— Estou me sentindo estranha. — Dalila disse se olhando para o espelho.

— Não se sente bem? — Giovani perguntou.

— Não foi o que eu disse — Ela respondeu olhando para ele.

Giovani riu e colocou as mãos sobre os ombros dela, e sinalizou com o queixo para ela voltar a se olhar no espelho.

— Você está linda, só não está acostumada a usar esse tipo de roupa — Ele encostou a cabeça na dela — Se quiser viver com o seu adorável irmãozinho, terá que se acostumar, nossos amigos não são muito adeptos a festas com pijamas.

Ela sorriu, e ele retribuiu. Eles não costumavam conversar muito, mas sempre que conseguiam, era satisfatório. Talvez a escassez de diálogos entre eles era o que tornava tão interessante os assuntos que tinham, e que em sua maior parte, envolviam Julian, que estava esperando ambos no andar de baixo.

— Não é sempre que temos uma festa com uma jovem tão bela, geralmente elas fogem o mais rápido possível quando descobrem o que nós somos — Ele disse pegando um copo de água que havia em cima de uma cômoda — Ou nós fugimos o mais rápido possível.

— Muitos caçadores pelo caminho? — Ela disse voltando a se olhar no espelho, dessa vez mexendo no cabelo.

— Sempre há caçadores — Giovani deu um gole na água. — O engraçado é que não matamos há mais de 30 anos.

Dalila se afastou do espelho, erguendo o tecido vermelho para conseguir se locomover com mais facilidade, e tentando ser delicada, se aproximou da cômoda e pegou outro copo de água.

— Nunca me contam sobre o que faziam antes. — Ele comenta, antes de dar um gole.

— Porque é passado, e não gostamos de falar sobre ele. — Ele responde a observando.

— Tem algum motivo para isso?

— Julian tem quase duzentos anos e eu já passei disso, nosso passado é grande demais, Dalila, se ficarmos presos a ele iremos ter uma eternidade extremamente entediante — Giovani riu após falar — As vezes é melhor deixar pra lá.

Giovani colocou o copo sobre a cômoda novamente e ajeitou a camisa social que vestia.

— Vou esperar você lá embaixo, junto com o seu irmãozinho — Ele caminhou até a porta — Ele tá bem ansioso, afinal, não é todo dia que se faz 194 anos.

Dalila observou Giovani sair do quarto, a deixando completamente sozinha. Ela se encarou novamente no espelho e ajeitou o tecido vermelho antes de respirar fundo e sair do quarto. Não é todo dia que o vampiro que te adotou como irmã faz 194 anos.

Ela desceu as escadas segurando firme no corrimão, e quando chegou ao último degrau, Julian estendeu a mão para ajudá-la.

— Pensei que teria mais gente — Ela disse olhando o salão de entrada da casa completamente vazio — Giovani comentou sobre amigos.

— E você ainda acredita no que ele diz? — Julian riu.

Julian passou, delicadamente, a mão pela cintura da jovem, e a fez se aproximar de si.

— Se não vamos ter convidados, para que então as roupas elegantes? — Dalila disse passando a mão pelo terno de Julian e no tecido de seu vestido longo.

— Giovani insistiu — Julian respondeu.

— É a primeira vez que você comemora o seu aniversário com a sua irmãzinha querida, não ia deixar você passar de pijamas — Giovani explicou.

— Insistiu, e muito — Julian completou.

— Pelo menos faça um esforço, e se divirta — Giovani alertou — Tenho água benta caso precise te ameaçar para fazer isso.

Dalila arregalou os olhos e encarou Julian.

— Isso funciona? — Ela perguntou.

— Não, mas não conta para ele. — Eles riram.

Giovani fez uma reverência exagerada antes de colocar uma música e se retirar do salão.

Ao som da sonata n°9 de Beethoven, Julian dançou com Dalila pelo salão, celebrando aquilo que ele evitou por anos, até conhecê-la. Por anos ele fugiu de seu aniversário por estar cansado da maldição da imortalidade, com raiva e rancor de tudo que já havia feito e tudo o que já havia o acontecido. Mas ela o fazia se sentir diferente. Dalila devolvia a ele a vida, o ar para seus pulmões e o brilho de seus olhos. Ele era apaixonado por ela, mas não de maneira romântica, desde a primeira vez que a viu, quando a jovem tinha apenas dois anos de idade. Desde aquele momento, naquela véspera de Natal, ele sentia que deveria protegê-la, ou sua eterna vida teria sido um enorme desperdício. Ela era a filha que ele nunca poderia ter. Os movimentos leves e lentos fazia com que os dois se conectassem ainda mais, fazendo daquele momento único para ambos. Giovani sabia disso, por isso apenas observava de longe os dois irmãos dançando.

Naquele momento não havia passado, não havia caçadores, não havia mortes. Havia apenas Julian e Dalila e um treze de julho evitado por décadas.

— Julian — Dalila sussurrou.

— Sim? — Ele perguntou.

— Feliz aniversário.