Saudade
1 Saudade
Hinata ajeitou a última pilha de livros sobre a escrivaninha e soltou um suspiro satisfeito. O semestre havia sido brutal, mas finalmente, uma semana inteira de descanso se estendia diante dela. Uma semana longe de artigos acadêmicos, provas e reuniões intermináveis. Mais importante que isso, uma semana ao lado de Naruto.
O apartamento que eles dividiam era pequeno, mas confortável. Nos últimos meses, no entanto, parecia mais um dormitório de biblioteca do que um lar. Naruto passava mais tempo no campus do que em casa, e quando estava ali, Hinata já tinha caído no sono entre anotações e post-its coloridos. Agora, sem as pressões da faculdade, finalmente poderiam aproveitar a companhia um do outro.
A porta se abriu com um estrondo.
— Hinataaa! — Naruto entrou, carregando duas sacolas cheias de comida e um sorriso largo. — Preparei tudo! Nada de livros, nada de trabalhos! Só você, eu e uma maratona de filmes ruins!
Hinata riu, indo até ele para ajudá-lo com as sacolas.
— Filmes ruins? Achei que íamos assistir algo decente desta vez.
— Ah, claro! Eu escolhi os piores de propósito! Para rir! — Ele piscou. — Mas antes de tudo... Posso matar minha saudade?
Antes que Hinata pudesse responder, Naruto já a puxava para um abraço apertado, enterrando o rosto na curva do pescoço dela. Hinata sentiu o calor familiar do corpo dele e sorriu contra o peito do namorado.
— Senti tanto a sua falta — ela murmurou.
— Eu também, Hinata. — Naruto afastou-se apenas o suficiente para olhar para ela. — E prometo que esta semana vai ser só nossa.
Hinata assentiu, corada.
— Então, por onde começamos?
Naruto ergueu uma das sacolas.
— Pipoca, cobertas e uma competição pra ver quem dorme primeiro no sofá?
Ela riu e pegou a pipoca das mãos dele.
— Você sempre perde.
Naruto fingiu indignação, mas logo estava rindo também. Era verdade. E, sinceramente, ele não se importava – desde que fosse ao lado dela.
No final das contas, Naruto perdeu a competição, como sempre.
Hinata estava encostada no braço do sofá, os joelhos dobrados e coberta por uma manta, enquanto Naruto estava jogado de qualquer jeito, com a cabeça no colo dela. O filme ainda passava na TV, um romance dos anos 90 que Hinata tinha insistido para assistirem. Mas Naruto… bom, Naruto roncava baixinho.
Ela sorriu, deslizando os dedos pelos fios bagunçados dele. Era engraçado como, apesar de todo o seu jeito energético e falante, Naruto apagava rápido sempre que se sentia confortável. E ali, no pequeno sofá, cercado pelo cheiro de pipoca e pelo calor da companhia um do outro, ele claramente estava muito confortável.
Hinata suspirou. Era tão bom tê-lo ali, poder olhar para ele sem pressa, sem precisar correr para a próxima aula ou revisar mais um capítulo. Ela passou meses sentindo falta disso – da presença dele, do toque casual, do jeito que Naruto sempre fazia o ambiente parecer mais leve.
— Tá me encarando faz um tempo… — A voz rouca de Naruto quebrou o silêncio.
Hinata corou, mas não afastou a mão do cabelo dele.
— Você dormiu muito rápido.
— Culpa sua — ele murmurou, os olhos ainda fechados. — Seu colo é confortável demais.
Ela riu baixinho.
— Você vai perder o final do filme.
Naruto abriu um olho, sem se mover.
— Você já sabe que eu só aceitei ver isso porque queria ficar perto de você, né?
Hinata piscou, surpresa, antes de desviar o olhar.
— Não sei do que você está falando…
Naruto sorriu e se ajeitou, segurando a mão dela entre os dedos.
— Eu senti muito a sua falta, Hina.
Hinata entrelaçou os dedos nos dele, apertando de leve.
— Eu também, Naruto.
Ele suspirou, ainda meio sonolento, e puxou a manta para cobrir os dois.
— Então aproveita. Porque eu não vou sair daqui tão cedo.
Hinata sorriu e encostou a cabeça no encosto do sofá, sentindo o peso leve de Naruto contra ela. O filme continuava passando, mas naquele momento, nada parecia mais importante do que a presença tranquila e quente do garoto ao seu lado.
Afinal, depois de tanto tempo longe, tudo que eles queriam era matar a saudade.
Na manhã seguinte, Hinata acordou com um peso sobre sua cintura.
Ela piscou algumas vezes, tentando entender a situação. A TV ainda estava ligada, exibindo o menu de seleção do filme que já tinha terminado fazia tempo. O sol filtrava-se pelas cortinas do pequeno apartamento, e o calor que a envolvia vinha de Naruto, que dormia profundamente ao seu lado, um braço jogado despreocupadamente sobre ela.
Hinata sentiu as bochechas esquentarem. Tudo bem que já estavam juntos há algum tempo, mas ainda não estava acostumada com essas pequenas demonstrações de carinho que Naruto fazia sem nem perceber.
Tentando se mover sem acordá-lo, ela deslizou um pouco para o lado, mas o aperto ao seu redor se firmou.
— Humm… não — Naruto resmungou contra o travesseiro, puxando-a de volta.
Hinata arregalou os olhos.
— Naruto, eu preciso levantar…
— Não precisa, não — ele murmurou, voz rouca de sono. — Cê tá tão quentinha… fica mais um pouco.
Hinata mordeu o lábio, indecisa. Ela realmente precisava se levantar, tomar um banho e organizar as coisas para o café da manhã. Mas ao mesmo tempo, o jeito que Naruto a segurava, como se soltá-la estivesse fora de questão, fazia seu coração bater um pouco mais forte.
— Só mais cinco minutos, vai… — Naruto insistiu, puxando-a um pouquinho mais para perto.
Ela suspirou, derrotada.
— Só cinco.
Naruto sorriu, ainda de olhos fechados, e se aninhou mais ao lado dela.
É, matar a saudade definitivamente valia a pena.
Os cinco minutos se transformaram em dez. Depois em quinze. E quando Hinata finalmente reuniu coragem para tentar sair de novo, Naruto simplesmente resmungou e a prendeu mais uma vez, como se fosse um polvo preguiçoso.
— Naruto… — ela sussurrou, tentando conter o riso.
— Hummm… só mais um pouquinho… — ele murmurou contra o cabelo dela.
Hinata balançou a cabeça, divertida.
— Se a gente ficar aqui para sempre, quem vai preparar o café da manhã?
Houve um silêncio. Naruto finalmente abriu um olho, parecendo ponderar.
— Você quer café da manhã?
— Quero — ela confirmou.
— E se eu for buscar e você ficar aqui quentinha?
Hinata sorriu.
— Se você não for fazer um desastre na cozinha, talvez eu aceite essa proposta.
Naruto fez uma cara de indignação.
— Eu sou ótimo na cozinha!
Hinata arqueou uma sobrancelha.
— Da última vez, você quase incendiou o fogão.
— Ok, tecnicamente foi só um pequeno incidente… — Ele se sentou, coçando a nuca. — Mas agora eu tenho um plano infalível!
— Qual?
— Comprar tudo pronto na padaria da esquina!
Hinata soltou uma risada.
— Tá bom, eu aceito seu esforço.
Naruto sorriu, animado.
— Então me espera aqui! Eu vou e volto voando!
Ele se levantou de um pulo, pegou a carteira e calçou os tênis sem nem arrumar o cabelo desgrenhado. Antes de sair, inclinou-se para deixar um beijo rápido na testa de Hinata.
— Já volto!
E então ele saiu correndo pela porta.
Hinata ficou olhando por um instante, um sorriso bobo no rosto. Ainda estava se acostumando com esses momentos simples, com a naturalidade do jeito de Naruto. Mas gostava disso. Gostava do jeito que ele fazia tudo parecer mais fácil, mais leve.
Suspirando, ela puxou a manta para cobrir os ombros e encostou-se no sofá novamente.
Talvez ficasse ali quentinha mais um pouquinho, afinal.
Naruto voltou em tempo recorde.
A porta do apartamento quase bateu na parede quando ele entrou com um pacote enorme nas mãos, os cabelos ainda mais bagunçados pelo vento da corrida.
— Missão cumprida! — ele anunciou, jogando as sacolas sobre a mesa.
Hinata se sentou, piscando ao ver a quantidade de coisas.
— Naruto… você comprou a padaria inteira?
— Ah, sabe como é, me empolguei! — Ele riu, já começando a tirar os itens da sacola. — Não consegui escolher só uma coisa, então peguei um pouco de tudo.
Hinata balançou a cabeça, mas não conseguiu esconder o sorriso enquanto se levantava para ajudá-lo.
— Pelo menos lembra de pegar os pratos.
— Sim, senhora!
Naruto foi até o armário e voltou com dois pratos — e uma caneca extra, enfiada desajeitadamente sob o braço.
— Trouxe chá para você. Sei que você gosta mais do que café de manhã — ele comentou casualmente, entregando a bebida para ela.
Hinata parou por um segundo, segurando a caneca quente. Naruto sempre prestava atenção nesses detalhes, mesmo que nunca mencionasse.
— Obrigada — ela disse, com um sorriso gentil.
Ele piscou para ela, se sentando no chão ao lado da mesinha improvisada.
— Agora, hora da parte importante. Eu vou provar que minha escolha de café da manhã foi impecável.
Hinata arqueou uma sobrancelha.
— Você comprou rosquinhas de arco-íris?
— Sim, porque são as mais bonitas.
— E pão de queijo?
— Porque é sagrado.
— E… um bolo inteiro de chocolate?
Naruto deu de ombros.
— O moço da padaria disse que estava fresquinho. Eu não podia ignorar um destino desses.
Hinata riu, pegando um pedaço de bolo.
— Tá bom, eu admito… Você fez um bom trabalho.
Naruto sorriu satisfeito.
— Viu só? Eu sou um gênio do café da manhã.
Eles comeram entre conversas despreocupadas, aproveitando a tranquilidade daquela manhã sem pressa. Depois de tantos meses correndo contra o tempo, era bom simplesmente estar ali, lado a lado, compartilhando algo tão simples.
Hinata observou Naruto enquanto ele falava animadamente sobre alguma coisa que aconteceu na faculdade. A forma como seus olhos brilhavam, o jeito que ele gesticulava exageradamente… Ela sentiu o coração aquecer.
Finalmente, depois de tanto tempo longe, eles estavam juntos de novo.
E nada parecia melhor do que isso.
Depois do café da manhã exagerado – e de Naruto tentar, sem sucesso, enfiar o resto do bolo na geladeira minúscula do apartamento –, eles acabaram voltando para o sofá.
Dessa vez, Naruto estava jogado de barriga para baixo, mexendo no celular, enquanto Hinata se aconchegava ao lado dele com um livro. A TV estava ligada num volume baixo, mais como um fundo sonoro do que qualquer outra coisa.
— Ei, Hina — Naruto chamou de repente.
— Hm?
— Olha isso. — Ele virou o celular para ela.
Na tela, havia uma foto antiga deles dois, de quando ainda estavam no ensino médio. Era uma selfie desajeitada, tirada por Naruto, com os dois rindo por algum motivo que Hinata já nem lembrava. Ela estava com o cabelo mais curto, e ele usava aquele moletom laranja que parecia não tirar nunca naquela época.
Hinata sorriu.
— Onde você achou isso?
— Tava mexendo nos arquivos antigos. — Ele virou o celular de volta e ficou olhando para a tela com um sorriso pequeno. — A gente mudou, né?
Hinata inclinou a cabeça, observando melhor a foto.
— Acho que sim… Mas, ao mesmo tempo, não tanto assim.
Naruto piscou para ela.
— Profundo.
Hinata riu.
— É sério. A gente cresceu, mas ainda somos nós.
Ele ficou um momento em silêncio, como se pensasse nisso. Depois, sorriu daquele jeito bobo que sempre fazia seu coração acelerar um pouco.
— É… Acho que gosto disso.
Hinata corou levemente e voltou a olhar para o livro, mas Naruto não perdeu a oportunidade de se aproximar, deitando a cabeça no colo dela outra vez.
— Sabe, eu tava achando que ia ser estranho passar essa semana toda sem nada pra fazer — ele comentou. — Mas tá sendo incrível.
Hinata deslizou os dedos pelo cabelo dele.
— Porque a gente precisava disso.
— Precisava mesmo… — Ele suspirou. — E, quando acabar, eu já vou começar a sentir saudade de novo.
Hinata sentiu o peito apertar, mas sorriu.
— Então vamos aproveitar ao máximo.
Naruto fechou os olhos, um sorrisinho preguiçoso no rosto.
— Com certeza.
E assim, eles ficaram ali, sem pressa, sem preocupações, apenas aproveitando o momento.
A semana passou mais rápido do que qualquer um dos dois gostaria.
Entre cafés da manhã exagerados, maratonas de filmes, cochilos espontâneos no sofá e até algumas tentativas desastrosas de cozinhar juntos, Naruto e Hinata aproveitaram cada segundo da pausa na rotina caótica.
Mas agora, na última noite antes de voltarem à faculdade, a realidade começava a pesar um pouco mais.
Hinata estava sentada na cama, organizando suas coisas, enquanto Naruto estava largado no colchão, encarando o teto como se pudesse congelar o tempo só com a força do pensamento.
— Não quero ir — ele resmungou.
Hinata sorriu, dobrando uma blusa.
— Você fala como se estivesse indo para o exílio.
— Mas é quase isso! Semana que vem já tem trabalho para entregar, prova para estudar… eu nem lembro mais como faz essas coisas.
Hinata balançou a cabeça, rindo baixinho.
— Então é bom que você tenha descansado bastante.
— Eu descansei tanto que acho que esqueci metade do que aprendi no semestre passado.
Hinata olhou para ele, que continuava esparramado, fazendo drama.
— Você estudou muito nos últimos meses, Naruto. Merecia esse tempo para relaxar.
Ele desviou o olhar para ela, um sorriso pequeno no rosto.
— Você também.
Hinata parou por um instante.
— Sim.
Naruto rolou para o lado, apoiando a cabeça na mão.
— Foi bom, né?
— Foi.
— Então a gente faz isso de novo?
Hinata piscou.
— O quê?
— Sei lá, toda vez que der. Nem que seja só um fim de semana. Eu não quero mais passar tanto tempo sem te ver.
Hinata sentiu o coração acelerar.
— Nem eu.
Naruto abriu um sorriso satisfeito e, sem hesitar, puxou-a pela mão, fazendo com que ela se desequilibrasse e caísse ao lado dele no colchão.
— Então já tá combinado.
Hinata riu, sentindo o calor familiar que só ele trazia.
— Combinado.
Naruto envolveu-a num abraço apertado, enterrando o rosto em seu ombro.
— Se eu dormir agora, você me acorda amanhã?
Hinata passou os dedos pelos fios bagunçados dele.
— Se você não me prender na cama de novo, sim.
Ele riu baixinho, já ficando sonolento.
— Não prometo nada…
Hinata suspirou, mas sorriu.
Talvez a saudade fosse inevitável, mas agora eles sabiam que sempre voltariam um para o outro.
E isso era o que realmente importava.
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