Sasuke Gaiden: Fantasmas
2 1: Os Inimigos da Casa de Gatos
Notas iniciais
Sasuke andava pensando sobre a segurança de Sakura nos últimos dois dias de viagem. Tinha enviado um falcão que iria diretamente para o Rokudaime, mas não tinha muita certeza em como ela seria tratada e, pior, se ela não tentaria ir atrás dele outra vez – mas se viesse, ele sabia que não havia deixado nenhuma pista para trás, ocultara-se perfeitamente como Orochimaru ensinara-lhe em tantos anos de treinamento.
Parou debaixo de uma árvore para conferir os seus suprimentos. Talvez ele não fosse precisar se preocupar com batalhas agora que a Guerra havia acabado, diziam os seus ex-companheiros de time. Parecia uma coisa simples quando saía da boca de Sakura ou mesmo de Naruto, mas nenhum dos dois compreendiam ainda o que significava ser um ninja. O Rokudaime, porém, entendia muito bem.
Em sua sentença de perdão, o próprio Rokudaime pediu que ele não pensasse que o mundo continuaria pacífico, mas que não perdesse a cabeça por isso. Sasuke não tinha a intenção de abraçar as trevas mais uma vez em sua vida, contudo compreendia o temor de seu antigo professor que apenas não queria vê-lo novamente naquele caminho.
Três kunais, cinco shurikens, dois makimonos pequenos, uma dúzia de bombas de fumaça e nada mais em seu arsenal. Além dos itens mais básicos, sentia a falta de uma boa espada consigo. Estava usando uma improvisada do armamento da aldeia cujo cabo era curto demais para os seus movimentos velozes e característicos.
Precisava reabastecer os equipamentos, mas não voltaria para Konoha somente para isso. Pois, se ele voltasse, sabia muito bem que Sakura tentaria novamente seguir viagem com ele. Desta vez, contudo, não havia nenhuma certeza de que ele seria capaz de impedi-la.
Com um suspiro o garoto se ergueu, ajeitando o manto sobre o corpo. Temia que o retorno para aquele lugar não fosse tão agradável mais uma vez pois, agora, ele precisaria carregar o peso das palavras ao contar que havia assassinado o próprio irmão. Tudo por uma vingança estúpida e infantil que o levou apenas a própria miséria.
Tolo, ele pensou de si mesmo.
Sasuke continuou a sua jornada com um novo destino: Sora-ku, a cidade abandonada onde Nekobaa vivia.
Ainda que fizesse parte de uma extensão breve do País do Fogo, a cidade abandonada ficava muito distante do vilarejo. Ultimamente, muitos boatos haviam sido espalhados sobre uma comunidade de mercado negro vivendo na região. Sasuke estava disposto a conferir sobre aquilo também quando chegasse na casa de Nekobaa.
Durante as primeiras horas de percurso, tudo o que ele conseguiu pensar foi em como abordar a sua vitória na luta contra Itachi. A última vez que entrara em contato com a idosa fora horas antes de sua batalha final.
Nekobaa, em época, não conseguira aceitar a ideia de um irmão matar o outro. Ela até mesmo tentara convencer o menino em uma conversa rápida e privada, distante dos membros do time formado por ele naqueles dias. Mesmo assim, ele havia ignorado todos os pedidos de todas as pessoas e por causa disto, havia cometido os maiores erros de sua vida encontrando-se com as mais profundas trevas.
Contudo horas passaram-se e mais uma vez os pensamentos de Sasuke voltaram para a menina que sempre tentava impedi-lo. Sakura estava presa em sua mente como se fosse uma maldição da qual ele não fazia questão de esquecer. Preocupado com ela, pensou em enviar uma mensagem com o seu falcão pedindo um relatório sobre a situação da moça. A ideia rapidamente perdeu-se em sua mente quando notou que a mensagem podia ser interceptada pela própria Sakura e isso abriria definitivamente uma chande de ela fazer uma loucura impensável.
Mesmo com tudo isso, ele sentia que precisava saber sobre ela. Sakura era mais do que apenas a sua companheira de time. Sem ela, provavelmente ele não retornaria mais para a aldeia em momento nenhum. A Folha havia se tornado um local impossível para a sua consciência manter-se completamente limpa de culpa, porém, por Sakura, ele estava disposto a retornar um dia. Nem que fosse apenas para agradecer novamente por nunca desistir dele.
Perdido em meio aos pensamentos e devaneios sobre Sakura, o vilarejo e tudo, Sasuke ficou de frente para a enorme visão da cidade abandonada. Prédios velhos erguiam-se em um céu nada amistoso. Cheiros fortes de podridão impregnavam as entradas da cidade.
Sasuke respirou fundo antes de entrar na região, soltou o ar e andou calma e lentamente para dentro da cidade.
Pelos primeiros prédios, ele conseguiu perceber que muitas coisas estavam diferentes. Não provava nenhum dos boatos, mas chamou-lhe a atenção. Muitos dos lugares inabitados estavam com marcas recentes de móveis sendo impostos, portas trancadas e até mesmos reformados também estavam presentes no local. Mas nenhum barulho, voz ou pessoa havia sido avistada em um raio de trezentos metros daquelas novidades.
Não deve ser nada demais, pensou, talvez Nekobaa esteja tentando expandir as coisas, cogitou sabendo como a idosa era.
O andarilho seguiu por entre os prédios até alcançar a parte mais densa dos labirintos. Seus sentidos estavam muito mais aguçados do que anteriormente, fato que o levou a perceber o som macio de patas caminhando sobre muros altos.
— Denka, Hina, como estão? — indagou, abrindo um sorriso leve no canto do rosto.
— Sasuke-kun! — Os animais expressaram em uníssono.
Sasuke virou-se para eles, ainda escondendo o olho esquerdo debaixo dos cabelos negros e lisos, mantendo o sorriso aberto anteriormente. Os felinos estavam um pouco mais velhos, seus pelos apresentavam leves traços grisalhos pela passagem do tempo, mas estavam em bom estado.
— Como foi a batalha? — Hina indagou.
Ele manteve um silêncio estranho, abaixou a cabeça e fechou os olhos levemente. As últimas palavras de seu irmão, antes de ser carregado de volta para o mundo dos mortos, pareceram ressonar em todos os cantos de seu cérebro. Sasuke sentiu um enorme pesar em seu coração, mas não fez mais do que nublar a expressão em seu rosto e levantar a cabeça respondendo firme: — Eu venci.
— Oh! Eu sabia que ele ia vencer o Itachi — comentou Denka. — Afinal, o mais velho estava doente.
— Vocês sabiam disso? — Sasuke perguntou intrigado.
Os gatos entreolharam-se, porém não deram resposta alguma. Sasuke ficou encarando-os esperando que falassem qualquer coisa. Nunca fora-lhe explicado exatamente o que o irmão tinha, nem mesmo pelo homem mascarado. Mas os animais não pareceram dispostos a continuar com aquela conversa. Saltaram pelos muros e seguiram caminhando a frente do andarilho, guiando-o até a casa de Nekobaa como costumavam fazer.
Mesmo que insatisfeito, ele não quis forçar os animais a nada. Sabia que podia simplesmente usar o Sharingan para remover informações de ambos, porém aquilo não era uma coisa bonita a ser feita contra amigos de longa data. Além disto, não estava ali para causar confusão com ninguém.
— Chegamos — anunciou Hina.
Muitos outros gatos correram aos miados altos, cercando-o. Sasuke não lembrava de tamanha amistosidade dos animais da última vez que estivera por ali. Uma mão surgiu pelas cortinas da entrada da loja e Tamaki apareceu abrindo um enorme sorriso.
— Sasuke-kun, quanto tempo — disse, animada.
— Sim, faz algum tempo, Tamaki-san.
Sasuke mal havia encarado-a, mas os gatos que o guiaram já haviam sumido. Àquilo, restou-lhe um sorriso macio. Tamaki deu espaço, ele entrou e as cortinas fecharam-se novamente. Por dentro, a loja não havia mudado basicamente nada em comparação com a última visita feita por ele e todo o time Hebi.
— Itachi perdeu então, hein? — Nekobaa falou, dando uma tragada lenta em seguida.
Dezenas de miados ergueram-se no ambiente, mas nenhum outro som nasceu. Sasuke permaneceu em silêncio com os olhos desviantes. Ainda que doesse lembrar daquilo, ele sabia que nunca poderia retornar ao passado para alterar qualquer coisa feita. Sabia também que mesmo que fosse perdoado pelas cinco grandes nações, todas elas lembrariam os seus crimes e pecados até o dia de sua morte.
Ele nunca ficaria livre da culpa.
— Se veio atrás de suprimentos, sinto informar que temos apenas comida para os animais — comentou com uma baforada forte.
Tamaki desviou o olhar, encolhendo em si mesma como se estivesse envergonhada, humilhada.
— Os boatos são verdadeiros então? — Sasuke perguntou tomando uma almofada em frente da idosa como assento.
— Isso depende.
— Exatamente de quê? — Insistiu.
Nekobaa abriu um dos olhos, soprou a fumaça e bateu a mão sobre uma das pernas, curvando o corpo para ficar mais próxima de Sasuke. O rapaz não moveu um centímetro sequer de seu corpo.
— Se forem os boatos de que não existe ninguém em Sora-ku, estará errado — contou, colocando a pipeta na boca outra vez —, mas se for sobre os mercenários, talvez esteja certo.
Sasuke ergueu-se novamente e deu as costas para a idosa. Nem mesmo os gatos conseguiram continuar com os seus típicos miados depois do movimento brusco feito pelo Uchiha. Tamaki tentou segurar-lhe pela capa, mas ele andou mais rápido e saiu passando pelas cortinas como se fosse o dono do local.
— Nekobaa, o que ele fará? — Tamaki perguntou, apreensiva.
— Pagar a dívida que tem conosco por ter matado Itachi com as nossas armas.
Determinado a encontrar os malfeitores, ele andou sorrateiramente pelos muros do labirinto que criava-se pelas ruas abandonadas da cidade. Canalizou o chakra em seus pés durante a caminhada sutil, usando-o para criar menos pressão em seus passos de maneira que o som fosse quase nulo.
Ficou por minutos andando nos arredores da loja até que decidiu aumentar o perímetro de busca para uns metros a mais. Alternou os passos entre rápidos e sutis, caminhando para os depósitos da cidade abandonada mas antes de entrar, ele acabou ouvindo cochichos e acabou agachando-se para não revelar a sua presença.
Ergueu levemente o corpo por cima de um caixote para ganhar visão: pelo menos quatro homens com trajes escuros conversavam ao redor de uma caixa aberta repleta de armas. Todos eles tinham uma cicatriz no rosto, cortando o olho esquerdo, formando um enorme desenho semelhante a cauda de um fantasma.
— Precisamos levar o carregamento para ela — comentou um dos meliantes.
Sasuke impôs o poder de sua linhagem em seu olho direito, o Sharingan nasceu com as três vírgulas negras em seu corpo. Confirmou com as habilidades secretas de seu poder ocular que os inimigos não estavam sendo controlados e, com um mero piscar, retornou ao estado normal e sombrio de seu olho.
Enfiou a mão dentro da bolsa de equipamentos, agachando novamente o corpo, agarrou as únicas kunais que tinha e envolveu-as com a natureza dos relâmpagos de seu chakra. O brilho azulado dançou por cima do metal das armas e finas correntes elétricas rodearam-nas. Em seguida, ele ergueu o corpo novamente olhando a posição dos homens.
Eu preciso de ao menos um para recuperar informações, analisou e prestou atenção em como os homens se comportavam. Percebeu que o alvo que havia falado antes era o único que não demonstrava preocupação alguma em mexer nas armas, deixando quase esclarecido a sua posição como líder daquela missão.
Sasuke moveu o braço e disparou as armas com precisão perfeita. Uma para cada um dos três lacaios. Atingiu-lhes nos pescoços, nos pontos de pressão onde seriam facilmente derrubados mas não necessariamente mortos.
Os três caíram ao mesmo tempo, assustando o que restava. Antes que ele pudesse tentar fugir de alguma maneira, Sasuke avançou usando a locomoção rápida, surgiu de frente para o homem e golpeando-lhe com uma cotovelada na boca do estômago para retirar-lhe o ar. O homem caiu de joelhos atordoado diante de Sasuke.
— Por que vocês estão roubando os equipamentos desta cidade? — Indagou, puxando o inimigo pelos cabelos.
— Os únicos que conhecem e se preocupam com este lugar são os Uchihas… — o homem sorriu com dentes podres — Você deve ser… Uchiha Sasuke, certo? — provocou, abrindo um sorriso nojento.
Sasuke não estava disposto a brincar com ladrões. Mal fazendo força, ele derrubou o homem contra o chão fazendo-o bater com a testa no concreto. Puxou-o novamente pelos cabelos com o sangue escorrendo por um corte feito no topo da cabeça, manchando toda a face do homem em vermelho vivo.
— Mais uma vez — insistiu, apertando mais os dedos nos cabelos do marginal. — Por que estão roubando os equipamentos desta cidade?
— Vamos, Sasuke-chan, use o poderoso Sharingan contra mim — provocou, bebericando um pouco do próprio sangue.
O andarilho suspirou e fechou os olhos por um breve momento, jogando o inimigo para trás deixando-o cair sentado. Ele caminhou até os corpos caídos dos demais homens, removendo-lhe as kunais penetradas na carne mesmo que o sangue escorresse forte pelo pescoço. Limpou-as em seu manto escuro e colocou-as dentro da bolsa novamente.
— Não me importa realmente o motivo desde que estejam todos mortos e eu recupere os itens, mas me pouparia tempo para acabar com o mal pela raiz — explicou, aproximando-se novamente do chefe da quadrilha.
— Vencê-la? Isso é impossível até mesmo para alguém como você, Uchiha Sasuke — o homem vangloriou-se, tentando erguer-se. — Ela tem uma Kekkei Genkai ainda mais poderosa do que o seu Sharingan. Ela é mais forte do que os membros de uma linhagem extinta e infeliz como os Uchihas.
Sasuke ouviu as palavras rebatendo em sua mente. O Sharingan nasceu em seu olho direito sem nenhuma ordem específica de seu corpo, apenas pelo nervosismo despertado. Não estava, porém, em seu estágio normal; ele estava em sua capacidade de eterna luz. Sasuke caminhou até ficar de frente para o homem e joelhou-o na altura do queixo, jogando-o para trás e quebrando uma das caixas de equipamentos.
— Nunca mais fale do meu clã — insistiu, sentiu a raiva invadindo-o como um vampiro sedento por sangue fresco.
Com dificuldades, o homem conseguiu se erguer levemente com algumas armas perfurando-lhe as costas.
— Um clã morto não precisa de cuidado ao ser citado — disse, a voz quase falhando.
Sasuke movimentou-se como um relâmpago, segurou o homem pelo pescoço e ergueu-o acima de sua cabeça. Enfraquecido e coberto de sangue, o homem apenas olhou para o andarilho que ativou os poderes de seu Sharingan para provocar-lhe uma tenebrosa ilusão da própria morte. Ainda que não fosse o seu estilo favorito, foi o suficiente para fazer o homem desmaiar de vez.
Depois de fazê-lo perder a consciência, ele usou o Sharingan para acessar a mente do homem, mas isso provou-se como uma tarefa mais difícil do que aparentava ser. Sasuke viu-se em meio a um enorme campo sombrio com diversos muros cercando tudo em dezenas de camadas fortificadas para que ninguém tivesse acesso as memórias do homem. Definitivamente não era uma habilidade que o próprio teria pois, se fosse, ele poderia ter facilmente anulado o poder mais básico dos poderes oculares Uchiha.
— Denka, Hina, amarrem-nos e prendam-nos. Tentem coletar informações, avisarei a Nekobaa que capturei os inimigos e levarei este para ela — contou ao ouvir os passos macios dos felinos aproximando-se.
Os animais assentiram rapidamente. Sasuke colocou o corpo do patife sobre o seu ombro e partiu em velocidade máxima para a loja de Nekobaa. Invadiu o salão e derrubou o corpo sobre o tapete colorido em frente a idosa.
— Eram quatro homens roubando as armas — explicou, puxando o ar com força. — Não consegui nenhuma pista de quem está controlando-os, mas não deixarei de investigar. Saber que há pessoas roubando armas também me faz ser capaz de prever conflitos intensos contra os vilarejos maiores ou menores. Não posso permitir que isso aconteça.
Nekobaa tragou e soprou a fumaça para cima.
— Mate-o — ordenou.
Sasuke regalou os olhos dando um passo para trás.
— Nekobaa? Isso foi um pedido real? Por que? — Sasuke sentiu um enorme pedaço de si mesmo desaparecendo.
A idosa ergueu o rosto mostrando um sorriso gentil. Sasuke paralisou ainda mais intensamente por causa daquela expressão.
— Eu sabia que ainda era o mesmo garotinho gentil, Sasuke-kun — respondeu.
As memórias deixadas para trás vieram com força para o presente. Sentindo as lágrimas enchendo os seus olhos, ele abaixou o rosto para que os seus cabelos escondessem a sua tristeza e ocultasse a sua nostalgia. Nekobaa soltou uma risada alta, animada, feliz. Tamaki riu baixinho e o homem resmungou como se estivesse dormindo.
— Sasuke, cuidamos dos outros três — Hina disse, aproximando-se dele.
— Obrigado… Hina… — sua voz quase não saiu.
Tentando não revelar nenhum traço de seus sentimentos, Sasuke deu as costas para Nekobaa caminhando para a saída da loja de cabeça baixa. Ele parou erguendo as cortinas com a sua mão, ergueu o rosto e antes de sair terminou dizendo:
— Tomarei o que eu preciso e irei embora. Adeus, Tamaki-san, Nekobaa, Hina e Denka.
Sasuke saiu da loja e desapareceu nos labirintos da região.
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