~~

Itália não via paisagem nenhuma nas pinturas que fazia.

Entrava em uma espécie de transe, como se fosse outra pessoa pintando em seu lugar, e quando via já estava totalmente sujo de tinta e à sua frente encontrava-se um quadro grotesco: uma pintura abstrata, com pinceladas violentas e bruscas, as cores embaralhadas umas nas outras, borrões. Algo que não fazia sentido nenhum e fazia todo o sentido do mundo.

Feliciano tinha medo de quando isso acontecia. Quando não conseguia ver a pintura do mesmo modo que os outros...

Era um retrato de sua mente e ninguém conseguia ver.

~~

Mais uma vez – e aquilo estava se tornando até casual para o italiano – tivera que ser segurado por alguém. Sacro Império Romano lhe segurava por trás, em silêncio, mesmo que recebesse ocasionais socos e chutes do menor.

Por que... Por que as sombras não lhe deixavam em paz?

Arrancava tufos de cabelo no desespero, tentando chutá-las para longe. Gritava.

“Feliciano, calma. Vai... Vai ficar tudo bem.” O loiro sussurrou, hesitante.

Depois de certo tempo, a escuridão os deixara e alguns raios de sol entraram pela vidraça, iluminando-os. Itália soltou-se do abraço e encarou o germânico, pensativo.

“As sombras dizem que eu estou apenas enganando a mim mesmo... Mas o que isso quer dizer?”

Por um segundo, uma expressão de dor apareceu no rosto do outro, mas esta rapidamente foi substituída por um sorriso acolhedor – apenas não conseguira deixar de transparecer culpa quando falou.

“Não deve ser nada. Você sabe que elas são más, só querem te confundir e te fazer mal. Mas eu nunca deixarei que elas se aproximem de você, então não se preocupe.”

Abraçaram-se novamente. O italiano descansou a cabeça no ombro do maior, suspirando.

“Elas dizem que você se foi. Mas você está aqui... Por que todos dizem isso, então?”

Sentiu os braços de Sacro Império Romano ficarem tensos ao seu redor, e estranhou. O de vestes negras ficou em silêncio por alguns segundos, e trazia novamente a culpa em sua voz quando voltou a falar.

“Todos eles querem nos separar, Itália. Áustria, Hungria, as sombras que nos perseguem. Mas eu não vou deixar que te levem para longe de mim.” Abraçou-o mais forte. “Não vou deixar...”

O italiano sentiu algo quebrar dentro de si, mas não conseguiu discernir o que era.

~~

“Você não tem nada para nos contar, Feli querido?”

Estava sentado no sofá da sala principal. O casal havia chamado-no para ter uma conversa, mas não sabia sobre o que se tratava.

“Não entendi, senhorita Hungria.”

Elizaveta sorriu gentilmente para ele, como se o mesmo fosse uma criança ainda, e afagou seus cabelos avermelhados. Roderich, ao lado da mulher no sofá oposto ao de Itália, observava-o com seus olhos de águia.

“É que você anda muito distante ultimamente, rapazinho. Estamos preocupados com você... Alguma coisa está lhe incomodando?”

“Não que eu tenha notado.” Respondeu, franzindo o cenho.

“Não mesmo, Itália? Não anda nem falando com alguém?” pronunciou-se Áustria, sombriamente.

O italiano ajeitou-se no sofá, desconfortável com o interrogatório. Pelo canto do olho, viu um pedaço de sombra penetrando na sala pelo vão sob a porta, e mordeu os lábios com força para não gritar. O músico notara isso, e logo estava ao seu lado, segurando-o pelos ombros.

“O que houve? Está tudo bem? Responda, Itália! Nós queremos te ajudar...”

Por um momento, ficara tentado a contar. Sobre tudo que estava passando, a confusão em sua mente, as vozes, as sombras, Sacro Império Romano...

Mas as sombras pularam sobre ele quando abriu a boca e taparam a mesma, sufocando-o. Tentou gritar, mas saíra mais um berro engasgado do que um grito em si, e caiu no chão, contorcendo-se. Áustria e Hungria tentaram segurá-lo, mas o adolescente se debatia demais. O ar começou a faltar...

A porta foi aberta com um estrondo e as sombras largaram-no. Prússia, um amigo-inimigo do casal, adentrou a mansão com todo o seu jeito arrogante e desleixado.

“Eh, pianista louco! O que você e a mulher-macho estão fazendo com o pobre Ita?”

Hungria ficou vermelha como um tomate, ajudando o jovem italiano a se levantar para não avançar no albino.

“Feli, por favor, vá para o seu quarto agora. Eu e Áustria teremos uma conversinha com Prússia.”

Itália afirmou com a cabeça e saiu correndo da sala, mas não subiu para seu quarto. Em vez disso, ficou escondido em um corredor próximo a sala para escutar a conversa, tomando cuidado de ficar longe das sombras.

“Gilbert, o que está fazendo aqui? Estávamos falando com Feliciano! Ele anda estranho ultimamente, achamos que ele está doente, e você ainda invade a nossa casa desse jeito!?” Berrou a húngara.

“Ah, como se eu fosse saber que vocês estavam conversando. Mas do que falavam?”

“Itália anda estranho.” Murmurou o austríaco. “Fica falando sozinho. Ri do nada. Fica concentrado de um jeito estranho quando está pintando. Precisamos levá-lo em um médico.”

“Ele está louco, só isso.” Concluiu o prussiano, calmamente.

Um barulho surdo, que parecia algo como uma panela batendo em algo oco, soou pelo local.

“EEEH! Por que fez isso, mulher!? Eu só estava falando a verdade!”

“Não diga essas coisas do Ita então, maldito!”

“Parem de brigar.” Roderich bufou. “O que quer dizer com isso, Gilbert?”

Itália não pôde ver, mas o albino assumiu uma expressão sombria então.

“Eu sei o que guerras podem fazer com alguém, muito mais do vocês pensam, aliás. Destruição de um local, carnificina, terra suja de sangue, a perda de parentes ou de um amor... As pessoas ficam loucas. Perdem a cabeça. E vão para o sanatório!” Concluiu, estalando os dedos.

Silêncio.

“E... Bem, pelo que vocês me contaram... Itália era muito apegado ao Sacro Império Romano quando criança, não?”

Bastava.

Elizaveta soltou um grito sem querer ao ouvir um vaso se quebrando, e logo os três correram para o corredor.

Tiveram tempo de ver Itália sumindo no segundo andar.

~~

“Você me enganou.”

Sacro Império Romano estava no mesmo lugar, como sempre.

Itália encarou-o, arfante, parado junto a porta. O sol de fim de tarde iluminava parte do local, mas as sombras estavam lá, quietas e observando-os.

Tremia.

O germânico o encarou de volta, a culpa ardendo em seus olhos.

“Então você descobriu... Uma pena que não foi por mim.”

“E você me contaria, de qualquer jeito?”

Olhou para baixo. “Não.”

“Certo.” Respondeu, seco. “Agora eu entendo o que as sombras queriam dizer. Estavam alertando-me, não querendo me machucar.” Murmurou. “Era você a escuridão, não elas.”

O loiro levantou da cama, com raiva e punhos fechados, e andou rapidamente até o italiano. Este pensou que lhe bateria e fechou os olhos, mas se surpreendeu ao sentir uma carícia em seu rosto.

“É verdade o que elas dizem, então? O que todo mundo diz e eu não quis acreditar.” Perguntou em um fio de voz.

“Itália...”

Feliciano abriu os olhos e deu um tapa na mão do outro. Tinha tanta raiva... “É verdade que você morreu? ME RESPONDA!”

Mesmo com os olhos marejando, pôde ver que Sacro Império Romano assentia com a cabeça.

~~

Foi Prússia quem notou primeiro a nova presença na sala. Virou-se para avisar Áustria e Hungria, mas antes que pudesse falar algo, sentiu-se sendo abraçado por alguém.

“Eh? Fe-Feliciano...?”

Incerto do que fazer, segurou gentilmente o queixo do italiano e levantou seu rosto. Itália estava com o rosto inchado, chorando desesperadamente. O casal apenas observava-os.

“Feli, Feli... O que aconteceu?” Sussurrou o albino, acariciando os cabelos do menor.

Itália escondeu o rosto no peito do outro, abraçando-o com mais força. “Ele... Ele se foi, senhor Prússia. Eu nunca mais... Nunca mais...”

Prússia afastou o outro ligeiramente e se abaixou de modo que ficasse na mesma altura do mesmo. De alguma forma... Sentia como se seu coração estivesse se quebrando junto com o de Itália.

De repente, soube o que deveria fazer.

“Hey, Itália... Não importa quanto demore, não importa as consequências que sofrerei... Mas eu trarei o Sacro Império Romano de volta para você.”

Isso é uma promessa.”

Notas finais
Bom, se você leu até aqui, merece um prêmio! Sayu nii-chan, espero que tenha gostado e que tenha ficado à sua altura ç_ç E que a idéia de um Itália (fail) esquizofrênico tenha te chamado atenção também Q Mereço reviews?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!