Saturday Night e outras histórias tristes
1 Saturday night pt 1
Um corte na jugular logo abaixo de um chupão. Um corte de raspão no queixo, outro na clavícula, um na traqueia. Depois dessa ele não tentou se defender mais.
O corte no braço dava para ver a veia principal se sobressaindo. Eu não cortei ela.
O abracei. Queria sentir seu calor uma última vez. Mas já era tarde.
Me sentei sobre seu quadril. Passei a observar melhor o estrago.
1, 2, 3… incisões quase grudadas
4,5,6… o que eu fiz para conseguir deixas as costelas quebradas?
Continuei a contagem. Braços, peito, pescoço, e até uma na perna. O coração não batia, não sei se foi por que atingi ele, ou se o sangue já havia sido esvaído de seu corpo. A face estava intacta. Ele era tão lindo… estava pálido, parecia que dormia. Mas dormia em um pesadelo, sua feição era sofrida e agoniada.
Por que diabos eu fiz isso? A última lembrança que vem em mente é ele deixando um canivete no criado mudo. Depois colocar meu álbum favorito para tocar e deitar em cima de mim.
Tem a marca de seus dedos nos meus braços e minha face arde, levei um tapa? Talvez. Na tentativa de se defender, decerto. Depois é um borrão.
Quando voltei a consciência ele já não respirava, e eu estava cansada e ofegante. Havia sangue em minhas mãos, no lençol, até no tapete. Havia respingos na minha roupa, no meu rosto e até no dele, na guitarra da parede havia respingos também.
Sai de cima dele e me sentei no chão.
Jogar sonic dash no celular parecia mais interessante que limpar as mãos. Já havia secado, parecia impregnado na pele. Continuei sentada no chão encostada na cama, sentia seus dedos gélidos rocarem meu ombro conforme eu mexia.
Ele continuava imóvel.
Não era pra menos, o esfaqueei umas 50 vezes.
O Famous monsters tocava pela terceira vez seguida. É meu álbum favorito do Misfits.
Saturday night tocava agora.
“Há 52 maneiras de matar alguém, um e dois são iguais e funcionam do mesmo jeito”
Não foram 52 maneiras, mas foi de uma única, que chegou próximo a esse número.
Olhei por cima do ombro, ele continuava do mesmo jeito.
Sentei na cama e toquei seu peito. Tinha uma incisão perfeita bem no meio, cabia meu dedo indicador ali. A pele estava fria, mas o corpo ainda estava morno.
Acho que agora que caiu a ficha… ele está morto há mais de três horas. E eu estou brincando com os furos do cadáver… que tipo de psicopata sou?
Preciso dar um jeito.
O enterrar talvez? Vou esperar anoitecer.
Mas eu precisava tirá-lo daqui. Limpar a cama e me vestir para seu funeral. Ninguém choraria sua morte, ninguém sequer saberia. Então eu seria sua viúva, choraria sua morte tão repentina e deixaria rosas em seu túmulo.
Arrastá-lo até o banheiro não foi a tarefa mais fácil. Tinha o dobro do meu peso quando vivo, agora morto parecia que tinha multiplicado por dez. Entendi o significado da expressão “peso morto”.
Já havia sinais de rigor mortis, coloquei buchas de algodão em cada buraquinho e até ficou cômico. Um cadáver todo furado. Por que eu estava rindo?
Comecei a chorar.
Novamente o arrastei até o quarto. Parecia que pesava uma tonelada. Abri seu guarda roupas a procura de uma vestimenta adequada. Não encontrei quase nada alem de camisetas de bandas. Mas havia uma camisa preta, tipo social. Era o mais adequado para a situação. Vesti junto de uma calça também preta.
Aliás, onde vou enterra-lo? Olhei pela janela, o gato miava pelo quintal.
O quintal…
Terminei de me vestir. Coloquei um vestido preto de renda que nunca havia usado e o sapato de salto que usei uma única vez. Ele diria que eu estava linda.
Esperei o relógio da sala marcar meia noite.
Do meu jeito torto e feminino cavei o melhor que pude. Ele cabia ali naquela cova, mas eu teria que quebrar seus joelhos. Para quem tinha o esfaqueado, o que eram dois joelhos quebrados?
O cobri com um lençol, seu corpo logo seria devorado por vermes, mas queria mantê-lo intacto de alguma forma.
O enterrei. Chorei como nunca havia chorado enquanto via seu corpo desaparecer sob as terras.
—Me perdoa. Eu faria qualquer coisa para voltar no tempo e não fazer isso. Me perdoa… me perdoa…
—Qualquer coisa?
Uma voz grave soou atrás de mim. Assustada, me virei rapidamente, mas não havia ninguém.
Mas havia uma resposta.
—Sim, qualquer coisa.
Fale com o autor