Scar Tissue
19 Os demônios de Adônis
Notas iniciais
“Quando você sentir o meu calor
Olhe nos meu olhos
É onde meus demônios se escondem
Não se aproxime muito
É escuro aqui dentro
É onde meus demônios se escondem”
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– Quem?- Josh não pôde deixar de perguntar, preso com de cabeça para baixo ele não conseguia pensar muito bem.
Adônis o olhou com descrença, ele achava que não havia um semideus em toda a face da terra que não o conhecesse, ele, Adônis, o mortal que fora disputado por duas deusas e que no fim, ficara com as duas.
– Sou Adônis, aquele que foi disputado por Vênus e Prosérpina e que ficou com as duas. Sou aquele que deu origem as anêmonas- Adônis estufou o peito e andou para perto de Josh, com sua toga branca ele até parecia um espírito saído do Mundo Inferior.
– O que você quer comigo?- Josh perguntou.
– Minha senhora, Vênus, mandou-me aqui para capturar um jovem semideus, de vestes negras, filho de Apollo e que empunhava um belo arco. Vejo que encontrei.
Josh revirou os olhos, estava começando a ficar tonto e sentia sua pele queimando onde a corda que o mantinha de cabeça para baixo apertava.
– Então me mate, é mais fácil assim.
Adônis tirou uma lâmina brilhante do meio de sua toca e a olhou contra a luz, era linda. Presente da própria deusa Vênus e ela o instruíra com clareza: Matar o garoto assim que o pegasse e levar a filha de volta ao acampamento sem um arranhão.
– Se assim você quer...
Adônis se aproximou de Josh, com a faca empunhada, estava pronto para cravá-la no coração do garoto impotente quando uma onda súbita de medo o percorreu. Ele não tinha coragem. Ele não era um assassino, era apenas um consorte de duas deusas e isso ele podia aguentar, agora, matar, não.
A faca pendeu a centímetros do peito do garoto e Adônis suspirou. Estava tudo errado. Deu um golpe certeiro bem no centro do nó e com um baque forte viu Josh cair no chão, sentar e o olhar com confusão.
– Só achei que não era certo- Adônis suspirou e sentou do outro lado da clareira, os javalis ficaram inquietos, bufando de raiva pela refeição perdida.
– Por quê?- Josh perguntou.
– Não sei. Nunca matei antes, já fui morto, mas não matei.
– Espere... Quem te matou?- Josh começou a encaixar as peças e uma antiga história começou a se formar em sua cabeça, mas se bem lembrava, era vinda de um graecus.
– Marte e seus javalis, um golpe certeiro e fui parar junto de Prosérpina, você sabe, houve uma grande rivalidade entre as deusas para me ter e então Júpiter decidiu que eu ficaria quatro meses livre, quatro com Prosérpina e quatro com Vênus.
Adônis sorriu, falar que fora disputado por duas deusas sempre o deixava inchado de orgulho.
– Mas isso é Graecum e não Roman!– Josh falou e a imagem do homem a sua frente tremeluziu, por instante com outra roupa.
– Pare! – Adônis colocou a mão na cabeça, a dor o estava invadindo.
– Escolha apenas uma forma!- O homem rosnou, meio animalesco pela dor e pela mudança de forma.
– Adônis Roman- Josh disse e viu que a imagem do homem voltou ao normal, com a mesma toga romana.
– Obrigado. Isso me mata!- Adônis riu, mas sem vontade.
– Então, posso ir consorte?
– Não! O que falarei para minha Vênus? Que o deixei escapar?- Adônis levantou e andou de um lado para o outro, falando com baixo com si mesmo.
– Fale que escapei! É isso Adônis. Me deixe fugir.
– Não poderei meu jovem semideus. Terei que encontrar outro meio.
Adônis estalou os dedos e quatro javalis foram para cima de Josh, em uma fração de segundo ele sentiu todo seu corpo sendo esmagado por três javalis e o outro babava em seu rosto, nem teve tempo de agir.
Já o consorte das deusas, foi rápido. Pegou uma corda da armadilha e passou em volta do corpo de Josh, prendendo-o bem com nós firmes. Não tinha coragem de matá-lo, mas deixá-lo sozinho e amarrado em algum beco escuro, ele faria.
– Vamos- Adônis puxou Josh para frente, mas não era preciso, pois o garoto foi andando sozinho, aceitando calmamente seu destino.
– Quando você faz algo errado, posso ver demônios em seus olhos- Josh disse, mais para si mesmo do que para Adônis.
– O que?
– Você ouviu.
– Isso não é errado, estou apenas cumprindo ordens de minha senhora Vênus- Adônis se sentiu ultrajado, começou a andar mais lentamente e pensou em como se sentiu quando Marte, o amante de Vênus o matou, apenas por ciúmes. É quase a mesma coisa, pensou.
– Sim, claro- O garoto ironizou.
– Você sabe o que é o amor não é? Eu realmente gosto da Alice e nesse momento ela está inconsciente em algum lugar daqui ou está me procurando, achando que eu a abandonei. E sabe o que dói mais? Saber que eu não vou mais poder protegê-la. Isso é o que dói mais. Não me importo se tem deusas nos caçando, desde que ela fique em segurança.
Adônis se calou e contra sua vontade uma lágrima correu em sua face, ele ainda lembrava com clareza quando fora condenado a passar quatro meses com Prosérpina, coisa que jamais quis. Sentiu-se tomando pelo desalento do amor impossível dos dois jovens e sem hesitar mais soltou Josh das amarras e devolveu ao arco e a aljava.
– Você tem razão. Encontre a garota, fique o máximo de tempo que conseguir perto dela, porque no final, é isso que importa. Não é o amor em si e nem o que fazer juntos, mas é o tempo que passam juntos- Adônis sorriu maroto.
– Obrigado Adônis, você é um cara legal, grego ou romano.
– Agora atira uma flecha em mim ou me dá um soco- Adônis ficou sério e se posicionou para levar um soco.
– O que?- Josh ficou pasmo com a atitude do homem.
– Ande garoto, algo que eu posso mostrar pra Vênus.
– Tudo bem- Josh desceu a mão num soco forte, que fez Adônis cambalear para o lado, trôpego pela força exercida.
– Ótimo, agora vá e até nunca mais- Adônis esfregou o rosto no local do soco e aos poucos foi sumindo, como névoa.
Josh suspirou, estava terrivelmente cansado, mas ainda tinha que encontrar Alice e contar o que houvera, mas ao chegar na árvore não conseguiu encontrar a menina e durante um tempo ficou ali em cima, dormindo, sonhando com o tempo em que sonhos eram apenas isso, sonhos e não presságios do futuro.
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