Scar Tissue
12 Tão divino quanto um elevador infernal
Notas iniciais
“Tão divino, um elevador infernal
Todo tempo, minha sorte acabou
Deixe para lá as consequências do crime
Dessa vez minha sorte acabou”
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Alice estava pálida e trêmula trancada numa sala escura e vazia. Primeiro ela ouviu vozes que foram ficando mais altas a medida que se aproximavam e então começou a ouvir os gritos da multidão, uns apoiando, outros condenando a forma como os delitos são tratados.
A garota esperava ouvir Josh gritando de dor, mas não foi nada disso que ouviu. O barulho que o chicote fazia nas costas de Josh, Alice ouviu com clareza, mas em nenhum momento ouviu clamo para que parassem, nem nada.
Durante um bom tempo a filha de Vênus ficou ali, encolhida, chorando por Josh. Foi então que ouviu o grito de Término e seu instinto a pós em pé, alerta para a batalha. Alice ouviu o agito dos campistas, as ordens de Collin para cada legião e ficou furiosa quando reparou que Henry a havia trancado na sala. A menina olhou para os lados, procurando uma alternativa, mas estava tão escuro que bateu o joelho contra uma mesa baixa e sentiu uma pontada de dor, mas isso não era nada comparando a dor de Josh, então ela tateou a parede em busca de um interruptor de luz.
Quando a luz inundou a sala Alice olhou para os lados freneticamente, em busca de algo que a ajudasse. Como a sala era sem janelas ela não tinha como escapar dali, senão pela porta. Olhou numa estante, nada. Vasculhou a mesa de escritório e só viu papéis inúteis e então olhou na gaveta. Bingo! Pensou. Alice encontrara um clipe e era com isso que fugiria dali.
Saiu em disparada para frente do Fórum, mas Josh não parecia precisar de ajuda. Estava com as costas cortadas em retas que iam do ombro até onde era visível pela camiseta rasgada. As mãos estavam presas para frente agora e seu rosto continuava inchado, roxo e desfigurado, num momento fútil Alice pensou se um dia Josh voltaria a ter o rosto lindo que sempre tivera, mas desviou o pensamento, pois o filho de Apollo precisava de ajuda. O garoto estava desarmado e rolando de um lado para o outro, pulando e esquivando, apenas tentando não morrer nas mãos do Minotauro.
– Josh!- Alice gritou e ele olhou para ela, não sorriu, apenas gritou “armas” de volta. Alice entendeu, há anos via Josh treinar, mesmo que ele não soubesse, ela sempre estava por lá, olhando, zelando por ele e sabia o quão importante era ser rápida nesse momento, por isso invocou Mercúrio e pensou em ser como o Deus mais rápido, cortando o céu com seus sapatos alados. Mal notou ela quando chegou ao templo do áugure e pegou algumas adagas que haviam ali, para rituais de Collin.
Desceu de volta para a luta de Josh e para o espanto de da gorota Josh estava em cima do Minotauro, se equilibrando como um vaqueiro louco.
– Josh!- Alice arfou, estava com medo por ele.
– URA!- Gritou Josh lá de cima, no ápice da adrenalina de uma luta.
Alice nem pensou muito em o que fazer, esperou o Minotauro ficar de frente para ela e gritou para Josh erguer as mãos, ele o fez, e então ela lançou a adaga. A lâmina brilhante cortou o ar em direção às mãos de Josh e passou bem no meio entre elas, cortando a corda que amarrava firmemente as mãos do garoto, quando a adaga tornou a cair ele a pegou pelo cabo e cravou nas costas do enorme mostro, desceu, escorregando a medida que o eviscerava.
Josh caiu em pé, sorriu para Alice, era isso que ele gostava, banir monstros de volta para o Tártaro.
– Temos mais três desses e... – Josh parou de falar quando sentiu a dor queimante dos cortes provocados pelo chicote- Temos que matá-los.
– Não Josh, eu vou fazer uns curativos em você. Todas as legiões estão cuidando disso, vamos- Alice puxou Josh pela mão, mas ele não se mexeu, quando tratava de ser teimoso, ninguém conseguia o fazer mudar de ideia.
– Eu preciso ir. Collin disse que hoje nosso acampamento será destruído e que só um salvador pode livrar o acampamento Júpiter desse destino...
– E você acha que é você o salvador...
– Sim...
– Ótimo! Quer lutar? Tudo bem lute, mas coma ambrosia antes.
– Alice...
– Vou buscar.
Alice saiu correndo em direção ao Fórum e Josh pegou a espada caída de Collin, manuseou-a e se sentiu bem a usando, então parou para pedir uma bênção a seu pai. Josh achava estranho chama-lo de Febo, sendo que tantos utilizavam Apollo, então fechou os olhos e se imaginou falando diretamente com seu pai, Apollo.
Pai preciso de sua ajuda, essa batalha é importante para mim e quero que me abençoe com o poder do sol, com sua energia. Collin disse que o salvador irradiava luz e quem seria esse salvador senão um filho seu? Ajude-me pai. Preciso de você.
– O que está fazendo?- Alice chegou de supetão.
– Nada... Só me dê logo isso e vamos lutar.
Josh comeu rapidamente a ambrosia e se sentiu um pouco melhor, mas a espada ainda parecia pesar em sua mão. Correu em direção aos urros que não pareciam poucos. Chegaram à Nova Roma e a viram infestada de todo tipo de monstros. Drakons, Minotauros, um Dragão Etíope, Manticores e uns três pássaros de Estinfália.
Josh congelou por um momento. Nunca vira tantos monstros juntos e pela primeira vez sentiu tontura. Estava com medo, mas pensou em Henry e em como ele o ensinou a guardar o medo para longe. Chamou o pai mentalmente muitas vezes e partiu para a batalha.
Alice correu logo atrás de Josh e juntos flanquearam um Drakon enorme e verde, Alice empunhava a espada de seu pai e Josh a espada de Collin, enquanto um distraia com golpes para machucar o outro avançava procurando pontos fracos, explorando o inimigo até que ele virasse poeira.
Josh parecia incansável e Alice já estava um pouco cansada, mas não se permitiu parar, correu atrás de Josh durante todo o tempo, dando a ele apoio, cuidando quando sorrateiramente um Pássaro de Estinfália tentava abocanhá-lo. Alice não tivera dó de nenhuma daquelas criaturas, cortava, decapitava e tornava cada um que via em poeira. Os outros semideuses faziam o mesmo, mas cada vez mais pareciam surgir monstros, substituindo com dois a cada um morto.
Josh correu tão rápido que Alice o perdera no meio da luta, acabou que se descuidou e um Dragão Etíope a golpeou com força, ela acabou caindo de mau jeito na terra dura e perdera a espada na confusão. O mostro avançava olhando-a com interesse de quem quer matar e Alice se pegou com medo.
O Dragão abriu a boca, pronto para fazer algo bem doloroso, mas antes que ele pudesse terminar o movimento Alice sentiu suas calças sendo molhadas com o sangue do mostro, Henry acabara de salvá-la.
– Tome- Ele entregou a espada de volta a ela- Procure Josh e cuide dele.
Alice correu, desviando e se esquivando de golpes, espadas perdidas e corpos pelo chão, ela não queria pensar em quantas baixas teriam. Olhou em volta e então viu Josh, parado em um canto com as mãos voltadas para o céu, como se orasse.
Josh olhou para o céu e lembrou de que contaram a ele quando era pequeno que o sol era uma roda da enorme biga solar de seu pai, que cruzava de leste a oeste todos os dias, trazendo o calor e a luz da enorme bola de fogo. Josh ficara encantado e agora pensava nisso, em como o sol é poderoso, em como a ele sentia a energia dele irradiando pelo seu corpo, alimentando-o, tornando-o forte. Imaginou seus braços envoltos de luz e chamou o pai novamente, olhou para seus braços e eles irradiavam luz.
Sorriu. Estava funcionando. Imaginou essa luz fazendo uma espécie de bolha ao redor do acampamento, como uma proteção solar e tocou a terra. A mão brilhou mais forte e dela partiu uma partícula de luz que se estendeu exatamente como ele pensara, por todo o acampamento, fazendo uma proteção melhor do que a de Término, o deus das fronteiras.
Josh dividiu a mente em duas partes, uma estava concentrada na barreira e outra ele usou para se concentrar em matar os monstros que estavam ali dentro, mais não poderiam entrar, já era algo.
Alice não podia acreditar, ao redor do acampamento uma enorme bolha solar havia surgido e ela brilhava tanto que parecia que cegaria todos ali. Ela olhou em volta, procurando Josh, mas o que viu foi um cavaleiro irradiando luz e poder. A espada que era negra como a noite ficara toda iluminada, dourada e em cada mostro que cortava fazia a carne chiar, como se tivesse sido frita, mas logo ele desaparecia em poeira negra.
Todos os campistas estavam um pouco mortificados, Josh estava sendo tão rápido que muitas vezes ela sentia dificuldade em acompanhá-lo com os olhos. Alice não parou, continuou atacando cada monstro que via e eles também não pareciam querer sumir sem antes deixar um rastro de estrago por todo acampamento.
Em pouco tempo tudo estava acabado e a adrenalina se esvaia de cada campistas como o ar em seus pulmões, a bolha continuava lá e Josh continuava brilhando como o próprio sol, quem o visse diria talvez que o próprio Apollo descera do Olimpo para salvá-los do desastre.
Collin surgiu então, cambaleando e embasbacado com o que vira.
– Então você é o ...?- Collin deixou a pergunta incompleta, mas Josh sabia do que se tratava e sorriu.
– Sim.
– Isso não muda o que fez, levem-no para a quinta coorte, de agora em diante você pertence a ela e a legião Fulminata, não é mais um Victrix- Collin disse, supremo.
– O que?- Josh estava pasmo, acabara de salvar o acampamento e ninguém agradecia.
– É isso que decidimos, não levará mais chibatadas pelo que fez pelo acampamento. Sinta-se com sorte- E saiu.
Alguns campistas da quinta coorte pegaram Josh pelo braço e ele foi levado para uma prisão domiciliar, em sua nova coorte. Ao mesmo tempo em que ia sumindo da vista dos campistas, sua bolha de proteção solar também, como se morresse aos poucos com seu criador.
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