Save Yourself.
2 Pânico.
Notas iniciais
Se tiver alguém aí, espero review, ok?
O garoto dos olhos verdes acabara por pegar no sono, logo após deitar em sua cama, enquanto tentava calar seus demônios internos.
– Gerard, você não vai levantar? – Ouviu os gritos da mãe pelo outro lado da porta. Ela estava puta, ele sabia. – Temos compromissos hoje.
Ele acabara de começar o seu dia, e aquilo já havia sido o suficiente. Se quisesse ver Gerard de mau-humor, era só falar sobre sair de casa e socializar com pessoas repugnantes. E, realmente, ele não pretendia levantar da cama naquele dia, apenas o fez pois o corpo doía de tanto dormir.
Quando já se encontrava sentado em sua cama, ele pegou o celular debaixo do travesseiro, confirmando a data e o horário. 14h23min, uma sexta-feira.
Suspirou e agradeceu pelo fato de estar de férias.
Desceu as escadas para o andar térreo lentamente, sentindo que o sono ainda o acompanhava.
– Não cansa de dormir? Você se trancou naquele quarto há umas vinte horas. – Disse Michael, ao ver o irmão aparecer na cozinha.
Gerard não respondeu. Apenas se dirigiu ao balcão, servindo-se de algum café forte e um tanto amargo. O irmão mais novo adorava irritar, e já havia se tornado um costume tão grande que Gerard nem percebia quando o garoto o dirigia alguma palavra.
– São duas e meia da tarde, vai tomar café agora? Você é louco! – Continuou o mais novo, tentando puxar assunto com o irmão, que não deu a mínima importância.
Gerard terminara de tomar sua xícara de café, enquanto observava o jardim pela janela. As árvores não tinham mais folhas, porém algumas delas – de cor alaranjada – jogadas pelo chão, deixavam perceber que o outono há pouco se fora. O céu não estava claro, nem escuro. Não tinha sol, mas definitivamente não estava chuvoso. Estava diferente; estava bonito.
Afastou-se da janela que estava, e deixou a xícara que bebera o café dentro da pia da cozinha.
Preparava-se para voltar ao quarto, já estava ao pé da escada, quando seus pais o chamaram na sala.
O garoto apenas revirou os olhos em desgosto, virando-se e caminhando ao lado oposto de onde acabara de sair. Seus pais eram um saco, realmente.
Sentou-se no sofá, em frente aos dois. Donna tinha um sorriso no rosto, feliz. Donald tinha seu braço em volta do pescoço da esposa e os dois conversavam, parecendo animados.
– Já disse que temos compromissos hoje, sim? – Perguntou a mãe, quando percebeu o filho sentado em frente aos dois, com uma expressão confusa e, ao mesmo tempo, irritada no rosto.
– Sim. – Respondeu o menino, amargo.
– Eu tenho um jantar na casa do meu chefe. – Começou o pai, como se escolhesse as palavras certas para convencer o filho a aceitar. – Ele quer me dar uma promoção, já que o gerente da empresa está se aposentando. Então ele chamou todos nós para um jantar.
O pai sorriu, confiante.
O filho rolou os olhos, a expressão de desgosto voltando ao seu rosto.
O sorriso do mais velho se desfez.
– Por que eu preciso ir? Levem o Michael e digam que têm apenas um filho. – Falou, friamente.
– Porque você também é nosso filho! Qual o problema em sair de casa pelo menos uma vez na vida, Gerard? Vai acabar criando teias de aranha naquele quarto. – Disse a mãe, o mau-humor começando a tomar conta.
– Sabem que eu não gosto de sair. – Argumentou. – Sabem que não posso sair. Aquele médico disse a vocês, não disse?
– Leve seus remédios. – O pai rebateu e, ao contrário da esposa, a expressão de vitória já tomava conta do seu rosto. – Ele disse que funcionam na hora, não disse?
O garoto suspirou em derrota.
– Ótimo, vou adorar conhecer seu chefe. – Ironizou.
Os pais sorriram.
– Esteja pronto às oito. Não vista apenas preto, por favor.
Após Donna completar a frase, os dois levantaram-se do sofá marrom. Gerard apenas observou os passos dos familiares em relação ao tal jantar.
Donald subiu as escadas, provavelmente à procura de algum dos seus ternos. Michael conversava com a mãe, a qual estava pegando as chaves do carro... Com certeza iria ao cabelereiro.
– Ouvi falar que eles têm um filho mais ou menos da idade de vocês... Vai ser divertido! – E, quando ela terminou a frase, o sorriso do Way mais novo se alargou em animação.
Donna beijou o rosto do filho mais novo e apenas acenou para o mais velho, saindo da casa em direção à garagem.
– Aonde ela foi? – Perguntou Gerard, porém não demonstrando nenhum interesse no assunto.
– Cabelereiro. – Respondeu o outro, abrindo um pacote de doces.
Tão previsível.
Ele sorriu vitorioso.
O irmão sentou-se ao seu lado no sofá, ligando a televisão com o controle remoto. Gerard viu que ele trocava alguns canais, mas não prestava tanta atenção quanto Michael ao que passava na tela.
Ele não queria sair... Ele não podia sair. E os pais sabiam disso, mas ainda o obrigavam.
Não se importava com quanto dinheiro seu pai poderia ganhar com isso, não se importava se poderia perder a chance de conseguir um cargo importante.
Aliás, achava isso ridículo. Ele sabia muito bem que seu pai só queria conseguir o cargo de gerente na empresa porque, bom, todos querem o cargo. Donald não queria o emprego em si, ele queria dizer a todos que o tinha. Ele queria o status e Gerard sabia disso. Porque, bom, é assim com todos... Não é?
– Achei Harry Potter! – Gritou Michael, tirando o irmão de sua linha de pensamentos e assustando-o. – Você lembra quando fomos ao cinema assistir Pedra Filosofal pela primeira vez? Que saudades! – Completou, nostálgico.
– Sim. – Respondeu vagamente.
Olhou o relógio redondo que ficava pendurado na parede da sala. Quase 16h.
Suspirou infeliz, enquanto levantava-se do sofá e deixava o irmão sozinho. Bom, era bom ele se arrumar.
Gerard subiu as escadas tão lentamente quanto havia descido, algum tempo atrás. Cruzou com seu pai pelo caminho, e o mesmo exibia um sorriso no rosto. Era incrível como, no momento, a expressão do filho era exatamente contrária à do pai.
Chegou ao quarto, abriu a porta e se dirigiu ao armário. Não havia nada que fosse do agrado dos pais, ele sabia. Então decidiu por uma camiseta, um moletom e um par de jeans. Como sempre.
Logo após, seguiu para o seu banheiro. Após tirar suas roupas e ligar o chuveiro, deixou a água morna bater contra seu corpo. Era como se levasse seus problemas embora junto com ela. Era como se, por alguns minutos, ele estivesse livre.
Gerard prezava demais a liberdade. Gerard invejava quem a tinha.
Não a liberdade financeira, não a liberdade de sair da casa dos pais, e nem tanto a liberdade de expressão – esses eram problemas para um futuro não tão distante, mas, ainda assim, um futuro –... Gerard queria a liberdade mental. Gerard queria ser normal e poder fazer a merda que quisesse, sem se importar com os efeitos que sua mente mandaria ao seu corpo.
Desligou o chuveiro, enrolando uma toalha à sua cintura.
Postou-se em frente ao espelho do armário, observando sua figura.
Era branco como papel, seus olhos eram verdes e seus cabelos eram negros. Era assim que as pessoas o viam. Mas Gerard sabia que tinha algo a mais.
Tinha o medo, a falta de controle e a paranoia. Gerard tinha tudo isso por trás dos olhos verdes. E, ao mesmo tempo em que ele queria que alguém percebesse e o ajudasse, ele não queria mostrar a ninguém, pois sabia que iria se sentir como se estivesse nu na frente de todos.
Com esses pensamentos, ele lembrou que precisava se vestir.
Adentrou o quarto novamente, vestindo-se de modo lento. Ao terminar, olhou-se pelo reflexo do vidro da janela. Não gostava do que parecia. Nunca gostou. Sempre se achou feio.
Para matar algum tempo, sentou-se em sua janela, ouvindo alguma música. Considerou fumar um cigarro, mas lembrou-se que poderia ter outro ataque e cair da janela, então preferiu apenas a música.
Ao final do álbum Unknown Pleasures, da banda Joy Division, percebeu que já se passava das 18h e, em pouco tempo, estaria saindo de casa.
Pegou o celular, seus fones de ouvido, um comprimido de um dos calmantes que insistiam que ele precisava e colocou tudo nos bolsos do agasalho. Saiu do quarto, fechando-o, e seguindo para as escadas... Novamente.
Ao chegar à sala, viu seu pai e seu irmão conversando animadamente. Sua mãe se encontrava no outro sofá, o qual Gerard e Michael assistiram televisão mais cedo, calçando suas botas.
Sentou-se ao lado da mãe.
– Ele deve ter uns dezesseis ou dezessete anos, se não me engano. Acho que vai se enturmar bem com ele! O garoto tem o mesmo nome do pai, eu acho. – Donald dizia, quando viu o filho mais velho se aproximar. – E, mesmo que não gostem deles, da casa, da comida ou de alguma outra coisa, peço que sejam educados... Por favor.
– Sei que foi uma indireta pra mim, e não se preocupe... Não vou nem falar com esse pessoal, o que significa que é impossível que eu fale algo grosseiro a eles. – Falou o menino, seco e sarcástico.
– Acho que já podemos ir, não acham? – Perguntou Donna, terminando de passar sua maquiagem em frente ao espelho da sala.
– É cedo, mas acho que não faz mal chegarmos um pouco adiantados... Até porque, bom, a casa deles fica a quase meia hora daqui. – Respondeu Donald, levantando-se.
Todos já estavam prontos e animados, é claro. Menos Gerard.
O pai pegara as chaves do carro, saindo da casa e sendo seguido pelos outros.
Gerard entrou no carro, sentando-se ao lado do irmão mais novo, torcendo que o mesmo tenha um pneu furado ou algo do tipo, então eles não precisariam sair de casa.
Doce ilusão.
Ouviu o barulho do carro sendo ligado, e sentiu as rodas saindo do lugar.
Ótimo, não tinha mais volta. – Ele pensou.
O caminho todo foi uma espécie de inferno. Cada vez que percebia que estavam mais perto, sentia suas mãos suando frio e seu coração batendo rápido. Quando chegaram ao destino, Gerard já sentia dificuldades para respirar. Sentia-se como se fosse morrer.
Saiu do carro, tremendo. Dizia repetidamente em sua cabeça que deveria ficar calmo. Mas sua própria mente nunca o obedeceu.
Observou o jardim, numa tentativa de distrair-se. A grama verde baixa estava espalhada pelo lugar todo, e muitas rosas vermelhas encontravam-se em alguns pontos. Alguns bancos brancos também faziam parte do ambiente.
Na porta, uma mulher de cabelos castanhos e bem vestida esperava por eles. Parecia ser alguns anos mais nova que Donna. Atrás dela, eles conseguiam ver um senhor quase da mesma idade de Donald também, com cabelos quase grisalhos e tinha um sorriso no rosto.
– Bem-vindos! – Disse a mulher, sorridente. – Eu sou Linda Iero. – Completou, apertando a mão do casal Way.
Michael apertara a mão da mulher também, porém Gerard apenas sorrira para ela e o marido.
Adentrou a casa. Era grande e parecia que pessoas muito frescas viviam ali, a julgar pela decoração e pela limpeza. O garoto decidiu que o melhor era seguir seus pais até a sala de estar e sentar-se em um dos sofás, enquanto uma das empregadas da família Iero terminava de servir o jantar.
Donald e Thomas conversavam sobre os negócios, e o primeiro não perdia nenhuma oportunidade de bajular e “puxar o saco” do chefe, como Michael dizia.
Donna e Linda estavam conversando sobre roupas e sapatos, é claro.
E o Way mais novo olhava, encantado, para uma estante cheia de jogos de videogame que estava na parede.
Gerard não sabia mais o que fazer, além de usar sua melhor cara de tédio e esperar que o tempo passasse rápido.
Alguns minutos depois, fora anunciado que o jantar estava na mesa. Gerard agradeceu, pois metade do tempo já era.
Sentaram à mesa. Gerard e Michael sentaram-se lado a lado, deixando um lugar vago, do outro lado da cadeira de Gerard.
Thomas e Donald já haviam engatado outra conversa sobre a empresa e algo relacionado a um comercial de televisão, quando alguém entrou na sala de jantar.
Gerard pode ver ao longe um garoto descer as escadas. Um garoto baixo, usando uma camiseta da banda Iron Maiden, juntamente de uma jaqueta de couro e um par de jeans meio rasgados. Seus cabelos eram negros e um pouco compridos, e seus olhos pareciam com os de Gerard.
Pode ver que Linda mandara um olhar de desaprovação ao garoto.
– Frank, até que enfim! – Disse o pai do garoto. – Sente-se ali, perto dos filhos do senhor Way.
Donald não pode conter o sorriso ao ser chamado de senhor.
Frank andava devagar, observando as pessoas que ainda não conhecida. Então seus olhos caíram sobre os de Gerard, o qual o observava também.
Gerard corou, Frank sorriu levemente.
Passadas as apresentações, todos iniciaram a refeição.
Gerard comera um pedaço de carne e alguma salada e já se sentia satisfeito.
Na verdade, não tinha nem fome antes de começar a comer. Ele não gostava de comer... Sentia-se sujo e gordo. E o pior era fazer tal ação em público, sabendo que todos estavam julgando-o.
Suas mãos começaram a suar novamente, só me pensar na possibilidade de ser julgado pelos amigos de seu pai. E toda aquela conversa à sua volta, todas aquelas vozes, todo aquele barulho... Toda aquela gente. Isso o deixava louco.
Começava a sentir-se em um filme, vendo tudo em câmera lenta. Como se não estivesse lá, como se não fosse real. Seu coração já batia forte.
– Eu, ah, se me derem licença... Eu preciso ir lá fora. – Ele disse, levantando-se rapidamente da mesa.
Saiu correndo quando atravessou a porta, a tontura já tomava conta de sua mente.
Jogou-se em um canto qualquer do jardim.
Ele tremia, seu coração batia rápido demais. Não conseguia respirar. Sentia-se como se já fosse desmaiar.
Estava morrendo.
Tudo à sua volta continuava parecendo irreal, e ele parara de sentir seus braços.
Estava morrendo.
Abraçou-se em suas pernas, começando a chorar.
– Por favor, pare com isso. – Sussurrou. – Por favor, vá embora. Deixe-me ser livre.
Sabia que não estava em casa e que era ridículo agir daquela maneira na casa de outras pessoas, mas não podia evitar. Não quando não tinha controle sobre sua própria mente.
Não quando estava morrendo.
Após limpar suas lágrimas, ele abriu os olhos. Tudo estava girando e ele sentia como se fosse desmaiar a qualquer momento.
Gerard já sentia como se não houvesse mais saída, já havia perdido sua mente completamente. Levantou-se, olhando ao redor, e o coração batendo ainda mais forte. Uma voz em sua cabeça dizia que ele deveria fugir. Fugir do medo.
Fugir da morte.
E foi o que ele fez.
Quando percebeu estava em um parque, pelo meio das árvores do local. Podia ver um lago e alguns bancos também. Enquanto ia parando de correr, ouviu algo.
Ou melhor, alguém.
Por um momento, ele temeu que seus medos tivessem tomado a forma humana e, realmente, estivessem o perseguindo. Isso só o fez correr mais.
Gerard sabia que estava perdido, que deveria parar de correr, mas não conseguia.
Até ser forçado a fazê-lo.
Não soube como e nem porque, mas, quando percebeu, estava jogado no chão, contra as folhas alaranjadas – as mesmas que notara em seu jardim, mais cedo. – e alguém o segurava pelos pulsos.
– Vá embora! – Ele gritou, enquanto sentia algumas lágrimas saírem teimosamente pelos seus olhos fechados.
– Way. – Alguém disse, ainda segurando-o pelos braços e não o deixando levantar.
– Por favor, eu não quero morrer. – Gerard sussurrou, sentindo seus braços serem segurados ainda mais forte.
– Way, você não está morrendo! Abra seus olhos! – Disse a outra pessoa.
Gerard recusava-se a abrir os olhos. Não queria ver quem estava perseguindo-o e tentando acabar com a sua vida.
– Abra os olhos. – Disse o outro, pausadamente, perto do ouvido de Gerard. – Eu não vou te matar.
Ele abriu os olhos bem devagar. Primeiramente, viu a escuridão, mas, aos poucos, conseguiu ver alguém.
Reconheceu os olhos parecidos com os seus que vira há alguns minutos, na mesa de jantar dos Iero. Reconheceu também os cabelos escuros e a camiseta do Iron Maiden.
Frank Iero estava por cima dele, segurando seus pulsos e olhando-o confuso.
– Você está bem? – Perguntou o menor.
– Eu estou com medo... – Respondeu, enquanto outro largava seus braços e o ajudava a levantar. – Ele estava me matando.
– Quem? – Iero perguntou, olhando-o nos olhos.
Seus olhos pareciam atravessar os de Gerard, à procura de respostas.
– Ele estava me sufocando. E-Eu ia desmaiar. – Gerard gaguejava.
– Quem? – Frank repetiu.
– O medo.
Após responder, Gerard abaixou a cabeça e sentiu suas bochechas corarem. Sentiu-se como se fosse demasiado fraco e medroso.
– Seu nome é Gerard, certo?
Concordou com a cabeça, apenas, ainda corado.
– Então, Gerard, o que acha de voltarmos à minha casa e você me contar isso tudo no caminho? – Frank Perguntou, tocando o ombro do outro.
Novamente, Gerard apenas concordou com a cabeça e seguiu Frank.
– Por que me seguiu? – Gerard perguntou, quando já haviam voltado à rua.
– Quando vi você sair da mesa, eu percebi que não estava bem. Então, resolvi ir falar com você. Mas você já havia saído correndo e, como não mora por aqui, saí correndo atrás, achando que poderia se perder. – Ele disse, me olhando nos olhos. – E você, por que correu?
– Para fugir dele.
– Fugir da sua própria mente?
– Sei que pode parecer ridículo, mas, na hora, nada faz sentido.
– Não disse que é ridículo. – Frank respondeu, sorrindo.
Notas finais
Usei o nome do pai de Frank como Thomas porque, bom, o nome deles é longo pra caralho e seria estranho ter dois Franks, então usei um dos nomes do meio.
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