Santuário - A Lenda De Luz E Trevas
2 Eclipse
Por um instante me faltou o ar. Eu nunca havia visto ou ouvido falar de nada semelhante. O sol havia se tornado uma esfera negra gigante e o céu estava tingido por um vermelho sangue tenebroso. As nuvens pareciam se aglomerar e se afastar , circulando em volta do sol num ritmo frenético.
– Pelas deusas, o que é isso?
Como um relâmpago, uma faixa de luz vermelha despencou do céu, vinda do sol, sobre Ceres. Por um instante pensei ter ficado cego pela claridade, mas então consegui aos poucos distinguir as silhuetas ao meu redor. E foi a visão mais aterrorizante que já tive. O tempo havia parado. As pessoas permaneciam petrificadas exatamente como haviam estado segundos antes do clarão, correndo, gritando, chocadas de medo. Até mesmo os objetos haviam parado e a física parecia não contar mais quanto a eles, sendo que muitos encontravam-se no ar. Engoli em seco e respirei fundo enquanto observava aquele quadro mortal. E, por estranho que pareça, meus movimentos não haviam sequer sido comprometidos. Olhei para o alto, as nuvens continuavam espiralando ao redor da esfera negra que uma vez fora o sol. Dei um passo meio fraco para a frente, a dor nas costas havia cessado completamente, mas, a marca da queimadura na minha mão ainda ardia. Segurei-a com minha mão esquerda enquanto andava devagar pelo local. Eu estava em estado de choque. Não sabia o que fazer ou pra onde ir. Tive até a impressão de ter ouvido alguém gritar por diversas vezes, mas, minha mente estava tão perturbada que não sabia se era imaginação ou realidade. Andei sem rumo por alguns metros pela cidade, até que senti algo frio no meu braço. Virei assustado. Era Satella. Seu rosto estava mais sombrio que o meu, e seus olhos estavam fundos. Atrás dela estava o irmão, e ele carregava uma bagagem imensa nas costas.
– O fim do mundo começou. Precisa nos ouvir.
Estávamos de volta para a casa de Satella. O irmão tirou a bagagem e colocou-a na parede mais afastada da janela, ao lado da cama. Satella começou a desamarrar o cabelo, deixando o cair sobre os ombros e mostrando várias mechas de diversas cores. Branco, vermelho, amarelo e roxo. Olhei para aquilo espantado enquanto ela puxava as mechas com força, arrancando-as.
– Pare! Por que está fazendo isso??
– Cale a boca e fique no seu lugar.
O irmão dela estava com a voz tensa e embargada. Apertei os lábios e sentei-me de volta no chão. Ela já havia arrancado todas as mexas, colocou-as então lado a lado a sua frente e pousou sua mão direita sobre elas uma a uma. De principio nada aconteceu, mas então, estranhamente os fios começaram a se entremear e se amarrar sozinhos, como mágica. Arregalei os olhos, observando tudo aquilo acontecer totalmente atônito. Ela levantou-se e começou a remexer dentro da bagagem que o irmão havia colocado perto da cama, tirou quatro esferas laranjas pequenas e trouxe-as para perto das mechas, que agora, magicamente haviam se transformado em quatro colares diferentes.
– Você ainda está fraco, mas, seu coração guarda um grande poder. Esses colares estão adormecidos, assim como o seu coração, mas, um mal muito maior está prestes a acordar. Você é o escolhido. As deusas te escolheram para ser o guardião desta terra. Para guardar este lugar do mal que está porvir.
Eu estava aturdido demais. As palavras dela ecoavam na minha cabeça. O rosto dela estava sério. A luz fraca e avermelhada do céu fazia sombras em seu rosto delicado.
– Não... Não pode ser... Isso deve ser um engano... Vocês estão falando com a pessoa errada... Eu não...
– Escute. — Ela estendeu o braço devagar, segurando os quatro colares, em seguida depositou levemente os quatro nas minhas mãos, que permaneciam abertas. — Não há enganos, não há tempo para eles. Ainda que você não seja o escolhido, o que estou certa de que não é possível, estes colares irão te dar condições suficientes para que você encontre o poder necessário para barrar o mal.
– Não... Eu não posso... Eu sou apenas...
– Um andarilho? Um mendigo miserável? — O irmão dela havia se desencostado da parede e agora caminhava ferozmente em minha direção. — Sabe o que me irrita em todos vocês, humanos? Covardia. Falta de heroísmo. Fraqueza de espírito. A terra, o seu lar, está correndo risco de desaparecer por completo, e tudo o que você faz é dizer que vai correr como uma garotinha perdida num bosque?
– Ei, não fale assim comigo, você não sabe o que... — Levantei-me num pulo, os colares apertados em minhas mãos.
– NÃO PRONUNCIE MAIS UMA PALAVRA E PERMANEÇA NO SEU LUGAR!
– QUEM VOCÊ PENSA QUE É PRA FALAR ASSIM? — A essa altura eu estava a um passo de voar em cima daquele homem e enchê-lo de socos, mesmo sabendo que ele era mais forte e que eu apanharia mais.
– EU SOU PERIETT, O DEUS DA DESTRUIÇÃO E VOU MATÁ-LO SE NÂO SE CALAR E VOLTAR A SE SENTAR.
– Se é um Deus então prove. — O desprezo e incredulidade na minha voz estavam tão explícitos que eram quase palpáveis.
O homem pisou no chão com o pé esquerdo com muita força, fazendo o assoalho estremecer, para logo em seguida se desmanchar e ser substituído por estacas de pedra, que por alguns centímetros não me atingiu. Fiquei em silêncio absoluto, olhando para a cara dele tão petrificado como as pessoas que estavam lá fora.
– Sente-se agora, ou pisarei em sua cabeça da próxima vez. — Ele já não olhava para mim, fitava o chão, claramente irritado, e se recostava na parede mais uma vez.
Sentei-me devagar, os colares fazendo um barulho estranho ao encostar no chão. Satella continuava sentada sobre as pernas, observando-me pacientemente.
– Você é uma deusa também?
Ela apenas balançou a cabeça positivamente, mas não disse nada. Em seguida colocou as quatro esferas alaranjadas na sua frente.
– Os colares que estão nas suas mãos, possuem poderes magníficos. São eles o poder do trovão, do gelo, do fogo e da luz. Porém, todos eles estão adormecidos, assim como o heroísmo em você.
Me desconfortei um pouco.
– Você precisará fazer uma grande jornada, por um mundo que você jamais viu, para que você possa se tornar mais forte, e para que você possa aplicar cada uma dessas esferas em cada colar.
Ela apontava para cada esfera enquanto falava.
– Isso são gemas. São esferas com poderes mágicos, retiradas do fundo de um mar, de um mundo distante, que você não conhece por nome, mas certamente já viu sua silhueta no céu desta terra. Você deverá ir para Ernas e provar sua força, coragem e sabedoria perante os deuses para que possa despertar cada um dos colares. Se não tiver o poder suficiente, jamais conseguirá adicionar uma nova gema para um colar.
Olhei para os quatro colares em minhas mãos. Pelos formatos e material eu jamais teria dito que haviam sido feitos por fios de cabelo. Olhei para a frente e concordei com a cabeça devagar.
– Mas... Como eu posso ser o escolhido, de que poder você está falando?
– Cada pergunta tem seu tempo. Mas, não quero permitir que você siga sua jornada sem saber nada. Há dezoito anos atrás, o seu povo, os humanos, criaram o que hoje se é conhecido como a maldade. Ela se derivou da inveja dos seres humanos sobre Ernas, o mundo que você vê nos céus da Terra. Esta maldade foi selada pelas deusas e entrou em estado de hibernação, pois, elas não foram capazes de destruí-la. Como preparação para o futuro, e para proteger Ernas, as deusas nos criaram. Além de nós dois há também outros deuses. Meu nome verdadeiro é Gaia, eu sou a deusa da natureza. Esta forma que você vê agora é apenas um vaso que contém o meu poder. Deuses são seres formados por pura energia, nós não temos um corpo físico. Por isso, incorporamos formas de animais ou humanos para cuidar de perto dos mundos. Mas, para que você possa entender um pouco qual é o seu propósito. Há dezoito anos atrás, também, as deusas escolheram uma criança que teria um futuro brilhante e puro para ser portadora de uma parcela do poder de cada uma das deusas. Elas deram a essa criança um selo, para que esse poder não saísse de controle, e para que fosse permitido que esse poder crescesse junto com a criança. Esta criança é você.
Embora a notícia tivesse feito meu estômago se revirar como se eu tivesse engolido uma carroça de minhocas, eu já havia ouvido tantas coisas naquele dia que não fiquei tão surpreso. Mas, algo ainda me intrigava.
– Meus... Pais... Por que eles morreram? Por que caçaram eles se eu nasci para ser alguém bom?
– O que causou o nascimento do mal foi a inveja, a mesma que se recaiu sobre sua família. Os seres humanos foram tolos o suficiente de acreditarem que eram uma raça superior e mais próxima dos deuses. Eles não admitiram a criação de alguém mais puro e poderoso que eles próprios. O alvo daqueles assassinos não era os seus pais. Era você. Seus pais deram a vida para te salvar e para lhe garantir um futuro, para garantir um futuro para o mundo.
Mastiguei devagar aquelas palavras. Pensar que meus pais haviam dado a vida dessa forma era muito cruel. Como a inveja pode ser algo tão destruidor assim? Olhei para o rosto de Satella, digo, Gaia, e assenti devagar com a cabeça.
– Se meus pais deram a vida para garantir o futuro do mundo, então eu honrarei o nome deles.
Gaia então fez o que eu não havia visto até agora, esboçou um sorriso de gratidão.
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