15 de outubro de 1812

Alguns dias haviam se passado desde a minha caçada ao Lucio.

Por algum motivo…

Eu sentia cada vez mais vontade de treinar.

De sair pela floresta.

De caçar Gomendis.

De livrar aquele mundo deles.

De limpar Scarloon.

Mas havia algo estranho.

Eu fazia aquilo com muito mais facilidade do que antes.

Os Gomendis que antigamente eu julgava mais "sociáveis"… eu nem tentava conversar mais.

Assim que os via…

Minha primeira vontade era matá-los.

Era algo impulsivo.

Quase automático.

Mas eu estava tentando me controlar.

Porque…

Essa vontade era estranha.

Era boa.

Boa demais.

Boa a ponto de me assustar.

Matar alguém não deveria provocar aquela sensação.

Eu não achava certo gostar daquilo.

Porque, se continuasse desse jeito…

Eu acabaria ficando cada vez mais parecido com eles.

A diferença é que eles matavam porque eram obrigados.

Eu…

Estava escolhendo fazer aquilo.

E isso pesava muito mais.

Depois da missão, Guilherme havia ido embora.

Já o Rafa estava cada vez mais ocupado procurando os outros Madas.

Às vezes passava dias inteiros viajando.

Fico feliz por ele não sair recolhendo Artefatos de Scars o tempo todo.

Isso significa que mais e mais Scars conseguem continuar vivos.

Mas eu ainda precisava ficar mais forte.

Então meu treinamento nunca parava.

Até porque…

Amanhã seria o dia de caçar outro Mada.

E eu precisava mostrar o quanto evoluí durante esse último ano.

— AAAAAAAHHHH!!

Um grito interrompeu meus pensamentos.

Olhei imediatamente para cima.

O som vinha do alto do penhasco.

Quando ergui a cabeça…

Meu coração quase parou.

Uma Scar estava caindo.

E eu estava exatamente na base do penhasco.

Ela despencava numa velocidade absurda.

Se eu não fizesse alguma coisa…

Ela morreria.

Na hora.

Sem pensar duas vezes, ativei uma das cópias guardadas.

[Treincim = Ordem]

Esperei ela se aproximar o suficiente.

Mais um pouco…

Mais…

Agora!

[Pare]!

Instantaneamente.

Ela simplesmente parou no ar.

Como se o tempo tivesse congelado apenas para ela.

Corri até sua posição e a segurei antes que o efeito acabasse.

Logo depois, senti o peso do corpo dela voltar completamente.

Apoiei-a com cuidado no chão.

— Pronto… você está salva.

Ela me encarou completamente surpresa.

Mas, antes que pudesse responder…

Seus olhos se arregalaram.

— Ah… cuidado!

Olhei melhor para ela.

Seu corpo estava coberto de cortes.

Hematomas.

Queimaduras.

Arranhões.

Ela claramente havia passado por uma luta pesada.

Nesse instante…

O clima mudou.

Olhei novamente para o alto do penhasco.

Três Scars estavam descendo.

Dois vinham escalando a parede de pedra cuidadosamente.

Já o terceiro…

Simplesmente saltava na nossa direção.

Sem medo nenhum.

"Então esse deve ser o mais forte."

Sem perder tempo…

[Chá Ringan]

Olhei diretamente para ele.

Seu Impar foi copiado.

Fogo.

As habilidades apareceram imediatamente na minha mente.

[O u fogo ai, o u fogo ai!]

Cria fogo pela boca.

[E deixa queimar]

Absorve qualquer chama tocada com as mãos, recuperando um pouco de Impar.

[Queimadura reserva]

Manipula as chamas ao redor.

Entendi.

Era praticamente o mesmo conceito do Impar de Água.

Só que…

Com fogo.

O Scar abriu a boca enquanto ainda caía.

Eu já sabia exatamente o que ele pretendia fazer.

Abri a minha também.

As chamas cianas ao meu redor mudaram de cor.

Transformando-se em um intenso laranja.

[O u fogo ai, o u fogo ai!]

VOSHHHHHHHHH!!

As duas rajadas de fogo colidiram no ar.

Mas a minha venceu.

As chamas atravessaram completamente o ataque dele.

Engolindo seu corpo.

O Scar foi queimado ainda durante a queda.

Seu corpo despencou já sem vida.

Caindo pesadamente no chão.

— Ok…

Só então percebi uma coisa.

Eles não eram Gomendis.

Eram Scars comuns.

Eles estavam perseguindo aquela garota?

Será que…

Ela era uma criminosa?

Porque, se fosse…

Eu acabei de matar alguém inocente.

Respirei fundo.

— Com licença…

Abaixei cuidadosamente e coloquei a Scar no chão.

Depois caminhei na direção dos outros dois.

Os dois ainda estavam paralisados.

Olhando para o corpo carbonizado do companheiro.

Provavelmente sem acreditar no que tinham acabado de ver.

Levantei uma mão.

— Oi. Queria perguntar uma coisa.

No mesmo instante, ambos sacaram seus Artefatos.

— Ei, calma aí.

Só quero entender por que vocês estavam perseguindo aquela Scar.

— Ela matou os Scars do nosso bando! — um deles respondeu imediatamente. — Ela tem que morrer!

Atrás de mim, a garota respondeu quase desesperada.

— Mas eles tentaram me matar primeiro!

O outro Scar apontou para ela.

— E ainda teve a cara de pau de fugir depois!

— Vocês iam me matar! Vocês são lunáticos!

Vish.

Complicou.

Ela realmente admitiu ter matado os amigos deles.

Mas também disse que foi porque tentaram matá-la primeiro.

Ou seja…

Legítima defesa.

Enquanto isso…

Eles só queriam vingança.

Droga.

Eu era horrível nesse tipo de situação.

Não fazia ideia de quem estava certo.

Então tentei resolver da forma mais simples possível.

— Que tal vocês deixarem isso pra lá?

Os dois me encararam.

Continuei.

— Ela matou para sobreviver. Se os amigos de vocês atacaram primeiro… eles só receberam as consequências das próprias escolhas, não concordam?

— NÃO!

A resposta veio imediatamente.

— Ninguém mexe com a gente e sai vivo.

Essa frase.

Por algum motivo…

Me incomodou bastante.

Então dei de ombros.

— Tudo bem.

Pode deixar comigo.

Eu mato ela.

Pronto.

Atrás de mim, senti a Scar prender a respiração.

Mas um dos dois respondeu imediatamente:

— Não!

É a gente que vai matar ela!

Eu quero ver ela agonizando no chão!

Olhei novamente para eles.

— Eu sei que vocês querem vingança…

Mas ela não parece ser uma pessoa ruim.

Não podem simplesmente deixar isso comigo?

— Eu já disse que não!

Tá.

Agora começou a ficar irritante.

Esses caras realmente não iam desistir.

Olhei para os dois mais uma vez.

Depois sorri de leve.

— Então vai ser o seguinte.

Ou vocês deixam eu matar ela…

Ou eu mato vocês.

Que tal?

Os dois ficaram completamente em choque.

— Você… tá ameaçando a gente?

— Sim.

Não ficou claro?

Enquanto eu respondia calmamente, percebi um movimento vindo do Scar que estava em silêncio até então.

Sem dizer uma única palavra, ele ativou seu Impar.

Uma enorme pedra se desprendeu do alto do penhasco e despencou bem acima da minha cabeça.

POW!

Dei um salto para trás no último instante.

A rocha explodiu contra o chão exatamente onde eu estava.

Quando olhei de volta para ele, vi a expressão de frustração estampada em seu rosto.

Sorri de canto.

Então era isso.

Eles já tinham escolhido lutar.

[Copyraitos]

As chamas cianas envolveram o ar por um instante.

Minha espada surgiu novamente em minha mão.

O Scar mais irritado não perdeu tempo.

Seu braço se esticou violentamente na minha direção, como um chicote.

Nem precisei pensar.

SWINH!

Um único corte.

O braço dele caiu no chão.

Por um breve segundo…

Nem ele acreditou.

Então a dor finalmente chegou.

— AAAAHHH!!

Ele levou a outra mão ao ombro, encarando o próprio membro decepado.

Enquanto isso, o Scar das pedras permanecia parado.

Concentrado.

Provavelmente preparando outro ataque.

Não dei a menor chance.

Abri a boca.

As chamas alaranjadas voltaram a surgir.

[O u fogo ai, o u fogo ai!]

VOOOOOOOSHHHHHHHHHHH!!

Uma gigantesca coluna de fogo atravessou o campo.

As chamas o engoliram completamente.

Seu corpo desapareceu em meio ao incêndio.

Nem consegui enxergá-lo mais.

Voltei minha atenção para o Scar elástico.

Mesmo ferido, ele ainda avançava.

A raiva em seu rosto era quase palpável.

Tentou me acertar com um chute.

Só ergui o pé.

Pisei sobre a perna dele antes que o golpe me alcançasse.

Ele perdeu totalmente o equilíbrio.

Olhou para cima.

Eu já estava levantando a espada.

— Ah…

SWINH!

O golpe atravessou sua cabeça.

Seu corpo perdeu toda a força.

Caindo pesadamente no chão.

— Ufa…

Que canseira.

Guardei a espada e me virei para a garota.

Ela ainda permanecia onde eu a havia deixado.

Mal conseguia ficar de pé.

Seu olhar misturava medo…

Confusão…

E um pouco de desconfiança.

Quando nossos olhos se encontraram, ela perguntou baixinho:

— Você… vai me matar?

Balancei a cabeça.

— Não.

Eu menti.

Era só pra tentar acalmar aqueles caras.

Passei ao lado do Scar queimado.

Ele ainda respirava.

Seu corpo tremia entre as chamas.

Sem dizer nada…

Cravei minha espada em sua cabeça.

O movimento foi rápido.

Silencioso.

Depois olhei novamente para ela.

— Mas, pelo visto… eles realmente não estavam em condições de conversar.

Ela continuava me encarando.

Sem conseguir dizer uma palavra.

Acho que eu também não saberia o que fazer se estivesse no lugar dela.

Caminhei devagar até ficar na sua frente.

Então sorri.

— Me chamo Samuel!

Estendi a mão.

— O herói que vai libertar Scarloon.

Ela olhou primeiro para minha mão.

Depois para meu rosto.

Ainda hesitante.

— E você?

Como se chama?

Ela desviou o olhar por alguns segundos.

Respirou fundo.

Então respondeu quase num sussurro.

— Andressa.

Sorri imediatamente.

— Andressa?

Que nome bonito.

Ela não respondeu.

Mas, depois de alguns segundos…

Segurou minha mão.

Ainda sem conseguir olhar diretamente para mim.

Olhei rapidamente para os corpos espalhados pelo chão.

Depois para ela.

— Vamos conversar em um lugar…

Mais limpo.

Ela apenas assentiu.

Sem dizer nada.

E começamos a caminhar.


Levei Andressa até uma enorme árvore que ficava no alto de uma colina.

Dali era possível enxergar o Coliseu inteiro.

O vento passava calmamente pelas folhas, balançando os galhos acima de nós.

Era um lugar silencioso.

Bem diferente do cenário que tínhamos acabado de deixar para trás.

Sentei na grama.

Ela fez o mesmo.

Mas ficou alguns metros afastada de mim.

Parecia ainda um pouco desconfiada.

Resolvi quebrar o silêncio.

— Então, Andressa… qual é o seu Impar?

Levantei um dedo rapidamente.

— Ah! Espera! Não fala! Eu quero adivinhar!

Ela piscou, surpresa.

Depois deu um pequeno sorriso.

— Tá bom… pode tentar.

Sorri de volta.

[Chá Ringan]

Olhei diretamente para ela.

Seu Impar foi revelado diante dos meus olhos.

Água.

As habilidades apareceram imediatamente na minha mente.

[Mineral]

Cria água pelos olhos.

[Piscina]

Manipula água.

[Líquido de ficar dor]

Absorve qualquer líquido tocado com as mãos, recuperando um pouco de Impar.

Sorri.

— Água?

Andressa arregalou os olhos.

— É isso mesmo!

Ela me encarou completamente surpresa.

— Você acertou!

Levantei os braços, comemorando.

— Yey! Eu sou muito bom!

Ativei imediatamente uma das habilidades.

[Mineral]

Água começou a escorrer dos meus olhos.

Mas eu não estava chorando.

Era realmente água.

Logo em seguida…

[Piscina]

A água começou a girar ao meu redor, formando pequenas correntes que flutuavam no ar.

Andressa piscou algumas vezes.

Depois olhou para mim completamente confusa.

— O quê?!

Como assim você tem o meu Impar também?

Sorri.

— Hehe…

É segredo.

Ela inclinou a cabeça.

— Mas… você não tinha um Impar de fogo?

Como agora você tem Água também?

Pensei por um segundo.

Depois dei de ombros.

— Também é segredo.

Fiz uma pequena pausa.

— Tá…

Meu Impar é copiar os Impares dos outros.

Ela congelou.

Os olhos pareciam brilhar de curiosidade.

— Sério?!

Como assim?!

Isso é incrível!

Então você pode ter qualquer Impar?

Balancei a cabeça.

— Não é tão perfeito assim…

Mas consigo copiar, desde que o Scar esteja na minha visão.

Ela parecia cada vez mais impressionada.

— Você consegue copiar mais de um?

— Consigo.

Até cinco ao mesmo tempo.

Ela permaneceu alguns segundos me encarando.

Depois sorriu.

Um sorriso sincero.

— Isso é muito legal…

Nunca conheci um Impar assim.

Normalmente os Impares são criar animais… elementos… objetos…

Mas copiar…

Isso é completamente diferente.

Ficamos alguns segundos em silêncio.

Até que resolvi mudar de assunto.

— Agora chega de falar de mim.

Quero saber de você também.

Ela levantou uma sobrancelha.

— De mim?

— É.

Você lembra da sua vida antes de Scarloon?

Ela respondeu naturalmente.

— Lembro.

Por quê?

Baixei um pouco a cabeça.

— Porque…

Eu não lembro.

E queria saber como era o Mundo dos Vivos.

Ela pareceu entender imediatamente.

Depois deitou na grama.

Olhando para o céu.

Fiz o mesmo.

Ficamos lado a lado.

Enquanto ela começava a contar sua história.

— Minha vida era tranquila.

Eu trabalhava como empregada para uma das famílias mais ricas da época.

Não sei se hoje eles ainda seriam ricos…

Mas naquela época eram donos de muitas terras.

E de um monte de outras coisas que eu nem entendia direito.

Minha rotina era simples.

Trabalhava o dia inteiro.

Dormia durante a noite.

E repetia isso todos os dias.

Era bem cansativo.

Olhei para ela.

— Devia ser difícil…

Ela virou um pouco o rosto na minha direção.

— Não…

Nem era.

Só de estar viva…

Já era um luxo.

Ela ficou alguns segundos em silêncio.

Depois voltou a olhar para o céu.

— Minha vida não tinha muita graça.

Nunca tive amigos.

Nunca saía.

Nunca fazia nada além de servir aquela família.

Franzi a testa.

— Você…

Nunca teve amigos?

Ela balançou a cabeça negativamente.

— Não.

Sempre fui sozinha.

Meu patrão não gostava que eu me distraísse.

Queria que eu trabalhasse o tempo todo.

Soltei o ar pelo nariz.

— Que cara babaca…

Ela deu uma pequena risada.

— Talvez.

Mas eu nem ligava muito.

Porque…

Eu nunca soube como era ter alguém que realmente se importasse comigo.

Aquilo me fez pensar por alguns segundos.

Depois me sentei.

Olhei para ela.

E falei a primeira coisa que veio à cabeça.

— Então…

Que tal a gente ser amigo?

Ela se levantou tão rápido que até me assustei.

— Quê?

— É ué… amizade.

Seu rosto parecia completamente perdido.

Como se aquela proposta fosse impossível.

— Você… quer ser meu amigo?

Ela olhava diretamente para mim pela primeira vez.

— Mas… por quê?

Dei de ombros.

— Porque você parece ser uma boa pessoa.

Sorri.

— E eu também sei mais ou menos como é ficar sem ninguém.

Ela abaixou a cabeça.

Mordeu discretamente o lábio.

As mãos tremiam um pouco.

— Eu…

Ela respirou fundo antes de continuar.

— Você quer mesmo?

Sorri mais uma vez.

— Quero.

Posso ficar repetindo isso até anoitecer…

Depois eu vou dormir.

Mas amanhã, quando acordar…

Vou continuar repetindo.

Por alguns segundos…

Ela não respondeu.

Uma pequena lágrima surgiu em um de seus olhos.

Mas, diferente do normal…

Ela não escorreu.

Ficou parada.

Flutuando.

Como se esperasse uma ordem.

Ela levou a mão ao rosto.

Visivelmente envergonhada.

— Isso…

Desculpa.

Eu tô sendo muito emocionada.

É que…

Eu não tô acostumada com isso.

Balancei a cabeça.

— Tudo bem.

Eu me adapto rápido às coisas.

Pode demorar o tempo que precisar.

Ela respirou profundamente.

Depois fez um pequeno movimento com os dedos.

A lágrima simplesmente disparou para longe, voando como uma pequena gota.

Ela sorriu.

Um sorriso tímido.

Mas completamente sincero.

— Tá bom…

Eu…

Eu quero ser sua amiga.

Abri um sorriso enorme.

— Aê!

Agora somos amigos!

Sem pensar muito…

Fui até ela.

E a abracei.

Ela congelou.

O corpo inteiro endureceu.

No instante seguinte…

POW!

Ela me empurrou com força.

Cambaleei alguns passos para trás.

— Uou!

Os olhos dela se arregalaram imediatamente.

— Desculpa!

Eu só…

Eu não tô acostumada com…

Afeto físico.

Foi muito de repente…

Levantei as mãos.

— Ah, foi mal.

É que eu gosto bastante de abraçar as pessoas.

Fazia isso direto com meus irmãos e com meu pai.

Então…

Sempre achei que todo mundo gostasse também.

Ela abaixou a cabeça.

— Você não precisa se justificar…

Sou eu quem deveria conseguir lidar com isso normalmente.

Mas…

Eu não consigo acelerar esse tipo de coisa.

Apertei a nuca, meio sem jeito.

— Hm…

Tudo bem.

Ela pareceu relaxar um pouco.

Então lembrei de outra coisa.

— Ah!

Queria te perguntar uma coisa.

Ela levantou os olhos novamente.

— P-pode perguntar.

— Onde você mora?

Ela juntou as mãos.

Olhando para os próprios dedos.

— Eu…

Não moro em lugar nenhum.

Sou uma nômade.

Inclinei a cabeça.

— Nômade?

— Alguém que nunca fica muito tempo no mesmo lugar.

Sempre estou andando.

De um canto para outro.

Assenti devagar.

— Entendi…

Mas…

Você vai continuar fazendo isso?

Como que eu vou ser seu amigo se você viver indo embora?

Ela ficou alguns segundos pensando.

— Eu…

Posso ficar por perto.

Gosto de lugares com rios…

Lagos…

Fontes de água.

Me sinto mais segura neles.

Até porque…

Ela soltou um pequeno suspiro.

— Não existe lugar seguro em Scarloon.

Nenhum lugar seguro…

Espera.

Uma ideia surgiu na minha cabeça.

Abri um sorriso.

— Já sei!

Ela piscou.

— Sério?

— Sim!

Vai resolver completamente esse problema.

Estendi a mão.

— Pode me seguir?

Ela olhou para minha mão.

Depois sorriu discretamente.

— Posso.

Sem perder tempo…

Comecei a caminhar na direção do Coliseu.

Ela veio logo atrás.


Durante o caminho…

O silêncio voltou.

Andressa observava tudo ao redor com atenção.

Como se estivesse esperando alguém surgir a qualquer momento.

Cada movimento fazia seus ombros enrijecerem.

Ela realmente parecia acostumada a viver fugindo.

Depois de alguns minutos…

As muralhas do Coliseu apareceram diante de nós.

Ela diminuiu o passo.

Os olhos percorreram toda aquela construção enorme.

— Esse lugar…

Ela murmurou.

— Você mora aqui?

Assenti.

— Moro.

Ela ficou alguns segundos encarando o castelo.

— Achei que ninguém pudesse simplesmente… morar num lugar desses.

Dei de ombros.

— Também achei.

Mas o Rafa deixa.

Ela olhou para mim.

— Esse Rafa…

É confiável?

Sorri.

— Bastante.

Às vezes ele parece bravo…

Mas ele é gente boa.

Ela respirou fundo.

Mesmo assim parecia nervosa.

Subimos as escadas principais.

Passei pelos corredores até chegar na sala dele.

A porta estava aberta.

Rafael permanecia próximo da janela.

Observando uma luta que acontecia na arena abaixo.

Sem nem olhar para trás, perguntou:

— O que foi dessa vez, Samuel?

Entrei sorrindo.

— Oi, Rafa!

Agora ele se virou.

— Oi…

Então seus olhos passaram por mim…

E pararam na Andressa.

Ela imediatamente abaixou a cabeça.

— Quem é ela?

Apontei para a garota.

— Essa é a Andressa.

Ela é minha amiga.

Rafael arqueou uma sobrancelha.

— Amiga?

— Sim!

Ele continuou olhando para ela por alguns segundos.

Depois voltou a olhar para mim.

— E…?

Sorri ainda mais.

— Será que ela pode morar aqui também?

Rafael fechou os olhos.

Suspirou profundamente.

Como se já soubesse exatamente onde aquela conversa ia terminar.

— Você vai ficar insistindo até eu aceitar…

Sem nem me dar opção de dizer não…

Né?

Abri um sorriso enorme.

— SIM!

Ele massageou a própria testa.

— Imaginei.

Silêncio.

— Então ela pode.

Meus olhos brilharam.

— Yey!

Segurei a mão da Andressa.

— Vem!

Saí praticamente arrastando ela para fora da sala.

Enquanto corria pelo corredor ainda gritei:

— Valeu, Rafa!

Ouvi sua resposta ecoar lá atrás.

— De nada…

Eu acho.

Subimos até o corredor dos quartos.

Parei na frente das portas.

Abri os braços.

— Pronto!

Pode escolher qualquer quarto.

Só não aquele ali.

Apontei para uma das portas.

— Porque aquele é meu.

Ela observou o corredor inteiro.

Parecia surpresa.

— Eu…

Posso escolher qualquer um?

— Pode.

Ela caminhou lentamente.

Passando por uma porta…

Depois outra…

Até parar diante de um dos quartos vazios.

Abriu devagar.

Olhei por cima do ombro dela.

Era praticamente igual ao meu.

Ela entrou.

Deu uma volta pelo cômodo.

Depois se virou para mim.

Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

— Obrigada…

De verdade.

— Não tem de quê.

Ela respirou fundo.

Os olhos pareciam pesados.

— Eu…

Realmente preciso descansar.

Sorri.

— Tudo bem.

Durma bem.

Ela caminhou até a porta.

Antes de fechá-la…

Olhou para mim mais uma vez.

— Tchau…

Samuel.

Acenei.

— Tchau, Andressa.

A porta se fechou lentamente.

Fiquei parado por alguns segundos olhando para ela.

Depois sorri sozinho.

E fui para o meu quarto.


Fechei a porta atrás de mim.

O silêncio finalmente tomou conta do lugar.

Depois de tudo o que aconteceu nos últimos dias…

Lutas.

Caçadas.

Mortes.

Conhecer a Andressa…

Parecia estranho finalmente poder respirar.

Sentei na cama.

Respirei fundo.

Agora que não havia ninguém por perto…

Finalmente podia analisar o quanto eu havia evoluído durante esse último ano.

Começando pelo meu próprio Impar.

As mudanças foram bem claras.

Tempo de cópia:

3,5 segundos → 3 segundos

Meio segundo parece pouco…

Mas, durante uma luta…

Pode decidir quem vive e quem morre.

Duração das cópias:

5 minutos → 5 minutos e 30 segundos.

Trinta segundos extras.

Mais tempo para lutar sem precisar copiar tudo de novo.

Reserva de usos:

8 usos.

Essa continuou exatamente igual.

Cópias simultâneas:

5.

Também não mudou.

Limite máximo de cópias registradas:

7 → 8.

Pelo menos agora eu conseguia guardar mais um Impar.

Não era a evolução que eu esperava…

Mas ainda era uma evolução.

Sorri de leve.

Acho que, daqui para frente…

Esse vai ser meu ritmo de crescimento.

Segurei meu pescoço.

Sentindo suas presenças.

Dois Fragmentos.

Quando consegui o segundo…

Achei que simplesmente ficaria duas vezes mais forte.

Mas não foi assim que aconteceu.

Meu corpo evoluiu…

Só que de uma forma bem mais equilibrada.

Hoje…

Um soco meu equivale a aproximadamente dois socos e meio.

Minha velocidade chegou a 15,2 metros por segundo.

Minha resistência suporta cerca de 25 mil Nilson.

E meus sentidos…

Assim como meu raciocínio…

Estão aproximadamente 2,1 vezes melhores.

Confesso…

Foi uma pequena decepção.

Esperava muito mais.

Mas…

Parando para pensar…

Talvez faça sentido.

Se cada Fragmento simplesmente dobrasse minha força…

Os Madas deixariam de representar qualquer ameaça.

Seria injusto.

Talvez…

O próprio mundo tente manter um certo equilíbrio.

Mesmo que esse equilíbrio…

Só exista quando se trata de mim.

Deitei na cama.

Também percebi outra mudança.

Minha habilidade com espadas melhorou bastante.

Não porque treinei alguma técnica específica.

Mas porque meu corpo inteiro ficou mais rápido.

Mais forte.

Mais preciso.

Cada golpe naturalmente ficou mais eficiente.

Fechei os olhos por alguns segundos.

Então…

Sem perceber…

Lembrei da Andressa.

Sorri.

Foi estranho.

Durante tanto tempo…

Tudo o que eu fazia era pensar em ficar mais forte.

Em derrotar Gomendis.

Em caçar Madas.

Agora…

Pela primeira vez…

Eu também queria proteger alguém.

Queria fazer amigos.

Mais amigos.

Pessoas que pudessem viver depois que tudo isso acabasse.

Levei a mão até o peito.

Era uma sensação estranha.

Quente.

Confortável.

Como uma pequena chama queimando dentro de mim.

Uma chama que não machucava.

Só me dava vontade de continuar seguindo em frente.

De ficar mais forte.

De derrotar o ADAM.

Aquele palhaço…

Soltei uma pequena risada.

Fechei os olhos.

Porque amanhã…

Seria mais um dia cheio.

Ah.

E eu lembrei.

Eu já troquei de pernas.

Joguei as do Lucio em algum lugar.

Estou com minhas pernas de fabrica novamente!

Agora sim.

Posso dormir.