Sangue nas Mãos, Zumbis na Terra
35 Extra 3
Notas iniciais
Leon Midore
O dia clareou com o cantar dos pássaros, deixando cada raio solar passar pelas cortinas do quarto do garoto. Seu relógio não despertaria essa manhã, afinal era um sábado e sua mãe faria este serviço. Seu quarto era decorado por pôsteres de foguetes, a cama tinha lençóis com tema de futebol e muitos brinquedos espalhados decoravam o ambiente. Uma cabeça com fios incrivelmente loiros se escondia entre os cobertores, seu rosto estampava uma feição angelical, parecia ter um sono calmo e sereno. Os lábios estavam entreabertos e um fio de saliva escorria por eles.
– Leonard, — sua mãe o chamou. — hoje é o dia do seu passeio, acorda! — a mulher tão loira quanto o filho adentrou o quarto, remexendo as cobertas. — Vamos filho, daqui a pouco vamos ir buscar a Azami... — puxou o menino pela camisa, fazendo-o abrir os olhos instantaneamente.
– Azami? — disse manhoso.
– Isso mesmo querido, a mãe dela pediu carona porque vai viajar e precisa organizar as malas. — aos poucos ele despertava, principalmente se estivessem falando dela.
Leon se levantou indo em direção ao banheiro para cuidar de sua higiene matinal, alguns minutos mais tarde estavam sentados a mesa tomando café. Os dois mantinham uma boa relação de mãe e filho, mesmo quase sempre estando sozinhos. O pai da família os abandonara uma vez por mês para trabalhar no exterior, acabaram se acostumando somente com a presença de ambos naquela casa.
O relógio marcava o horário em ponto, saíram apressados pegando apenas uma bolsa infantil que fora arrumada mais cedo e as chaves do carro. Percorreram as ruas numa velocidade média, Leon observava a paisagem que corria diante de si. Tudo tão rápido, deparava-se com os carros na mão contrária, pareciam borrões.
Enfim avistaram uma casa grande, muito conhecida para o menino sentado no banco traseiro. Tantas manhãs e tardes passara brincando ali, perdia a noção do tempo quando estava nela. Às vezes a diversão se estendia e implorava para dormir naquele lugar, mas dormir era o que menos fazia nessas noites. Em tempos de calor isso acontecia com mais frequência, onde ir nadar e ficar para pousar era sinônimo para o loiro.
Leon notou uma menina de cabelos curtos e acastanhados, parada em frente à caixa de correio. Um sorriso meigo se alargou em seus lábios. Ela segurava uma mochila de rodinhas, e tinha uma franja enorme segurada por presilhas coloridas. Vestia um simples vestido listrado horizontalmente puxado para o tom rosê, suas mãos apertavam a alça da bolsa. A garota deu com a mão, procurando mostrar que já os esperava. O veículo diminuiu a velocidade conforme se aproximava, e encostou-se à guia.
– Bom dia, Azami! — a mãe que dirigia, abriu a porta traseira para ela entrar.
– Bom dia, Sra. Midore. — sorriu timidamente, adentrando o automóvel.
Foi alvo de olhos azuis claríssimos, ignorando se jogou em cima do dono desse olhar.
– Aí menina, assim você me esmaga!! — abraçou-a ainda mais apertado. — Por que não foi pra aula ontem?! — soltou-se aos poucos dos frágeis membros da amiga.
– Minha mãe quis que eu ficasse com ela. — respondeu se ajeitando no banco, passou o cinto em volta da cintura e voltou a sua atenção para o lado de fora. — Meus pais vão viajar hoje, domingo é aniversário de casamento deles. Sabe, quando os adultos se gostam eles saem para namorar sozinhos! — contou com certa exaltação, como se tivesse acabado de descobrir isso.
– Sim... — a mulher loira riu, engatando o carro para saíram dali. — Você não vai ficar sozinha, não é mesmo?! — virou na próxima esquina.
– Não. A mamãe disse que chamou um tio meu pra ficar esses dias em casa comigo... — suspirou demonstrando estar chateada. — Mas quinze dias são muita coisa! — encarou o retrovisor, procurando o rosto da mais velha.
– Ah querida, pelo menos é um tio conhecido seu. — tentava inutilmente animá-la. — E vocês vão entrar de férias agora, podem sair para brincar todos os dias, vai passar rapidinho.
– Na verdade, eu não conheço ele. — disse cabisbaixa. — Mamãe falou que ele se mudou ainda criança para outra cidade, e voltou pra passar as férias com a gente agora, mas como meus pais tinham planejado esse passeio...
– Azami, vou ir te chamar todos os dias para brincar, fica trânquila! — deu uma leve ombreada na menina. — E você ainda não cortou essa franja, não é?! — trocou de assunto.
– E nem vou cortar. — esnobou-se. — Um dia ela vai ficar tão grande, que vai tampar meu olho! — soltou os fios mais curtos para mostrar.
– Mas já passou seu nariz!! — o menino apontava assustado para o rosto dela.
–X-
Haviam acabado de chegar ao museu da cidade em que moravam. Seria o último passeio do ano com aquela classe, estavam saindo do fundamental I e entrando no fundamental II. Mesmo sendo uma simples visita àquele local velho, seria a despedida de alguns alunos já que mudariam de escola.
Pelo menos três professoras tomariam conta das turmas presentes, eram pequenas crianças, os maiores faziam parte da classe de Azami e Leon. Alguns estavam sonolentos e andavam piscando várias vezes para se manter no mínimo atento. Outros estavam tão agitados, que não paravam de correr de um lado para o outro. As mulheres mais velhas gritavam pelo estabelecimento, procurando trazer todos que podiam o mais perto possível para olhar.
Leon e Azami mal puderam descer do carro, que logo escutaram seus nomes serem ditos por uma das professoras. Correram apressados dando somente um tchau para a Sra. Midore e se ajuntando à aglutinação de cabecinhas.
– Crianças, vamos nos dividir em três turmas. Cada tia aqui irá cuidar de uma turma, mas mesmo assim, peço que façam duplas para caso se perderem. — a professora mais velha dizia. — Vamos conhecer todo o museu hoje, por favor não fiquem nos apressando para ir a certo lugar. — após terminar, seguiu com sua turma, fazendo assim as outras mulheres.
Leon entreolhou Azami, incitando que fariam a dupla pedida, ela apenas assentiu sorridente. Caminharam seguindo a professora responsável, passando por diversas obras de artes, a maioria sendo muito velhas ou réplicas muito bem feitas. Chegaram à ala da Roma antiga, mesmo não tendo estudado sobre o tema ainda, entendiam o básico do assunto. Logo a mulher explicou-lhes o que era cada coisa dentro de redomas e vitrines, falava algo sobre coliseus e leões.
– Quanta crueldade. — a garota murmurou consigo mesma. — É impossível acreditar que esses romanos faziam isso somente por diversão. — continuou.
– Crueldade? — o loirinho perguntou querendo saber mais da opinião da amiga.
– Sim! — mudou de posição para poder olhá-lo nos olhos. — Onde já se viu matar por diversão?! E pior, assistir alguém morrer por diversão! — balançou a cabeça negativamente. — Isso é ridículo, mesmo que seja algum ladrão, ele ainda é humano! — gesticulava exageradamente.
– Mas se ele é ladrão, deveria ser punido. — se opôs à amiga.
– Punição, é diferente de assassinato. — deu de ombros, caminhando mais a frente.
– Ei, eu estava apenas dando minha opinião! — segurou-a pelo ombro. — Vai ficar brava? Não acredito que você se importa tanto com essas pessoas, morreram há muito tempo... — tentava se redimir.
– Leon! — virou-se exaltada. — Eu não acredito que ouvi isso de você! Deveriam... — fora interrompida.
– Crianças, posso saber o porquê dessa discussão? — a professora chegou, se pondo entre eles. — Espero que seja algo tão importante quanto a minha aula.
– Alguma coisa com assassinato, tia! — uma garotinha respondeu entre a roda que se formara. A mulher lançou-lhes um olhar pasma, esperando uma resposta explicativa.
– Na verdade, ele não se importa com a vida passada e acha que todos que morreram nesse corliseu mereceram. — rosnou cruzando os braços, seus lábios formaram um típico bico de criança emburrada, algo que podia ser considerado fofo.
– Coliseu, Srta. Curtis. Se não discutisse com seu amigo durante minha explicação, saberia o nome correto. — riu enquanto a corrigia. — Não quero mais ouvir vocês brigarem por isso, façam as pazes. Sim, o que acontecia naquele tempo era uma crueldade, mas já passou. — voltou a frente dos alunos, pronta para mais uma ala que viria.
A menina continuava emburrada, caminhando por último. Alguns fios de seu cabelo castanho caíam sobre a testa, e seu vestido listrado movimentava conforme suas pequenas pernas se locomoviam. Em ações sincronizadas, uma brisa calma e gelada atravessou uma das janelas balançando os fios antes soltos, o brilho solar viera junto esclarecendo o castanho de sua cabeça. Sua destra foi em direção aos fios rebeldes, segurando-os para não se bagunçarem mais, notou estar sendo observada de soslaio.
– Desculpa. — ouviu uma voz conhecida soar, fora tão baixo que parecia um gemido. — Não queria ter te magoado e não sabia o quanto você se importava com eles.
– Eles quem? — indagou fria.
– As pessoas do corliseu. — imitou-a
– Coliseu, — riu tampando a boca com os dedos. — tudo bem seu bobo! Não fiquei brava de verdade... — passou andar ao lado do amigo. — Mas ainda acho que você estava errado! — riu cutucando-o de leve.
–X-
Enfim chegaram à última ala do museu, a ala pré-histórica. Era composta por paredes em tonalidades claras, e muita iluminação. Havia mais vitrines que as outras alas que visitaram, tendo também, uma enorme ossada de um tiranossauro rex exposta no centro. Todas as turmas se encontraram ali, afinal deram início de pontos diferentes, mas só sairiam por lá.
Leon e Azami se encontravam afastados da grande concentração de pessoas, permaneciam calados diante da enorme estrutura óssea central. Admiravam boquiabertos o dinossauro pré-histórico, não entendiam como algo tão gigante vivera antes deles. A vontade de pular em cima daquela cauda e escorregar pela extensão dela, corroia ambos por dentro. Não se precisava um diálogo para entender que pensavam igualmente.
– Uau. — a menina se permitiu dizer com olhos brilhantes. — É enorme! — ergueu os braços sincronizadamente, demonstrando sua admiração quanto à arcada. – Eu queria muito ter um dinossauro! – soltou um riso abafado, ainda fixa na peça.
– Sim, é realmente grande. – seu amigo concluiu encarando-a calmamente. – Parece que ele diminuiu desde a última vez vim aqui... – afirmava pensativo.
– É claro que não, você que cresceu besta. – um menino moreno usando óculos se ajuntou aos dois. – Vocês estão em que série?! – perguntou em tom exibido.
– Quem é você? – Azami questionou-o assustada.
– Hector, prazer. – sorriu mostrando seus dentes incrivelmente brancos, destacavam-se mais em contraste com sua pele bronzeada. – Sou o melhor aluno da escola. – ajeitou o óculos de lentes grossas.
– Ah, olá. – responderam juntamente.
Ouviram seus nomes serem chamados pela professora, alegando que a mãe de Leon viera buscá-los. As crianças entraram sorridentes no mesmo veiculo que os trouxera mais cedo. Contavam ao mesmo tempo tudo o que viram e o como havia sido divertida essa tarde que passaram juntos.
A casa mais próxima era de Azami, que mesmo sendo na mesma rua que a de Leon, era mais afastada. Seus olhos estavam moles, demonstrando o cansaço físico e mental que ambos dividiam. Em um súbito momento, a menina mais nova encostou-se no ombro amigo, tirando uma pequena soneca apoiada nele enquanto não chegavam. O loirinho permanecera acordado resistindo ao sono que o consumia, só assim poderia observar sua tão querida amiga dormir tranquilamente.
– Ela não pode dormir em casa, mamãe? – suas orbes claras se dilataram, o deixando com um olhar pidão. – Por favor, não quero acordá-la... – cochichou envolvendo a menina adormecida em seus finos braços.
– Não amor, a mãe dela foi clara quando pediu que eu a levasse de volta para casa. – respondeu manobrando o automóvel, pronto para entregar a garota.
Ele bufou, entendendo que não podia convencer a Sra. Curtis. A mulher loira saiu do carro deixando as crianças sozinhas por um breve momento, fora chamar a mãe de Azami para que a carregasse para dentro.
Enquanto estavam a sós, Azami abriu seus olhos calmamente enxergando que praticamente estava deitada no colo de Leon. Tudo estava nítido demais, parecia ter dormido por uma noite inteira e sem sombra de dúvidas, essa teria sido a melhor soneca que já tirara. Ele lançou-lhe um sorriso terno, rindo da expressão sonolenta da amiga.
– Quanto tempo dormi? – sua voz estava mole, tendo uma manha visível.
– Nem trinta minutos, foi o tempo daminha mãe te trazer de volta. – continuava encarado-a com aqueles olhos azuis, mostrando se importar com a pequena.
– Ah sim... – demorou um pouco para processar as informações, levantando para agarrar sua mochila. – Até mais, Leon.
A garota de fios curtos puxou a trava da porta pronta para descer seus pés, e pisar na grama. Sentiu uma mão segurar seu pulso, impedindo-a de prosseguir.
– Ei, menina. – chamou pela mais nova. – Eu vou te chamar todos os dias! – soltou mansamente seus dedos do fino braço da amiga.
– Eu sei disso... – girou seu tronco, coçando um dos olhos com a destra. – E traga sua bola, caso contrário será um menino morto! – riu bocejando.
Mais uma vez, agarrou a alça da bolsa e finalmente saiu do carro. Seus olhos alcançaram a porta semiaberta da entrada da casa, no estilo comum do bairro, onde as construções são mais afastadas da rua devido seus enormes jardins sem cercas. A Sra. Curtis estava na metade do caminho quando viu a filha já acordada vindo em sua direção. Murmurou algo agradecendo a amiga mais velha, afirmando que não precisaria carregar Azami, e apenas esperou a menina se aproximar, guiando-a para dentro.
Leon aguardou sua mãe voltar, e assim voltarem para sua casa. Tinha sido uma tarde memorável, e suas férias estariam somente se iniciando.
[...]
Azami Curtis
– Mas mãe, eu não conheço ele... – disse emburrada, fazendo bico para levar a colher de cereal a boca. – Eu queria ficar com o Leon, vocês sempre me deixaram lá quando iam viajar! Porque agora tem que ser diferente? – enrolava para terminar a tigela com leite e cereal.
– Azami, não vamos falar disso de novo. – sua mãe guardava algumas vasilhas no armário embutido da cozinha.
– Além do mais, somos seus pais e nós decidimos com quem te deixar. – era vez de escutar seu pai ralhando. – Só escolhemos seu tio, porque talvez a Sra. Midore esteja cansada de sempre cuidar de você, e ele também estava vindo pra cá. – o homem terminava de arrastar algumas malas para o corredor.
Azami bufou, sabia que na verdade estava errada. Engoliu em seco o resto do alimento que tinha parado na boca, e depois ingeriu em poucas colheradas o que restava na tigela, engolindo quase sem mastigar, tossiu para limpar a garganta depois.
– Com direito, Azami! – um leve empurrão foi desferido em sua cabeça, fazendo ela se virar sorrindo espoleta.
Seu pai não resistiu, riu da pequena filha arteira. Seria mais doloroso para eles a deixarem com um estranho, mas eram poucas suas opções e essa parecia a mais lógica.
A campanhia soou, fez com que os pais se apresassem em buscar as malas menores que ainda se encontravam no andar superior, a menina continuou parada na mesa. Mexeu na presilha do seu cabelo, arrancando-a para ajeitar sua longa franja e prendê-la novamente. Passos apressados invadiram o ambiente vindo das escadas, sua mãe estava atrás da chave do carro.
– No balcão, mãe. – avisou conhecendo a mulher, sempre as perdia em euforias momentâneas.
– Obrigada meu amor! – lançou um beijo no ar para a filha.
Enfim seus pais desceram, chamando Azami para se despedir. Encontraram-se na sala, a porta já estava aberta quando a garota se aproximou. Sua mãe abraçava o homem que nunca tinha visto na vida, seu pai a apoiava pelo ombro, ela parecia emocionada, sussurrando palavras inaudíveis. A mulher o largou, passando a vez para o marido que depositou tapas amigáveis em sua costa e depois o puxou para abraçá-lo masculinamente. Trocaram olhares ternos antes de perceber a presença da menina no local e convidá-la para o momento.
– Querida, venha conhecer seu tio! – sua mãe parecia enxugar os olhos.
Azami se aproximou sem pressa, ainda não o via completamente devido a iluminação solar que vinha de fora da porta. Seus pais transmitiam certa confiança naquele homem, um irmão e cunhado não trataria mal a preciosidade deles, certo?
Notou um homem na casa dos quarenta anos, bem preservado. Peso na média, e barba mal feita. Ela não o considerou bonito, mas sua aparência não era assustadora como imaginara antes. Trajava uma calça jeans comum, acompanhada de uma camisa xadrez velha, trazia somente uma bolsa pequena nas mãos. Seus fios tinham um destaque grisalho, mas pareciam ser da mesma cor que os da garota.
– Azami, não é? – sorriu gentilmente. – Vamos nos divertir muito nessas férias! – agachou-se para ficar na mesma altura que ela.
–X-
Era inconfundível a semelhança que ambos carregavam. Olhos escuros de uma forma que era impossível diferenciar as íris das pupilas, cabelos castanhos médios, lisos e finos. Quem os visse caminhando na rua, poderia chamá-los de pai e filha. Esses genes foram passados da mãe da menina, que divide o mesmo sangue que o irmão, por isso toda essa igualdade.
Ele havia preparado macarronada para o almoço e depois de uma longa tarde de descanso no sofá, arrumava a janta.
– Tio! Tio! Tio! – puxava impacientemente sua camisa. – O que está fazendo agora?! – parecia querer irritá-lo propositalmente.
– Azami, estou mexendo com panela quente, não me puxe! – sua voz se alterou de amorosa para grave, assustando a mais nova. – Quer dizer, espere um pouco meu anjo... – sorriu para acalmá-la.
Ela assentiu e sentou-se a mesa, esperando ele terminar. Não podia negar, seu novo tio cozinhava melhor que sua mãe! Adorou o almoço, e mal se aguentava para provar a janta. Observou-o desligar o fogo e tirar as tampas das panelas, liberando um delicioso aroma pela cozinha. Aquilo parecia brincar com seu olfato, como nos desenhos animados que assistia, onde uma fumaça seduzia os personagens de forma que os carregava até certo lugar. (N/A: estou assistindo muito Pica Pau e.e)
– Gosta de almôndegas?! – serviu um prato recheado de bolinhas de carne, encharcadas de molho.
Comeram sem muita algazarra, conversando sobre algo de vez em quando. A garota quase lambeu o prato que comera, seu paladar apreciava esse tipo de refeição. Ela levantou-se pedindo licença e colocando seus utensílios sujos na pia.
– Vou tomar banho! – anunciou contente, indo em direção as escadas.
– Espera Azami, — seu tio deixou metade da comida no prato, se levantando bruscamente para segui-la. – vou com você. – suas mãos pousaram na costa dela, apoiando-a.
– Não precisa! – riu constrangida. – Nem o papai toma mais banho comigo...
– Ah, como assim? – arqueou as sobrancelhas. – Você pode ser grandinha, mas não é uma mulher! Precisa de ajuda sim!! – empurrou seu ombro levemente, mostrando que iria.
– Não tio, obrigada mas... – o rosto do homem mudou o semblante, como na hora que puxara sua camisa.
– Azami, sem discutir, vamos. – encarou-a frio.
Sua voz saíra totalmente autoritária, deixando um leve calafrio percorrer a espinha da jovem. Engoliu em seco, deixando ser direcionada pelo homem. Subiram as escadas em silêncio, até chegarem ao corredor, onde a menina tentou mais uma vez contrariar a ordem do homem. Fora em vão.
Entraram no aconchegante quarto de Azami, onde ela retirou uma toalha da cômoda e as roupas que usaria pós-banho. O homem tinha ido para o banheiro dali, onde ligou a ducha e escolheu uma temperatura agradável para ela. Por ser uma casa de classe média, não seria estranho a filha dormir em uma suíte, e ainda por cima desfrutar de uma banheira de hidromassagem. A água começara a se acumular no fundo da grande bacia de porcelana e descer pingando abafadamente, quando ele percebeu que a garota demorava demais.
– Querida, a banheira está quase completa, pode vir! – chamou, ouvindo-a dar passos nervosos na extensão do local, até chegar ao batente da porta, onde hesitou continuar. – Pode vir Azami, não vou fazer nada contigo! – alargou um sorriso. – Anda, tire suas roupas. – ordenou a vendo estranhar cada movimento seu. – Deixa que eu te ajudo...
O homem se aproximou da sobrinha, tocando-a pelo ombro. Usava um simples vestido, facilitando para ele, que desceu o zíper lateral e puxou as alças para baixo, escorregando o tecido pelo corpo dela. Seus movimentos deixaram-na mais tensa, permanecia ali estática, e agora vestia apenas uma calcinha florida na frente dele. Seu coração pulsava frenético e seus pulmões pareciam não trabalhar corretamente, não queria que isso estivesse acontecendo.
O mais velho agachou-se encarando os olhos sem brilho da pequena, inutilmente tentando passar um pouco de confiança para ela. Fixou suas mãos em sua cintura nua, descendo-as gentilmente até alcançar o pedaço de pano que cobria sua intimidade. Em um único relance, a calcinha atingiu o chão, deixando um espaço de centímetros exclusivamente separando o homem das partes íntimas da garota. Ele soava frio, tentava aprisionar a fera dentro de si, lutando contra seus desejos por enquanto.
Sua mão segurou a dela, puxando-a para debaixo da ducha e fazendo-a sentar na água que lhe cobria os joelhos. Sua feição era um misto de terror e paralisia, seus orbes transbordavam perplexivos. Nem em seus pensamentos se sentia segura, não os coordenava de modo em que planos de fuga cogitassem em sua mente. Algo se acumulou em sua garganta, impedindo-a de falar devido ao cérebro que limitava suas ações. Seus pelos se eriçaram com o choque térmico que sentiu no instante que uma mão gélida a tocou, ensaboando suas costas. Percorriam desde os ombros endurecidos, descendo vulgarmente ao cóccix.
– Tio, para! – antes travado na garganta, saiu em um perfeito urro sincronizado com seus movimentos de reclusão. – Eu não quero você aqui, vou tomar banho sozinha!!
Ele assentiu positivamente com a cabeça, se levantando para virar-se e deixá-la sozinha.
Um passo foi dado. Somente um passo que o fez se libertar. Seus desejos chegaram ao ápice, onde não escondia mais sua excitação e não pretendia assumir suas responsabilidades mais tarde. Afrouxou o cinto da calça, ignorando o pedido da menina. Girou sobre calcanhares, retornando seu passo dado.
– Sua opinião não me importa! – agarrou-a pelo pescoço, socando sua cabeça no azulejo, isso a deixou atordoada. – Se você gritar vai ser pior... – foram suas últimas palavras ditas ante de deixar o monstro dentro de si tomar lugar.
Virou indelicadamente a sobrinha, deixando-a de quatro sobre a banheira. Abaixou sua roupa mostrando sua inferioridade oculta, e entrou na água ainda vestido.
Ela não teve chances de revidar. Sua mente se obscureceu assim que o homem a adentrou brutalmente, sem cerimônias nem pedidos relativos. Azami não sentia mais seu coração bater, não sentia mais um amor correr em suas veias. Estava tão aludida com o ódio que inundava seus olhos, que se esquecera de sentir dor. Ainda que quisesse, não conseguia se libertar daquele porco sujo que manchava sua inocência e trazia um novo olhar do mundo para si. De fundo escutava-o soltar sons estranhos pela boca, e aumentar a frequência com que a machucava por dentro. Aos poucos ele se cansou, caindo de lado sem se importar com a água.
Azami permanecera jogada no canto da banheira, com apenas a cabeça encostada na borda. Era tarde. Algo corrompera sua alma, e ela mesma não decifraria essa incógnita. A água morna se tornou avermelhada, sendo a única testemunha desse ato impuro e vergonhoso que ambos carregariam nas costas pelas suas vidas. Essa fora a primeira vez ela via sangue jorrar. Seu próprio sangue jorrar. Não havia lágrimas tardadas molhando seu rosto, o horror dos últimos minutos continuaria aceso em sua mente, eternizando esses acontecimentos até o último segundo de vida. Quem dera esse fosse seu último segundo de vida.
Ambos estavam mergulhados na água ensanguentada, absortos em pensamentos. Ele com um sorriso satisfeito, arfando cansado. Ela chorando dentro da prisão que acabara de criar, prometia a si mesma nunca revelar os verdadeiros ocorridos de hoje, apenas para não causar a pena alheia.
Uma voz familiar tirou-a de seu devaneio. Alguém a chamava do lado de fora da casa.
– Quem é? – o tio se desesperou momentaneamente.
– Leon... – pronunciou quase num suspiro. Sua vontade era de correr até ele, contar-lhe tudo, mas não havia forças, havia somente ódio e ira, onde seus músculos se contraíam com o êxtase do instante a impedindo de agir de acordo com o que o cérebro ordenava.
– Ele é importante pra você, não é? – indagou desafiador. – Sua mãe comentou algo sobre um amiguinho com esse nome... – sorriu torto.
– Não mexe com ele! – sentou-se com dificuldade na banheira, em apenas um movimento. – Eu não falo nada pra ninguém, mas não conta nada pra ele!! – gritava assustada, sua maior vergonha não podia ser exposta ao melhor amigo.
– Cala boca, vadiazinha! – acertou seu rosto com um murro sem medir forças. – É o seguinte, pelo o que sei vocês brincam todos os dias, mas nessas férias vai ser diferente. – entrelaçou seus dedos nos fios umedecidos dela.
– Tu-tudo bem... – abaixou o olhar, deixando escorrer uma lágrima. – Por ele eu aguento. – sussurrou para si própria.
Naquela noite seu corpo fora brutalmente marcado com o desejo de morrer. Prometera a si mesma nunca revelar a ninguém os verdadeiros ocorridos, omitindo cada segundo de terror que passou dentro si, para que ninguém descobrisse a podridão que isso viria lhe calhar. O medo que o nome desse homem te trazia, era maior que todo o ódio rancorado em seu peito. Ele era as suas trevas, seu lado escuro se devia aquele homem.
Assim passou suas férias de verão, sendo abusada por seu tio em quase todos os banhos, ao som do seu melhor amigo chamando seu nome todos os dias.
[...]
Oi, estou aqui para convidar vocês a lerem meu novo trabalho sangrento e psicopata. Meu primeiro terror psicológico, +18 (não vai ter hentai, não sou dessas coisas sorry) e totalmente voltado a assassinatos e crimes torturantes... Se você gosta disso, acompanha lá e me faça feliz o/
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