Save me
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Bom, se tiver alguém lendo isso, agradeço e espero que goste!
Ps: Lexie tem mais ou menos 14/15 anos.
Lexie caminhava em seu cão urso polar no congelante frio do polo norte. Fantasioso demais? Não, não era. Os homens foram responsáveis por criações como essas. Misturas de raças. Irônico, já que não aceitavam a mistura entre "raças" humanas, mas veneravam a mistura de DNA de espécies animais.
O frio era excruciante. Lexie sentia seu pulmão vacilar cada vez que o gás carbônico era jogado para fora no processo de respiração, criando uma pequena nuvem de moléculas de ar congeladas próxima ao seu nariz toda vez que respirava.
Parou para observar ao fundo do horizonte um lugar escuro com árvores surradas e secas, por onde uma luz de brilho opaco subia, misturando-se ao escuro céu, que um dia já fora iluminado por cintilantes Auroras Boreais. Uma vez, lera em algum lugar que as Auroras paravam de brilhar quando o mundo real e o espiritual estavam em desarmonia. Algo que acontecia a tempos.
Suspirou pesadamente, antes de descer de Lola, seu cão urso polar e constatar que dali para frente, teria que seguir sozinha. Como sempre foi.
Logo começou a correr, almejando chegar logo ao seu destino. A adrenalina corria em suas veias violentamente, dando a impressão de que iriam explodir a qualquer hora. Como sempre quisera.
Lágrimas passaram a cair involuntariamente de seus olhos, lembrando-se do tortuoso caminho até ali. Não o caminho em direções e estradas, mas sim sua vida. Desde sua infância cercada de afazeres espirituais e responsabilidades, mas não responsabilidades como a de ir ao banheiro sozinha, como qualquer criança teria, mas sim a de salvar a humanidade.
Lexie, no fundo, nem sabia quem era a Humanidade. Nem desejava encontrá-la. Ou até mesmo salvá-la. Não por egoísmo, apenas achava que alguém que gritava por salvação das consequências de seus próprios atos, não merecia ser salvo.
Sempre lhe disseram que esse era o seu destino, seu propósito no mundo, mas nunca lhe perguntaram se era realmente o que queria, ou sentia.
Se engalfinhou pelas árvores unidas por grandes paredes de gelo, que tinham brechas desiguais e escorregadias. De longe, podia ouvir os gritos agonizantes de espíritos consumidos pelas trevas. Alcançou a fonte da luz, que se encontrava de baixo do solo, coberta por uma camada de gelo resistente.
Ajoelhou-se ao lado da luz, sem ânimo, suspirou uma última vez antes de fechar os olhos e sua mão direita tocar a chão por onde a luz passava.
Ao abrir os olhos, percebeu que se encontrava em um lugar praticamente cinza, cheio de tristeza e... ódio? Estava no mundo espiritual.
Onde antes, provavelmente, haviam árvores robustas e verdes, agora só havia lugar para estruturas de galhos secos, sem uma folha se querer e uma grama seca, da qual tocar espetava.
Parecia um parque, em meio a uma cidade grande e desenvolvida, mas há muito esquecida.
Lexie tocou a grama e logo a mesma começou a ganhar, gradativamente, um tom de verde vivo. O mesmo ocorreu com as árvores.
Caminhou um pouco, sendo quase torturada pelo silêncio do local. Lexie amava o silêncio, mas aquele era estranho... parecia que coisas ruins e inesperadas estavam prestes a acontecer. Olhava para os prédios, alguns em chamas, embora não houvesse nenhum vestígio de humanidade.
Logo avistou um lago com uma quase escassa água escura e suja. Pegou um pouco, fazendo uma espécie de concha com as mãos. Fechou os olhos, e quando os abriu, o lago exibia uma quantidade até excessiva de uma água cristalina e purificada.
Saiu do parque, sentindo o ar pesado do local. Parecia sujo, cheio de toxinas. Fechou os olhos novamente, se concentrando na fina brisa que tocava seu rosto. Logo, os abriu e já sentia o ar propicio para respirar.
Dobrou algumas esquinas aleatórias, indo parar em um lugar cheio de altos prédios com algo que parecia outdoors elétricos, já apagados a tempos. Tocou o asfalto, observando-os ligar, um a um, exibindo diferentes cores e valores.
Lexie rodou em torno de si mesma, observando tudo, embora não demonstrasse nenhuma reação a mais.
Não demorou a ouvir passos firmes se aproximando de onde estava. Não correu, não sentiu medo.
Aproximou-se um espírito, mais parecido com uma sombra negra, que tinha alguns vestígios de pequenos pontos dourados e aparentava ter mais de dois metros de altura, corcunda, com finas mãos com dedos desnivelados, no qual só se podia identificar fundos olhos brancos e um sorriso maléfico da mesma cor.
— Diga-me, pequena criança, quem és? – sua voz era grave, enquanto deixava a cabeça tombar para os lados, dando um ar sinistro.
— Sou Lexie. E você? – ela disse, sem parecer ter medo.
Ao ouvir o nome da jovem, os pontos dourados no espírito se intensificaram. Aquilo era esperança.
— Sou a Humanidade. – diz, em voz baixa.
— Deve saber porque estou aqui.
— Sim. Mas não quero que me salve.
— Também não quero salvá-la.
— Ora, garota petulante, por que não me teme?
— Ainda vejo algo de bom em você. Partes quase imperceptíveis para os outros, mas não para mim. Deixe-me lhe tocar, sentir suas dores, arrependimentos... – admitiu, referindo-se aos pontos dourados naquelas aura.
— Não quero que me salve! – aproximou-se, fazendo Lexie olhar em seus fundos olhos brancos. Ela subitamente se afastou, fazendo a sombra rir. — Está com medo, criança?
— Não.
— Então, o que viu?
— Eu vi... amor. – Lexie disse, meio desconcertada. — Você já amou?
— Sim. Incontáveis vezes. E em todas elas foi horrível. Só é recíproco se dói, se agoniza, tortura. – disse com amargura.
— Gosta de mim?
— Nem um pouco.
— Então, deixe-me lhe ajudar para poder sentir essa dor.
— Não. Você me odiaria.
— Então, você já odiou?
— Sim.
— E como é?
— Majestoso. Só é recíproco se dói, se agoniza, se tortura.
— Odiar é melhor do que amar?
— Não! Amar, apesar de tudo, é extasiante, anestésico. Odiar é agonizante, doloroso.
— Então, por que os define igual?
— Eu... eu... – a sombra ficou sem saber o que dizer.
— Não sabe mais a diferença entre os dois... – Lexie chegou à conclusão.
Humanidade pareceu hesitar, antes de dizer:
— Salve-me. – ajoelhou-se perante Lexie.
E assim ela o fez, tocando sua testa de olhos fechados, mas podendo sentir o espírito ser consumido pela luz dourada que antes eram apenas pontos.
Logo, a Humanidade se tornou bilhões de pequenas partículas douradas, que se espalharam pelos ares. Lexie observou e quando piscou novamente, percebeu estar na cúpula da luz onde tudo havia iniciado.
Seu nariz sangrava, mas ela não se importou, apenas olhou para o céu, vendo a luz tomar um brilho intenso e a Aurora Boreal brilhar cintilante no céu.
E pela primeira vez em muito tempo, Lexie permitiu-se sorrir.
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