Notas iniciais
Fanfic com nova roupagem, nome e sendo toda reescrita (pela...sei lá, terceira vez já hehee)! Bom, este é o prólogo! É curto mas eficiente, juro ;) Enfim, espero q gostem! o/

17 anos atrás

Não havia lua no céu aquela noite. Escuro e sem estrelas, envolto em sombras nevoadas, fechado em sua imensidão apagada, a abóbada celeste pintava o cenário da cidade à barroca.

Fortuna estava quieta. Sua cidade dormia. Ou ao menos, era o que parecia. O mar tilintava às margens da ilha; as montanhas sussurravam de seus topos congelados e as florestas crepitavam em sua superfície serena. E ainda assim, a vida noturna não deixava de se manifestar sorrateira por meticulosos gestos: um lobo solitário caçando pela mata enquanto sua presa tenta escapar apavorada; tartarugas bebê lutando para chegar ao mar em meio à superfície arenosa; e na cidade, dentre seus mais negligenciados becos e ruas, mulheres desafortunadas tentam ganhar a vida capitalizando seus corpos. E era assim que Fortuna oferecia uma diversificada ambientação para quem se dispusesse a olhar de perto.

E neste cenário, escolho olhar de perto uma mulher a andar na madrugada pelas ruas inóspitas de Castelo de Fortuna, sozinha, com um cesto pendurado no antebraço e um bebê no colo. Passos largos, rápidos, constantes como um refrão, toc toc no asfalto, suas botinas de couro surrado lampejam pelo chão pesado, passando pelas poças rasas respingando tensão. O capuz negro disfarça suas feições e origem, desassociando qualquer vínculo comum que possa ter com a cidade devota de um demônio. A criaturinha em seu colo mantêm os olhos fechados em seu sono sereno e o manto branco que o embala o protege da brisa fria, escondendo também seus atípicos cabelinhos prateados. O pequenino mal poderia imaginar a sina em que o submeteram... Tão frágil, doce e angelical era o pequetuxo! Ele nunca entenderia...

Não entenderia os motivos da mamãe o abandonar. Não entenderia o medo, a confusão, a dor, os sonhos ou prioridades, ou as condições incondicionais... Uma pena... Mas era assim que era e as decisões tomadas não tinham volta. O menino não seria criado por quem lhe deu a vida. Possibilidades castradas, desejos encaixotados, era essa a realidade.

A mulher o carregava decidida, porém aflita, segurando-o firme enquanto se aproxima mais e mais de seu destino. Avistando a faixada branca puralista nada sutil, na qual lia-se “Orfanato Castelo de Fortuna”, ela parou bruscamente. Voltou a mover-se após uns segundos de contemplação, dirigindo-se à porta de entrada; suas botas negras deslizam nos degraus de fronte à porta, ágeis. Ela olha para o bebê adormecido, coloca o cesto forrado de cobertorzinhos sobre o chão, agacha devagar e, com sutileza, acomoda o pequenininho pedacinho de gente ali, em seu aconchegante bercinho algodoado. E ao apertar a campainha com força e vontade, a figura encapuzada move-se feito gazela sendo caçada, afastando-se da porta sob hábil desespero. Contudo, ela não vai tão longe, pois não pode perder a cena. Ela precisava ter certeza.

Camuflada por entre as árvores e matagais que cercam a grande estrutura do Orfanato, a mulher observou atenta ao que se seguiu: uma senhora vestida com trajes noturnos coberto por um grande xale cor abóbora abre a porta, observando o lado de fora e seus arredores um pouco confusa por perceber que não havia ninguém, até notar, levemente surpresa, que aos seus pés há um pequeno bebê guardado em um cesto. Ela toma o cesto em suas mãos, atentando-se ao nenenzinho com piedade e compaixão; “Nero” era o que se lia bordado em azul celeste no manto branquinho que o aconchegava. Por fim, seus olhos investigam mais uma vez os arredores do Orfanato, porém logo desistem e, resignada, ela fecha a porta de entrada atrás de si, carregando para dentro o bebê consigo. E por detrás da adornada relva, a mulher solta um suspiro contido.

Seus passos agora ressoam pelo asfalto tranquilos e discretos, toque toque espaçoso e sereno. Uma dúbia noite de sono a espera.

Notas finais
Comentem se possível e divulguem! Até mais leitores!