Save My Soul

CGates

Chapter#15

"Pelo amor de Barbra Brittany, foco!". Exigiu Rachel desviando os olhos da estrada e analisando a garota em lágrimas sentada no banco do carona.

Haviam saído cerca de quinze minutos e devido ao péssimo trânsito de Lima, ainda faltava cinco quarteirões para chegarem ao hospital e desde que desligara o telefone, Brittany permitiu que formasse ao seu redor uma camada protetora que excluísse qualquer intervenção externa, fazendo com que seus pensamentos mais obscuros e seus terríveis medos perambulassem por sua mente, envenenando-a.

Seus olhos estavam vermelhos devido à quantidade de lágrima que insistia em cair deles. Ela era sempre a primeira que se rendia para os seus sentimentos, o que não era tão assustador já que Santana estava sempre ao seu lado para confortá-la e dizer que tudo ficaria bem. Mas dessa vez Santana não estava por perto e só de recordar do motivo fazia com que o seu corpo fosse massacrado por uma força invisível que fazia uma pressão extrema em seu peito esquerdo.

As lágrimas corriam cada vez mais rápidas, queimando e marcando sua pele; o choro estava começando a ficar falhado, causando dificuldades na entrada de ar e Brittany soube que se não visse a namorada urgente, acabaria se sufocando em sua própria dor. Contudo, conforme Rachel buzinava e gritava para os carros à frente, a loira sabia que estava longe de ter o seu objetivo realizado e por isso não hesitou quando levou a mão ao cinto de segurança, destravando-o e abrindo a porta logo em seguida.

Brittany ignorou os gritos de Rachel pedindo para voltar, ela precisava apenas chegar ao hospital, precisava apenas checar os olhos de Santana mais uma vez e ter certeza de que tudo ficaria bem, porque não podia perdê-la, não agora que sua vida estava seguindo o caminho de seus sonhos, onde Santana havia criado finalmente forças para assumir a responsabilidade que àquele relacionamento exigia.

A dor estava aumentando e já não era mais o seu peito que sofria com a pressão e sim todo o seu corpo. Sua visão estava ficando turvo, seu corpo não estava conseguindo controlar a quantidade de ar em seu sangue e suas pernas estavam começando a fraquejar. Conforme Brittany correria entre as pessoas que perambulava pela calçada, ela dizia a si mesma, ou melhor, ordenava que ficaria até o final, que era mais forte do que aparentava ser e que tinha mais do que obrigação em retribuir tudo o que Santana já havia feito por ela.

Como se a sua determinação fosse a cura para os seus demônios internos, seus sentidos foram voltando aos poucos, dando-a mais força para aumentar a velocidade de seus pés e chegar finalmente na porta dupla do único hospital de Lima.

Seu corpo foi recebido por uma rajada fria ao passar pela entrada do hospital servindo de outro componente para trazê-la de volta à realidade. A loira caminhou apressada até o balcão, ignorando os olhares assustados e confusos das pessoas sentadas nas cadeiras para serem atendidas e das recepcionistas por trás do balcão devido ao fato de estar com os olhos e o rosto vermelho e inchado, as roupas desajustadas em seu corpo e seu cabelo desarrumado.

"Pois não senhorita?". Perguntou a recepcionista mais velha com um sorriso doce e simpático, o qual teria sido totalmente correspondido se Brittany não tivesse com outros planos em mente.

"Santana Lopez". Disse fracamente sentindo as palavras arranharem a sua garganta e perfurarem a sua língua. Um soluço e algumas lágrimas foram retidos enquanto a loira cruzava os braços sobre o tórax e esperava ansiosamente a senhora terminar de passar os olhos pela lista de pacientes do dia.

"Ah sim. Santana Lopez, filha do Doutor Brian Lopez, certo?". Perguntou graciosamente levantando os olhos e encarando a loira ansiosa por cima dos óculos de grau. Brittany mordeu o lábio inferior ansiosa e assentiu com um balançar de cabeça, sentindo o coração bater dolorosamente rápido em seu peito. "Ela está no quarto 511 junto com a senhorita Fabray...".

Brittany não esperou para ouvir o resto da sentença, pois a única informação valiosa já havia sido adquirida. Quarto 511. Seus passos aumentaram de velocidade automaticamente e sua cabeça movimentava para todos os lados no corredor procurando a placa do quarto no qual Santana estava.

Um corredor já havia sido vistoriado e faltavam ainda mais dois para finalizar aquele andar e ter que partir para o segundo. As lágrimas insistiam em cair sem a sua permissão conforme sentia o nó apertar em sua garganta. As imagens ainda martelavam dolorosamente em sua cabeça imagens de como Santana poderia estar, pois conforme olhava para os números dos quartos, Brittany sabia que estava aproximando-se do centro cirúrgico.

A loira parou momentaneamente apoiando a mão na parede mais próxima e abaixando a cabeça para tentar recuperar o ar em seus pulmões e tentar acalmar o seu corpo para recompor o seu raciocino quando sua atenção foi tomada por uma voz familiar, a mesma voz que ecoava em sua cabeça desde a hora do telefonema, dizendo palavras doces e tentando mantê-la calma, a mesma voz que sussurra em seu ouvido todos os dias 'eu te amo' e que já havia cantado várias músicas para demonstrar os seus sentimentos mais profundos e íntimos.

Brittany imediatamente ergueu o seu corpo e encarou a placa do quarto à sua frente: quarto 511. Sem perceber, Brittany estava levando a mão à maçaneta da porta de madeira branca e empurrando-a, sentindo as suas pernas bambearem de ansiedade e sua cabeça latejar fortemente com a sobrecarga dos seus neurônios.

Foi então que Brittany a viu. Santana estava sentada na cama com as costas apoiada na cabeceira da cama e os braços cruzados, com o rosto virado na direção oposta à do seu pai, que pelo visto estava querendo saber detalhes do ocorrido e Santana recusava-se à lhe dar atenção. Brittany sentiu seus músculos relaxarem quando concluiu que nada grave havia acontecido com a namorada pela aparência da mesma. Não havia nenhuma tala ou gesso em nenhuma parte de seu corpo.

Seus passos foram automáticos até a cama e a morena só percebeu a presença de outra pessoa na sala quando a porta do quarto bateu. Brittany abriu um sorriso largo na face quando encarou as íris escuras, sentindo toda a preocupação, medo e ansiedade sair de seu corpo. Brittany ignorou o olhar assustado da namorada, já que tudo o que ela queria era tocar em sua pele e sentir o seu calor sob a palma de suas mãos, renascendo a sensação de segurança novamente.

O pai da morena afastou alguns passos para dar espaço para Brittany chegar até Santana, sendo despercebido pela loira que estava concentrada o suficiente no contato visual que mantinha com a namorada. Brittany finalmente enlaçou os seus braços ao redor da namorada e deixou-se levar pelo momento, saboreando do calor que exalava da pele morena, do odor dos cabelos longos e escuros e da leve respiração em seu pescoço. Sem forças para conter as lágrimas, Brittany deixou-as correr livre por sua face, molhando o ombro de Santana que ao senti-las, afastou-se do abraço e colocou as duas mãos na face da loira, procurando limpa-las o mais rápido possível. "Não chore B. Eu estou bem". Pediu conforme percebia que a dor de Brittany estava tornando-se a sua dor.

"Eu fiquei com tanto medo de te perder". Confessou Brittany em meio às lágrimas com a voz falha analisando com precisão dois arranhados na bochecha direita da morena, lembrando-a que deveria manter cuidado com Santana que provavelmente estava dolorida. A loira aproximou o rosto e encostou os lábios demoradamente nas duas marcas da face da morena.

"Isso não vai acontecer". Confortou Santana abrindo os olhos quando os lábios de Brittany afastaram de sua pele e perguntando-se em que momento havia fechado-os. "Eu vou estar sempre aqui". Completou acariciando mais uma vez a face da loira.

"Promete?". Perguntou Brittany encarando mais uma vez os olhos da namorada.

"Eu prometo". Respondeu Santana abrindo um fraco sorriso nos lábios que logo foram cobertos pelos lábios de Brittany que procurou ser o mais cuidadosa possível.

Mas, como sempre, Santana não estava preocupada com as dores que acentuavam em seu corpo conforme se deixava levar pelo beijo e pelo abraço da namorada. Não pediria para Brittany se afastar apenas porque estava sentindo um desconforto em suas costelas e em seus braços. Santana imaginava que Brittany havia ficado preocupada e seria rude de sua parte não consolar a namorada no momento, por mais que lhe causasse dores físicas.

Sua cabeça ainda estava em êxtase. Tudo havia sido muito rápido e as últimas imagens antes de apagar ainda estavam frescas em sua memória, na qual ela fazia a questão de ignorar. Não queria pensar nisso agora, ainda mais perto de Brittany.

"Eu estou aqui sabia?". Disse Quinn na cama ao lado fazendo Brittany assustar e se afastar dos lábios de Santana, virando logo em seguida na direção que viera a voz.

Quinn encontrava-se no mesmo estado de Santana, com alguns arranhões na face e alguns no braço. Brittany sentiu-se levemente culpada por não ter prestado atenção na amiga que estava dividindo o quarto, sendo que ela havia sido alertada pela presença da mesma. Com alguns passos Brittany envolveu a amiga em um abraço sendo rapidamente retribuído. "Desculpe Q. Como você está?". Perguntou Brittany afastando-se do abraço e analisando melhor a amiga, que ao contrário de Santana, não possuía nenhum arranhado visível.

"Eu estou bem". Respondeu a amiga com um leve sorriso. "Não posso dizer o mesmo da S". Completou gesticulando para a amiga ao lado.

Brittany virou-se para a namorada mais uma vez e a encontrou revirando os olhos. "Ela disse que está bem". Disse Brittany virando-se novamente para Quinn.

"Eu estou bem". Reforçou Santana tentando colocar os pés para fora da cama, sendo traída por um gemido baixo de dor quando sentiu seus músculos repuxarem. Brittany rapidamente voltou para a namorada e sentou-se ao seu lado na cama, passando os braços por seu ombro e levando uma mão à face de Santana.

"Ela está com dores nas costelas B. Cuidado com isso". Alertou Quinn cruzando os braços no tórax, retribuindo o olhar de Santana. "Não adianta tentar fingir S, a B precisa saber da verdade".

"Não escute ela B, está tudo bem". Tentou Santana mais uma vez desviando sua atenção para a loira ao seu lado. Ela não queria deixar Brittany ainda mais preocupada e em sua opinião esse era o pensamento mais lógico, mas como sempre, Quinn insistia em estragar os seus objetivos.

"Ela quer parecer forte na sua frente B". Ironizou Quinn com um riso.

"Você quer calar a boca ou quer que eu vá até aí calar?". Perguntou Santana irritada virando-se para Quinn novamente. Brittany respirou fundo e olhou ao redor do quarto procurando pelo pai de Santana para saber o que realmente havia acontecido com a morena. A loira franziu o cenho quando concluiu que o homem havia se retirado e não havia comunicado, provavelmente querendo deixá-las às sós.

"S, por que você não me conta o que aconteceu?". Perguntou Brittany suavemente tentando desviar o rumo da discussão de Santana e Quinn antes que algumas das duas saíssem com mais machucados do hospital.

Santana virou o rosto rapidamente e respirou fundo. Não estava preparada para contar a verdade ainda e nem sabia se deveria. Mas também não teria como mentir cem por cento já que Quinn estava presente e havia presenciado o ocorrido, por isso, precisava mudar apenas algumas coisas. "Eu perdi o controle do carro B". Respondeu a morena sentindo as palavras saírem arranhando em sua garganta.

"Ela perdeu o controle porque preferiu prestar atenção no celular". Resmungou Quinn fazendo Santana cerrar os pulsos sobre suas coxas, o que não passou despercebido por Brittany.

"Por que? O que tinha no celular S?". Perguntou Brittany arqueando uma sobrancelha na direção da namorada.

Santana engoliu seco e tentou parecer o mais imparcial possível. "Não era nada de importante B, era só uma propaganda". Respondeu Santana dando de ombros. "Aconteceu rápido demais". Completou segurando a mão de Brittany entre as suas.

"Eu sempre peço para você prestar atenção S". Disse Brittany deixando acentuar a mágoa em sua voz.

"Desculpe B". Pediu Santana sentindo a dor em seu corpo intensificar com o olhar magoado da namorada. A morena levou uma mão até a face da loira e fez o contorno com a ponta dos dedos até estacionar a mão em seu pescoço, trazendo-a para mais perto. "Você me perdoa?".

Brittany fechou os olhos conforme sentia a aproximação com o corpo da morena e a respiração quente fazer cócegas em sua face. "Só se você me prometer que não acontecerá novamente". Disse Brittany sentindo a mesma dificuldade da morena em estar com os lábios tão próximos sem contato. Seus narizes estavam se encostando, assim como suas testas e ambas estavam com os olhos fechados, assimilando a intimidade.

"Não acontecerá novamente". Afirmou Santana tocando brevemente nos lábios de Brittany enquanto respondia, controlando uma força incomum para não cessar os milímetros de distância entre seus lábios.

"Eu te perdôo". Completou Brittany fracamente sentindo as suas forças esgotarem e cobrindo os lábios de Santana mais uma vez, sentindo Santana apertar sua nuca para trazê-la para mais perto.

Santana levou a outra mão para a cintura de Brittany e estava aprofundando cada vez mais o beijo até que um objeto macio é lançado contra o seu corpo, fazendo-a quebrar o contato com os lábios e encarar a responsável. "Eu ainda estou aqui". Avisou Quinn de braços cruzados.

"Chega Fabray, você conseguiu esgotar a minha paciência". Exasperou Santana tentando levantar-se, sendo traída novamente por um fisgar de dor em suas costas, fazendo outro gemido de dor baixo ecoar de seus lábios e Brittany alarmar-se ao seu lado.

"E ela ainda insiste em dizer que está bem". Provocou Quinn mais uma vez.

"B, bate nela por mim, por favor". Choramingou Santana encarando a namorada com os olhos cerrados, dramatizando uma careta de persuasão.

"Vocês duas querem parar?". Pediu Brittany encarando as duas, observando formar um silêncio no cômodo imediatamente. "Vocês acabaram de sofrer um acidente". Lembrou Brittany respirando fundo e passando a mão pela face para afastar a franja de seus olhos. "Era para vocês estarem preocupadas uma com a outra".

Santana e Quinn engoliram em seco e se encararam, dando atenção para Brittany logo em seguida. "Desculpe B". Pediram as duas ao mesmo tempo, ambas com a sensação de culpa e de remorso, sendo mais intenso em Santana já que se tratava de Brittany e como sempre, tudo era triplicado.

A tensão do quarto foi quebrada quando a porta rangeu dando espaço a uma garota de estatura pequena e cabelo castanho que entrou no cômodo e analisou cada uma das três que estavam em silêncio. Brittany logo encarou a outra loira quando Rachel fechou a porta atrás de si com os olhos ainda fixos em Quinn e permaneceu estática, como se estivesse refletindo o que fazer a seguir, já que era mira de três pares de olhos.

"O que você está fazendo aqui Berry?". Perguntou Santana desconfiada encarando a pequena e ganhando a sua atenção, quebrando por fim o silêncio.

"Eu vim trazer Brittany, mas ela desceu do carro e veio sozinha e senti a obrigação de ver como ela estava". Respondeu Rachel apressadamente encarando a morena e desviando os olhos rapidamente para Quinn antes de voltar para a morena novamente, o que não passou despercebido por Santana e Brittany que se entreolharam rapidamente. "Como vocês estão?". Perguntou Rachel abaixando a cabeça e encarando os pés.

"Eu estou viva Berry, pode ir agora". Respondeu Santana seca, recebendo um olhar reprovador da namorada e de Quinn, como sempre.

"Desculpe ter saído daquele modo Rachel". Disse Brittany atraindo a atenção da garota. "Eu só precisava ver como que ela estava". Completou desviando os olhos de Rachel e voltando a encarar Santana com os braços cruzados no tórax, levando uma mão das mãos livre para acariciar a face da morena, fazendo um sorriso largo brotar de seus lábios carnudos.

"E você Quinn?". Perguntou Rachel fracamente fazendo Santana e Brittany virarem-se para a amiga e analisar sua reação.

Quinn engoliu seco e tentou ajeitar-se na cama, arrumando o seu cabelo e a roupa hospitalar que estava vestindo que de acordo com Santana, não ajudava em nada, pois as deixavam ainda mais vulneráveis por não esconder nenhuma parte do corpo. "Eu estou bem, obrigada Rach". Respondeu Quinn com a ansiedade tamborilando em sua voz, assustando as outras três meninas por ter chamado Rachel de um apelido tão íntimo.

A pequena assentiu com um balançar de cabeça e manteve o contato visual com Quinn, o que estava apenas irritando Santana que a essa altura segurava milhares de palavrões, não queria dizer mais uma coisa desnecessário e receber a reprovação de Brittany mais uma vez. A morena achava insuportável essa demora das duas e já estava enjoada com todo aquele atraso. "Brittany me tira daqui antes que eu vomite em cima da Fabray". Pediu Santana apoiando a mão no ombro de Brittany.

"Você não pode sair S". Disse Quinn apressadamente com um leve tom de desespero ressoar em sua voz, como se estivesse com medo de ficar sozinha com Rachel, não passando despercebido pela pequena que colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e abaixou a cabeça novamente.

"Fabray, pelo amor de Deus, faça alguma coisa que preste. Pelo menos uma vez". Ordenou Santana colocando as pernas para fora da cama com certa dificuldade, não sendo impedida por Brittany que a ajudava dando o seu ombro como apoio e as suas mãos seguravam a sua cintura. "Minhas roupas estão no banheiro B". Avisou Santana enquanto colocava o primeiro pé no chão e suprimia os milhares de gemidos de dor que desejavam sair. A cada movimento que dava, seu corpo estalava e repuxava em dor como se todos os seus músculos estivessem saindo do lugar.

"Você não precisa sair Santana, eu já estou de saída". Disse Rachel percebendo a dificuldade que a morena estava tendo para movimentar-se e como Brittany estava esforçando-se para ajudar a namorada.

"Não Rachel, a S está certa. Vocês precisam conversar e vocês farão isso agora, antes que algumas das duas fujam novamente". Cortou Brittany passando o braço pelos ombros de Santana enquanto a mesma preparava-se para começar o trajeto até o banheiro. Rachel e Quinn não debateram e devido ao silêncio formado, Brittany constatou que havia as duas haviam compreendido.

Santana caminhou pelo quarto com um braço envolta da cintura da loira não deixando de encarar pesadamente a amiga loira, que estava com os olhos arregalados e com a pele do rosto extremamente corada. Ao passarem pela porta, Brittany a fechou e Santana se desprendeu do abraço com a namorada, apoiando as mãos na pia ao lado, soltando finalmente um suspiro dolorido.

"Onde está doendo S?". Perguntou Brittany apressadamente aproximando-se da namorada e segurando em suas duas mãos para que ela fosse o seu ponto de apoio e não a pia de um banheiro. Os olhos azuis penetraram nos olhos escuros à sua frente na tentativa de captar qualquer vestígio que pudesse facilitar em seu trabalho.

"Em todos os lugares". Disse Santana derrotada encarando as íris azuis. Torceu para que Brittany não descobrisse que a dor estava mesmo presente em todos os lugares de seu corpo, acarretando consigo uma estrada longa de culpa e remorso. A imagem da mensagem do celular estava novamente vagando em sua mente e conforme fixava os olhos nas íris à sua frente, sentia uma pontada de aflição em lugares diferente de seu corpo, que queimava como se estivesse arrancando uma parte de ti.

Brittany contorceu o rosto em uma careta dolorida e puxou Santana para um abraço. "Eu quero afastar a sua dor S". Confessou Brittany afagando os cabelos da morena e sentindo as lágrimas queimarem os seus olhos novamente, pois a sensação de perda de alguns minutos atrás estava novamente presente. O ar saia cortante em suas narinas e quando sentiu Santana apertando-se contra o seu corpo, não conseguiu segurar o soluço que saiu de seus lábios. "Diga o que eu tenho que fazer S".

Santana acompanhou a dor da loira e logo as lágrimas também rolavam quente em sua face. Não se permitiu fechar os olhos, porque sabia aonde os seus pensamentos a levariam e já estava sufocada o suficiente com o seu desgosto, não precisava de mais um motivo para agarrar-se forte contra a namorada na esperança de que os seus medos fossem embora. Mesmo que seus ossos estivessem exclamando para afastar-se do abraço e que seus músculos estivessem se repuxando conforme intensificava os braços ao redor do corpo da namorada, a morena não hesitou, sabia que a dor física não se comparava com a emocional. "Só me abrace B".

• • •

Era a terceira loja que entreva em menos de uma hora andando com Quinn e Rachel. Santana não estava agüentando mais o calor que estava fazendo em Lima e as trocas de carinho entre as duas meninas estava piorando a situação. Desde a conversa com Quinn no hospital, Rachel estava junto com a loira em quase todos os lugares, já que resolveram 'tentar', como Quinn insistia em dizer, o que era apenas um eufeminismo para dizer que as duas estavam finalmente juntas. Mas, o casal mantinha uma espécie de relacionamento secreto devido ao possível comportamento dos alunos da escola e dos pais de Quinn. Por mais que Santana não estivesse satisfeita com aquela enjoativa relação, precisava admitir que Quinn estava muito melhor com Rachel, pelo menos agora não precisava ouvir a amiga chorar em seu ombro toda vez que via a pequena abraçada com o seu ex-namorado.

Mesmo tendo passado três dias, seu corpo ainda estava dolorido da batida. Era difícil ajeitar-se em uma posição confortável na cama, já que qualquer lado que virasse suas costelas emitia uma dor aguda. Brittany havia conseguido a permissão dos pais para cuidar da morena, mas mesmo assim não era o suficiente. Santana procurou desde quando saíra do hospital não demonstrar mais nenhuma fraqueza, porém, às vezes um ruído escapava de seus lábios quando a namorada a abraçava ou quando fazia qualquer movimento brusco.

Não se permitiu pensar na mensagem novamente e antes que Brittany pegasse o seu celular e visse a mensagem ingenuamente, Santana a deletou. Estava disposta a seguir sua vida como se nada tivesse acontecido, mesmo que sua consciência e o seu lado mais sombrio insistissem em querer resolver de uma vez por todas aquela situação, Santana deixaria que seu autocontrole falasse mais alto. Não poderia fazer outra estupidez e arriscar-se mais. Alguns alunos da escola estavam desconfiando do suposto 'acidente' de Blanc, se a morena tentasse alguma coisa novamente contra qualquer outra pessoa, não teria como seus amigos lhe acobertarem e depois de ter escutado o sermão, percebeu que havia se arriscado bastante, o que sempre acontecia quando o assunto era Brittany; ela simplesmente perdia o controle da situação.

A morena esperou sentada em um sofá enquanto Rachel e Quinn procuravam por alguma roupa que ficaria bom em Brittany. Santana ajeitou as sacolas de compra ao seu lado e correu os olhos pela loja, procurando concentrar-se em qualquer coisa menos tediosa. Para a sua felicidade, a loja não estava tão cheia, o que significava menos pessoas para ocupar seu tempo e uma oportunidade maior para analisar os detalhes do local.

"Santana Lopez?". Perguntou uma voz grossa atrás de ti, fazendo-a virar o pescoço tão rápido que fora possível ouvir um estalo. A surpresa estampada em seus olhos não era pelo susto ou pela curiosidade de saber quem havia tirado-a de seu momento de relaxamento e sim, pelo fato de conhecer o dono daquela voz que há tanto tempo não ouvia.

Um rapaz moreno de cabelo escuro curto e com os ombros largos, com os bíceps bem desenvolvidos e o tórax torneado estava com os braços cruzados e com um sorriso torto nos lábios, encarando diretamente as íris escuras da castanha no sofá. Santana não percebeu que um sorriso involuntário formou-se em seus lábios e que já estava de pé dando a volta no sofá para checar melhor o rapaz. "Você não mudou nada". Disse Santana fincando os pés em frente ao rapaz e levantando a cabeça para encarar seus olhos castanhos claro. "Continua obeso". Zombou Santana aumentando o sorriso na face.

"Obrigado, também senti sua falta". Retribuiu o rapaz sarcasticamente abrindo os braços e esperando Santana encaixar-se no abraço apertado e caloroso, fazendo-a lembrar-se do tempo que passara horas naquela posição, apenas sentindo o odor de serragem que exalava da pele morena do rapaz. No começo achara nojento, não estava acostumada com aquele odor forte, mas com tempo, acostumou-se, já que todas as férias ia para a casa do primo e sempre o ajudava na serralheria da família.

"Tyler, o que você está fazendo aqui?". Perguntou Santana ainda com os braços envolta do corpo do rapaz e percebendo que a dor de suas costelas não estava a incomodando como antes. Talvez Tyler realmente tivesse poderes de cura, como o rapaz sempre zombava quando Santana martelava o dedo enquanto o ajudava e fazia questão de acariciar a pele ferida, cessando imediatamente o desconforto.

"Eu recebi o pedido de uma estante de livros e quando ficou pronta eu resolvi trazer e checar como você estava". Respondeu o rapaz afagando os cabelos da morena e encarando-a profundamente, deixando-a desconfortável com a intimidade. Santana afastou-se do abraço e cruzou os braços sobre o tórax, tentando manter a postura firme e controlar a sua vulnerabilidade.

"Você continua sendo um péssimo mentiroso". Retrucou Santana enquanto assistia-o soltar algumas gargalhadas e coçar a cabeça, bagunçando brevemente o cabelo curto, lembrando-a de quando ela tinha o costume de fazer isso e o ouvia reclamar por horas por ter bagunçado o seu 'penteado'. Santana respirou fundo tentando afastar os pensamentos e não pôde deixar de sentir o odor de Tyler impregnado em suas narinas.

"Por que eu não te pago um café e digo o verdadeiro motivo de eu ter vindo?". Sugeriu o rapaz estendendo uma mão na direção da morena e abrindo um novo sorriso, mostrando todos os seus alinhados e brancos dentes.

"Eu estou com as minhas amigas". Alertou Santana mordendo o lábio inferior e apontando para trás de ti. "Você se lembra da Quinn Fabray?". Perguntou Santana inferindo a loira de cabelos curtos que retirava uma blusa de mangas longas verde e apontava para Rachel que negava com um balançar de cabeça.

"Mas é claro, aquela que teve o bebê, não é?". Perguntou Tyler recebendo um balançar de cabeça de Santana. O rapaz contornou o sofá e aproximou-se do casal, fazendo Santana arquear uma sobrancelha e torcer para que ele não fizesse o que ela estava pensando. "Oi, sou Tyler, o primo da Santana. Acho que nós nos conhecemos na festa de Natal há dois anos". Cumprimentou Tyler esticando a mão para Quinn e recebendo um olhar curioso e analisador de Rachel enquanto Santana cerrava os olhos e controlava a sua respiração.

"Eu me lembro de você. Santana comentava sobre as férias de verão. Eram as favoritas dela". Retribuiu Quinn aceitando a mão do rapaz e cumprimentando-o, desviando o olhar rapidamente para a morena que tratou de ignorá-la rapidamente. Quinn sabia exatamente o que acontecia nas férias que Santana passava com Tyler e por isso sabia o quão vulnerável Santana ficava perto do rapaz. Ele fora o mais próximo de um relacionamento que Santana chegou antes de Brittany, não que ela tenha se apaixonado pelo rapaz, mas possuía um grande afeto pelo mesmo, afinal, ele fora um dos poucos que conhecera que lhe tratava tão bem. Mesmo com a amiga alertando que estava errado pelo fato de serem parentes, Santana não conseguia resistir aos encantos do primo. Ele era uma espécie de carpinteiro dos anos cinqüenta, com uma boa forma física, ótima aparência e com um ótimo senso de humor e carisma. "Esta é a Rachel". Disse Quinn depois que a pequena pigarreou e atraiu a sua atenção, fazendo-a voltar a encarar o rapaz.

Tyler cumprimentou Rachel educadamente e dirigiu a sua atenção para as duas, que o encarava dos pés à cabeça. "Vocês se importam se eu roubar a amiga de vocês?". Perguntou graciosamente tombando a cabeça para o lado e levando uma mão para acariciar a nuca, fazendo-o parecer um garoto de quatorze anos.

"Fique a vontade". Respondeu Quinn com um sorriso amistoso e desviando sua atenção mais uma vez para Santana que a essa altura estava balançando a cabeça negativamente. A morena parou os seus movimentos quando Tyler a encarou de relance. "Encontramos daqui meia hora S". Despediu Quinn com o olhar ainda pesado para a morena.

Santana assentiu e esperou pelo rapaz que logo tomou seus braços enquanto caminhavam para fora da loja. Santana não tentou desfazer-se da posição, sabia que seria rude até mesmo para ela. A única coisa que podia fazer era controlar-se e contar a verdade para Tyler antes que fosse tarde demais. "Você está muito quieta. Cem dólares pelos seus pensamentos". Brincou Tyler abaixando a cabeça para encará-la.

"Você não vai descobrir tão fácil". Retrucou Santana acompanhando o sorriso do moreno e torcendo para que os trinta minutos passassem rápidos. Tyler gargalhou mais uma vez e empurrou a porta do café, esperando que Santana entrasse para depois segui-la e eram justamente esses atos que Santana mais adorava no primo. Ele sempre a tratou com respeito e jamais ousou levantar o tom de voz em suas conversas ou discussões, tanto que na primeira vez que se beijaram ele havia sido carinhoso e atencioso dizendo que não a obrigaria a nada e entenderia se ela nunca mais quisesse ficar ao seu lado, o que fez Santana possuir mais afeição pelo rapaz.

Santana e Tyler fizeram o pedido e caminharam para sentar-se em uma mesa próxima a janela que dava para o jardim dos fundos, no qual possuía bancos, balanços e até mesmo um chafariz decorativo. "Há alguma coisa que eu possa fazer para tê-los?". Perguntou o rapaz sensualmente encarando profundamente os olhos da morena e colocando a sua mão sobre a sua por cima da mesa, fazendo-a sentir o toque quente e a desproporcionalidade de sua mão que nada havia de semelhante com a de Brittany, que era delicada e completava perfeitamente a sua. Instantaneamente um alerta soou em seu interior. Santana retirou a sua mão sob a do rapaz e a repousou em seu colo, o que o fez arquear uma sobrancelha confusa e abrir um sorriso nervoso. "Desculpe Santana, eu fiz alguma coisa errado?". Perguntou ingenuamente passando a mão pelos fios escuros mais uma vez.

"Não, você não fez nada de errado". Respondeu Santana apressadamente parando de falar quando a atendente trouxe os dois copos de café. A morena esperou que a mulher se retirasse para continuar o assunto e aproveitou os segundos de silêncio para buscar forças para pronunciar as próximas palavras. "Eu estou com uma pessoa Tyler". Soltou Santana procurando não se abalar pelo olhar perdido do primo.

Um longo minuto de silêncio se passou e nenhuma outra palavra havia sido pronunciada. Santana estava apertando as suas mãos uma na outra tentando controlar a sua ansiedade, o que estava difícil já que Tyler ainda a encarava e só depois de tomar um longo gole de café e repousar o copo ruidosamente na mesa, o rapaz desviou o olhar encarando o seu copo. "Você está feliz?". Perguntou Tyler voltando os olhos para a morena à sua frente.

Santana permitiu que seus ombros relaxassem e que sua respiração saísse calma pelas suas narinas. A primeira parte já havia passado e sabia que as respostas seriam fáceis, já que não havia motivo para questionar o seu bem estar junto de Brittany.

"Sim". Respondeu Santana monossilabicamente tomando mais um gole de café. Tyler abriu um sorriso fraco nos lábios e assentiu.

"Isso é o mais importante pra mim". Confessou o rapaz fazendo a muralha de Santana oscilar mais uma vez. Era incrível como ele sabia escolher as palavras para serem ditas e como ficava em sincronia com a sua voz grave e seus olhos compreensivos. "Eu o conheço?". Perguntou Tyler bebericando pela primeira vez o seu café.

Um nó formou-se em sua garganta. A segunda parte havia chegado mais rápido do que esperava e para não se sufocar de ansiedade, tratou de soltar de uma vez a verdade, já que ela teria que dizer cedo ou tarde, sabendo que poderia causar o afastamento de vez com o rapaz. "É a Brittany". Respondeu Santana com a voz falha, não se surpreendendo pelo olhar confuso e assustado que brotara nos olhos castanhos claro do primo. Santana já esperava que essa fosse a sua reação, afinal, ela estava falando com um membro da família Lopez e o preconceito estava enraizado em sua árvore genealógica.

Um novo período de silêncio formou-se na mesa e Santana desviou os olhos do primo. Estava doloroso constatar que seu primo não havia nada de diferente e de especial que um dia ela julgou ter. Ele era apenas um homem. Um homem como todos os outros e que fingia como todos os outros. Seu estômago revirou fortemente com todas as lembranças das vezes que estiveram juntos e de como ela havia sido manipulada, mais uma vez. Seus olhos começaram a arder e antes que derramasse qualquer coisa desnecessária pelo rapaz à sua frente, decidiu que àquela conversa já estava finalizada. Ela havia dito tudo que o precisava.

Santana arrastou a cadeira e apoiou as mãos na mesa para se levantar quando sentiu um calor e uma força em seu pulso. A morena virou-se para o rapaz e viu o brilho usual em seus olhos, mostrando para a morena que nada havia mudado e que ele estava apenas surpreso. Santana sentou-se novamente e sentiu-o soltar seu pulso e repousar a mão sobre a sua novamente. "Eu sempre soube que você me trocaria por ela". Confessou o rapaz com a voz falha e com um olhar triste, o que fez Santana ter certeza de que àquele era o mesmo Tyler de anos atrás.

"Como?". Perguntou Santana atônita. Ela nunca havia contado para o primo sobre os seus sentimentos por Brittany enquanto estavam juntos; sempre mencionava a loira como uma amiga de infância. As suas sobrancelhas se curvaram e a morena entreabriu a boca para fazer com que mais perguntas soltassem de seus lábios, sem sucesso, já que Tyler assumiu o controle mais rápido.

"Você sempre a amou". Afirmou Tyler precisamente fazendo a morena retorcer-se em mais dúvidas. "Todas as vezes que você falava dela, eu percebia que a sua admiração e o seu carinho eram muito maiores de quando você se referia à Quinn". Explicou Tyler acariciando a palma da mão de Santana e levando-a aos lábios brevemente, queimando a pele da morena e causando uma sensação de culpa e remorso, nada comparada ao que sentia antigamente. "No começo eu disse a mim mesmo que era porque vocês eram melhores amigas até o dia em que eu a vi no jantar de Natal há dois anos em sua casa". Disse Tyler repousando a mão da morena na mesa novamente e encarando mais uma vez os olhos arregalados da morena e a face levemente corada. "Você jamais me olhou daquele modo". Pausou brevemente e Santana perguntou se não seria menos doloroso levantar e sair o mais rápido possível daquele local a ter que ficar ouvindo as palavras de Tyler e sofrer com cada letra pronunciada. "Confesso que fiquei com raiva e indignado, mas eu percebi que te amava o suficiente para querer a sua felicidade". Completou Tyler.

Há algumas horas atrás, se alguém dissesse à Santana que ela teria uma indigestão sentimental ela zombaria e ameaçaria a pessoa, dizendo que isso não é possível, afinal, ela era Santana Lopez. Mas agora, de frente para uma das pessoas que marcou um período significativo em sua vida, Santana não estava conseguindo organizar a explosão de sensações que a tomava no momento. Ela queria abraçar o rapaz e agradecer pela compreensão e pelo respeito, mas era difícil porque ela estava sentindo o sofrimento pelo qual ele havia passando. Querendo ou não, ela ainda matinha um afeto grande por ele. Desde o começo do seu relacionamento com Brittany, Santana desejava que seu primo fosse o primeiro a saber, pois a sua aceitação era de extrema importância, no entanto, ela ficava ressentida quanto à sua reação e por isso, permitiu que o silêncio selasse o seu segredo. "Eu quero o melhor para você Santana, independente se for um homem ou uma mulher que lhe forneça isso". Completou Tyler com um sorriso um pouco mais vivo, fazendo Santana desprender de seu devaneio e focar seus olhos no do rapaz, comprovando por fim, que não havia raiva e sim, preocupação, carinho e conforto.

"Você é um Lopez em extinção". Zombou Santana utilizando da ironia para esconder o seu nervosismo. Ela queria que ele soubesse como ela estava feliz com o seu consentimento, mas não conseguia e tinha certeza que ele a conhecia muito bem para ler as entrelinhas de sua fala. Tyler acabaria compreendendo o que ela realmente queria dizer.

O rapaz completou com uma de suas características gargalhadas e tomou a mão da morena mais uma vez. "Eu não sei como seus pais aceitaram tudo isso". Confessou Tyler levando o copo de café até a boca com a mão livre, enquanto a outra acariciava a pele macia da mão de Santana.

A morena franziu o cenho e curvou os lábios em um sorriso sarcástico. "Eles não aceitaram". Confessou Santana levando o copo de café à boca, dando a desculpa para não entrar em detalhes. Ela estava feliz por ver o primo e por ele ter honrado o seu valor, mas não o queria em sua vida mais uma vez. Como já dissera uma vez, sua vida era feita de capítulos e ele já havia passado.

"Você é realmente persistente". Elogiou Tyler cerrando os olhos e soltando a mão da morena. "Aposto que sua mãe foi a que surtou". Brincou o rapaz mais uma vez.

"Você estava lá?". Perguntou ironicamente, dramatizando uma expressão de surpresa em sua face, o que fez o rapaz inundar o local mais uma vez com a sua magistral gargalhada.

"Eu posso não ser o parente mais presente, mas eu conheço minha família". Retrucou Tyler retirando a carteira do bolso e puxando algumas notas para pagar os cafés. "Como foi na escola?".

"Bem melhor". Respondeu Santana sincera dando de ombros, afinal, seus amigos haviam feito e fazem o papel que seus pais acham difícil o suficiente para cumprir.

"Eu espero que você não tenha se esquecido do que eu te ensinei". Disse Tyler levantando a manga da camisa e mostrando os bíceps, fazendo Santana soltar um riso e assentir com um balançar de cabeça. Em uma de suas férias, seu primo havia ensinado-a alguns truques que a favoreceriam se caso entrasse em alguma briga, pois Tyler sabia que Santana era cabeça quente e que não deixava os assuntos pendentes e como sempre, ele temia pela saúde da prima e não conseguiria suportar o peso na consciência de não ter feito nada para ajudá-la, mesmo que indiretamente.

"Eu tenho uma boa memória. Não se preocupe". Respondeu Santana virando o café pela última vez, esvaziando o copo e posicionando-o sobre a mesa. A morena precisava dizer que a drástica mudança de assunto e de comportamento não havia surtido nenhum espanto em si, ela estava agradecendo que seu primo estava agindo normal ao seu lado, como se nenhuma confissão houvesse sido dita.

"Eu acho melhor nós irmos agora. Não quero deixar sua amiga morrer do coração e pensar que eu te seqüestrei". Alertou Tyler olhando para o seu relógio de pulso, levantando-se logo em seguida esticando a mão para que Santana o acompanhasse mais uma vez. A morena aceitou sem protesto e sem dolo.

"Você estava me seguindo?". Perguntou Santana arqueando uma sobrancelha enquanto caminhavam de volta para a loja.

O rapaz cerrou os olhos para a morena e tombou a cabeça. "Você acha mesmo que eu faria isso?". Perguntou Tyler recebendo um arquear de sobrancelhas da morena e um sorriso torto formou-se em seus lábios. "Eu estava passando na calçada e te vi pela vitrine". Respondeu sincero e a morena relaxou-se. "Eu não sou compulsivo".

"Não diga isso Tyler, todos os Lopez são compulsivos". Retrucou Santana dando de ombros e retribuindo o sorriso do rapaz. "Até quando você vai ficar?". Perguntou a morena receosa, o que ela estava preste a fazer ia contra os seus princípios de limite, mas ela realmente queria que Tyler ficasse por mais alguns dias, só até ele certificar que Brittany a fazia feliz.

"Irei embora daqui três dias". Respondeu Tyler parando de frente para a porta da loja e Santana pôde ver pela vitrine que Quinn e Rachel estavam na fila do caixa com várias peças de roupas nas mãos e a morena desejou que Quinn não tivesse lhe escolhido roupas, pois conhecia o gosto da amiga e não admirava as suas escolhas.

Santana voltou a sua atenção para Tyler à sua frente e respirou fundo. "Eu darei uma festa de aniversário surpresa para a Brittany amanhã no meu apartamento às 20hs". Disse Santana procurando deixar a voz a mais limpa e confiante possível. "Sinta-se a vontade se quiser aparecer". Finalizou Santana procurando não encarar diretamente os olhos do rapaz e não se arrepender de ter pronunciado tais palavras.

"Por que vocês mudaram para um apartamento? Aquela casa era linda". Perguntou Tyler curioso arqueando uma sobrancelha divertidamente.

"Eu mudei". Respondeu Santana firmemente direcionando os seus olhos de encontro ao do rapaz e surpreendendo-se por encontrar um olhar calmo e atencioso. "Meus pais me colocaram para fora quando descobriram... Você sabe". Completou Santana revirando os olhos. Era incrível como havia acostumado a contar àquele momento de sua vida e nenhum sentimento de remorso corroesse o seu interior. Sabia que havia sido melhor ter finalmente dito a verdade e saído de um lugar no qual sabia que não era bem vinda.

"Sua persistência não mudou. Eu adoraria ir Santana". Respondeu Tyler sem delongas fazendo Santana sorrir nervosamente e enlaçar o seu escultural corpo em um abraço desajeitado. A morena sentiu o rapaz retribuir o aperto de seu abraço e permitiu fechar os olhos para absorver aquela sensação que a fazia sentir tão segura.

"Obrigada". Sussurrou Santana abrindo os olhos novamente e inalando pela última vez o odor da pele dourada do primo. Santana afastou-se do abraço e retribuiu o sorriso e o assentimento de cabeça, despedindo-se tradicionalmente. Tratou de ser responsável e matura, aceitando o fardo de que estava comprometida com a mulher que havia escolhido para passar o resto de sua vida e não deixaria que o seu passado interferisse no seu presente e futuro.

Santana passou pela porta da loja e caminhou na direção de Rachel e Quinn, preparando-se para o interrogatório que viria a seguir, pois conhecia Quinn muito bem e sabia que a amiga exigiria saber o porquê da demora e porque estavam se abraçando do lado de fora da loja, já que Santana observou de relance o olhar de Quinn em sua direção.

"Eu disse trinta minutos Lopez, por que vocês demoraram?". Perguntou Quinn assim que Santana posicionou-se ao lado de Rachel.

"Você vai ficar controlando a minha vida agora Fabray?". Retrucou a morena cruzando os braços no tórax e arqueando as sobrancelhas, uma pose que era tradicional do seus tempos de cheerio que Sue fazia questão de que todas as suas meninas fossem capaz de fazer.

"Eu estou falando sério S". Cortou Quinn rispidamente.

"Não aconteceu nada se é isso que você quer saber". Assegurou Santana ignorando o olhar critico da amiga e o confuso de Rachel.

"Não pareceu que não aconteceu nada. Sinceramente, eu pensei que você havia mudado pela B e queria que, pelo menos esse relacionamento, desse certo". Disse Quinn indignada dando mais um passo na fila e entregando as suas peças para a atendente, assim como Rachel. Santana olhou ao redor e percebeu que ela e Quinn estavam atraindo a curiosidade de algumas pessoas e como não queria que sua vida fosse divulgada em outdoors por toda Lima, porque é isso que acontece em cidade pequena, a morena resolveu adiar aquela conversa.

"Espero por vocês no carro". Alertou Santana caminhando até o sofá e pegando as sacolas de compras, caminhando mais uma vez para fora da loja.

Era sempre o mesmo episódio, as pessoas sempre lhe julgavam e criticavam sem ter todas as informações necessárias. Ela era sempre o motivo de todas as desgraças mundiais, seja na escola, no New Directions, em casa. A única pessoa que sempre esteve ao seu lado e nunca a criticou, pelo contrário, sempre fez o possível para defendê-la, era Brittany. Como que Quinn poderia induzir que ela seria capaz de fazer alguma coisa que pudesse machucar Brittany, sendo que a loira era a única que sempre se manteve fiel ao seu lado?

Santana bateu a porta do carro e jogou as sacolas no banco do carona, deixando claro que não queria a presença de Quinn ao seu lado. Procurando acalmar os seus neurônios, Santana ligou o som do carro e procurou por uma música que fosse capaz relaxar o seu corpo.

A morena deixou por fim a voz de Adele ecoar por todo o carro enquanto recostava a cabeça no banco e fechava os olhos. Não era fã de músicas calmas ou tão emocionais quanto a que estava ouvindo no momento, mas Adele era a única cantora que havia subido em seu conceito. Suas letras eram tão expressivas que Santana conseguia sentir na pele o poder das palavras e os significados implícitos em cada música. Era como se a morena sentisse exatamente o que a cantora estava sentindo no momento que compôs a canção. A maioria das músicas Santana associava à Brittany, afinal, sempre falava da pessoa amada estando junto ou não e isso lembrava a época em que sofria em silêncio por estar apaixonada pela sua melhor amiga e não ter a única pessoa que desejava no mundo.

Seus devaneios foram quebrados quando o som da porta traseira fora fechada com força e o barulho de sacolas formou-se no ambiente. Santana abriu os olhos e pelo retrovisor interno observou Quinn emburrada e Rachel com os braços cruzados no tórax. Provavelmente Quinn havia sido estúpida com Rachel por estar de cabeça quente com a morena. Você sempre faz isso Fabray, retrucou Santana internamente, Sempre atirando pedras em quem é inocente.

"Nós não terminamos a nossa conversa". Pronunciou Quinn quebrando o silêncio.

"Acho que já acabamos sim. Eu já disse que não aconteceu nada e era isso que você queria saber". Retrucou Santana dando de ombros e concentrando toda a sua atenção no trânsito. Não queria correr o risco de sofrer dois acidentes em uma semana, além disso, havia prometido à Brittany que seria mais cuidadosa.

"S, por favor, é o Tyler. Eu sei como você fica perto dele". Disse Quinn e pelo retrovisor interno Santana observou a loira revirar os olhos e esticar a mão para pegar a de Rachel que repousava solitária em sua coxa.

"Como eu ficava perto dele, você quer dizer". Corrigiu Santana afastando a franja de seus olhos.

"Então aquele olhar surpreso e suas mãos tremendo não tinha nada a ver com a presença dele?". Perguntou Quinn ironicamente e Santana não precisou olhar pelo retrovisor para ter certeza que a amiga acabara de arquear a sua famosa sobrancelha.

"Ele sabe sobre a B". Respondeu Santana apoiando o cotovelo na janela e repousando a cabeça na palma de sua mão, enquanto esperava o sinal abrir. "Eu contei tudo o que ele precisava saber".

"Você realmente não sentiu nada?". Insistiu Quinn após alguns segundos em silêncio. Santana soube que havia pegado a amiga desprevenida e torcia que Quinn desse aquele assunto por encerrado.

Santana mordeu o lábio inferior e fez uma busca em seus pensamentos para recordar exatamente do que havia sentindo durante o tempo que esteve com Tyler. Ela recordou de sentir seu estômago embrulhar, seu coração bater mais forte e suas pernas ficarem bambas. Poderia até dizer que Tyler fora responsável por isso, mas não de uma maneira positiva; Santana não estava preparada para contar a verdade ao seu primo e ferir seus sentimentos na primeira vez o via depois de dois anos. "Nada que me fizesse questionar o que sinto pela B".

"Eu não sabia que você gostava tanto dela". Confessou Rachel fazendo Santana a encarar surpresa pelo retrovisor interno e logo em seguido para Quinn, tentando descobrir se a amiga havia dito o que havia acontecido entre ela e Tyler. "Quinn não me contou nada Santana, mas eu também não sou idiota. É fácil perceber que você e ele tiveram alguma coisa e que significou para os dois". Explicou Rachel cerrando os olhos. "E para você ter abdicado o significado disso tudo por Brittany é realmente bonito e mostra o quanto você gosta dela".

"Eu não sei por que vocês insistem em questionar se eu gosto ou não da B". Resmungou Santana cansada soltando um longo suspiro no final.

"Nós não estamos questionando S". Retrucou Quinn desencostando as costas do banco e aproximando-se do banco da morena. "Nós só não queremos que o relacionamento de vocês acabe por bobeira".

"Não vai acabar". Afirmou Santana virando o rosto para encarar Quinn. "Disso você pode ter certeza". Reforçou Santana desejando que suas palavras se tornassem verdades e que alguém lá em cima ouvisse pelo menos uma de suas preces e a tornasse verdade, porque a morena sabia que não seria tão fácil quanto desejava

Notas finais
Ei gente. Atrasei um dia, já que eu estava com o costume de postar de dois em dois dias, mas nada grave, né? ;} Minha internet está horrível e por isso não consegui postar ontem e ainda não respondi os comentários. Mas eu li todos e queria agradecer todos os elogios e apoio de vocês. Obrigada mesmo! *-* Espero que gostem desse novo personagem, ele será significante para o final da história. Beijos e bom restinho de semana. ;D