Sangue de Mármore - Fanfic Interativa

41 Não há nada mais belo que a epifania do amor fraternal


Notas iniciais
Boa leitura!

O príncipe estava dentro do closet há horas. Nenhum dos valetes queria tirá-lo de lá. Até que um deles, o mais corajoso, decidiu que era hora de levar o seu príncipe para tomar o café da manhã. O closet do quarto de Vossa Alteza era pequeno em comparação ao espaço que suas roupas realmente precisavam ocupar, por isso alguns armários foram colocados do lado de fora. Heid nunca sentira timidez em ser despido pelos valetes, ele estava acostumado com isso. Quem não estava acostumado com a situação era o criado. Ele bateu algumas vezes na porta e esperou ouvir algum resmungo, comum às pessoas que são incomodadas em momentos de reflexão. Bem, não foi isso que aconteceu.

— Ele dormiu lá dentro? — o mais jovem valete sugeriu com uma dúvida que ele queria tirar por si próprio: o closet dos quartos reais parecia mais confortável que sua cama na casa dos criados. No entanto, o primeiro valete o impediu de continuar.

— Sua Alteza merece a privacidade quando a quer. Sua vida já é muito exposta.

Os dois menearam.

Mas Heid não queria realmente ouvir aquilo. Do lado de dentro, sentia-se sozinho demais, perdido e esquecido, mesmo que seus empregados falassem sobre ele, não era como se estivessem preocupados com ele. O príncipe tinha esperança de que ficasse ali tempo suficiente para que dessem sua falta nas salas dos primos ou de seus pais. Talvez alguma selecionada o viesse buscar ali, eles se apaixonariam e todos os terrores acabariam. De alguma forma, ele rezava a seu lado cigano que o ajudasse naquele momento. Se fosse um soldado forte como Azra, com o seu rosto e as suas palavras bem pensadas, tudo seria mais fácil. Heid estava impressionado que nenhuma menina viesse pedir que a deixasse namorar com o primo. Suas pretendentes sempre perdiam o encanto da coroa quando conheciam Azra.

E Azra era mais inteligente e mais seguro. Por que, Deus, era ele o príncipe e não o soldado? Heid amava os seus pais, mas tinha certeza de que os amaria igualmente se fossem seus tios. Ele amava Tio Raffel, não? Era tão injusto que seu destino fosse selado assim...

— Heid von Czaveryk Bourgonha Pazzlav — escutou Rivero bater à porta, mais impaciente que os criados — Saia daí imediatamente.

O príncipe desejava a companhia de quase todos na fortaleza, menos de seu conselheiro. Ele sabia porquê Rivero viera buscá-lo e não se entusiasmava. Heid evitara todas as responsabilidades por vinte e quatro horas, era preciso enfim romper com sua comodidade e assumir o posto de governante do império enquanto seu pai repousava. A saúde dele estava ainda pior após outra viagem prolongada. O clima frio parecia definhá-lo. Uma vez, Heid descobriu que só seria rei quando seu pai morresse, e a curiosidade o levou a perguntar a seu pai o que ele pensava disso.

— Eu irei morrer, como todos os homens neste Império morrem. Espero apenas que seja em nossa casa na praia de Porto Salgado, naquela ilha do verão...

Alguns anos depois, outro vendaval destruiu todas as casas de Porto Salgado e das suas ilhas vizinhas. Iberya sofreu tanto em tão pouco tempo... Sua amiga Joanna era de lá, e Veronica também. Podia até mesmo entender seus generais, mas não conseguia se encher de raiva como os outros. O príncipe queria apenas lamentar.

— Você é um covarde. — Heid abriu os olhos, encarando as portas do closet no escuro. Estivera abraçado aos joelhos como uma criança assustada. — Você é covarde.

— Vossa Alteza, temos uma reunião importante com os generais.

— O príncipe covarde do maior império do mundo. — ele murmurou para si mesmo mais uma vez — O príncipe covarde. — levantou-se — Heid, o Covarde. — abriu a porta do closet. Comandante Rivero o aguardava com as sobrancelhas arqueadas. — Bom dia, comandante.

— Bom dia, Vossa Alteza. Precisamos descer para a reunião com...

— Eu sei — Heid olhou os criados parados no extremo do quarto, ignorantes diante da cena. Os criados da família real sempre ignoravam tudo que seus soberanos faziam dentro do quarto, como se não estivessem ali. Às vezes Heid queria perguntar a eles o que pensavam de Rivero, o que pensavam da coroa, qualquer coisa que pensassem e que pudesse ajudá-lo. Mas não era apropriado perguntar.

Heid vestiu-se com os valetes e acompanhou Rivero escadas abaixo. Seus generais requeriam uma reunião ao ar livre, ao redor da praia. Mesmo o casaco grosso que o príncipe usava não o impedia de sentir o vento frio em seus ossos. Os cabelos castanho-café de Heid voavam longos em suas orelhas, e suas bochechas vermelhas pareciam já terem aderido aos ossos de suas maçãs. Um frio que doía apenas de respirar. Não era esse o lugar em que seu pai esperava deixar o mundo, mas agora qualquer lembrança de Iberya ou das viagens de verão estava enterrada junto dos escombros deixados pelo último tornado.

Seus generais falavam sobre o Império, como de costume. Esconderijos rebeldes descobertos em Franca, crescimento dos desempregados em Noruécia e grande migração para o campo, navios comerciais de Hanya saqueados por piratas afrikanos, fome, pobreza, mais desempregados, mais demissões entre os criados da Corte, a maioria daqueles que permaneceram em Versalhes. Heid deixou de ouvir quando falaram sobre a falta de ração para os cavalos nos estábulos do Palácio Sede. Os assuntos eram irresolvíveis para o imperador, apenas uma ação direta dos ministros poderia acabar com aqueles problemas, e, pelo amor dos céus, por que precisavam de cavalos em Versalhes quando tinham carros?

— O que estou dizendo é que precisamos de outra forma de poder. O exército não pode aterrorizar a população com essa história de rebeldes. — o general Salles intrometeu-se na fala de outro oficial.

— Essa “história” é urgente. Se estivesse em Iberya ou Hanya, você saberia. — retrucou general Wu.

— Não quero subestimar o perigo dos rebeldes, general Wu, muito pelo contrário! Acredito que são tão perigosos que precisamos de outros métodos além da força.

— E o que você sugere? — Bragança deu a oportunidade que Salles precisava.

Heid se perguntava porque não deixava o Império para aquelas pessoas. Elas pareciam mais interessadas, mais determinadas e mais apaixonadas pela paz. Também conseguiriam se entender sem a sua presença. Ele se sentia uma criança no meio de todas as pessoas mais fortes e poderosas do Império.

— Poder sutil.

Um breve silêncio foi necessário para que todos os generais lembrassem o que era poder sutil. O rosto de Salles mostrava uma genuína expectativa pelas melhores reações. Ao seu lado, Heid notou que Rivero estava menos pensativo e mais atento. Diria que o homem até mesmo sorria.

— Um casamento é o que você sugere. — a general Bragança enfim quebrou a pausa.

— Não necessariamente — Salles olhou para o príncipe — Se Vossa Alteza ainda não se sentir pronto, existem outras formas de alcançar o controle sutil sobre as opiniões.

— E isso seria... — Rivero cruzou os braços sem acreditar muito naquela sugestão.

— A igreja.

Desta vez o silêncio foi longo. Os rostos estavam sombrios com a ideia de chamar a igreja para aquele jogo. Nunca fora uma boa ideia dar poder aos homens da igreja, eles nunca falharam em conseguir a atenção do povo, isso era verdade. O príncipe leu sobre a história do Império desde que seu tataravô havia reinado, após as guerras que devastaram a humanidade e os últimos acordos entre as nações restantes. Illéa, Afrika, Eurásia. O maior império de todos os tempos unido não pela força ou pela conquista, mas pela fome e pelo desespero dos homens, que abrindo mão de sua liberdade, encontraram a resposta em um líder. Assim o primeiro Imperador abriu mão de seu nome para que fosse uma figura do Império e não um homem. E assim fez o seu filho, e o filho dele e agora tudo recaía sobre Heid. Era uma história bonita de abnegação e paz. Em nenhum outro momento o governo esteve tão intrinsecamente conectado a seu povo. Mas era um povo tão diverso, tão numeroso, tão cheio de necessidades específicas!

— Você está falando loucuras. — alguém exclamou ao fundo, um sotaque russo.

— É possível que vocês escutem a voz de outra pessoa que não seja do seu próprio país? Nós somos generais de um Império, nosso dever é com ele em primeiro lugar — Salles tinha razão. Heid era o único ali que olhava para o Império, enquanto todos brigavam por seus próprios pedaços de nação: os ministros iberyanos nunca olhavam para fora de seu próprio território, os francos ignoravam a existência de qualquer outro país vizinho e os russos pensavam que qualquer opinião não dada por eles era uma loucura. Se alguém merecia agora a sua atenção, essa pessoa era Salles. O príncipe limpou a garganta e isso chamou a atenção de todos.

— Minhas escolhas refletem diretamente em todo o Império. Não apenas Iberya, ou Hanya, ou qualquer país que vocês pensem ser o mais desfavorecido. Eu não posso agradar diretamente nenhum de vocês. Suas opiniões não serão julgadas agora, seria irresponsabilidade decidir o futuro enquanto andamos pela areia. — como o silêncio estava a seu favor, Heid sentiu-se mais confiante em continuar seu discurso. Mas antes ergueu os olhos até Rivero para se certificar. O conselheiro tinha um sorriso leve torcendo os lábios. — Entendo que se irritem com a demora, mas sou um príncipe perfeccionista. Sempre que milhões de vidas estiverem nas minhas mãos, eu não poderei lhes dar uma resposta rápida. Agradeço suas preocupações e as levarei para o gabinete do Imperador.

Seus comandantes assentiram um a um, percebendo que era o fim da reunião. O príncipe caminhou primeiro, atravessando o círculo de generais e comandantes, tendo seu conselheiro logo atrás. Quando já estavam distantes dos oficiais, Rivero lhe tocou o ombro e o obrigou a olhar para seus olhos. Heid tremia de frio e de medo.

— Você fez bem, meu príncipe.

— Precisamos falar com meu pai. — era a única coisa na mente de Heid. Apenas o verdadeiro Imperador saberia o que fazer. O Império parecia prestes a ruir. A sabedoria de seu pai deveria salvar a todos.

Rivero respirou fundo, evidentemente desconfortável com a escolha de Heid. O príncipe sabia que seu conselheiro esperava vê-lo um Imperador, algum dia. E esperava que pudesse ajudá-lo a crescer. Mas Heid não queria “aprender” aquelas coisas agora, não enquanto tivesse o seu pai e todos que o auxiliavam. Quando fosse o Imperador, ele deveria saber que tudo o que havia aprendido não fora apenas algo de si, e que por isso ele devia muito a outras pessoas. Heid queria esvaziar-se o máximo possível de qualquer vaidade, enquanto ainda fosse apenas Heid.

Príncipe e conselheiro subiram as centenas de degraus das escadas da fortaleza, silenciosos e pensativos, cada um formulando como precisavam abordar aqueles assuntos de guerra. Ambos os homens não notaram que estavam sendo seguidos a partir do Primeiro Anel, até o momento em que um dos guardas se moveu logo atrás de Rivero dizendo:

— Parada! Você não tem o direito de entrar no gabinete real.

Heid se assustou enquanto virava para espiar o que se passava no corredor. Ele viu o guarda com os braços abertos, impedindo que alguém prosseguisse. E a pessoa vestia uma saia longa branca.

— O que está acontecendo? — Rivero perguntou com sua voz rabugenta.

— Quem está... — Heid piscou ao ver a cabeça da menina esticada por cima do ombro do guarda. — Mizandre?

Mil vidas pareciam ter passado desde que ele vira Mizandre pela última vez. Estonteantemente bela, mas nem um pouco mais fatal. Ele havia se cansado desses jogos. Estava perdido demais para se encantar por qualquer coisa.

— Eu preciso falar com você. — ela estava sendo íntima, sem usar o tratamento “príncipe”, mas Heid assumia que eles tinham uma amizade pequena para que aquilo fosse possível. O conselheiro respirou fundo mais uma vez. Heid não gostava de ver Rivero zangado, mas podia sentir a urgência nos olhos de sua selecionada. Ele não podia fazer a vida de milhões de pessoas mais fácil, mas poderia fazer alguma coisa por Mizandre.

— Deixe-a passar.

Seu guarda abriu passagem para a selecionada e ela caminhou confiantemente por ele, sem se virar. Heid olhou para Rivero e sussurrou.

Dê-me dez minutos.

O conselheiro se despediu com uma cortesia e Heid abriu a porta do gabinete para Mizandre. Ela entrou sem hesitar, movendo-se com graciosidade pelo carpete vermelho. O príncipe fechou a porta e a acompanhou até a mesa do Imperador, folheada a ouro e a maços de documentos carimbados pelo selo real. Ele passara algumas manhãs lendo aquilo. Seus olhos já doíam apenas de vislumbrar os números e os nomes.

— Há algum tempo não conversamos... — ele tentou iniciar o diálogo, mas os olhos da moça logo o calaram. Ela parecia enfurecida.

— Há muito tempo ninguém conversa com você. Eu tenho conversado com muitas pessoas. Aliás, fiz alguns novos amigos que nem esperava.

— Ah, sim... que boas notícias.

Mizandre ergueu as sobrancelhas.

— Você não se importa se eu conhecer outras pessoas?

— É bom fazer amizades em todos os lugares.

— Ah... que ótimo que pensa assim. Aliás, eu recebi uma carta na noite em que chegamos a essa fortaleza, e me interessei muito em conhecer mais sobre quem me escreveu. — ela mostrou o envelope da carta, e o selo em seu verso. Depois colocou o papel sobre a mesa e o empurrou até Heid com a ponta dos dedos — Aqui diz que vem de muito longe.

— Como você recebeu essa carta? — o príncipe leu o nome do remetente e depois analisou o selo. Parecia autêntico. Era impossível, mas era verdadeiro. Quem trouxera uma carta desde o outro lado do Império até ali? E como havia colocado aquela carta no quarto de uma de suas selecionadas?

— Eu também não sei. Leia, eu permito. Leia em voz alta, pois preciso que alguém me assegure de que compreendi corretamente.

Heid abriu o envelope e retirou o papel da carta com cuidado para não rasgá-la. O papel era de ótima qualidade, texturizado com arabescos de fogo e ar, havia a caligrafia impecável do rei escrita em seu idioma natal, e então uma versão em franco daquilo que ele escrevera acima.

— “Caríssima lady Mizandre, bem sei que não és uma Lady como se bem entende em sua terra, mas para mim és a mais digna e honrável das senhoras nesta Terra. Não consigo expressar quão alegre meu coração se enternece ao pensar que agora podes estar a ler essas palavras tolas de um rei apaixonado.” — Heid ergueu os olhos para Mizandre, mas ela pediu para que ele continuasse, com um sorriso irônico e prazeroso — “Não sou poeta para colocar nessas linhas todos os meus sentimentos, mas garanto que poderia mostrá-los se me permitisse. Não me conhecesses, eu sei. E podes assustar-se de minha incrupulência. Mas que outro jeito um homem como eu, preso do outro lado do oceano, poderia cantar a você a minha existência sem que outros pensassem que sou louco? A verdade, minha belíssima, é que não tenho olhos para nenhuma das garotas de meu palácio depois de tê-la visto pela tela da televisão. Não é tolo? Eu lhe disse, sou um tolo! Você me fez um tolo, Mizandre!”

— Ele parece um tolo mesmo... continue, continue!

— A-ham... “Sei que mais qualidades valem para uma mulher que não apenas a sua beleza, por isso a tenho acompanhado até agora. Sei que és valente, audaciosa, confiante e sagaz. Sei também que esmagaria todas as meninas chorosas que estão nesta fortaleza agora com você. Você poderia ter feito isso há muito, mas és boa de coração para não ser injusta. Meus olhos estão em você todos os dias, pois tenho olhos em todos os lugares. Não poderia oferecer o convite que agora faço se duvidasse de sua capacidade. Mas você me tem, minha Mizandre, e eu não encontraria uma mulher melhor para ser a minha... a minha...” — Heid engasgou.

— Rainha — a selecionada apontou para a carta — Ele diz rainha.

— Ele a pediu em casamento?

— Parece que sim — Mizandre sorriu — e as palavras dele me emocionaram. Fiquei curiosa sobre esse pretendente... você sabe quem ele é?

— Você não conhece a sua assinatura?

— Ora... eu não sou tão importante quanto pareço. Tenho a educação mínima de uma cidadã comum. — ela cruzou os braços.

— O seu escritor é Ramsés XXII, rei do Egito, e um dos reis de Afrika que planeja invadir o Império.

Mizandre arregalou os olhos, ela esperava que seu pretendente fosse importante, mas não literalmente um rei. Um rei importante. Se Heid sentia algum desagrado com a carta, não deixava evidente. Ele fitava a mesa, desnorteado.

— Você gostou dele? — foi sua única pergunta depois de tudo.

— Bem... eu não o conheço...

— Mas gostaria dele, se o conhecesse?

— Imagino que sim. — ela notou que não estava mentindo. Alguém que a chamasse de belíssima e minha Mizandre parecia um bom partido. E era rico, tinha uma coroa, tinha seu exército... quão velho um homem assim poderia ser? — Mas imagino que ele seja um rei velho e doente... para estar tão desesperado por uma esposa...

— Ramsés tem a mesma idade que eu. — o príncipe lhe informou.

— Oh — isso mudava muitas coisas — Que... horror... isso significa que seu pai deve ter morrido recentemente...

— O pai dele morreu há quase dez anos.

Mizandre queimava de curiosidade, mas não queria confrontar Heid ainda mais. Ela entendia que seria difícil para ele digerir aquelas informações, principalmente porque ela ainda era sua selecionada. Pelas leis, ela deveria cortejar apenas com ele. Mas a mente do príncipe continuava distante. Ele retornara para aquela noite logo após seu baile de aniversário, quando conservava com o embaixador de Marrocos, Mestre Mala’o. O marroquino lhe dissera que havia um jeito de conquistar aliados em Afrika: entregando uma de suas selecionadas. Aquilo era impensável para ele. Mas parecia que Mala’o tinha outros planos em mente. Talvez não fosse apenas o Império que quisesse a paz, mas também o Egito e Marrocos. Pelo que sabia, Ramsés estava recém-casado com a filha do rei de Marrocos.

— Existem alguns detalhes que você precisa saber... — Heid tentou escolher as melhores palavras para expressar todos os conflitos que envolviam aquela proposta — Ramsés não quer apenas a sua mão. Ele sabe que nosso Império acredita em cidadãos livres, e que qualquer um de nosso povo é tão importante quanto o próprio Imperador.

— Isso é muito nobre.

— Não é apenas nobreza, é a lei, e a justiça. O rei de Marrocos casou sua filha com Ramsés na última Lua Cheia, o que não faz tanto tempo. Ela é a sua primeira esposa, e por isso tem mais privilégios que as outras esposas que Ramsés possa ter no futuro.

— Mais esposas? — Mizandre ergueu as sobrancelhas novamente.

— Em Egito a poligamia é permitida para o rei. Ramsés já está casado.

— Eu não sabia disso...

— Não é uma escolha fácil, Mizandre. Além disso, nosso Império pode estar em guerra com todos os outros reinos afrikanos, mesmo que você se case com ele, sempre será uma estrangeira. Outros reis poderão tentar matá-la para ferir Ramsés.

— Eu... preciso pensar.

— Não quero que faça isso. — o príncipe se levantou — Não quero que se sinta na obrigação de fazer uma aliança entre o Império e o Egito. Nós podemos encontrar outros jeitos de conseguir a amizade daquele rei.

Mizandre havia pensado em ser a heroína, sim. Mas ela não se sentia tão gloriosa quanto Heid a fazia parecer. Uma heroína cercada de jóias, ouro, e um rei. Esse rei já era casado com outra esposa, e ela era a sua “primeira” esposa. Isso deveria significar algo. Se Ramsés havia se casado por arranjo, ela poderia entender, mas propor a ela quando mal havia dito as palavras para outra? Qualquer jura de amor parecia falsa agora. Era mais como se ele implorasse a ela.

— Seria loucura me casar com um homem que não conheço. — ela concordou com um sorriso irônico, mas o coração confuso.

Heid concordou com um meneio.

— Eu voltarei para meu quarto agora... obrigada por me ouvir.

— Eu que agradeço por ter sido honesta com nossa Corte. Aqui está a sua carta. — ele estendeu o papel para ela.

— Não vai guardar isso?

— ... Eu deveria?

— Não sei... é uma carta de outro reino.

— Mas é uma carta para você. Ela é sua. — o príncipe piscou, confuso.

Mizandre assentiu e pegou a carta, dando uma mesura educada antes de voltar para a porta. Desejou boa noite a Heid e caminhou lentamente em direção ao salão do Primeiro Anel. Tudo estava vazio e escuro, os céus haviam escurecido. Parecia que uma tempestade se formava lá fora. A selecionada parou de caminhar no meio dos turbilhões de seus pensamentos. Na redoma de vidro no teto, gotas gordas escorregavam anunciando chuva.

Ela é sua.

Queria entender o que fizera seu peito ficar tão pesado naquele momento. Mizandre adorara a carta por ter sido escrita a ela, mas adorara ainda mais depois que o príncipe disse pertencer somente a ela. Ela o fizera ler o conteúdo, mas agora percebia que cometera um erro. O conteúdo da carta e todas as palavras pertenciam somente a ela. Ramsés, o rei, havia lhe dado aquelas palavras. E mesmo que suas intenções não fossem as mais sinceras, aquilo fora mais do que ela já havia recebido de qualquer outro.

Mizandre voltou para o seu quarto.

Anastasiya saiu de seu quarto.

Logo, teriam de almoçar na sala especial para refeições. Ana notou que a comida estava mais simples, menos abundante, mas isso não a incomodava. Seus pais previram em seus diários que possivelmente o império passaria por um recesso quando os rebeldes assumissem a revolução. Eles não previram que todos os nobres pudessem se refugiar em apenas um lugar, mas sabiam de todos os lugares mais seguros para os quais o Imperador podia correr. Todos os nobres... a fortaleza era grande, mas imaginar que todas as pessoas privilegiadas do Império estavam ali, bem acomodadas, e com seus funcionários, deixava-na ainda mais enfurecida. Deveria ser necessário um país, não uma simples fortaleza em uma ilha. Havia nobres ali que perderam sua fortuna ao longo das gerações, outros que não se comportavam como nobres, e ainda aqueles que pensavam ser parte da família real, cumprindo todas as etiquetas a risca. Anastasiya não conhecia nobres, apenas seus nomes e história. A maioria guardava em documentos secretos de seus pais.

Nenhum deles lhe importava de fato.

Anastasiya havia pedido a Madame Veronica que mandasse uma carta a seus avós. Era uma carta pequena, dizendo a eles que estava tudo bem, e que ela pensava em voltar para casa. Perguntando se podia voltar para casa. Ana não achava que seus avós a rejeitariam depois de ir contra a vontade deles para participar da Seleção, mas preocupava-se em voltar e fingir que estava “tudo bem” quando visivelmente ela cometera um erro.

Ela se sentou em uma das poltronas do salão. O céu estava escuro e tempestuoso, os criados foram obrigados a trazer os abajures para cima, e o lustre também fora aceso. Anastasiya sentia o vento subir pelas escadas da torre-fortaleza e se espalhar pela redoma do Primeiro Anel. Ergueu o queixo e encarou as nuvens. Relâmpagos e trovões cruzavam o horizonte com branco, cinza e azul. Se tivesse fones de ouvido e um celular, Ana colocaria em alguma canção de Frank Sinatra e balançaria sua cabeça ao ritmo. Se fechasse os olhos, podia imaginar as sombras em cada espaço do salão e o som do vento criava uma atmosfera única. Nada se comparava a...

Um telescópio caiu no chão a poucos metros. O som do metal contra uma das mesas de centro e depois sua queda surda no tapete assustaram Anastasiya em dois níveis: no primeiro seu corpo deu um espasmo, no segundo ela se levantou e olhou na direção do telescópio. E do dono do telescópio. Ele a encarava de volta, os olhos muito grandes atrás das lentes. Aquele reencontro for inesperado para as duas partes. A moça havia se esquecido dele, e ele havia pensado nela por muito tempo até se contentar com a dúvida de poder nunca mais vê-la.

— Milady — o homem fez uma mesura apática, ainda sem total domínio de si, porque, Céus, era ela! Era a garota da vila, aquela que ele quase derrubara enquanto saía da loja de brinquedos...! E ela estava encantadoramente mais bela do que se lembrava. À luz da noite, ela era um milagre. — Perdão em assustá-la.

— Está tudo bem... — oh, Anastasiya percebeu que havia esquecido o nome do nobre, e mesmo o seu título. Ela sempre sabia com quem conversava, porque havia esquecido tudo sobre ele? — Senhor...

— Patrick. — como nenhum título foi mencionado, ela tentou se convencer de que ele não era mais nobre do que um barão, mas não conseguia deixar de sentir que ele era mais nobre do que isso. — Você está olhando as estrelas também?

Ora, ela viera ali para se sentir menos trancafiada, sim, e a noite estava tempestuosa demais para ver qualquer estrela...

— Imagino que seja a única atividade possível no momento. — fora dura demais, ela sabia disso, mas nunca lhe ensinaram o tato. Se seu barão, marquês, visconde, senhor, seja lá o que for, havia notado a frieza, não a recebeu. Ele era um homem meio estranho, também.

— Sim. — seu sorriso, sincero, veio seguido dos movimentos profissionais de quem sabe abrir um telescópio. Ele o apoiou no chão e esticou as pernas do suporte, mirando a redoma de vidro. Que castelo mais perfeito para um homem apaixonado pelos astros. Anastasiya pensou em ir embora, deixá-lo em paz com seus planetas, mas também estava curiosa. O único outro erudito que conhecera fora seu irmão... e seu irmão era um bom parâmetro para pessoas.

— Lady Anastasiya Volkov... — ele começou, mas engasgou — É... milady, posso chamá-la de Ana?

Não, não deveria poder.

— Se o agrada, milorde.

Ele sorriu, satisfeito.

Que sujeito simples. E interessante.

— Ana é o nome que combina com você.

Humilde e ordinário?

— Patrick também combina com o senhor.

— Eu não concordaria menos — ele se inclinou e espiou pela lente do telescópio. De repente sua expressão se modificou, ele estava terrivelmente concentrado no que via, as mãos grandes e enluvadas segurava o metal com delicadeza, sem pressionar nenhuma peça, sem mover os músculos. O homem conseguia se desconectar do mundo assim que colocava constelações na frente do nariz. — Que belo... — ele sussurrou, um murmúrio de pura admiração. — A Ursa e...

— Milorde. — Ana não sabia porquê o havia chamado, talvez porque estava irritada com as murmurações, talvez porque quisesse a atenção para si. Ela não era mesquinha a ponto de sentir ciúme das estrelas, mas também não era impaciente para se irritar com alguém em meros segundos. — Ah.. pode continuar...

— Você gostaria de ver também? — ele deu um passo para o lado.

Não, ela não gostaria.

Anastasiya se arrastou do sofá e se abaixou sobre o telescópio, um dos olhos fechados e o outro aberto. Não era as estrelas e nem os planetas que o homem parecia admirar. Era a tempestade, mil vezes mais brilhante e assustadora através da lente. No entanto, mil vezes mais bonita, também. Ela moveu o telescópio para o lado. Entre as nuvens escuras e as gotas de chuva, os relâmpagos e trovões, ela podia vislumbrar ao longe, bem distante, algumas constelações. A Ursa, sim, e os seus filhotes. A mão de Patrick tocou sua cintura e ele se transformou em uma parede sólida ao seu lado. O corpo inteiro de Ana se arrepiou com um espasmo. Ela ergueu o rosto e o encarou, incapaz de explodir de raiva.

Porque era bom ter alguém tocando-a.

— É uma bela pintura da natureza, não acha, Senhorita Ana?

— De fato — Ana deu, finalmente, o passo para trás, e a mão de Patrick a soltou facilmente.

— O senhor é cientista?

Ele piscou.

— Não. Não um que preste, pelo menos.

— Então estuda astronomia?

Patrick riu de leve.

— Se isso me torna menos romântico, esse telescópio é tudo o que eu entendo sobre astros, Lady Volkov.

O homem teimava em chamá-la de lady, mesmo que seus pais tivessem perdido o título e fossem traidores. Ela não gostava da referência à origem dos Volkov, mas Patrick não o fazia por maldade. Ele era honesto demais para isso, e não fazia o tipo dos nobres que ela havia conhecido.

A ideia de que fosse diferente cativou ainda mais os pensamentos de Ana, e ela não notou quando Madame Veronica apareceu nas escadas e a mandou direto para o quarto. Patrick acenou, dando-lhe adeus.

No corredor dos quartos, a governanta a parou delicadamente com uma mão sobre seu cotovelo.

— Cuidado, senhorita Volkov, este lugar está cheio de aranhas.

E Anastasiya finalmente pôde sentir seu coração desacelerar.

Notas finais
Feliz ano novo a todos e que venha 2020! Beijos, amo vocês.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.