Sangue de Fênix: A chama da última dinastia
9 Capítulo 8 - Correntes de segredos
As sapatilhas desgastadas rangendo contra a madeira, como se estivesse pisando em gelo fino. Algo que poderia ceder á qualquer momento.
A sopa não parecia apetitosa, vários legumes num caldo meio marrom, nas duas tigelas.
Odor forte de peixe morto preenche o ar, a sola da sapatilha prendeu-se ao chão.
Lirien inclinou a cabeça, puxou o pé, uma gosma branca se desprendendo junto com a sola.
Fechou os olhos com força, os lábios se curvando, não sabia o que era aquela gosma e, preferia continuar na ignorância.
Prendeu a respiração, olhou de soslaio para as celas, aquelas corrente pareciam enferrujadas, folhas secas e galhos em algumas delas.
Lirien estreitou os olhos.
— Folhas?
Uma risada engasgada ressoa, nasal e potente.
A jovem sobressalta, bandeja tremendo por mais segundos do que se orgulhava.
Fechou os olhos, contou mentalmente até três antes de se virar.
A velha estava sentada dentro da cela, mãos flácidas fora das grades.
Qualquer um podia ver os ossos sobre a camada de pele bronzeada, nariz protuberante, dentes podres, túnica negra, olhos amarelos vibrantes.
— Você finalmente chegou, Katylene
— P-Perdão?
A mulher franziu o cenho, olhou Lirien de cima a baixo, o rosto empalideceu por um breve instante antes de cair na gargalhada.
— Você me lembrou, digamos... Uma velha amiga
Lirien estreitou os olhos, ergueu o queixo
— Uma boa pessoa, espero
— Boa? Não sei, mas com certeza não sabe cumprir com as promessas. Acabei de ter a prova disso
Lirien levantou o canto do lábio, ergueu uma sobrancelha.
Estendendo uma das tigelas na direção da velha, o pulso sendo interceptado no ar.
Lirien franziu o cenho.
O sorriso da velha ficando largo.
— Solte-me! — Exclamou a jovem.
— Você tem...
— O que? A senhora é louca?
A velha ri, soltando o pulso de Lirien
— Talvez nem tudo esteja perdido
A jovem arregalou os olhos, praticamente soltou a tigela no chão.
O som ecoa pelos corredores, límpido, longo demais.
Lirien seguiu pelo corredor a palpitação constante, o ar se dissipando do pulmão por segundos, engoliu a própria saliva.
— Ai, ai... Adeus Mirannae — a melodia era baixa.
Lirien congelou, virou-se.
A dama tinha cabelos castanhos claros bagunçados no coque, o vestido estava sujo, olhar baixo, mãos agarradas na grade — Lirien quase não a reconheceu sem a máscara.
Ela se aproxima, entrega a tigela.
Maelis sorri de canto, sem mostrar os dentes, as mãos foram furtivas.
O líquido quente atravessa as grades antes que a criada pudesse reagir, a pele ardendo.
Lirien gemeu de dor.
— NEM UM ANIMAL COME ISSO! SUA IMPRESTÁVEL! — A voz de Maelis ecoa.
Lirien arfou, sacudiu as mãos no ar.
O líquido marrom estava escorrendo no corpo, ainda fervente.
Os olhos dá jovem se estreitam, gélidos, apesar do fervor na pele
— Sabe o que eu queria? Que essa fosse sua última refeição, assim não teria o desprazer de ver seu rosto novamente
Maelis dá bofetes nas grades, como uma fera enjuada.
— QUANDO EU SAIR DAQUI VOU TE ENSINAR BOAS MANEIRAS
Lirien sorri de canto.
— Acho lindo quando alguém é tão positivo, principalmente depois de fazer uma provocação sobre o desaparecimento da princesa
Maelis cai na gargalhada, mão no peito
— Desaparecimento? Por favor! Ela já deve ter virado comida de peixe naquela cascata à dezesseis anos
Lirien comprimiu os lábios, deu um passo à frente.
— Você não passa de—
— O que está acontecendo aqui? — A voz ressoa, gélida.
Lirien inclinou a cabeça, baixou o olhar ao se reverenciar
— Vossa majestade imperial
Aurelian ergue uma sobrancelha, notou o quão encharcada a jovem estava.
— O que houve com o seu uniforme?
— Ao que parece a cozinha real não está à gosto da jovem senhorita — Respondeu sem erguer a cabeça.
— Entendo, pode se retirar
Lirien assentiu, a postura impecável, a cabeça porém, ainda baixa, não ousou olhar nos olhos do imperador nem sequer por um instante.
Aurelian sorri amarelo, braços para trás
— A senhorita Thorne parece fazer cena até nas refeições, bem... Não terá esse problema
Ela ergue o queixo
— Que ótimo, finalmente vão me soltar?
— Soltar?
O imperador ri, o sorriso de Maelis morre nos lábios.
— A senhorita está proibida de se apresentar em Eryndhal ou qualquer distrito desse reino, espero que tenha gostado do palácio, vai ter de ficar aqui por muito tempo
— C-Como?
Aurelian franze o cenho.
— Como tem apenas dezesseis anos e em respeito à família Thorne, não vou dar a pena que você merece — ele trava a mandíbula, cerra o punho antes de concluir — mas, você terá de permanecer no palácio, será vigiada pessoalmente pelo príncipe herdeiro e será... — Ele ri amargo — não, vou deixar que descubra sozinha
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