Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
37 Decadência e Redenção
Notas iniciais
Ele estava acordado. Como não havia percebido a mudança de sua respiração? Heid estivera ouvindo esse tempo todo? O quanto ele poderia saber apenas pelo que Katar havia deliberadamente soltado? Mas a pergunta que mais a asfixiava naquele instante era: Há quantas noites ele tem feito isso?
Alisha viera uma vez, saíra assim que notou a ausência da arma. Viera outra vez, mas se foi quando os guardas trocaram a ronda no corredor. Então ela veio na terceira noite, dois passos a distância da cama, faca erguida, uma almofada para abafar os gritos do príncipe na outra mão... e a porta se abriu com Katar apontando uma lanterna. Ele não a deixara terminar aquele serviço em nenhuma das noites que se seguiram. Katar estava fazendo aquilo de propósito, roubando-lhe a vingança por prazer, porque ele era o filho de um sheik e se achava superior a ela. Porque a invejava, de um modo que ele nunca teria o que ela tinha. Katar também a desejava, Alisha conhecia esses sentimentos humanos, e a odiava porque nunca a possuiria. Ela havia permitido que ele interferisse em seu assassinato. Se os rebeldes procurassem os culpados pelo plano ir por água a baixo, teriam de culpá-la também. E isso seria uma vergonha para ela e para a sua gangue.
Se encontrasse seu pai no inferno, o que diria a ele?
— Não se mova. — o príncipe repetiu, sua voz ainda estava embargada de sono, mais grave e lenta que o normal, mas seus olhos acesos não a deixaram nem por um segundo, entre um piscar de olhos e outro. Heid se levantou dos lençóis e deixou a cama. Estava com um pijama de seda azul escura, contornado por laços de algodão dourado. — Alisha?
Ele sabia o seu nome, agora não havia como escapar dali.
— Alisha Mahara, o que está fazendo no meu quarto?
Ela não respondeu, não abriria a boca nem que começassem a torturá-la. E a hindu já começava a se preparar psicologicamente para isso.
— Quem era aquele homem?
Nada.
— Sobre o que estavam falando?
Apenas a respiração.
— Responda!
O grito de ordem foi alto o suficiente para alertar os guardas do corredor. Eles entraram rapidamente, acendendo as luzes e apontando as armas carregadas para ela. Alisha não conseguiu controlar o tremor de medo que a percorreu e se encolheu em direção a janela. O príncipe disse novamente “não se mova”, mas agora ela não conseguia ouvi-lo. Morte. Morrer. Tortura. Causa. Rebelião. Papai. Tudo em sua mente estava turvo e ela se agarrava à última palavra, tentando espantar as duas primeiras. Para onde quer que fosse, prestaria contas a seu pai, e ele deveria saber que ela havia morrido pela Causa, e não por medo ou por velhice.
— Príncipe Heid, afaste-se dela, vamos prendê-la e levá-la daqui. — o guarda mais a frente disse. O príncipe só desviou os olhos da selecionada quando seu guarda começou a caminhar na direção deles.
— Não é preciso levá-la. Chamem... — um médico? Uma criada? O Rei? Madame Veronica...? Quem eles deveriam chamar? O que deveria ser feito agora? — Chamem Azra.
— Vossa alteza, essa rebelde...
— Ela é minha selecionada, seu idiota. — Heid encenou o quão ofendido estava — Só porque uma menina está no meu quarto, não significa que ela queria me matar.
O guarda enrubesceu imediatamente, assentindo. Em poucos minutos, seu primo preferido estava no quarto, e eles se livraram dos guardas embasbacados. Heid esperava que ninguém contasse a sua mãe sobre a visita noturna que recebera.
Azra coçava os olhos, visivelmente recém-saído de um sono profundo. Assim que viu o primo e a selecionada no outro canto do quarto, soltou um suspiro alto e caminhou até eles, seriamente comovido pela forma como ambos estavam vestidos. Quanta elegância para dois amantes.
— Que tipo de encrenca você se enfiou agora, Heid? — Azra perguntou, irônico.
— Eu não sei. — o príncipe estava sendo sincero.
— Ela é sua selecionada.
— Eu sei.
— O que está fazendo no seu quarto?
— Ela entrou aqui. — Heid olhou para Alisha — Não sei por quê. Estava conversando com outro homem, e então ele foi embora.
— Conversando? — Azra se agachou ao lado de Alisha e observou seu rosto — Com Katar, imagino.
Os olhos da garota se arregalaram e ela parecia prestes a desmaiar. O chute fora certeiro, Azra tinha de se gabar sobre a própria inteligência, mas reprimiu o sorriso que brotou e cerrou as sobrancelhas para ela.
— Isso não responde às várias perguntas que tenho, nem mesmo a primeira. O que está fazendo nesse quarto?
Alisha poderia contar a verdade, estaria jogando contra a sorte, se o príncipe tivesse ouvido tudo sobre os rebeldes, ele poderia facilmente acusá-la de falso testemunho, e então ela seria condenada na frente de um oficial. Ou, ela poderia fingir que não entendia o idioma comum e encolher-se inocentemente no tapete. Deve ter funcionado, os homens não estavam mais tão autoritários.
— Não vamos machucá-la — o primo do príncipe garantiu gentilmente.
Alisha sabia que ele não era um nobre, mas não gostava dele. Nascendo onde quer que fosse, havia vivido em um palácio, querendo ou não. E isso era injusto. Ela não estava na condição de ser teimosa, murmurou em hindu que queria voltar para seu quarto, fez pedidos de desculpa atrapalhados no idioma comum e se levantou para tentar correr desengonçadamente para fora do quarto. Mas as mãos de Azra não a deixaram completar o plano, ele estava bem entre ela e a saída. O príncipe segurou a lanterna que ela havia deixado no chão. Com um gesto simples, ele abriu a tampa das baterias e encontrou o presentinho de Katar.
— Isso é veneno. — Heid segurava a bolsinha de pano com a ponta dos dedos — Pó de gato, para matar enquanto se dorme. O que estava fazendo com isso no meu quarto?
— Não é meu, é de Katar! — Alisha respondeu sem pensar, tentando se livrar do primo grandalhão. Imediatamente os dois se entreolharam e sorriram. Ela tinha cometido um erro ridículo e queria morrer.
— Então você entende o idioma comum. Não somos tolos — Heid também apontou para sua mão, fortemente fechada ao redor do punhal. Alisha nem havia notado — E você está armada.
— Se eu quisesse matá-lo, já o teria feito.
— Tem razão — eles não estavam com raiva, pareciam mais interessados em entender o que ela queria com tudo aquilo — Não é a primeira vez que esteve aqui. Você entra pela janela, conversa com o guarda rebelde e então vai embora. Eu nunca entendi porquê meu quarto havia se tornado um ponto de encontro dos rebeldes, e gostaria de explicações.
Alisha mordeu os lábios, determinada a não dizer nada, mas Azra chutou seu estômago certeiramente, obrigando-a a gritar de dor. Ela caiu no tapete sem fazer sons, e tossiu até recuperar o fôlego.
— Quem é você?
Ela não respondeu.
— Ande, fale. — Azra agora segurava seu cabelo, erguendo o rosto para a luz branca do lustre. Ser interrogada já havia passado por sua mente, e Alisha fora instruída a suportar toda a dor e humilhação que fosse. — Não teremos pena de você só porque é uma garota.
Ela não esperava por isso, não mesmo.
— Que diabos está acontecendo aqui? — Alisha tentou olhar pelo canto dos olhos para a porta, por onde outra pessoa atravessava o quarto com passos irritados. Ela não precisava de um conselho familiar para que a atirassem pela janela. Bastava acabar logo com aquilo. Havia falhado, pronto. Esse era o máximo que ofereceria à memória de seu pai. Ao menos havia entrado no palácio. — O que está acontecendo aqui?
— Não é problema para você, vá para a cama — Azra ordenou com a voz firme.
— Csevat eren polesh! — a adolescente revirou os olhos, os braços cruzados sob os seios. — Esta menina não é das preferidas de Tia V.
— Pediram-me que ficasse com um olho aberto. Hindu tem rebeldes demais. — o primo afrouxou a pegada nos cabelos de Alisha, notando o olhar desaprovador que a irmã lhe dava. Alisha sentia que seria estapeada a qualquer momento, com os fios arrancados do couro cabeludo e mais chutes na barriga. Ela aguentaria tudo.
— Eu estaria mais preocupada com o guarda no corredor, sendo preso e levado para as celas. — Savyna não se importava com o decote revelador de sua camisola, Alisha desviou os olhos, mesmo que fosse tolo se envergonhar por algo como aquilo em um momento como aquele. — Vocês ao menos podem me explicar o que está acontecendo?
— Aparentemente, os rebeldes infiltrados perderam a paciência com a sua isca e tentaram invadir o palácio hoje. Nós já os sufocamos. — Azra notou o fato de Alisha ter ficado em silêncio mortífero — Você sabia disso?
— Sabia do quê? — Heid franziu as sobrancelhas — Ela não tem um celular para se comunicar com eles.
— Estamos protegidos o bastante para não acreditarmos na sua culpa, Alisha Mahara — como se isso fosse o suficiente, ele a soltou, e Alisha caiu uma terceira vez no tapete. Graças aos deuses era um tapete grosso e macio. — Seus aliados subestimaram a nossa inteligência.
Alisha podia acreditar na incompetência de Katar, mas não da rebelião inteira. Não havia como eles estarem tão certos sobre isso, nem como ela não ter sido avisada sobre uma invasão. A não ser que...
— Nós acreditamos que a sua intenção não era matar o herdeiro, assim como acreditamos que todo o plano que te contaram não passou de uma encenação para te usar como isca — Azra Czarevitch fez um sinal e sua irmã correu para fechar a porta do quarto. Com a chave. — Mas não podemos esquecer que esteve aqui hoje, nem que era uma potencial ameaça.
— Eu não sei do que estão falando. — Alisha mostrou uma expressão de tigresa. Não surtiu efeito.
— Coloque-a no quarto e tranque a porta. Conversaremos quando tudo estiver mais calmo — o oficial deu a ordem para sua irmã, e Savyna assentiu, colocando ambas as mãos ao redor dos ombros de Alisha. A hindu se contorceu, mas não pôde evitar acompanhar a prima do príncipe, de volta para a sala de chá, e então para o seu quarto, aonde foi trancada. E dessa vez as janelas também estavam fechadas.
Em quinze minutos, ou menos, as luzes do palácio se apagaram, e se voltaram a se acender quando o dia amanheceu. Alisha assistiu a tudo, não conseguiu pregar os olhos, nem se distanciar da porta. Ela tinha certeza que em algum momento guardas entrariam ali para levá-la até as prisões, onde Katar e os outros rebeldes a estariam esperando.
De repente, foi exatamente isso que aconteceu. Alisha abriu as pálpebras, secas e pesadas, e um homem a segurava pelo cotovelo, puxando-a para as escadas, e então até o jardim, atravessando o cascalho de Mariyinsky. Ela foi empurrada para dentro do carro idêntico ao que haviam utilizado para chegar até ali. As outras selecionadas também estavam ali, assustadas, quietas. Alisha pensava que veria as marcas da tentativa de invasão, mas o jardim estava pacífico e bem aparado como sempre. Os pássaros cantavam, nenhum sinal de corvos sobre cadáveres, e até mesmo o cheiro dos pinheiros os alcançava da janela do automóvel. Nada surpreendia no caminho de volta ao aeroporto, e dentro do avião.
Em menos de meia hora, estavam no meio das nuvens, e ela não fazia a menor ideia de para onde a levavam. Alisha poderia imaginar todos os tipos de torturas presentes nas masmorras do palácio real, podia até mesmo imaginar uma praça pública com escadas e guilhotinas. Sua cabeça rolando pelo cascalho como a deu seu pai, e o povo vibrando de excitação. Tudo isso era tão possível dentro de sua mente, menos... a chance de ir para outro lugar, outro país. As selecionadas não sabiam para onde iam, as conversas eram baixas, e a maioria usava fones de ouvido para terminar o sono interrompido no amanhecer. Os criados do palácio também viajavam com elas, o que tornava tudo mais estranho. Era como se a população de Mariyinsky estivesse abandonando o palácio.
Alisha aninhou a cabeça contra o banco e tentou fechar os olhos. Os sons cresciam conforme as horas passavam. As garotas, uma a uma, iam perdendo sua paciência e seus nervos. Queriam chegar logo ao seu destino, ninguém gostava daquele tipo de surpresa. Madame Veronica as obrigava a continuarem nos bancos, ninguém tiraria o cinto de segurança até que aterrissassem. A família real estava em seu jatinho particular, é claro, cercados de guardas. Alisha não sabia o que acontecia. Na televisão, os jornais noticiavam ataques rebeldes a portos comerciais, uma rebelião no centro da capital Hindu, avisos para que as penínsulas cortassem contato com as Ilhas Britânycas.
Tudo seria mais fácil se ela soubesse que não seria decapitada, pois no fundo Alisha não queria morrer. Queria vingar seu pai, derrubar a monarquia e o autoritarismo, ver os poderosos reduzidos a cinzas. Mas não que isso custasse sua vida. Ela ainda não entendia o que existia nesse mundo que a fazia se agarrar tão desesperadamente a ele, seu único sonho poderia ser sua destruição. Ela deveria ter feito o serviço quando tinha tempo. Quando tudo parecia inevitável.
Madame Veronica olhou para fora da janela, conseguindo ver em meio as geleiras a nossa casa em que se refugiariam. Ela fora informada sobre a ida apenas minutos antes de realmente tomarem o avião. Sabia que isso fazia parte de um protocolo de prevenções, mas não deixava de ser assustador. A armada estava redobrando todos os seus esforços para conter as ameaças rebeldes, protegendo a família real e os ministros do Império. Todos viriam morar na maior fortaleza construída na história: nas Ilhas Severenaya Zemlya, no extremo Mar de Kara, ao norte da Russya. Era o lugar mais frio do Império, o mais remoto, e o mais impenetrável. Dizia-se que os mares ao redor das ilhas congelavam-se todo inverno, e que era possível passar noites sem que o Sol nascesse. Veronica sentia-se novamente longe de casa, dessa vez mais do que normal, pois literalmente deixou as ilhas ensolaradas para ir até uma praia de pedras escuras e ventos cortantes. Algumas vezes, seu próprio serviço a fazia questionar o que a motivara a sair da casa de seus pais e começar aquela vida de servidão. E então o próprio serviço novamente lhe ensinava que ela deveria se sentir honrada por aquilo.
— Fiquem juntas, não saiam da vista dos guardas. Puxem os casacos para as orelhas de vocês. Não queremos congelar nenhum nariz. Surya, você vai queimar seus pés antes que consiga pisar no chão sem uma meia nessas sapatilhas. Senhorita Saito, ajude Surya. Kateryna, leve a sombrinha junto de Joanna.
Veronica ficou parada na porta do avião, ajudando-as a descer. Chamá-las pelo nome fora natural, com o passar do tempo. Ela também se preocupava menos com a educação básica das selecionadas e mais com o seu estado psicológico. Se o príncipe fosse se casar em meio a uma guerra civil, seria melhor que sua esposa fosse corajosa e forte como um soldado, e não elegante e graciosa como uma princesa.
Quando a última menina se abaixou pela portinhola, os criados se enfileiraram também para descer. E Veronica foi a frente de todos, pois era a nova governanta daquele palácio cinzento, metálico e congelado. Era difícil identificar o que fora feito de metal, o que restava das pedras de uma fortaleza medieval e o gelo, é claro, formando tantos arcos entre as paredes que serviam perfeitamente como compartimentos da guarda para trocas de vigias e suprimentos.
As Ilhas Severanaya Zemlya eram compostas por três ilhas principais e várias outras pequenas, apenas com pedras e gelo. As três extensões de terras mais proeminentes tinham, cada uma, sua fortaleza. Severenaya era aquela para onde iriam. Uma ponte fora construída sobre as águas para unir ambas as ilhas. A ponte tinha a largura suficiente para um carro esportivo, mas parecia estreita aos novos moradores, caminhando amontoados em seu centro, para não caírem no mar. Pilares desciam até as profundezas azuis escuras das águas salgadas, sustentando a tudo. Veronica confiava nos vidros a prova de balas das janelas e nas pontes-levadiças de cada portão de vigia, mas não deixou de temer que tanto peso acabasse cedendo sobre as ondas. Não aconteceu. A segunda ilha tinha um castelo menor que a fortaleza, este mais medieval e antigo. O telhado fora reformado, as janelas foram restauradas e até mesmo o jardim fora replantado, de acordo com as plantas que aguentavam aquele clima hostil. Ao longe, o castelo da criadagem era bonito, mas parecia muito úmido por dentro. Veronica despediu-se dos servos enquanto eles tomavam outra ponte em direção a segunda ilha. A terceira ilha era a mais peculiar. Não havia nada construído sobre ela, mas uma pequena porta subterrânea feita de aço provavam que a ilha seria utilizada. Muito provavelmente para uma evacuação de emergência caso fosse necessário.
Mariyisnky parecia um quadro renascentista perto da estranheza cinza e preta da Fortaleza Severenaya. Por dentro, a construção se revelava ainda mais monstruosa. Haviam quatro anéis subindo por uma escada da mesma largura da ponte. Eles serpentearam as paredes, até atingirem o topo. E lá, a escada terminou no menor dos anéis, três corredores diferentes, um de cada lado de um amplo salão com sofás e mesas, assim como a sala de chá de Mariyinsky. O que mais surpreendia era o teto, uma redoma de vidro a prova de balas que permitia a entrada da luz fria do tímido Sol que brilhava ali. Era a luz mais triste que Veronica já vira um Sol emitir, mas não deixou que sua expressão denunciasse a decepção. Os criados da família real já trabalhavam em levar os pertences de seus ocupantes até os quartos. De acordo com o mapa que lhe passaram, todos os quartos estariam no corredor a sua esquerda, apenas um corredor, monitorado por guardas a todo momento, teria portas em direção a salas-armadilhas e a salas de chá. Os quartos só poderiam ser alcançados no final do corredor, virando-se à direita e acionando um segredo na parede. A quem tentasse invadir a fortaleza, aquele corredor acabava nas salas inutilizadas.
Os quartos do rei, da rainha, do príncipe e de todos os membros de sua família seriam dispostos ao final do corredor, enquanto as selecionadas ficavam com os primeiros quartos. Assim evitaria que eles fossem os primeiros assassinados em uma invasão que tivesse dado certo. Veronica deu uma olhada em seu próprio quarto, o primeiro da lista, e não conseguiu afastar a sensação de vertigem que teve ao imaginar realmente uma lista de prioridades.
— Entrem em seus quartos e não saiam até que eu as venha buscar — ela instruiu as quinze meninas a confiarem nos protocolos de segurança. Sozinha no corredor, a governanta partiu a passos apressados novamente para o corredor falso e então para o salão das escadas. Havia mais dois corredores adjacentes ali, um deles no outro extremo do salão, e o terceiro meio escondido no limite da redoma de vidro. O corredor mais estreito e afastado era o corredor das escadas da criadagem, por onde os criados poderiam ir e vir sem atrapalhar a vida do Imperador. Mesmo aquele sendo uma fortaleza a prova de invasões, Veronica achou muito apropriado que houvesse uma escada para criados.
O corredor na extrema direita, logo em frente dos quartos, era destinado às salas oficiais do exército e dos ministros. O Imperador passaria longas horas por ali. O nível inferior, chamado de Segundo Anel, seria o andar dos ministros e nobres que viriam se abrigar junto do Imperador, aproximadamente 50 famílias, com filhos e crianças de colo também. Mais a baixo, dispunha-se os quartos para os soldados, seriam mais de 200 guardas apenas da guarda real. O Quarto Anel eram os quartos da criadagem dos ministros e nobres, que não caberiam no castelo da ilha vizinha. O Quinto Anel, por onde entraram, era apenas um salão grande, possivelmente para bailes, possivelmente para evitar inundações. Era onde a escada começava. O mapa de Veronica indicava um Sexto e Sétimo Anéis, no subsolo. Um para as cozinhas, hospital, biblioteca e despensa. O outro para convidados indesejados. E para isso ela entendia invasores.
Veronica decidiu que proibiria as selecionadas de deixarem o Primeiro Anel, pois não havia nada interessante além daquele andar. E o jardim de Severenaya não era tão bonito quanto o de Mariyisnky. Não com as pedras escuras, as ondas frias, o vento, o gelo, os soldados, as armas, os carros-fortes... Ela lamentava por aquele fim, mas seria para um bem maior, até que os rebeldes fossem contidos e todas as suspeitas de guerra silenciadas.
— Madame Veronica — um grupo de damas de companhia passou por ela. Eram garotas sulistas, provavelmente de Italyca, e carregavam os pertences de sua senhora, também provavelmente uma Duquesa de Italyca.
— Garotas — a governanta as cumprimentou educadamente.
E assim ela cumprimentou todos os criados, servos e soldados que passavam pelas escadas. Ela supervisionou as trocas das mobílias, a listagem de homens das forças especiais do exército, as caravanas dos ministérios de cada país do Império, outras governantas, viajando com as crianças que estavam sob sua supervisão, e mais soldados. Ela nunca vira a casa do Imperador estar tão cheia, nem na noite seguinte a um baile, quando os convidados ainda dormiam profundamente nos quartos de hóspedes. Aqueles estavam ali para ficar, até o fim dos dias maus. E traziam toda a sua família, criadagem, homens de confiança e sabe-se Deus mais o quê. As pessoas importantes do Império, todas sob a sua administração. Todas sob os seus olhos. Veronica não se achava capaz de uma tarefa como aquela.
— Madame Veronica? — voltou-se imediatamente ao chamado de seu nome.
— Sim, capitão?
— A senhora poderia vir até o alojamento dos meninos, por favor? Há uma confusão sobre os guarda-roupas...
— É claro — ela assentiu e o acompanhou escadas a baixo.
E assim, mais um dia começava.
Fale com o autor