Saving the Titanic
1 Bem-Vinda ao Titanic
Notas iniciais
Abri os olhos.
Por um momento fiquei confusa, sem entender quem era e muito menos onde estava. A luz do sol machucava meus olhos e tive que piscar várias vezes até finalmente conseguir enxergar alguma coisa. E então, fiquei mais confusa ainda.
Olhei ao redor procurando qualquer sinal de normalidade ou algo que fizesse sentido no meio daquela massa de pessoas que se acumulavam a minha volta.
—Senhorita? Está tudo bem? – um homem alto, vestido com um terno cheio de botões e um quepe, se aproximou com um sorriso cortês.
Não consegui responder a sua pergunta, sentia a minhas mãos tremendo e o suor escorrendo pelo meu corpo — o que era totalmente plausível já que o sol estava forte e o dia muito quente. A única coisa que eu fazia era olhar as outras pessoas que passavam por mim ignorando minha presença naquele mundo totalmente diferente.
Eu via moças andando para lá e para cá usando chapéus chiques e enfeitados e vestidos longos cheios de babados ou rendinhas, às vezes os dois. Homens usando terno ou roupas que simplesmente pareciam formais e quentes demais para aquela tarde ensolarada; alguns também usavam chapéus, que iam desde boinas, quepes até cartolas – daquelas que vemos em desenhos animados — a maioria carregava malas e pertences de todos os tipos, vasos, quadros, caixas de todos os tamanhos...
Algumas pessoas lançavam olhares estranhos na minha direção, e apesar de tudo estar muito confuso, não precisei pensar muito para descobrir o porquê. Eu estava usando a minha velha calça jeans, que já estava bem gasta nos joelhos, e uma blusinha rosa bebê que encontrei no fundo do meu guarda roupa naquela manhã. Ou seria ontem? Pelo que eu via, daqui a cem anos seria mais correto.
—Senhorita? – o homem do quepe chamou minha atenção novamente, agora um pouco menos cortês do que antes. – Quer ajuda com as malas?
—Que malas? – soltei sem nem pensar. Minha voz saiu rouca e seca, parecia que eu não bebia água há séculos; o que pensando bem, era o que talvez estivesse acontecendo, embora eu não entendesse como.
O homem soltou um suspiro bem audível e apontou com o dedo fino e comprido duas grandes malas que estavam repousadas aos meus pés.
—Hm... – eu olhava para as malas como se fossem seres de outro planeta. Não fazia a menor idéia de onde elas tinham saído, assim como todo o ambiente ao meu redor.
—Senhorita? – o homem chamou pela terceira vez, e percebi que ele já estava perdendo a paciência.
—Claro. – respondi, sem fazer a menor idéia do que eu estava fazendo, mas tentando me manter calma. – E as malas vão pra onde? – perguntei com a voz fraca como se esse fosse o maior mistério do mundo prestes a ser desvendado, tinha esperanças de que isso explicasse o que estava acontecendo, nunca em toda a minha vida eu tive um sonho tão realista e estranho como aquele; graças a Deus o homem não notou nada de esquisito na pergunta.
—Posso conferir no seu bilhete. – ele disse estendendo a mão.
Dei um sorriso amarelo no meio daquele caos. Já ia começar a inventar uma desculpa esfarrapada para o fato de eu não ter, ou melhor, não fazer idéia do que era esse bilhete – já que não era daquele lugar. Foi quando percebi que minha mão direta estava fechada em punho, e no meio dela, um pequeno pedaço de papel amassado, que eu tinha 100% de certeza de não estar ali antes, parecia combinar muito com o ambiente ao redor. Parecia pertencer aquele lugar muito mais do que eu.
Afrouxei o aperto da mão no papelzinho e tentei desamassar o bilhete, embora esse parecesse um trabalho impossível. Estendi a mão com o bilhete e o homem-do-quepe pegou, olhou e deu um grande sorriso.
—Aparentemente a senhorita vai para a suíte B55, da primeira classe. – ele disse já pegando uma das malas.
—Posso ficar com o bilhete? – pedi, indicando com um movimento de cabeça o papel que ainda estava na mão dele.
—Claro. – ele devolveu o bilhete e eu quase cai para trás ao ler o que estava escrito nele.
WHITE STAR LINE
RMS TITANIC
10 DE ABRIL DE 1912
“Titanic”. “RMS Titanic”. “Abril de 1962”. Essas palavras giravam na minha cabeça como um furacão.
Foi aí que notei que todas as pessoas que eu estava vendo iam para um único lugar, como várias formigas se encaminhando para a entrada do formigueiro. Virei-me lentamente, como em um filme de terror onde você sabe o que está atrás de você, embora tenha medo de encarar.
Assim que olhei a imagem que pairava acima da cabeça das outras pessoas que corriam de um lado para o outro, decidi que aquela definitivamente, era a coisa mais estranha, bonita e monstruosa que já vira em toda a minha vida.
O Titanic – eu sabia que era o verdadeiro (no mínimo 96%de certeza), pois já tinha assistido muitos filmes e visto muitas réplicas para dizer o contrário – era na mais correta das palavras: ENORME. Eu nunca tinha visto um navio de cruzeiro em toda a minha vida, muito menos andado em um, mas tinha a total certeza que caberiam três aviões ali dentro brincando.
Várias palavras passaram pela minha cabeça, mas a única coisa que eu consegui dizer naquele momento, e saiu menos que um sussurro foi “puta merda”.
—O que disse senhorita? – perguntou o homem-do-quepe, agora com as duas malas na mão.
Apenas balancei a cabeça, ainda sem acreditar no que estava acontecendo comigo, e olhando com uma cara de espanto admirado o grande navio na minha frente. Eu sempre tive uma grande imaginação, mas ela não era grande ao ponto de um sonho tão detalhado assim, disso eu tinha certeza.
O homem-do-quepe deu mais um grande sorriso, parecia já estar acostumado com o meu tipo de reação.
—Eu sei, é gigante não é? – ele não esperou uma resposta. – Mas não se preocupe, é o navio mais seguro do mundo!
Eu teria dado risada se a situação fosse outra.
—Claro que é. – falei de modo sarcástico, mas ele nem percebeu.
Homem-do-quepe me guiou no meio da multidão. Passamos por famílias que se despediam, pessoas que conferiam uma última vez suas bagagens, homens que iam e voltavam do navio carregando caixas.
Eu olhava tudo com fascínio e apreensão.
Quando chegamos à entrada do navio meu coração já queria sair pela boca. Embora minha mente dissesse “Corra sua idiota!” outra parte minha falava mais alto. Uma voz no fundo da minha mente sussurrou “Apenas você pode me salvar”. Sacudi a cabeça. Estar entrando a bordo do Titanic? Nada normal. Agora começar a ouvir vocês enquanto eu estava entrando em um navio afundado a mais de 100 anos? Pior ainda.
Não tive muitas dificuldades para descobrir o por quê do Titanic ser considerado o navio mais luxuoso da época. Ele era muito bonito por fora, isso não tinha como negar, mas por dentro era um sonho!
Segui o homem-do-quepe por vários corredores apinhados de funcionários que arrumavam os últimos detalhes antes da partida e passageiros ansiosos. Alguns cumprimentavam com breves acenos de cabeça, já outros passavam reto.
Entramos em um elevador que era movido por uma alavanca e possuía grades em vez de uma porta automática. Aquilo foi a coisa mais normal que eu vi durante toda a metade do dia.
***
A suíte B55 devia ser uma das acomodações mais caras de todo o navio, o piso era feito de madeira polida e as paredes pintadas com belas formas em cores escuras, emolduradas com painéis desenhados também na madeira. Uma enorme cama dossel de tamanho king size se encontrava dentro do quarto, com os lençóis e travesseiros limpos e alinhados. Havia duas mesinhas de cabeceira, uma de cada lado da cama, com um abajur requintado em cada uma delas. No centro do quarto, uma pequena mesa de refeições com duas poltronas vermelhas, que combinavam com um pequeno sofá no outro canto da parede. O quarto, ao que parecia, possuía iluminação elétrica, com várias lâmpadas de parede posicionadas em pontos estratégicos, oferecendo a melhor iluminação possível.
Andei pelo quarto e só parei quando cheguei à frente de um enorme espelho que fazia parte de uma penteadeira com os pés um pouco gastos. A imagem de tudo aquilo era surreal. Ainda olhava meu reflexo no espelho, com os cabelos castanhos amarrados em um rabo de cavalo, a pele mais pálida do que nunca e os olhos azuis curiosos e assustados.
—Mais tarde mandarei que uma empregada venha ajudá-la na arrumação do quarto. – disse o homem-do-quepe colocando minhas malas em cima da cama. –Não hesite em chamar se precisar de alguma coisa. Seja bem-vinda ao Titanic.
Apenas assenti, ainda olhando o ambiente ao meu redor. Ele fechou a porta e se foi.
Fiquei sozinha. Perdida em 1912.
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