Sangue
49 Capítulo 47 – O 47° capítulo.
—Flavinho, visita pra você.
Flavius abriu os olhos, mas não se moveu:
-Manda entrar. – disse sem emoção na voz.
O quarto estava uma bagunça. Roupas empilhadas em toda parte, pôsteres quase decadentes acusando a falta de cola dos durex gastos, portas do guarda-roupa estragadas e o menino jogado em cima da cama, inerte, desde ontem. Fip ficou parado do lado de fora do quarto, admirando o ar tétrico da cena:
-De repente percebi que você não estava em casa. Foi embora sem se despedir, o que houve?
-Nada.
-Como nada? Que horas você foi embora? Por que saiu assim, sem dizer nada?
-Eu disse. Você não escutou.
-Disse? Que hora?
-Faz diferença?
-Não.
-Então por que pergunta?
-Pra demonstrar que eu me preocupo.
-Legal.
-Olha, Flavius. – disse entrando no quarto – Se eu for voltar mesmo a dançar a gente vai ter que resolver isso. Você não pode ficar assim toda vez que eu não puder te dar atenção.
-Acho impressionante a sua capacidade de simplificar as coisas. Não é você ensaiar que me deixa chateado.
-O que é então?
-É o estado de nervos que você fica! São as grosserias que você faz! É o jeito que você me olha como se eu fosse um burro idiota que não entende nada que você faz! Você vira outra pessoa! Uma pessoa que eu não conheço!
-Nossa... sério? Que grosseria eu fiz com você?
-Deixa pra lá, Fip. Já passou.
-Não! Eu quero saber!
-Não vou me lembrar de nada específico agora.
-Ah, muito conveniente isso!
-Tá bom, Fip. Se você veio aqui pra brigar mais pode ir embora, tá?
-Você tá me expulsando?
-Se for pra você ficar implicando comigo sim!
-Eu não to implicando com você!
-Ai! Tá bom, Fip. Tá bom.
-Mas poxa, a gente não pode falar nada que você já fica todo de mimimi!
Flavius se sentou na cama e disse:
-Ok, vamos começar tudo do zero! Você veio aqui pra que?
-Pra ver como você está! Pra saber se está tudo bem! E você vem pra cima de mim como se...
-Shh. – disse colocando o dedo na sua boca – Você veio porque percebeu que tinha alguma coisa errada e quis tentar arrumar. Então não vamos estragar mais. Tá tudo bem, eu fiquei mesmo magoado com algumas coisas que você fez, por isso sai de perto. Eu estava me sentindo mal. Ok, pode ser pití, pode ser mimimi meu. Mas eu sinto. Do mesmo jeito que você não pode evitar suas grosserias e seu nervosismo eu não posso evitar isso. É uma coisa difícil de entender?
-Não.
-Então. Eu me esforço pra entender o seu lado. Você podia de vez em quando se esforçar para entender o meu. Nem sempre eu concordo com o que você faz, mas nós não precisamos brigar por causa disso.
-Tudo bem, você tem razão.
-Então me desculpe, eu não quero me colocar entre você e sua dança. Eu só gostaria que você fosse menos intransigente comigo.
-Desculpe. Eu fico nervoso por causa da apresentação e acabo descontando em você.
-Eu sei disso. Mas também não sou obrigado a ficar levando patada de graça.
-É verdade. Desculpe.
-Tá tudo bem.
Abraçaram-se.
...
Artur estava dormindo no sofá. Jogamos vídeo game a noite inteira e mal conversamos. Eu não entendi muito bem. Ele manda aquele e-mail todo pseudo apaixonado, dizendo que só pensa em mim e quando me vê não faz uma menção de me beijar... nada. Será que eu não dei brecha? Deixei ele inseguro? Ou o interesse dele acabou? Talvez ele me tenha como uma amiga. Ou está numa fase boa com a namorada e não quer estragar tudo. Aff, como eu odeio essa merda de não saber como reagir!
É muito estranho olhar para o corpo dele e não me sentir livre para abraça-lo, beijá-lo! Nós já nos conhecemos a fundo, tivemos momentos tão íntimos e agora eu sinto essa barreira. É como ter que pedir permissão para entrar no próprio quarto, pra dizer o próprio nome. É horrível quando te tomam a intimidade que te pertence! Por que de repente eu tenho que ficar com medo de me aproximar?
—Onde está o Francis? – perguntou o Felipe. As vezes eu esqueço que ele vive aqui.
—Foi visitar o Flavius.
—Até que enfim ele se tocou.
—É.
—Quem é esse aí na sala?
—É meu macho da vez.
Ele me olhou com uma cara ofendida. Como se a expressão “macho da vez” tivesse ferido seus ouvidos. Eu nem liguei, peguei meu copo com leite e voltei pra sala. Liguei a televisão num volume bem alto e fiz um pouco de barulho pra me sentar, pra ver se o Artur acordava! Mas nem adiantou, ele continuou dormindo que nem uma pedra! Droga!
Fiquei uma meia hora vendo tv e prestando atenção em cada movimento dele. “Agora acordou!” – eu pensava, mas ele nunca acordava. Parecia até que estava fingindo! Pra não ter que falar comigo, será? Ontem a noite não rolou nada, talvez eu não tenha criado uma boa oportunidade. Mas talvez agora de manhã eu consiga mais resultados. O Chico entrou na sala com um sorriso besta, deve ter feito as pazes com o Flavius. Esses dois às vezes me torram o saco também:
-E aí? – perguntei só pra falar alto e tentar acordar o filho da puta.
-Tá tudo bem. Ele só estava com dor de cabeça. E eu aqui viajando, achando que tinha acontecido alguma coisa.
-Eu te falei.
-Pois é.
Ele me olhou com aquela cara de : “E aí? Rolou?” e eu respondi com minha cara de: “Olha pra minha cara de mal comida e vê se você acha que rolou alguma coisa!”. Ele segurou o riso e foi pra cozinha. Eu perdi a paciência de vez e cutuquei o Artur com o pé:
-Ei, moço! Acorda!
Ele acordou num susto, olhou pra mim e disse:
-Que horas são?
-Sei lá, quase dez.
-Meu deus! Eu preciso correr!
Disse isso se levantando e arrumando as coisas dele numa pressa escandalosa:
-Por que você deixou eu dormir tanto? Eu prometi que ia almoçar com a minha mãe!
-Eu não sabia, ué!
Ele pegou as coisas dele, me deu um beijo rápido na bochecha e disse:
-Eu tenho que ir! Depois a gente se fala, tchau!
E saiu me deixando pra trás completamente frustrada. Então eu esperei meses pra ver esse filha duma égua de novo pra isso?
...
Faltam poucos dias pra apresentação do Fip e o Felipe me pediu pra dar uma arrumadinha no apartamento dele pra receber todo mundo. Eu tenho a chave porque ele me pede pra cuidar das plantas. Não gosto muito de ficar aqui porque as coisas do Felipe são tão organizadas e tão frágeis, me da à sensação de que tudo é de jujuba e pode quebrar só de olhar. Odiava quando eu morava aqui, sentia a presença dele em cima de mim observando tudo que eu mexia, tudo que eu sujava, tudo que eu fazia:
—Mas já está tudo tão arrumado, o que precisamos fazer? – perguntou o Igor.
Igor é um menino do teatro que eu conheci numa festa de inauguração de um novo espaço cultural da cidade. Ele é amigo de uns amigos meus e faz uns três dias que não nos desgrudamos um do outro. Sabe essas pessoas que encontramos e nos sentimos instantaneamente atraídas por elas? E ele não é exatamente bonito, tem um nariz pontudo, grande, magro, cabelo curto castanho, muito alto e um tanto desajeitado. Tem um olhar de sátiro, sobrancelhas grossas e um sorriso meio sacana. Eu gosto do jeito desengonçado que ele se mexe e da forma como a boca dele se movimenta quando ele fala. Temos ficado algumas vezes, o sexo é bom, nada espetacular, mas íntimo. É uma pessoa que me faz me sentir a vontade, tem uma presença leve e um senso de humor sagaz. Não é o tipo de cara que Fip ou Flavius gostaria de conhecer, na verdade ele é muito diferente de todos os amigos que eu já tive, mas talvez seja por isso que eu esteja encantado:
-É, eu sei, mas o Felipe é meio perfeccionista. Ele quer que tire o pó, arrume os quartos, troque os lençóis.
-Quantos anos esse Felipe têm? – ele disse pegando um anjinho de porcelana nas mãos, fazendo meu coração palpitar.
-Isso é um pouco frágil. – eu disse colocando o enfeite de volta no lugar – O Felipe morre se uma dessas coisas quebrar.
-Ahahahah. A gente podia pegar um porrete e quebrar tudo!
Ele ficava com uma cara de louco quando dizia essas coisas:
-Deus me livre, o Felipe morre.
-Ahahahahahha. Estou brincando.
Ele olhava para tudo com um olhar interessado, como se estivesse medindo a personalidade do Felipe através de seus móveis:
-Esse é ele? – disse pegando uma foto.
-É.
-Hmmm, bonitinho o rapaz.
-Nunca reparei. – não sei porque, mas senti uma pontada de ciúmes. Não que estivéssemos tendo alguma coisa mais séria, mas me senti agredido por essa demonstração de interesse na minha frente.
-Tudo bem, chega de lenga lenga. Vamos arrumar logo essa parada aqui porque eu tenho que ensaio às 13 horas.
Ainda não o vi atuando, mas imagino que ele deva ser bom. Sinto certa admiração e invejinha por ele já ser um ator profissional. Da aula de teatro, tem uma rotina de ensaios, já se apresentou em vários lugares, leu um monte de livros. É mais ou menos como quero estar em breve. Ele é uma pessoa em quem eu quero me espelhar.
...
“Olho o horizonte. Há quanto mundo no mundo? Quanta vida a ser vivida e eu estacionado aqui... Quantos corpos a serem descobertos, quantos amantes para amar. Por que Flavius? O que tem nele de tão especial? Por que escolhemos quem escolhemos? As vezes eu olho para ele e o acho tão patético, tão frágil, idiota. Quase o odeio! Repudio o amor que sinto por ele e evoco seus defeitos para justificar uma ruptura, para desejar tê-lo longe de mim.
Ser livre das amarras de nossos sentimentos e percorrer os ventos... livre! Sozinho, com o peito aberto, pronto para amar a qualquer um! Dedicar-me a incerteza do futuro e me deliciar com a imaginação de uma vida ativa, vívida, languida, longe dessa inercia, dessa lentidão!
Mas basta mirar seus olhos frágeis, seu corpo delicado, para que a dúvida me turve a imaginação e me faça pensar que, com ou sem liberdade, não há vida longe desse garoto. Como poderei edificar minha felicidade virando as costas para esse menino por quem tanto carinho sinto? Como posso ser feliz abandonando-o? Como viveria ele sem mim? Se ninguém mais o respeita e o ama como eu?
O que seria de Flavius sem mim? Mesmo com todos meus defeitos, minha falta de caráter, minhas explosões... ninguém nunca o olhou com os olhos que eu lhe dedico. Nenhum ser no mundo até hoje foi capaz de lhe compreender, de lhe respeitar. E ele, mesmo que tenha melhorado muito, ainda se mostra tão frágil, tão necessitado de alguém! Parece-me injusto deseja-lo longe de mim. Parece-me incoerente não amá-lo.
Sinto-me culpado por querer cuidar de mim. Por desejar ter um destino. Dedicar-me a dança, mudar de cidade, fazer cursos, apresentações, estar longe, sem rumo, sem chão! Claro que eu poderia leva-lo comigo. Chamá-lo para me acompanhar, mas teria o mesmo brilho? ... não sei... e mesmo se tivesse. Seria possível? Flavius tem a escola, sua tia. É um menino inocente, recolhido, pacato... conseguiria acompanhar meu ritmo, meu espirito aventureiro? Ou seria uma pedra no meu caminho? Uma criança para cuidar?
Ou pior... ele optaria por me acompanhar? Aceitaria abandonar tudo para vir comigo? Seria justo exigir isso dele? Meu coração se sobressalta. Angustia-me pensar nisso, na incerteza de que caminho seguir. Sinto uma corrente elétrica passar pelo meu corpo. Não posso ficar inerte. Ligo o som, preciso ensaiar mais! Deixar meu corpo expurgar os sentimentos inquietos dentro de minha alma. Que se dane o futuro, que se dane a calma. Hoje quero doer para poder dançar. Doer para ser arte. ”
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