Scarloon Leandro II - Tosse
4 A RAINHA DO SANGUE
8 de fevereiro de 1800
Não sei há quanto tempo vivo nesta floresta.
Os dias se confundiram. As noites também. Minha vida virou a de um animal — sempre alerta, sempre escondido, sempre pronto para correr ou lutar.
Por algum motivo que ainda não compreendo, surgiram Scars de pele roxa que caçam outros Scars. Trabalham para alguém. Matam tudo e todos que não compartilham da mesma coloração.
Eu os chamei carinhosamente de demônios.
Já matei mais de cinquenta enquanto vivia escondido aqui.
Cinquenta.
O número deveria me assombrar. Mas depois daquela noite… nada mais me assombra.
9 de fevereiro de 1800
Hoje, algo diferente aconteceu.
Um demônio apareceu na minha frente.
Meu corpo reagiu no automático — dor de cabeça já pulsando nas mãos, pronta para explodir.
— A Sara me mandou aqui! — ele disse, erguendo as mãos em rendição.
Meu coração parou.
Ela está viva.
Aquele aperto no peito — que eu carregava desde a noite em que fugi — se desfez por um instante.
Mas a confusão veio logo em seguida.
Por que Sara mandou um demônio atrás de mim?
Foda-se.
Isso não era algo que eu podia ignorar.
Segui o demônio.
O caminho de volta ao Dôjo foi silencioso. Meus passos eram leves, meus olhos nunca deixavam de escanear a escuridão entre as árvores. Mas minha mente estava longe.
Quando finalmente avistei a entrada do Dôjo, parei.
O lugar onde eu treinei. Onde aprendi a lutar. Onde descobri que meu Impar não era uma piada.
Onde tudo desabou.
Respirei fundo. Entrei.
Ela estava lá.
Sara.
Sentada em um trono improvisado no centro do campo de treinamento. A pele… roxa. Como os demônios.
Mas o sorriso que abriu quando me viu… era o mesmo de sempre.
— Leandro! — ela se levantou, os olhos brilhando. — Que saudade! Sério, eu sei que você deve ter várias perguntas, então fica de boa que eu te explico tudo!
Realmente.
Muitas perguntas.
Ela me levou para uma sala reservada — a mesma onde descansávamos depois dos treinos. Sentei no chão. Ela fez o mesmo, bem na minha frente.
Como antigamente.
— Escuta — ela começou, nervosa. — Vê se não surta.
— Desembucha, Sara — cortei. — O que aconteceu depois daquele dia?
Ela hesitou. Os dedos brincavam entre si.
— Depois daquele dia… eu aceitei o acordo de Adam.
Adam.
O nome fez minha espinha gelar.
— E o que era esse acordo?
— Eu me tornei uma Mada.
— Mada?
— É… uma servidora de Adam. Alguém que comanda esses Scars roxos para causar o caos.
O desespero subiu como um incêndio.
— Que? — minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. — Como assim? Você vai trabalhar pra ele?
— Sim, mas escuta! — ela se apressou. — Eu consigo transformar alguns Scars que eu escolho em meus seguidores. E com isso, a gente faz o que Adam pede.
— O que vocês fazem? — apertei os punhos. — Me responde agora.
Ela hesitou. O rosto se contorceu — um quase-choro que ela rapidamente engoliu.
— A gente tem que matar alguns Scars. É isso que ele pede. Pelo menos um Scar por dia.
Silêncio.
Um silêncio tão pesado que parecia ter peso.
— … — minha voz não saiu.
— Leandro, calma — ela estendeu as mãos. — Eu sei, isso é horrível, mas me escuta—
— Você tá matando Scars, Sara? — interrompi.
Ela recuou, assustada.
— Calma, Leandro, eu tenho que fazer isso, entendeu?
— Sara… — respirei fundo, controlando o tremor na voz. — Por que você aceitou isso?
Ela pareceu pensar. Seu semblante mudou, tornando-se mais apreensivo.
— Por três razões. — Ela começou a contar nos dedos. — Primeiro: eu fui escolhida por ele. Meu Impar era "interessante" para ele. Segundo: se não fosse eu, ele escolheria outra pessoa. E essa pessoa poderia matar mais Scars do que eu, tendo a posição de Mada.
Pausa.
— E terceiro…
Seus olhos se fixaram nos meus.
— Eu fiz isso também pensando em você.
O impacto veio como um soco.
— Em mim?
— Sim, Leandro. — Sua voz estava mais firme agora. — Quando você me viu ali, ajoelhada, eu senti como se tudo pudesse acabar naquele exato momento. Então eu fiz aquele acordo. Só me tornaria Mada se Adam não te matasse.
Ela levantou os braços, imitando a cena.
— Droga… — murmurei.
— O que foi, Leandro? — ela perguntou, um sorriso trêmulo nos lábios.
— É tudo culpa minha, né?
O sorriso dela se desfez.
— Na-na-não! — ela gaguejou. — Leandro, se você estivesse lá ou não, eu teria feito essa escolha!
Ela acenou com a cabeça, tentando se convencer.
— Mentirosa.
Me levantei.
Ela me encarou, confusa.
— Mentirosa? Você acha que eu tô mentindo pra você?
— Sim! — minha voz ecoou pela sala. — Não tente me enganar! Eu te conheço bem. Você não pensaria em se tornar uma Mada se eu não estivesse lá na hora.
Você só inventou esses outros dois motivos pra tentar aliviar sua decisão de merda!
O sorriso dela se desfez completamente.
— Você se aliou a Adam. — Dei um passo à frente. — Me responde: quem ele é?
Ela pareceu receosa. Mas respondeu:
— Adam é o que ele mesmo chama de "Dono da Bola". Um ser que criou Scarloon. Recentemente ele despertou — pra ser mais específica, no dia 1º de janeiro de 1800. Ele disse que a era dele chegou.
— Dono da Bola?
— Ele não deu detalhes. Mas me disse que queria ver esse mundo que ajudou a criar ruir. Ele quer criar o máximo de sofrimento. Mas quer que sejamos nós a fazer a maior parte do trabalho. Ele já recrutou quatro Madas. O objetivo é ter dez. E deixá-las em volta de Scarloon, capturando os Scars mais novos, matando-os ou transformando-os em demônios.
— Isso que eu não entendo — cruzei os braços. — Esses demônios, com pele roxa igual a sua… o que aconteceu com vocês?
— Adam tem o poder de transformar Scars e controlá-los. Ele usou esse poder em nós, Madas, e nos deu o mesmo poder. Então a gente também pode transformar Scars em demônios. Mas o Scar tem que permitir. Se não, não funciona.
— Entendi.
Suspirei.
Ela pareceu chateada, mas tentou manter o sorriso.
— Ei, Leandro. Nesse mundo… eu diria que nem você tá seguro.
Fiquei confuso.
— Você provavelmente seria pego desprevenido ou ficaria exausto de lutar por várias horas seguidas. — Ela inclinou a cabeça. — Então eu te ofereço uma proposta.
Uma proposta.
Eu já sabia onde isso ia chegar.
— Você quer se tornar um demônio?
— Não.
Respondi imediatamente.
Ela arregalou os olhos, espantada com a velocidade da resposta.
— Mas por quê? — insistiu. — Eu tô te dando a oportunidade de se unir a mim. Pra que nós possamos ficar seguros. Sabe, como uma Mada, nenhum demônio iria te atacar. Não é o jeito mais fácil? Eu só quero te ver seguro.
— Seguro? — soltei uma risada seca. — He, Sara, não me faça rir. Você acha mesmo que eu vou virar demônio? Isso me dá nojo.
Ela recuou.
— Eu sei que vou ter que matar Scars pra sobreviver, né? Foi o que um demônio me disse antes de lutarmos. E vários também me disseram. Então vou ter que matar Scars pra sobreviver. Me responde, Sara!
Ela hesitou.
— Bem… para Scars como você… pelo menos um Scar por semana é o suficiente.
— Sua filha da puta.
— Que?!
— Você acha que eu vou me entregar e ir pro caminho mais fácil? É isso?
— Mas Leandro, eu só queria que você não—
— Cala a merda da boca, Sara! — explodi. — Você acha que eu vou me entregar pro lado do Adam?
Ela ficou em silêncio.
— Eu nunca vou pro lado daquele verme! — minha voz tremia. — Não sei o que ele fez com você, mas você pelo visto não entendeu. Você teve uma escolha. Mas escolheu o mais fácil.
— Como assim "tive uma escolha"? — ela retrucou, a voz subindo. — Não entendeu que era isso ou morrer?
— Então você acha que sua vida vale mais do que as pessoas que você matou? — encarei. — É isso que você tá me dizendo, Sara?
— Como que você chegou nessa conclusão maluca? — ela se levantou, os olhos arregalados. — Era eu ou outra pessoa! Você não entende?
— Sim, eu entendo. — Minha voz ficou baixa. — O problema é justamente esse, sua imbecil. Podia ser qualquer um. Mas foi logo a pessoa que eu mais amo nesse mundo.
O ar saiu dos pulmões dela.
Seu rosto se desfez.
— Desculpa, Sara. — Respirei fundo, sentindo o peso de cada palavra. — Mas não vou matar Scars inocentes pra ficar com você. Escuta bem o que eu te digo.
Nossos olhos se encontraram.
— Eu vou ser o Scar que mais vai matar demônios de Scarloon. Vocês podem ir transformando, mas eu vou eliminando esse mal. E depois…
— Nem completa — ela sussurrou.
— …infelizmente, eu vou ter que parar você também.
O rosto dela endureceu.
— Então você está me dizendo que pretende me matar?
— Não me faça falar, Sara. — Apertei os punhos. — Mas sabe de uma coisa?
Mesmo que você esteja com boas intenções… isso não te faz uma pessoa boa. O que você tá fazendo é igual a lixo. Menos do que os outros… mas ainda é lixo.
Ela me encarou por um longo momento.
— Leandro… pelo visto não vai dar pra te convencer mesmo, né?
— Acertou em cheio. — Cruzei os braços. — Eu vou acabar com esse plano de Adam. Você vai ver. Pode não ser agora… mas eu ainda vou parar tudo que tá acontecendo aqui.
Ela ficou em silêncio.
Depois, contra tudo o que eu esperava, um sorriso surgiu em seus lábios. Determinado. Quase orgulhoso.
— Beleza, herói. — Ela cruzou os braços de volta. — Então vamos lá. Se você pretende derrotar Adam, espero que tente me derrotar primeiro, né? Afinal, não pretende vencer o mais forte sem vencer seus peões primeiro, né?
A pergunta pegou desprevenido.
— Qual seria seu título?
Ela piscou, confusa.
— Meu título?
— Sim. Algo que vem depois do seu nome. Tipo sua especialidade. Ou um nome maneiro.
Ela pensou.
— Meu título… Sara… a Mada do Sangue?
Franzi o nariz.
— Que chato! Eu te chamaria de… — abri um sorriso — …Sara, a Rainha do Sangue!
O rosto dela se iluminou.
— A Rainha do Sangue… — ela repetiu, saboreando as palavras. — Achei um título imponente.
— Então, Rainha do Sangue — encarei ela com um sorriso desafiante. — Eu vou te derrotar num duelo e acabar com Adam.
— Vamos ver então. — Ela ergueu o queixo. — Só pra constar, eu tô muito forte. Aprendi uns rituais bem poderosos. Acho que você vai ter que se esforçar muito mais que quatro meses pra chegar perto de me derrotar.
— Pode deixar…
Olhei nos olhos dela uma última vez.
— Eu não te odeio completamente… Mestra idiota.
Ativei a febre.
E fugi.
A floresta me engoliu novamente.
Mas agora, eu corria com um propósito.
Ela está mais forte.
Conhecendo a Mestra, ela não estava mentindo. Rituais poderosos. Níveis altíssimos. Muito mais que quatro meses de treino.
Que droga.
Vou ter que enfrentar ela pra salvar as pessoas que ela mata.
Mas é realmente isso que eu quero?
Eu nem conheço essas pessoas. Por que eu deveria fazer algo tão difícil por gente que eu nunca vi?
Não.
Isso não importa.
Ela se tornou uma Mada. Um ser que traz destruição. Então o melhor para este mundo… é que ela seja parada.
De um jeito ou de outro.
Ela com certeza pensaria o mesmo se estivesse no meu lugar.
Essa foi a minha escolha.
Tenho raiva de ir pelo caminho mais fácil.
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