Sangue Divino
9 Cap.9 -Nova Vida. Novas Amizades
Notas iniciais
–Obrigada. –Eu disse, era reconfortante estar em algum lugar ao qual eu senti que pertencia. Ignorei o fato de que estava louca para perguntar sobre Annabeth e o que ela dizia sobre mim. –Onde eu posso me sentar para ler?
–Onde quiser. –Larissa respondeu sorrindo e passando a mão pela franja de seus cabelos castanhos, que formavam uma linda cascata homogênea de chocolate em volta do delicado rosto bronzeado. –Não somos tão possessivos quanto parece. Não com mesas pelo menos. –Ela diz rindo ainda mais. Estar perto dela era reconfortante, como se a sentisse como irmã verdadeiramente.
–Ok. É um prazer conhece-la Larissa. –Respondo educadamente, talvez o ambiente estivesse me obrigando involuntariamente a ser mais formal. Ela responde apenas continuando com o sorriso enquanto se vira e acena levemente com graciosidade.
Dirijo-me a uma estante em um canto, estranhamente brilhante, provavelmente porque os Filhos de Atena não queriam nem pensar em ter aranhas por perto. Sento numa cadeira de madeira com precisos entalhes, como em antigos vasos gregos, entalhes de batalha, retratavam claramente a Deusa da Sabedoria lutando. O cheiro de livros novos era estranho de se sentir levando em conta que naquele lugar parecia haver livros pré-históricos, que, conclui, deviam ser espanados diariamente.
Há um espelho na minha frente, sinto como se outra pessoa me encarasse, não vejo a mesma menina que via todas as manhãs no espelho de casa, vejo uma garota com cabelos cor de um dourado-areia e olhos verdes muito acinzentados, como os meus, mas as olheiras em seus olhos e o quanto a existência lhe pesava não pareciam em nada com ela, devia ser só mais uma menina, devia.
Tinha deixado o livro na cama que Annie falou pra eu ficar, quase esqueci. Corro até lá, pego o livro, ou talvez o melhor termo seja relatório, e volto a estante. Abro o objeto intitulado “Ladrão de Raios” a minha frente e começo a ler, meu cabelo começa a escorrer por cima do livro e pego um elástico e o amarro na altura de sempre, encaro o espelho por um minuto, e posso ver porque era impossível me não associarem a Annabeth, sinto como um onda de orgulho passando por mim, se um dia for como ela é então sei que serei alguém de que posso me orgulhar, mas tudo que eu era se resume a uma garotinha assustada e cansada.
Antes de conseguir voltar minha atenção ao relatório ouço gritos. Tentando não demonstrar que eu estava horrorizada e entretida ao mesmo tempo olhei por uma das janelas e vi duas meninas muito bonitas vestidas com a mesma camiseta que todos a sua volta, a do acampamento, mas ambas vestiam a mesma saia xadrez cor de rosa claro, era quase certo que brigavam por causa disso. Sem conseguir me conter larguei o livro e fui para fora do chalé.
O cheiro de morango invadiu meus pulmões tão rápido quanto os gritos que invadiram meus ouvidos.
–Você é uma vaca, Hannah! Sabia que eu tinha uma saia assim! Está querendo me copiar e fazer com que eu passe papel de boba, mas não vai acontecer. –Disse furiosa uma garota de cabelos cacheados castanhos e luzes platinadas, parecia ter a minha idade, tinha olhos cor de mel de eucalipto, era pequena, mas parecia muito feroz, tinha uma beleza tão forte e natural que não tive duvidas de que era umas das filhas de Afrodite, apesar do fato de que elas conseguem ser tão ferozes me assuste.
–Vaca é você, querida. Eu comprei essa saia verão passado, não vi você usando nenhuma saia assim antes de hoje. Acho que ninguém viu, viu? –Disse a outra menina, parecia um pouco mais velha que a “concorrente”, era loira em um tom prateado intenso, e tinha olhos negros de uma maneira que nunca tinha visto, pareciam arcos para um abismo, o que deixava a beleza ainda mais destacada, era exótico, senti uma pontada de inveja que rapidamente desfiz, nunca fui vaidosa, agora não era hora disso.
–Ei! –Gritei. –Não deviam estar discutindo assim na frente de todos os chalés. Achei que as filhas da Deusa Graciosa tivessem ao menos classe!
–Quem é você para se meter no meio da gente, garota? –A garota que eu sabia chamar Hannah disse se voltando a mim, mas logo senti aqueles olhos sem fundo fixados em mim, como um susto evidente. Ela parecia temer minha figura, não é muito legal pensar, não quero ser temida sendo que nem eu sei o que sou. –Ah! Você é... Courtney, certo? –Agora seus olhos brilhavam com interesse, como se ela olhasse para um diamante. –Prazer, sou Hannah. –Ela disse caminhando até mim se esquecendo da outra menina que ainda parecia muito indignada.
–Percebi. –Não pensei em dizer oi ou prazer em conhecê-la, ela não me pareceu agradável não tinha porque ser agradável com ela.
Ela me olhou um pouco indignada e tentou disfarçar rapidamente, de perto eu pude perceber o quanto a saia era curta, pelos deuses... quem devia estar demonstrando espanto e indignação era eu! Desviei o olhar para outra menina, por ser menor a saia não ficava tão pequena nela, tinha um comprimento normal, nada vulgar, os olhos mel encaravam o horizonte, tinha uma expressão dura, mas mantinha a compostura, de nariz empinado, não sei como nem porque sabia, mas eu sabia com certeza de que quem possuía a razão nessa briga era ela. Como um impulso me dirijo a outra garota quando falo:
–Não se deve brigar por causa de uma saia, demonstra apego de mais aos bens materiais e deixa vocês menos atraentes, sabiam? -E só por um impulso de maldade tive que completar sorrindo: -Acho até que está com algumas rugas visíveis, Hannah.
Incrédula ela pôs as mãos no rosto, se virou e correu ao florido e colorido Chalé 9. Como podia ser tão fútil? Não pude deixar de conter uma risada, mas apenas por respeito involuntário. A menina de cabelos castanhos e luzes platinadas sorriu triunfante, e não pude deixar de ir cumprimenta-la para incomodar ainda mais a outra.
–Olá. Sou Courtney Marie. –Digo caminhando até ela.
–Oi. –Diz a garota um pouco atordoada mais logo completa com um sorriso delicado e gentil: -Sou Sophie.
–Prazer Sophie. –Diferente da outra seus olhos pereciam seda, com a expressão suavizada ela tinha uma beleza muito mais delicada que a de Hannah.
–Hum... eu quero sair daqui, odeio confusão, mas preciso de uma companhia e você não parece que tem outras amigas por aqui... bem... –Isso soou meio convencido ou ousado demais, porém os olhos pareciam suavizar tudo que ela falava, mesmo sem perceber já tinha respondido “Então vamos”, que estranho.
Nós fomos até a praia por minha sugestão, a beleza do mar sem poluição por aqui era encantadora. Tenho que admitir que ter uma companhia não é tão mal, se ocupar dos problemas dos outros para esquecer os seus. No caminho, Sophie ficou me contando como começou a briga, e também o histórico inteiro da saia, o que me fez pensar que ela tinha uma memória extraordinária e poderia usa-la muito bem se não... bem, fosse filha de quem é, mas algo em mim dizia que ela pode usar isso muito bem independente de quem a gerou se tiver os motivos certos.
Sentadas na areia da praia conversávamos sobre sapatos, se pode contar como conversa se meus murmúrios de concordância tinham função fática, como no caminho todo. Até que de repente enquanto falava de como verde água caia bem com meu tom de pele ela se interrompeu e disse:
–Não está realmente prestando atenção, não é?
–Huhm. –E então percebi que o que ela tinha falado e me apressei em dizer: -Desculpa, mas esse assunto...
–Eu sei. Não é algo pelo que você se interesse, me desculpe também, não sei o que conversar com você, não costumo conversar com meninas que não são do meu chalé, mas... elas estão de mal comigo.
–“De mal” –Repito rindo- Que infantil. E posso perguntar por que seu chalé está revoltado com a senhorita?
–Claro. Bom... elas estão indignadas com o fato de eu querer ir a uma missão.
–Missão?
–Sim, missão. Quero lutar, me sentir guerreira, me sentir... útil. Elas dizem que não nascemos para lutar e sim para encantar, mas somos como todos os outros por aqui, somos heroínas, para isso estamos aqui!
–Seu chalé esta te rejeitando por que quer lutar, é isso?
–Sim. –O tom melancólico era de partir o coração. Sophie queria ser corajosa, estava tentando, e faziam parecer errado como se coragem não fosse importante quando se é bela.
–Acho apenas que sua atitude a distancia da futilidade delas. Isso é uma coisa boa. –Digo. Era como se verdadeiro mel de eucalipto escorresse pelos olhos de tão tocada que ela parecia pelo simples gesto de eu ter tentado conforta-la, e ela sorriu, ainda meio forçada.
Uma rajada de vento bateu, fazendo meu cabelo se soltar e emaranhar na frente, já os cachos de Sophie que estava a minha frente dançavam em volta dela, cambaleando levemente para trás, até o vento era a favor delas? Sério?
–Temos aula de combate logo, devíamos ir. –Ela disse com suavidade.
–Tem razão. –De alguma forma, dizer isso soou irônico na minha cabeça, mas eu sei que não devo subestimar quem não conheço, não a vi lutar... mas veria se fosse para aula... se eu pudesse...
–Vamos?
–Não sei. Eu não sei se você viu...
–Seu sangue brilhante na aula de esgrima? Todos viram. Meu chalé morre de inveja da cor. –Ela riu. –Mas sei que deve estar apavorada. Sinceramente, seja quem você é e tenha orgulho, se não souber quem é incorpore quem você quer ser e será essa pessoa.
–Obrigada. Essa frase foi linda, você mesma que...?
–Formulou-a? Sim. Instantaneamente. –Ela sorriu de uma maneia difícil de interpretar se era tristeza, irritação, desdém ou pura constatação de divertimento. –Vocês subestimam muito a capacidade de intelecto alheia, não?
–Não sei. –Digo meio sem graça. Eu fiz mesmo isso, não fiz?
–Não fique mal por isso, não é como se fosse sua culpa. –Levantou e estendeu as mãos pequenas e cor de porcelana para mim: -Vem.
–Não sei se devo...
–Não percebe que aqui não há regras? Faça o que bem entender contanto que tenha coragem para isso.
–Fácil para você dizer. Seus pais não estão aqui.
–Oh. Verdade... –Ela diz se encolhendo. –Sabe de uma coisa? Ignora. Finge que só são monitores! Eles tiveram liberdade. Você merece a liberdade também. –Constata.
–Quer saber de outra coisa? Tem razão de novo.
Levanto-me e pego um elástico que levava no pulso, sempre tinha um, era costume. Enquanto tentava prender meu cabelo, Sophie disse me encarando:
–Não devia fazer isso. Seu cabelo é lindo solto.
Nem sei porque mas eu ri alto.
–Vamos lutar. –Afirmo a ela. –Quer ser bonita, ou quer ser corajosa?
A Filha de Afrodite parece pensar um tempo, confusa, e então sorrindo delicadamente questiona:
–Tem outro elástico com você?
Nós duas saímos andando e rindo. Aquela garota tinha conquistado minha amizade, não sei se foi por querer pelo menos tentar ser corajosa ou pela maneira com que parecia astuta lá no fundo e isso me encantava. Ela parecia uma decorada caixa de música, aquelas com uma bailarina que gira lenta e graciosamente, onde ninguém pesou que esconderiam joias valiosas de verdade.
Quando chegamos na sala de combate, que, sem novidades, era a arena, todos me encaravam, provavelmente pensando “Oh, meus deuses! A menina que sangra ouro” ou qualquer outra coisa que não me interessava, ter uma amiga comigo novamente me dava forças para ficar de cabeça erguida... isso até ver quem ara a professora.
–Sophie,..- Falei com um tom calmo o suficiente para ela perceber que eu estava muito, mas muito, nervosa. –Por que –e então a calmaria se foi e foi como se me atirasse ao desespero: -Diabos!? Você não me contou, que minha mãe era professora de combate?
–Achei que não viria se fizesse isso. –Ela diz segurando um sorriso.
–Ah... e tinha razão. –Digo olhando furiosa para ela que já não consegui conter mais o riso.
Achei que Annabeth iria até mim, mas não foi, graças aos deuses. Me tratou como uma aluna normal, vou ficar devendo essa a ela, me sinto muito grata por poder colocar a palavra normal em uma frase que fale de mim.
Tentei me concentrar mais era péssima tanto quanto Sophie em tentar usar força bruta, tudo que fazíamos de mais ágil era no movimento do cabelo. Não esperava nada melhor que isso na verdade. Mas Sophie não parecia ligar nenhum pouco, devia ser rotina e ela parecia bem entretida... observando um garoto bronzeado, alto, de cabelos castanho claro, ombros largos e olhos azuis escuro muito focados no combate, ele sim parecia ir muito bem, é parece muito forte para idade que aparenta, e posso jurar que não deve ter mais que um ano de diferença de mim, já a confiança que vejo nele vem de anos de intenso treinamento, tenho certeza.
No final da aula todos se arrumavam, ou colocavam curativos, para sair, com o cheiro intenso de suor, sangue e mofo não vou conseguir ficar muito mais tempo esperando Sophie checar e arrumar o cabelo, enquanto parece decidamente concentrada no garoto... ainda.
Percy entra na sala, achei que para ver Annabeth, porém ele se dirige ao mesmo garoto para o qual Sophie olhava e conversa entretido com ele. Pensei em perguntar “Meu pai o conhece?” mas a resposta era obvia, ele era um professor, claro que conhecia.
–Alguns dizem que ele é quase um filho para Percy. –Sophie diz casualmente me surpreendendo, sem tirar os olhos do espelho que tinha em mãos.
–Filho? –Indago com um pontada discreta de ciúmes, ou pelo menos quero acreditar que foi discreta.
–Ah. Sim. Ele a muito apegado ao garoto desde que era bem pequeno. E ele chegou muito pequeno aqui, não tinha para onde ir depois que a mãe...bem... teve um infarto na frente dele quando ele tinha só quatro anos. –Ela respondeu de cabeça baixa.
–Que horror! –Se havia algum ciúmes acho que minha pena sobre ele se sobrepôs, estava feliz em acreditar que ele pode ter uma figura paterna depois do que sofreu, e nem sabia quem ele era.
Como se soubessem que eu queria saber mais Percy me viu, e veio até mim, com o garoto o seguindo no mesmo passo. Queria me enfiar no buraco mais próximo como uma Ema, mas infelizmente não é possível e simplesmente sorri para meu pai enquanto se aproximava.
–Court! Fico feliz em ver que... –Não sei se ele ia falar algo como “está lutando” mas desistiu por medo de Annie, então completou: -fez uma amiga. Quero te apresentar um pessoa. Courtney esse é Nathan, um garoto habilidoso que aprecio muito. –Ele disso sorrindo ao garoto, que apesar de demonstrar uma expressão leve de orgulho estava neutro a situação visualmente.
–Eu que o admiro, senhor. –Disse Nathan como uma constatação. –Prazer em conhecê-la Courtney. –Ele completou com uma leve inclinada, uma pequena reverência.
–Ah. Por favor. Não sou nenhuma princesa. Nem gostaria de ser. –Digo em tom zombeteiro.
Os olhos azuis escuros, agora na luz me encaram ficando de um azul claro como o céu do meio-dia, sua expressão é quase ilegível não posso dizer se é irritação ou divertimento, uma leve deformação se forma em um dos lados da boca, quase imperceptível, mas me faz desviar o olhar, acho que porque me senti idiota.
–Claro. A princesa deve ser aquela donzela ali, não? –Ele diz de uma maneira tão neutra, encarando meus olhos como se pudesse ver na minha alma, ele parecia muito focado...
Vejo no espelho Sophie ficar estática por um estante. Tento sorrir para disfarçar o desconforto.
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