Sangue quente.

31 Uma tênue linha entre o bem e o mal.


Notas iniciais
Primeiramente gostaria de agradecer a leitora Alana Lysander por recomendar a minha história. E obrigada também a todos que acompanham e cometam. Você são demais! Boa leitura e até o próximo capítulo. E desculpa se eu demorar a responder seus comentários, é que meu avô está exigindo mais cuidados com esse frio aqui do Rio grande do Sul. ^^ Até mais.

Sophia...

No inicio éramos apenas uma única célula, um único ser vivo, com um imenso poder e com muitos objetivos... crescer, se transformar, evoluir... viver.

Mas então nos separamos, o que antes era um, agora eram dois. E todo o resto se dividiu junto. Nosso poder também foi dividido, ficou parcelado e incompleto.

Mas muito mais do que apenas o nosso poder foi dividido. Tornamo-nos opostos quando ele levou algumas características e eu outras.

Ele ficou com a parte racional e sentimental. No seu primeiro dia de consciência ele já era extremamente inteligente, e suas emoções o faziam capaz de me amar.

Já eu fiquei com a força e a capacidade de me adaptar. Em apenas alguns minutos de consciência, eu já era capaz de me adaptar para o que eu quisesse.

Erámos diferentes desde o primeiro dia. E isso ia além do físico e mental. E eu o odiava por isso.

Crescemos e evoluímos juntos, e aos poucos fomos tomando senso de nossa existência e importância... Por sermos opostos, era claro que deveríamos ser inimigos jurados pela eternidade, com o único proposito de lutar e nos destruir um dia. Ele era... em palavras toscas, o bem e eu era o mal.

Pra mim, a nossa existência e importância um para o outro, era ser uma motivação para seguir melhorando nossas habilidades e poderes, tendo o outro como principal concorrente e inimigo. Desse jeito seguiríamos sempre tentando nos superar.

Nosso destino seria se digladiar e testar nossas forças, para evoluirmos. E para um dia talvez, tomamos de volta à força os poderes que nos foi tirado e dado ao outro, tornando-se assim o ser mais poderoso.

Mas ele parecia não estar interessado no banho de sangue ou na batalha, ele não queria o poder... não! Ele queria abri mão disso tudo, pois diferente de mim, ele percebeu algo que só naquele momento me foi revelado... havia algo além de nós dois, algo ao nosso redor. Para mim esses barulhos que vinham de fora, eram nada mais que isso... ruídos irritantes e só. Mas para ele, era algo ao qual ele já era capaz de amar.

O tempo passava e a cada dia eu me tornava maior e mais forte, partes novas de mim surgiam a todo o momento, o ser a minha frente também sofria essa estranha metamorfose.

Foi nessa época que comecei aprender com o que vinha de fora. Os barulhos se tornaram palavras que eu entendia, e logo vozes que eu já sabia reconhecer.

O ser na minha frente se agitava feliz quando ouvia a voz irritante do ser que era o nosso hospedeiro, ele queria conhecê-lo, mas eu queria apenas rasgá-lo em tiras e absorver seu conhecimento.

O ser a minha frente tocava as paredes ao nosso redor, toda vez que ouvia a voz do outro ser que existia lá fora. Esse não era nosso hospedeiro, mas tinha alguma ligação conosco mesmo assim. Ele vivia sempre perto de nosso hospedeiro. Com esse eu queria testar a minha força... O quanto eu poderia puxar seus membros até arrancá-los?

Mais um tempo se passou, nós evoluímos mais. Agora eu podia nadar livremente e o ser a minha frente passou a querer brincar comigo, mas tudo que eu queria fazer com ele, era matá-lo... mas infelizmente, eu ainda não tinha as armas necessária e ele estava no mesmo nível de poder que eu, não haveria vencedor na nossa batalha.

—“Irmão...” Ele me chamou, só agora percebi que podíamos nos comunicar mentalmente.

—“Quero sair para conhecer os nossos criadores.” Ele se agitou na minha frente.

—“E eu quero matá-los.” Algo dentro de mim me impelia a isso, era como se eu tivesse sido feito para destruir tudo.

—“Sabe que não deixarei você machucá-los... nunca! É para isso que fui feito, para proteger os outros de você.” Ele me respondeu com convicção. Ri em deboche, era nisso que ele acreditava? Nós éramos maiores que isso.

—“Então eu fui feito para destruir tudo... e aumentar o meu poder e habilidade. E você foi feito para me deter, é isso?” Se ele queria jogar esse jogo, então tudo bem.

—“Eu nunca vou sair do seu lado... eu vou garantir que você possa amá-los também.” Ele me disse isso todo confiante.

—“Não posso amar... você ficou com os sentimentos... isso é algo que nunca entenderei.” E eu gosto desse fato. Sentimentos parecem uma fraqueza.

—“Eu tenho amor o suficiente para nós dois.” Ele tentou me tocar, mas me afastei dele.

Na época eu não entendi o que ele queria me dizer com isso, mas logo eu descobriria.

Quando aquele terrível dia chegou, tudo parecia normal como sempre. Mas de repente o nosso hospedeiro ficou agitado, seus batimentos cardíacos estavam fortes e eu pude sentir que em sua corrente sanguínea havia hormônios como adrenalina, o preparando para o perigo e luta... Mas isso era comum, toda vez que nossos criadores ficavam muito juntos, eu sentia isso, eles faziam algo lá fora que exigia muito desse corpo.

Mas dessa vez algo estava errado. O ser a minha frente também sentia isso, ele estava preocupado, ele sentia algo que eu não podia, ele queria proteger nosso hospedeiro.

Foi quando o inferno começou, uma dor lancinante tomou conta de mim, o ser a minha frente também estava sofrendo, e nosso hospedeiro gritou alto o suficiente para que eu sentisse tudo ao meu redor vibrar.

Tudo começou a desmoronar, fluidos importantes para a minha sobrevivência estavam sendo perdidos. O ser a minha frente passou a tentar dar seu próprio poder de cura ao nosso hospedeiro, fiquei tentado a ajudá-lo, afinal, eu ainda precisava do nosso hospedeiro vivo... mas porque eu deveria me gastar tentando ajudar, quando posso deixar o ser a minha frente ir a exaustão?

A dor e a perda de fluidos continuavam, minha existência estava em risco, mas me recusei a ajudar.

O ser a minha frente estava ficando fraco em sua luta para proteger e curar o nosso hospedeiro... que idiota... está se destruindo à toa... E essa era minha chance... esse era o momento em que eu poderia ceifar sua vida e roupar de volta o restante dos poderes que ele tirou de mim.

Aproximei-me do ser que “seria” meu irmão... e o destruir, o matei lentamente e o estranho é que cada golpe que eu dava nele, era outro grito que eu ouvia de nosso hospedeiro lá fora.

—“Por quê?” Ele me perguntou triste quando cortei o cordão que o mantinha vivo.

—“Idiota.” Foi tudo que disse antes de começar a absorver o poder pelo cordão que antes o estava ligando ao nosso hospedeiro.

—“Eu ainda te amo... irmão.” Ele me disse isso, mas eu queria gargalhar em desdém... como ele poderia dizer algo tão pífio ao ser que o matou?

A transferência de poder estava quase completa, eu me sentia mais forte agora.

—“Eu só queria conhecê-los.” Ele me disse isso com um tom triste. Senti algo estranho em meu peito... dor.

Olhei para o ser a minha frente... a dor em sua expressão era o reflexo da minha... ele realmente só tinha essa ambição na vida? Que ser mais sem significado.

A transferência estava prestes a se concluir.

—“Cuida deles...” Ele me implorou, ri em deboche dele. Eu não cometeria o mesmo erro que ele... O fato dele ter se importando com algo além dele mesmo, o levou a morte. Esse era o seu pior erro e seu maior defeito... amar.

—“Eu sei que você vai cuidar deles... eu vou garantir que você vai cuidar.” Pude ouvir o riso dele em minha mente... do que ele estava rindo?

A transferência se completou, e uma dor terrível me apunhalou o coração, era pior que a dor que senti quando nosso hospedeiro foi ferido. Algo estava dilacerando meu coração, tentei curar, mas não tinha como... não era um ferimento... o que estava acontecendo comigo?

Comecei a me sentir completo de novo, como quando éramos apenas uma célula... eu voltei a ser um único ser... mas agora essa dor me destruía e eu não entendia o que era.

Até olhar para o corpo sem vida, que antes era meu irmão... a dor ficou mais forte, mas não era uma dor, era um sentimento... era algo novo pra mim, mas eu já podia nomeá-lo graças aos conhecimentos que absorvi de meu irmão.

Era remorso e culpa... Eu o matei... matei meu próprio irmão... e agora estou sozinho aqui. O corpo dele se foi junto com os fluidos importantes.

E senti meu ser mudar... aos poucos me metamorfoseei... mudei para algo mais parecido com meu irmão. Minhas garras e outras partes feitas para matar sumiram de meu corpo, e minha mente também sofreu mudanças.

Despois disso, tudo se acalmou... as coisas se concertaram onde eu estava hospedado, o ser ao meu redor parou de sentir dor e a minha sobrevivência ali dentro foi garantida.

E então eu ouvi a voz do ser que antes eu queria arrancar os membros, agora eu tinha um nome pra ele, Papai.

—“Sua criaturazinha! Você não faz ideia da sorte que tem! Se não fosse seu irmão... você estaria morto agora! Mas não vá pensando que só porque te deixei viver é que eu vou ser legal com você... acredite, eu não gosto de você e não quero que o Ian perca seu tempo dando atenção a você, pois ele é só meu! Você vai ter que se virar sozinho... tá me entendendo? Depois de sair dai... é bom pegar suas malas e dar o fora da minha vida!” A voz dele fez meu coração acelerar, estranhamente me senti feliz em ouvi-lo, mesmo que ele estivesse me dizendo coisas ruins... eu sentia algo por ele.

E algo que ele me disse me causou dor de novo, ele disse que só me deixou viver por causa de meu irmão... Eu o matei e ele me salvou?

Olhei ao redor, ele não estava mais lá... eu não tinha mais com quem brincar... eu não tinha mais um inimigo a me dar um objetivo de vida... a batalha pelo poder não me era mais necessário ou importante. Então para que eu existo agora? Perdi minha metade e minha motivação junto.

Mas então percebi algo e isso me fez sorrir... Sim, não foi meu irmão que se foi... fui eu mesmo que morri... Eu me matei ao absorver meu irmão, eu destruir o ser que queria matar os nossos criadores e me tornei o ser que queria protegê-los.

Sim, o corpo de meu irmão se foi... mas ele foi mais esperto... ele se mesclou a mim e fez o que prometerá, ele cumpriu o seu objetivo.

“Eu nunca vou sair do seu lado... eu vou garantir que você possa amá-los também.”

“Eu tenho amor o suficiente para nós dois.”

Foi o que ele disse... e foi o que ele fez.

Acabei nascendo e realizando o sonho dele... Nosso sonho agora. A primeira coisa que vi nesse mundo foi o rosto de alguém estranho, mas assim que ouvi sua voz, eu o reconheci, ele era meu Papai. Eu não queria desgrudar dele, eu o amava muito, mas instintos estranhos tomaram conta de mim, senti algo que nunca senti antes... fome. E ele me ensinou a comer, ele me deu calor e aconchego agora que eu não estava mais quentinho e protegido dentro de meu hospedeiro, ou melhor, dentro de meu Tata.

E como era bom estar nos braços de meu Tata, meu coração acelerava sempre que eu estava com ele. Seu cheiro me acalmava e me fazia acreditar que nada de ruim aconteceria comigo.

Conheci meu adorado avô e o delicioso Pedro. Nossa como ele cheirava bem, algo dentro de mim se agitava sempre que eu chegava perto dele. Eu queria devorá-lo, mas fui ensinada de que isso era errado. Então naquele momento me adaptei, mudei meus hábitos alimentares para sangue de vampiro. E sem querer, me tornei o maior predador dessa espécie. Meu corpo se adaptou para caçar esses seres.

Meu corpo estava sempre em evolução, minha inteligência me proporcionava um rápido aprendizado, minha capacidade de me adaptar me ajudava a me formar mais forte.

Infelizmente mesmo me adaptando e evoluído, eu não fui capaz de proteger meu avô e Pedro quando aquelas bombas caíram, e agora novamente enfrento um impasse, meus pais estão em risco e eu estou com medo.

Medo de perdê-los, pois agora, eles são meu novo objetivo de vida. Protegê-los se tornou o único motivo para a minha existência.

O vampiro malvado bateu no meu Tata com força, o sangue dele manchou suas roupas. Papai ficou furioso e tento revidar, mas vários vampiros o cercaram e o machucaram. Leo estava tão assustado, que quase não conseguia respirar.

O vampiro que me segurava me levou até a beirada do barco, eu queria reagir, mas da última vez que fiz isso, eu matei dois vampiros soldados envenenados. E eu não quero voltar a ser um monstro. Mas também não quero que meus pais sofram.

Fui atirada na água gelada, tentei respirar, mas meus pulmões se encheram de água salgada, doeu muito e entrei em sofrimento ao me afogar e afundar na escuridão.

Mas minha capacidade de me adaptar me fez evoluir, logo meus pulmões se tornaram capaz de tirar oxigênio da água. Membranas finas surgiram em meus dedos e passei a conseguir me mover na água com velocidade.

Mas o que eu podia fazer agora? Olhei os cascos dos barcos acima de mim. Eu podia ver além da madeira que Papai, Tata e Leo estavam sofrendo e sendo machucados.

Eu precisava protegê-los. Acho que não teria problema liberar só um pouco da minha natureza de predador, não é?

—“Isso... me liberte.” Algo dentro de mim disse isso.

—“Quem disse isso?” Perguntei dentro de minha mente.

—“Alguém estupido que quase se destruiu ao ti absorver, mas eu não me fui completamente. Uma parte de mim ainda está aqui. Consegui ficar adormecido dentro de você... Eu sou seu lado mal. Eu sou o ser que nasceu para ser o maior predador da face da terra.” Ele me respondeu e o medo tomou conta de mim. Então no fim eu não perdi meu outro lado. Isso explica muita coisa.

—“Vamos, me liberte... você quer salvá-los não quer?” Ele sorriu na minha mente.

—“Não... não posso, você é muito perigoso.” Respondi firmemente.

—“Então vai desistir de seu novo objetivo de vida? Vai desistir de protegê-los? Ou vai tentar fazer do seu jeito? Você vai acabar perdendo se for muito benevolente com esses monstros.” A voz em minha mente falou.

Ele tinha razão... eu não era capaz de machucar alguém, nem mesmo para salvar minha própria família. Ter matado aqueles soldados ainda é algo que me destrói por dentro.

—“Promete que não vai machucar a minha família?” Perguntei com medo.

—“Eu prometo.” Uma risada sinistra seguiu junto com essa promessa.

O medo voltou a me dominar, eu não sabia o quão forte esse meu lado era, mas eu não tinha mais alternativa. Deixei esse meu “lado” me dominar.

...

Sephiron...

O desespero tomava conta de tudo, eu tinha que me desvencilhar desses vampiros e ir salvar a criaturinha, antes que ela se afogasse. Ian estava tentando fazer o mesmo que eu, mas o vampiro chefe havia o capturado e agora se esbanjava em seu sangue. Os gritos de dor de Ian faziam meu sangue ferver.

Enquanto isso Leo era linchando por um bando de vampiros servos, por ordem do capitão, é claro. Ele estava sendo chutado, pisoteado e espancado. Desse jeito ele ia ter uma morte bem lenta e dolorosa.

Eu tinha que agir, tinha que ser agora. Ou a criaturinha ia se afogar e Ian ia ficar muito fraco.

Um estrondo forte sacudiu o barco de repente, todos dentro se desequilibraram um pouco. O silêncio se fez presentes quando todos se olharam sem entender.

—“O que foi isso?” Ouvi alguém perguntar.

De repente as tábuas aos nossos pés se partiram em lascas quando uma criatura abriu passagem por elas com suas garras afiadas. Todos no barco deram um passo atrás, abrindo um circulo em volta da criatura.

Isso... era a criaturinha? Não, não pode ser... ela estava muito diferente.

Ela possuía garras negras e compridas, com quase cinco centímetros de comprimento, ao em vez de unhas em suas mãos e seus pés.

Uma fileira de dentes pontiagudos como um tubarão, ao em vez de apenas quatro pequenas presas. Sua boca era capaz de se abrir até quase suas orelhas, possibilitando a ela abri totalmente a sua mandíbula.

Seus olhos eram totalmente negros, não havia mais como diferenciar pupila de íris e córnea. Não dava para ter certeza para onde ela estava olhando, mas algo me dizia que seu campo de visão era bem maior que o de qualquer um dentro desse barco.

Sua pele parecia ter uma textura mais resistente e dura. De suas costas, saindo de suas omoplatas havia pequenos projetos de asas negras com garras, pareciam asas de morcego, mas não estavam completamente formados e tinha uma pequena envergadura, seria impossível ela voar com essas coisas.

Ela estava assustadora, mas ainda era a minha filha... não era?

—“Que coisa é essa?” O vampiro chefe olhou pra ela com visível medo, ninguém se atreveu a chegar perto.

—“Estão esperando o que? Peguem essa coisa. Isso deve valer muito no mercado negro.” O Vampiro chefe deu a ordem.

Ela logo foi cercada por vários vampiros servos curiosos, alguns pegaram uma rede para tentar jogar cima dela, outros tinham ganchos, acho que isso eram os equipamentos de pesca deles.

Eles jogaram a rede em cima dela, mas ela conseguiu cortar a rede com suas garras com facilidade.

E então o banho de sangue começou do nada. Ela pulou contra um vampiro servo e foi capaz de fatiar o peito dele como se fosse feito de manteiga, ela arrancou seu coração ainda pulsando.

Em apenas um minuto, ela fez uma carnificina dos vampiros que se aproximaram dela. E o mais assustador era que ela estava aproveitando esse momento para se alimentar, tirando bons pedaços de carne em apenas uma mordida... então ela era carnívora também? Assim como Ian.

—“Matem essa coisa... Ainda posso ganhar dinheiro se empalhar esse negócio.” O vampiro chefe se escondeu atrás de alguns servos e olhou para a criaturinha apavorado.

Os vampiros se juntaram nela, numa vã tentativa de pará-la, eles sacaram espadas e pistolas. Tentaram disparar contra ela, mas ela foi muito mais rápida, ela ficou de quatro e se desviou das balas com muita facilidade, em uma velocidade incrível. As espadas nem faziam cocegas na pela dela.

Ian conseguiu se desvencilhar do vampiro chefão, que estava pasmo no mesmo lugar, olhando seus servos serem mortos, um após o outro. Ian correu para apanhar Leo que estava caído ao chão, muito ferido. E logo em seguida ele veio para os meus braços.

Abracei Ian e me encostei contra o mastro do barco que estava inclinando levemente, aparentemente a criaturinha abriu um buraco no casco do navio para chegar até aqui.

—“O que houve com ela?” Ian me perguntou trêmulo.

—“Não sei...” Respirei fundo e mal percebi que Leo estava abraçado com força em minha cintura e na de Ian, ele escondeu seu rosto entre nossas barrigas.

A batalha estava cada vez mais sinistra. Os tripulantes dos outros navios pularam para esse barco, mas ela conseguiu se desfazer de alguns deles, enquanto eles ainda estavam pulando em pleno ar. Ela arrancou do chão de madeira grandes nacos de farpas e estacas e simplesmente atirou neles, os acertando bem no coração. A maioria dos corpos caiam na água.

Os poucos que conseguiram pular para esse barco com vida, possuíam mais armas, entre elas alguns lanças chamas. Nesse momento temi por ela.

Mas foi ai que descobri para que serve aquele projeto de asa em suas costas. Ela as abriu completamente, pareciam duas mãos gigantes com dedos compridos em suas costas, exatamente como asas de morcego. Havia uma película ligando cada dedo, ela se enrolou naquilo, criando uma bola de proteção, o fogo nem chamuscava aquela película protetora.

Quando os vampiros perceberam que não iriam vencê-la com fogo e pararam de lança-lo contra ela. Ela voltou abrir aquelas asas, e projetou espinhos da ponta de cada dedo da asa, os vampiros que foram atingidos morreram envenenados como os vampiros soldados daquele dia.

Mas o mais assustador pra mim foi quando ela começou a matar sem nem tocar nas vítimas. Apenas com um olhar dela, eles caiam no chão com as mãos sobre o peito e gritando de agonia. Eu não sabia o que ela estava fazendo, mas acho que ela era capaz de explodir o coração deles com algum tipo de poder psíquico.

A criaturinha então se tornou invisível como um camaleão, os vampiros ainda vivos nesse barco pararam e formaram um circulo de costas, para proteger a retaguarda um do outro. Eles olharam em volta em guarda, prontos para atacar a qualquer momento.

Em um piscar de olhos a criaturinha matou todos desse barco, e simplesmente desapareceu novamente, mas logo ouvi os gritos dos barcos vizinhos. Ela aparentemente se moveu rapidamente para eles.

Ian agora tremia tanto nos meus braços, que estava me fazendo tremer junto.

O abracei mais forte e fechei os olhos, não queria ver a criaturinha daquele jeito, isso não era ela... Ela não é assim.

Os sons de gritos, tiros e pancadas continuou por vários minutos, até que finalmente tudo silenciou, era como se eu tivesse ficado surdo, eu mal podia ouvir o som natural do mar agora.

De repente ouvi o som de algo pousando com força na nossa frente.

Abrir os olhos e me deparei com aquele ser assustador, há alguns metros de nós, ela nos analisava com atenção.

—“S-Sophia?...” Ian a chamou. A criatura apenas olhou para ele e o farejou de longe, como se pegasse o rastro de uma presa deliciosa.

—“Filha... tá tudo bem... já passou, vem comigo vem.” Ian me soltou e estendeu os braços pra ela.

Ela rosnou pra ele e mostrou sua fileira de dentes afiados.

—“Cuidado Ian.” O segurei pela camisa, acho que ela não está consciente, com certeza isso ai não é ela.

Ian me ignorou e se aproximou dela devagar. Leo me abraçou mais forte, o ignorei e mantive os olhos em Ian, ele seguia se aproximando devagar dela.

—“Sophia?” Ian a chamou com um tom de voz calmo e tranquilo.

Aquela coisa pulou em Ian e usou suas garras para abrir seu peito.

—“NÃO!” Empurrei Leo para o lado e corri para salvar Ian.

Ian abraçou aquela coisa, mesmo que ela continuasse a estraçalhar seu peito ainda mais.

—“Ian solta essa coisa.” Me aproximei dele sem saber o que fazer, ela estava mesmo tentando matar Ian. Havia uma clara intenção assassina nos ataques dela. O sangue de Ian escorria até seus pés agora.

—“Calma... shhhh passou Sophia, eu estou aqui meu amor, calma...” Ian seguiu abraçando e ninando ela, mesmo se ferindo gravemente, ele não a soltou, nem quando ela tentou morder ele.

Sem pensar direito eu também os abracei, agora a criatura estava presa entre nós, tentando nos matar. A dor dilacerou meu peito quando as garras dela me arranharam, mas assim como o Ian, eu não a soltei.

Ela se debateu enfurecidamente, tentando se soltar e nos fatiar ao mesmo tempo, até que lentamente ela foi se acalmando e finalmente parou completamente.

—“Papai... Tata?” Ouvi a voz dela, quando a olhei com atenção, pude ver que ela estava voltando a sua forma original, agora ela era apenas um bebê comum de novo.

—“O que houve?” Ela perguntou assustada, olhando em volta, o chão agora era vermelho. Havia vampiros empalados nos mastros, velas completamente manchadas de vermelho e corpos para todo lado.

—“Nada... tá tudo bem, meu amor.” Ian a tranquilizou, fazendo um carinho em seu rosto, mas sua voz estava fraca. Quando dei por mim, Ian já estava caído no chão, o peito tão ferido que eu podia ver seus ossos e alguns órgãos.

—“IAN!” Me ajoelhei ao seu lado e larguei a criaturinha no chão, ela paralisou e em choque ao ver Ian assim.

Peguei Ian nos braços, ele estava vivo, mas muito fraco para se curar sozinho, ele havia perdido muito sangue quando aquele vampiro chefe se alimentou dele, sem falar que fazia tempo que ele não se alimentava decentemente.

Eu podia tentar dar meu sangue a Ian, mas não sei se isso lhe faria bem. Meu sangue era afrodisíaco pra ele, eu tinha medo de piorar sua situação.

—“Tata?... Tata acorda. Papai, ele vai ficar bem?” A criaturinha se aproximou e começou a puxar a mão dele, tive de me controlar para não gritar que a culpa era dela. Respirei fundo para me acalmar.

—“Não sei... ele está muito fraco e foi ferido gravemente.” Fui sincero, não tinha como enganá-la.

A criaturinha encheu os olhos de lágrimas e voltou a olhar em volta sem entender o que aconteceu, será que ela não se lembra do que fez?

Leo desapareceu. Em minuto ele estava do meu lado, no outro ele já estava cruzando a passarela desse barco para o navio principal. Acho que ele foi se apropriar do navio, agora sim ele podia dizer que era dono de um navio.

Ian estava ficando mais pálido e fraco, o pânico crescia em meu peito.

—“Ian... reaja, vamos, fica comigo.” Pressionei o peito dele para impedir mais sangramento, mas ele nem reagiu de dor ao ter seu ferimento pressionado por mim.

De repente Leo voltou correndo do navio principal para o meu lado.

—“Toma... dá pra ele.” Leo me estendeu um frasco de vidro contendo sangue. O peguei e o abrir, era cheiro de sangue humano... então esse vampiro chefe era mesmo muito rico para ainda ter acesso a sangue humano quando eles estão quase extintos.

Fiz Ian beber o sangue devagarinho, ele aos poucos ficou mais corado, mas pelo visto as garras da criaturinha possuía algo que impedia a cura instantânea. Acho que era para impedir que a sua presa se cure e fuja.

—“Droga... esse sangramento não para. Desse jeito não vai servi pra nada beber esse pouco sangue humano.” Eu sinceramente não sabia o que fazer, Ian estava mesmo mau. Agora eu sentia na pele, o que o meu pai sentia quando via Pedro definhando em sua frente.

Leo sumiu novamente o voltou com um pano cumprido.

—“Pega... é um lençol limpo... usa pra fazer curativo nele como nos filmes humanos.” Ele me deu o lençol... espera! Ele disse filmes humanos? Como ele teve acesso a algo assim sendo um escravo?

Fiz o que ele disse e realmente ajudou um pouco. Meu peito também estava ferido, mas não era grande coisa, os cortes ardiam um pouco, acho que as garras da criaturinha realmente tinham alguma substancia anticoagulante ou anticicatrizante.

—“Esse barco tá afundando... vamos pro outro navio, lá tem uma cama bem macia pra ele.” Disse Leo que de repente se mostrou outro vampiro, eles estava super prestativo e bonzinho... Qual era o problema dele?

Peguei Ian no colo e mudamos de barco. Assim como o moleque disse, o quarto do capitão possuía uma cama grande e confortável, tudo lá dentro era chique e aconchegante.

Deixei Ian na cama e o cobri com cuidado, senti que o barco voltou a se mover. A criaturinha não estava por perto, mas uma rápida espiada lá fora me serviu pra ver que ela estava bem e que estava ao lado de Leo, que agora estava navegando.

Tratei melhor de Ian, ele estava começando a ficar com febre, e eu sentia o mesmo. Céus, espero que as unhas dela também não sejam venenosas.

Dei a Ian o restante do sangue e limpei suas feridas o melhor possível. Seu peito estava muito feio, como sempre agradeci por não poder vomitar.

—“Sophia...” Ian acordou e olhou em volta, procurando por ela.

—“Ela está bem, fique calmo.” O tranquilizei e o segurei na cama para que ele não se levantasse.

—“Ai... meu peito tá doendo como se facas em brasas me cortassem.” Ian se queixou e tentou levar as mãos ao peito, as afastei rapidamente.

—“Eu sei, também estou sentido... Você foi muito idiota de se aproximar dela naquele momento.” O olhei irritado, ele foi impulsivo, poderia estar morto agora.

—“Ela precisava de mim... eu precisava acalmar a minha filha, minha bebê.” Ian rebateu com os olhos cheios de lágrimas.

—“Eu sei, mas aquilo lá, não era a criaturinha que a gente conhece Ian. Aquilo lá não era ela.” Eu tinha certeza disso, algo estranho aconteceu com ela, eu me recusava a aceitar que ela poderia ser mesmo um monstro.

—“...” Ian olhou para o teto tristemente, as lágrimas escorreram em seu rosto pálido.

—“Você acha que fizemos o certo?” Perguntei me sentido mal por pensar nisso.

—“O que está insinuando?” Ian me olhou sem entender.

—“Ter a deixado viver e nascer.” Eu não queria ter feito essa pergunta ao Ian, na verdade eu não queria estar pensando isso, mas o que eu poderia pensar depois de ver tudo aquilo?

—“Você não está falando uma merda dessas.” Ian se zangou comigo, ele tentou se levantar da cama, mas não tinha forças.

—“Só estou pensando Ian... ela é perigosa demais, você viu o que ela é capaz de...” Tentei me explicar, mas Ian me interrompeu.

—“Cala essa maldita boca agora. Ela é nossa filha e não uma coisa perigosa.” Ian me lançou um olhar agressivo, acho que se ele tivesse forças, estaria me batendo agora.

—“Ian eu não sei... eu...” Eu estava com medo, admito. Mas é normal ter medo do desconhecido... não é?

—“Não pense nessas besteiras Seph... apenas lembre o que você sente por ela. Você sabe que ama ela independente de tudo. Não é?” Ian agora me fez um carinho no rosto, seu olhar suavizou pra mim.

—“Sim... eu a amo. Você tem razão, vou seguir em frente e continuar amando ela. Agora, deixe-me ver como está o seu ferimento.” Acho que era melhor simplesmente esquecer isso por agora, e focar em tentar ajudar o Ian.

...

Sophia e outra coisa...

Eu estava ouvido a conversa de meu pais, então finalmente tive a minha confirmação, fui eu que machuquei meu Tata... não! Não fui eu... foi meu outro eu.

—“Eu disse pra você não machucar eles.” Rosnei pra ele em minha mente.

—“Eu só queria brincar.” Ele me respondeu com um sorriso.

—“Pare de dizer besteiras, eu sei que você quer machucá-los de propósito.” Eu sabia disso, e mesmo assim o libertei e quase paguei um preço alto por isso, meu Tata quase morreu.

—“Que menina esperta. Vai fazer o que para me impedir.” Ele gargalhou na minha mente.

—“Nunca mais vou deixar você no comando.” Disso eu tinha certeza.

—“Ah é? Duvido! Você precisa de mim, ou vai precisar um dia.” Ele sorriu cruelmente para a ideia.

—“Nunca mais vou me rebaixar a isso... eu sou tão poderosa quanto você, mas sei me controlar.” Isso era verdade, porque eu não usei minha força pra nocautear todos aqueles vampiros e deixa-los vivos? Podíamos ter fugido sem machucar ninguém.

—“É verdade que você poderia apenas ter derrotado eles e os deixado vivos... Mas eu tenho certeza que esses vampiros não iam deixar sua querida família em paz, eles iam seguir procurando por vocês. Então iria chegar o dia em que eles iriam encontrá-los. Mas... como você iria fazer quando precisasse matá-los?” Ele rebateu isso... e sei que ele tinha um pingo de razão, mas não posso deixar que as ideias dele me consumam.

—“Eu errei dessa vez, mas eu vou dar um jeito de não precisar chegar a isso novamente, nunca mais.” Nunca mais vou matar, ou o deixar matar.

—“E se eu tentar tomar o controle à força?” Ele perguntou com um tom de voz sinistro.

—“Você pode tentar, mas nunca vai conseguir.” Eu não vou permitir isso, ele nunca mais vai ficar no controle.

—“É o que veremos.” Ele sorriu sinistramente na minha mente e começou a lutar pelo controle de mim. Mas eu resisti com todas as minhas forças.

Agora eu tinha certeza que esse ser dentro de mim, era eu no meu original. E o eu de agora, era a mistura de todas as coisas boas entre eu e meu irmão morto. Estávamos completamente unidos fisicamente, mas não por completo mentalmente.

Ele continuou a tentar a tomar o controle de meu corpo, mas não deixei, e se eu perceber que ele tem chances de ganhar, eu terei de tomar medidas drásticas.

—“Está pensando em acabar com a nossa vida?” Ele riu desse meu pensamento. Essa seria minha última opção, se um dia eu percebesse que estou me tornando muito perigosa, terei de fazer isso.

—“Duvido que seja capaz.” Ele gargalhou.

O ignorei e o coloquei para dormi novamente, isso me exigiu muito trabalho. E agora eu tinha de usar uma parcela de meu poder, força e concentração para mantê-lo preso e adormecido dentro de minha mente.

Minha cabeça estava doendo e latejando.

—“Hei monstrinha... seu nariz tá sangrando... tá tudo bem com você?” Leo me olhou desconfiado, eu podia sentir que ele tinha medo de mim agora, mas mesmo assim ele seguia do meu lado... Por quê?

Levei a mão ao nariz, Leo tinha razão, eu estava me ferindo nessa batalha, mas era um preço aceitável a se pagar. Mantê-lo preso me custaria caro, mas seria melhor do que ter a voz dele dentro da minha cabeça me instigando a fazer coisas ruins.

—“Eu estou bem.” Respirei fundo, cada mero esforço físico me doía muito. Ele levou meu corpo ao limite para testar o nosso poder.

—“O que você realmente é? Eu vi o que você é capaz.” Ele me olhou melhor.

—“Nem eu sei.” Isso era verdade, eu não sabia o que era, nem para que fui criada, e agora nem sabia dizer quem eu era.

E eu tinha medo. Medo porque sei que meu lado mal ainda está aqui dentro de mim, em algum lugar. Ele está dormindo, sei que ele pode acordar de novo... mas será que posso controlá-lo para sempre?

Notas finais
Ian está muito ferido e ainda não se sabe os efeitos das substâncias que a criaturinha pode ter em suas garras, será que ele ficará bem? E Sophia está travando uma batalha interna com seu outro eu. Ela será capaz de prender esse ser dentro de si pra sempre? Não percam o próximo capítulo.