Say Goodbye
1 Goodbye
Notas iniciais
O tiro ecoou.
Ele não via mais nada, senão um borrão.
Não acreditou que, depois de tudo o que passaram juntos — dez anos! — não teria como se despedir.
Ainda mais, tendo ela, em memória, suas últimas palavras: “Um cara tem que comer, huh?”
Estúpido! Estúpido!
Como ele pôde ser tão idiota, a ponto de não perceber, que ela era um ser humano?
Sua melhor amiga! Esquecer-se que ela tinha sentimentos!
E ele a tratara daquela forma.
Não havia pretexto, ou resposta plausível para aquilo tudo...
Ouvia passos, e esperava vê-la ali, mas por que ela iria? Sinceramente, ele esperava mais é que ela se afugentasse. Viu um negro, e achou que fosse Tybor, quando ele olhou-o de relance, mas não era.
Não pela preocupação, tinha certeza de que não era ele.
- Senhor, você está bem...? A ambulância já está chegando... – a voz era atemorizada.
Elliot esforçou-se para conseguir murmurar o nome dela:
- Liv... Liv...? – o homem olhou-o confuso.
- A ambulância já está a caminho, senhor, fique calmo... – sussurrou o homem, novamente.
Elliot quase fechou os olhos por completo, mas sentiu quando o negro balançou-o para que ficasse acordado, e então, atento.
Por mais que quisesse, não conseguia ficar com os olhos abertos.
Ouviu mais passos, e soube que havia uma multidão à sua frente. Não quis levantar, muito menos, podia. Doía-lhe o peito, ficando cada vez pior, quando respirava.
- 10-13! 10-13! Officer down! – não, não, não; sim, sim, sim!
Elliot abriu os olhos, forçando-os a ficar abertos, quando ela ajoelhou-se na frente dele, acariciando-lhe a testa.
- El... It’s gonna be ok, hun, it’s gonna be ok... – e apagou.
°°
A maca era levada pelo corredor, e ela não deixava de acompanha-lo. Sentia-se inútil. Se, ao menos houvesse ido atrás deles, para ver o que aprontariam, Elliot não estaria quase sem vida, ao alcance de seus olhos.
Sentia-se impotente, sentia-se um lixo! Ela não o ajudara, quando ele mais precisou.
°°
Na porta da sala de cirurgia, donde Elliot se encontrava, Olivia sentiu os olhos marejarem, e os joelhos fraquejarem.
Abriu a boca, entretanto, não emitiu som algum. Os músculos contraíam-se dentro de sua blusa, inclusive seu coração, dizendo-lhe que deveria ter feito algo a mais, algo que pudesse salvá-lo de toda aquela dor.
Uma das médicas responsáveis por ele apareceu na porta, e puxou-a pelo braço, mas Olivia a impediu de levá-la.
- Sou a parceira dele... – sussurrou, com dificuldade. A doutora não discutiu, e entrou na sala.
- Precisamos de sangue O negativo! – gritou uma das enfermeiras. Olivia tremeu.
Pôde ver os olhos dele abrindo, e olhando-a com medo. O olhar dele era melancólico, e ela podia jurar que, se pudesse ver a si mesma, estaria vendo o mesmo olhar.
Sentiu o almoço voltar à garganta, e saiu da porta, por puro medo de ver a cirurgia dar errado, fugindo para o banheiro.
°°
Voltou à sala de espera, com o gosto de vômito na boca. Sentiu pena dos faxineiros que tivessem que limpar aquela cabine.
Ew...
A médica que tentou retirá-la da porta vinha vindo, e Olivia levantou-se num pulo.
- Detetive... Benson, certo? – perguntou ela. Olivia assentiu. – Seu parceiro já está no quarto, pode ir vê-lo.
- Qual o número?
- Duzentos e sete, bloco B. – respondeu a cirurgiã, já afastada.
°°
Os olhos abriram-se como os de um cão, quando fareja comida. Ele sentiu o perfume característico, e abriu os olhos.
- Você deveria ter se esquivado. – brincou ela. Ele riu baixinho, e retrucou:
- E você deveria ter ido embora!
Ela posicionou-se ao lado da cama – mais para maca – e segurou a mão dele.
- Como foi a cirurgia? – perguntou, tremendo. Ele olhou para o curativo no peito.
- A bala alojou-se no meu pulmão esquerdo... Perdi muito sangue, e eles disseram que eu poderia morrer. E, também disseram que você não saiu dali, até que a cirurgia acabasse... – gaguejou ele, ofegando. Olivia riu baixo.
- Sim, menos quando... – começou, arregalando os olhos. – Esqueça. Esqueça tudo o que lhe faz mal, você não merece sofrer desta forma, El...
Ele olhou-a com tristeza.
- Esqueça até as coisas que eu fiz, e disse lá na sua casa, com Bushido e Tybor... Por favor, será melhor para nós dois... – sussurrou ela. Elliot pigarreou.
- I can’t believe you’re saying that...
- Já ouvi estas palavras em algum lugar... – brincou ela, sem sorrir. Elliot ainda olhava-a melancólico.
Como ela queria que ele apagasse de sua mente uma das coisas mais verdadeiras que aconteceu em toda a sua vida?
- Não posso... – retrucou ele, olhando-a nos olhos. A melancolia se fora, e dera lugar a uma raiva aparente.
- Você tem que esquecer, El... – sussurrou ela. Ele exaltou-se, e mexeu-se desconfortavelmente na cama, soltando a mão dela.
- Não! Eu não tenho que esquecer nada! Olivia, eu acho que esta foi uma das coisas mais verdadeiras e apaixonantes que eu já fiz a minha vida inteira! Como você quer que eu esqueça?
Ela gaguejou.
- Cragen pediu transferência para mim... – sussurrou ela, dentre lágrimas. Elliot voltou a ter o olhar preocupado.
- O quê?
- Exatamente. É por isso que eu quero que você esqueça. Conseguiram capturar Bushido, e ele disse sobre Mike estar se agarrando com uma – pausou, e respirou – prostituta. Quando Cragen perguntou-lhe sobre a aparência da mulher, ele me descreveu. – sorriu tristemente – Não posso continuar aqui, El... I’m sorry...
Antes que ela pudesse ir embora, Elliot a puxou pelo braço. Olhando-o com curiosidade, Olivia aproximou-se um pouco mais, o suficiente, para que ele pudesse ter acesso aos seus lábios.
Capturou-os, sabendo que, apesar de ser a primeira vez, poderia ser a última. Olivia empurrou-o com delicadeza, por causa da cicatriz no peito, mas não podia fazer aquilo.
- Você sabe pra onde vai? – perguntou ele, acariciando a mão esquerda dela. Olivia sentou na cama.
- Provavelmente, para Boston. – disse, com repugnância. Odiava aquele lugar.
- Andy não trabalha lá? – perguntou, corando de raiva. Não a queria perto dele, jamais.
- Sim, infelizmente, mas era a única delegacia com vaga para mais um policial... – disse, tristemente.
Olivia levantou-se, e preparou-se para sair. Chegou a porta, e colocou a mão na maçaneta gelada.
- Liv...?
- Sim, El?
- Você vai trocar seu número? – perguntou.
- Não sei... Por quê?
- Queria conversar...
Olivia sorriu de canto, e saiu.
Foi a última vez que se viram.
°°
Comia rosquinhas, com a nova parceira. Sentia-se alegre, sem nenhum motivo aparente. A mulher levantou, e perguntou se ele queria mais um pouco de café.
- É como perguntar se macaco quer banana! – brincou ele. Ela riu.
Já era tarde, e só havia os dois ali.
Castigo pela papelada atrasada.
- Ah, tenho que ir buscar café. Já volto, quer alguma coisa?
- Não, só café, mesmo... E mais rosquinhas!
A mulher assentiu, rindo, enquanto se afastava.
°°
Concentrado nas palavras, não percebeu quando Cragen chegou. Nem quando outra pessoa o seguiu. Não era Sam, tinha certeza.
Sam era ruiva, esta era morena.
A porta do escritório fechou-se num baque.
°°
- Obrigada por vir, realmente foi de grande ajuda! – exclamou Cragen, olhando-a de cima a baixo, dentro do escritório.
- Don, eu realmente queria poder voltar, mas não vou conseguir. Além do mais, Andy me ajuda muito com meus problemas... – proferiu Olivia.
- E seu capitão? – perguntou ele, com um tom ciumento.
- Não se compara a você! – riu-se a detetive.
- Onde está seu parceiro? – perguntou o mais velho.
- Andy foi comprar café para nós, e eu aproveitei para dar um pulo aqui. Vejo que tudo está sob controle... – riu. Ele assentiu.
°°
- Yes, cap... Hun-hun... Right... Bye. – aquela voz não!
Elliot levantou os olhos, e deparou-se com ele.
- Ora, Elliot Stabler! – gritou ele, sorrindo.
- O que faz aqui, Andy? – perguntou, sem nenhum entusiasmo.
- Vim buscar minha parceira.
Minha parceira.
Minha parceira.
Minha parceira.
Minha parceira.
- Olivia está aqui? – perguntou, chocado.
- Sim, provavelmente falando com Cragen.
°°
Ao sair, Olivia deparou-se com um Andy sorridente, entregando-lhe café. Nem percebeu Elliot atrás dele.
- Pra que este entusiasmo todo? – perguntou, rindo.
- Vou ser pai! – exclamou, abraçando a parceira com uma força excessiva.
Ela já não sentia os braços.
- Andy, você vai me matar... – começou. Ele a soltou. – Obrigada. Bem, Don, espero fazer mais visitas, e...
- Vou até o carro, espero-te lá! – disse, ainda radiante, saltitando.
°°
Olivia riu, abraçando o capitão, que logo depois, entrou na própria sala.
- Puxa, isto não mudou nada... – sussurrou, para si mesma.
- É... – disse ele. Olivia olhou para trás, assustada.
Não podia ser. Já fazia cinco anos.
- Ainda me lembro do que aconteceu naquela noite, Liv...
- El, não... – sussurrou ela, olhando-o no olhos.
- Você queria que eu esquecesse, simplesmente! Eu não podia, entende? Eu sempre amei você, e isso nunca vai mudar, Liv! Aceite este fato, por favor!
- Eu... Não mudei meu número... – sussurrou ela. Ele assentiu. – E nem você, o seu.
Ele sorriu. Ainda conheciam muito bem, um ao outro.
- Então... Adeus...
- El, eu odeio despedidas... Como o último dia de verão, o capítulo final de um bom livro, a separação de um grande amigo... As folhas caem, você fecha o livro, diz adeus... Mas, as memórias sempre estarão conosco... Não importa o que aconteça, e espero que seja assim, conosco. – sussurrou ela, com os olhos marejados, não podendo impedir algumas lágrimas. – Não me esqueça, está bem? Não esqueça todas as nossas aventuras...
E saiu correndo, porta afora.
- Eu não vou! – gritou ele, mas era tarde demais...
Ela já havia saído do esquadrão.
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