Saturn

3 Capítulo 2 - Entre Beijos, Esferas de Plasma e Fascinação.


Notas iniciais
O Capítulo tem a presença da Tenente Saavik. Ela teve sua primeira aparição no filme "Star Trek II: A Ira De Khan" ( 1982 ) e permaneceu nas sequências. Saavik é uma das oficiais da Enterprise, sendo híbrida - metade romulana metade vulcana.

Spock agora tinha aproximadamente, no contar humano, 48 anos. Aquele momento na sua infância agora estava distante, mas ele se lembrava sempre que podia. As palavras de sua mãe finalmente faziam total sentido: ‘-Porque eu o amo, Spock.’

Eis o sentido.

Eis o sentido quando James T. Kirk lhe beijou o canto dos lábios antes de sair da sala após uma partida de xadrez, avisando que tinha de analisar algumas ondas de transmissão com Tenente Uhura e tratar de verificar o que McCoy tanto fazia, reclamando pelos corredores da Enterprise. Spock assentiu, sem antes passar um braço por sua cintura e beijá-lo novamente, um toque que surpreendeu completamente o Kirk derretido em seus braços.

— Tenha certeza que eu irei voltar mais tarde para terminar isso, Senhor Spock. — Avisou James ao sorrir daquela maneira: O pêndulo de canto. O Vulcano Híbrido sabia o significado daquele sorriso, pois embora direcionado a muitos como sinal de confiança e atrevimento, o Almirante agora possuía um olhar suficientemente brilhante em seus olhos, como duas estrelas em nebulosas. O olhar que só direcionava a Spock. Deu alguns tapinhas nos ombros dele ao arranhar seu pescoço.

— Estarei em devido aguardo, Jim. – Ronronou o mais alto, ainda que permanecesse ereto em um olhar controlado. Kirk tinha de admitir: Embora Spock tivesse aceitado seus sentimentos e assumindo o relacionamento entre ambos, ainda era Vulcano. E tentando controlar os instintos no horário de turno era cômico.

Retirou-se dali em esforço para não olhar para trás, e se houvesse demorado mais um pouco a Tenente Saavik teria entrado no local e flagrado Almirante e Primeiro Oficial aos beijos.

— Almirante. — Pontuou a Vulcana ao saldá-lo no assentir de cabeça longo, em sinal de respeito. Kirk realmente havia tomado um grande susto mas não demonstrou em plenos pulmões o salto que com certeza daria caso fosse McCoy, acabando por assentir somente com a cabeça igual a ela.

Um silêncio constrangedor se fez no ambiente, e Jim torceu para a Tenente não desconfiar de nada, mas um olhar muito suspeito veio dela.

— Tenente — Disse ele – Com a sua licença.

— Claro, Almirante. Tenente Uhura lhe espera na ponte. – Avisou, e quando o de olhos castanhos saiu andando, Saavik encontrou um Spock parado em igual constrangimento, mas suas feições eram como as da Vulcana: calmaria.

—Entre, Tenente. O que deseja? – Perguntou O Oficial, aproximando-se um pouco para dar a confiança necessária a moça. Ela parecia teme-lo, de alguma forma.

— Oh, Claro. Vim apenas entregar os relatórios que fiz, aqueles do qual me pediu no turno anterior. Estão pautados em ordem alfabética, para maior facilidade.

E ele tinha de dizer, ela era muito competente, e parecida consigo quando mais jovem. Um suave sorriso se fez nos lábios finos dele, sorriso que passou despercebido de tão breve. Saavik era Híbrida, mas sua metade não era humana e sim Romulana. Ela não compreendia, vivendo perante lógica, raciocínio frio, querendo ser notada pelo seu conhecimento, ignorando possíveis amizades na Nave e comportando-se unicamente como ‘Aquela Vulcana’.

— De fato, Tenente Saavik. – Spock tomou para si o PADD da moça com delicadeza, passeando o olhar sobre o que ela havia feito – Desde já, agradecido por sua disposição.

— Disponha, Senhor Spock. Mais alguma coisa?

—Não, Tenente. Está liberada.

Ela o reverenciou com a cabeça igualmente a ação com Kirk e virou as costas para sair. Spock já iria trabalhar no próprio relatório ao sentar-se atrás da mesa prateada quando a moça, de cachos castanhos, virou-se para ele em um trinco. Spock ergueu uma de suas sobrancelhas e Saavik percebeu ter surpreendido seu superior, mas mesmo assim não desistiu do questionamento em mente.

O silêncio voltou a se instalar no ambiente.

—Tenente? – Interrompeu Spock em voz grave, ainda que suave. Saavik permaneceu em silêncio por um longo tempo, da mesma maneira que ele havia ficado perante a sua mãe. Já sabia o que ela iria perguntar.

— Desde já, peço perdão por minha intromissão em seus assuntos pessoais, Senhor Spock, mas não pude deixar de notar....

— De notar?

—De notar seu relacionamento íntimo com o Almirante Kirk. Sei que este assunto não devia estar sendo questionado por mim, mas acredito que minha existência se baseia em respostas para as minhas perguntas, e tendo-as, conseguirei entender a vida sobre meus olhos.

— Estás completamente certa, Tenente. A lógica nos leva a questionar e aprender, e é em lógica que nós Vulcanos nos baseamos para a compreensão de muitas coisas. – Spock suspirou, paciente – E sim, eu e o Almirante Kirk possuímos um relacionamento íntimo com os sentimentos compartilhados, mútuos, em sua devida intensidade.

Aquilo pareceu confundir ainda mais Saavik, que erguendo uma das sobrancelhas, apertou as mãos atrás de si.

— Percebendo que minha observação estava correta, permita-me perguntar: Por que se permitiu tal relacionamento se a alguns meses esteve na cerimônia de expurgação de sentimentos, o Kolinahr?

Spock se levantou da cadeira e deu a volta na mesa, também tendo as mãos atrás de si em elegante postura, onde o corpo esbelto parecia nunca falhar. Saavik acompanhou o Oficial com os olhos em tensão controlada pelo temor de tê-lo ofendido, sendo Spock uma espécie de ídolo para si, aquele que a fez entrar na Frota Estelar. Ofendê-lo lhe traria grandes problemas e iria retirar a questão, logo o Vulcano irrompendo o silêncio pela segunda vez ao aproximar-se da grande janela de vidro da Enterprise que lhe permitia olhar para as estrelas lá fora:

— Venha aqui, Tenente.

Ela o fez, posicionando-se ao lado dele.

— Ótimo. Agora diga-me o que vê.

Saavik se ajeitou mais na postura:

—Estrelas.

— Estrelas, certo. E o que são as estrelas?

Pensando que aquilo era um teste de conhecimento, a Tenente buscou no fundo da mente toda a teoria ensinada na Academia de Ciências Vulcana, respirando fundo.

—Uma Estrela é uma grande e luminosa esfera de plasma, mantida íntegra pela gravidade. Ao fim de sua vida, uma estrela pode conter também uma proporção de matéria degenerada. Historicamente, as estrelas mais importantes da esfera celeste foram agrupadas em constelações e asterismos, e as estrelas mais brilhantes ganharam nomes próprios. Pelo menos durante uma parte de sua vida, uma estrela brilha devido á fusão nuclear do hidrogênio no seu núcleo, liberando energia que atravessa o interior da estrela e irradia para o espaço sideral. Quase todos os elementos que ocorrem na natureza mais pesados que o hélio foram criados por estrelas, seja pela nucleossíntese estelar durante as suas vidas ou pela nucleossíntese de supernova quando as estrelas explodem e----

— Certo, Tenente Saavik, é o suficiente. – Spock a interrompeu gentilmente, como Amanda o faria. – E sabendo o que são estrelas, diga-me o que elas são para você.

— Acabei de citar, Senhor Spock, é uma grande e luminosa esfera de plasma.

— Não, Tenente, isso é o que foi ensinado para você. É extremamente importante saber a teoria de uma Estrela e quanto a isso estou extremamente satisfeito com a sua descrição. Todavia, agora, preciso saber o que uma Estrela em sua concepção independentemente do que foi aprendido na Academia. – E fez um gesto – Por favor.

Saavik voltou a fitar as Estrelas que agora passavam em velocidade, e apertou levemente seu olhar, como se tentasse encontrar alguma coisa lá fora. Só via grandes esferas brilhantes, só via o que aprendeu.

Não via a beleza por detrás delas.

“I couldn’t help but ask for you to say it all again. I tried to write it down, but I could never find a pen. I’d give anything to hear you say it one more tim that universe was made just to be seen by my eyes.”

Saavik tentou e tentou para então suspirar – Minhas desculpas, Senhor Spock, mas não compreendo.

— Eu também não compreendia, Tenente. Não em um todo. Em parte, minha herança humana apreciava a beleza das estrelas, mas a parte Vulcana não compreendia toda esta admiração. Eu não fui a Academia da Frota Estelar apenas por lógica, eu fui por apreciar estas esferas luminosas de plasma, todavia, durante toda a minha vida tentei ignorar o que podiam me oferecer no sentido mais poético da palavra. Quando conheci Capitão Kirk, este pacientemente me ensinou o que há por detrás da lógica destas estrelas e eis o sentido disso tudo, do sentimento que compartilho. E não me peça para explicar sentimentos, Tenente, pois seria a mesma coisa que tatear no escuro, afinal, estes são tão primitivos e furiosos ao ponto de nos fazer insensatos. E esta é a beleza. Esta é a beleza de uma estrela e espero que a senhorita consiga vê-las com outros olhos.

Caso Saavik pudesse descrever as palavras de Spock, as chamaria de ‘Fascinante’, porque ele realmente pontuou perante a lógica, o que era sentir. Mas ela não disse nada, afinal, o que diria? Ver aquelas estrelas e procurar beleza em algo que viam todos os dias era insensato, sem sentido algum, quase absurdo para uma raça que sabia demais.

— Com a sua licença, Senhor Spock. – Pediu ela em natural reverência, saindo do ambiente, deixando Spock sozinho com seus pensamentos.

Ele permaneceu fitando as tais ‘esferas de plasma.’

Não esperou que Saavik compreendesse, ele próprio não compreendia antes de James T. Kirk aparecer em sua existência.

Nos turnos seguintes, McCoy reclamava agora do modo calado e pensativo que a Tenente andava pelos corredores, sempre olhando para as Estrelas no grande vidro da ponte, desatenta as vezes as ordens do Almirante Kirk.

Talvez ela estivesse começando a compreender.

“I tried to write it down but I could never find a pen....”