— Está se sentindo bem?

Uma simples pergunta. Quatro simples palavras, num questionamento sincero. Ergueu os olhos para o mais novo, sentindo como se sua cabeça estivesse prestes a explodir. Não era ressaca, porque não havia bebido o suficiente para tal, mas os remédios também não o ajudaram a ignorar aquilo. Talvez o moreno notasse a forma ansiosa como movia as mãos, talvez percebesse seus olhares alternados entre o jornal e o relógio, como se tivesse um horário a cumprir.

Talvez Sam Winchester o conhecesse mais até do que ele próprio.

— Melhor impossível. — dirigiu-lhe um breve sorriso antes de voltar a se focar nas notícias.

Uma morte aqui e ali, mas nada que pudesse ser considerado um acidente sobrenatural. Nenhum sinal de animais perturbados, pessoas reclamando de estática, ou bruxaria. Arqueou as sobrancelhas, comprimindo os lábios numa careta que, aos olhos do moreno ao seu lado, era adorável. Nada de absurdamente ruim acontecia nos USA, e isso sim era surpreendente.

Coisas boas acontecem, Dean; quase podia ouvir a voz do anjo lhe sussurrando, e precisou sacudir a cabeça para afastar a sensação esquisita que tomou conta de seu peito. Mordendo o interior da bochecha, pediu mais uma xícara de café para a garçonete, que lhe lançou um sorriso sedutor, fazendo questão de inclinar-se mais do que era necessário sobre a mesa. Ato um pouco patético, mas, para não causar suspeitas, manteve os olhos na mulher até que ela virasse as costas.

Ao seu lado, Sam se mexeu desconfortável, e era nítida a aflição em seus olhos claros.

O loiro concentrou-se no forte odor do café, aproveitando ao máximo o amargor que lhe tomou os lábios quando elevou a xícara à boca. Meio segundo depois, abandonava a bebida quase intocada sobre a mesa, suspirando longamente. Sem apetite, porque a cabeça estava cheia demais para que pudesse sequer pensar em comer alguma coisa.

Sammy. Castiel desaparecido. O amor doentio. A droga do aperto no peito. Era como se os problemas nunca fossem acabar, como se ele nunca fosse ter paz.

— Dean...

— Eu estou bem, tá legal? — o encarou com raiva, as mãos cerradas em punho sobre a mesa. — Não precisa encher o saco o tempo inteiro!

O moreno apenas o observou com atenção, ignorando a forma como havia sido tratado. E, por baixo da toalha, sua mão alcançou a coxa do irmão, acariciando-a de leve. Isso teve um efeito imediato, e o mais velho relaxou um pouco, desviando os olhos para o tecido xadrez sobre a mesa, sem saber ao certo se a irritação era maior do que o arrependimento de tê-lo tratado daquela maneira explosiva.

Sacudiu a cabeça com veemência.

— Eu só preciso dormir um pouco. — garantiu, apesar de não ter essa certeza.

Sam continuou a encará-lo, buscando a sinceridade nos orbes turmalinos, e, recebendo em troca apenas a exaustão, assentiu minimamente, perguntando-se o que diabos mordera seu irmão pela manhã. Não era exatamente paranóico, mas, quando se tratava do bem-estar de Dean, qualquer coisa valia. Havia notado a maneira como o outro estava agindo desde que acordara, e também as leves caretas que fazia hora ou outra, como se sentisse alguma dor.

Podia até mesmo não ser nada de mais, mas, se tratando do primogênito, qualquer coisa era motivo de alarde; isso porque ele nunca, jamais permitia que soubessem a que nível de melancolia as coisas começavam a chegar. Então, se isso estava nítido em seus olhos, era melhor se preocupar, pois tudo deveria desabar em breve.

— Certo. — murmurou consigo mesmo, antes de falar diretamente com o loiro: — Volte para o hotel, descanse. Posso cuidar das pesquisas enquanto isso.

Ao contrário do que seria esperado, ao invés de uma piada de mau gosto, ou um olhar irritado, recebeu como resposta apenas um sorriso cansado. Enquanto comprimia os lábios numa linha fina que denunciava sua preocupação, Dean pegou vinte dólares na carteira e deixou sobre a mesa, mesmo que fosse uma atitude desnecessária, erguendo os ombros num gesto de indiferença ao receber um olhar ligeiramente surpreso.

— Pelo café. — foi tudo o que declarou, sem se dar ao trabalho de explicar algo mais enquanto virava as costas e saía da cafeteria.

Sam o observou pelo vidro, até que o irmão desaparecesse de vista, e levou as mãos ao cabelo num gesto de nervosismo. Não sabia o que diabos estava acontecendo com Dean nos últimos dias, ainda mais pelo fato de o loiro simplesmente se negar a dizer qualquer coisa a respeito; e, quando falava, era sempre algo relacionado a caçadas, não a seu estado físico e mental.

Desde que o apocalipse acabara, e Castiel não retornara. O moreno não se lembrava ao certo do que diabos tinha acontecido naquele dia. Dissera “sim”, tendo a certeza de que jamais retornaria para a Terra, tendo a certeza de que ficaria preso à jaula, com Lúcifer e Michael. Mas não. Seu irmão se negara a acreditar que o perderia para sempre, e, de alguma forma, convencera o anjo a ajudá-lo com aquela ideia maluca. Castiel serviu como um laço, como um elo que obrigou os arcanjos a segui-lo quando se dirigiu ao portal aberto pelo loiro.

Talvez tudo estivesse perdido, se não fosse aquele anjo teimoso, cabeça oca e curioso; que parecia amá-los como sua própria família. Talvez os próprios Winchester se perdessem naquele estrada sombria, se não fosse Castiel, com sua inocência, a permitir que tomassem as decisões que acreditavam ser corretas.

Mas Dean precisava do anjo, e não como um protetor ou “o cara que salvou o mundo”. Ele precisava do moreno ali, ao seu lado, mesmo que apenas para dar trabalho. Porque, quem tinha Dean ao seu lado, tinha um tesouro, mas ele era infinitamente mais dependente da pessoa do que ela dele. E, de alguma forma, talvez fosse esse seu erro.

Colocar tudo acima de si. Colocar tudo sobre seus ombros, e seguir em frente como se não carregasse nenhum peso; como se não existisse nenhuma preocupação o atormentando. Em meio a todo o restante, era isso o que Sam mais amava e, ao mesmo tempo, odiava em seu irmão. A situação era absurda, desesperadora, e Dean continuava a agir como se tudo estivesse bem, continuava a sorrir, continuava a atuar. Era como se todas aquelas feridas, toda aquela mágoa, todos aqueles machucados não significassem nada.

Era a pessoa mais determinada, ao ponto de se tornar suicida, que o moreno tivera o prazer de conhecer.

Sacudindo a cabeça, o rapaz se levantou, pegando o dinheiro que o irmão havia deixado, e se dirigiu ao caixa para pagar a conta. Não conseguiria ficar ali por muito mais tempo, até porque não encontrara nenhum caso aparentemente sobrenatural; se quisesse ocupar a mente para não pensar nas perdas que o Armageddon trouxera, precisaria falar com Bobby. E, se precisasse também de algum conselho sobre como lidar com o irmão, ninguém melhor do que o velho Singer para ajudá-lo.

Bobby era uma das poucas pessoas que conseguia, de fato, enxergar por trás de todas aquelas máscaras que Dean mantinha, por trás das mentiras; mesmo quando Sam se esforçava para fazê-lo, não obtinha os resultados que desejava. Mas já passara a compreendê-lo melhor, e isso era melhor que nada.

Enquanto pagava o café que nenhum deles tomara de fato, os olhos do caçula se voltaram para a neve fora da cafeteria. Lembrou-se da noite anterior, quando seu irmão saíra da cama e ficara na janela, observando os flocos brancos que caíam do céu, mas afastou a imagem da cabeça ao receber o troco. E, saindo do local apenas para receber uma lufada gélida de ar, tomou uma decisão definitiva.

Independentemente do que Dean pensasse a respeito, precisava, sim, de cuidados.

Sam iria mimá-lo, tomá-lo em seus braços e fazer toda aquela dor desaparecer.

Notas finais
2/5