Sang Real
1 Capítulo 1
A primeira lembrança de sua vida humana era o branco da neve. Um vasto campo que se estendia infinitamente, sobre o chão, sobre as copas das arvores, até mesmo sobre ela. Até mesmo dentro dela. Sua mente estava tão vazia de respostas quanto aquele lugar coberto pelos flocos gélidos.
A segunda lembrança era a que assombrara seu sono nas primeiras noites. Uma criatura de aparência humana, cujos caninos denunciavam a besta que era, e de olhos cor-de-sangue, olhos famintos. Olhos que queriam devorá-la, que macularam o branco de vermelho.
E Kaname, que transformara o mundo em muito mais do que o branco ou o vermelho.
Essas lembranças criaram a sua identidade humana. Yuuki sabia que seu aniversário – ou pelo menos o dia em que renasceu – estava chegando pelo prenúncio da neve. No dia em que o chão já estivesse coberto e uma fina neve caía, esse era o dia em que comemorava sua nova vida. E também era o dia que, sem falhas, veria Kaname.
O vermelho do sangue alimentava seus medos. Ele manchava as paredes de sua mente, ao mesmo tempo que lhe despertava uma atração fatal. A envolvia em um turbilhão de pensamentos e incertezas, como se, pouco a pouco, estivesse sendo tragada para as profundezas de sua alma.
Quando essas lembranças começaram a lhe parecer insuficientes, seu mundo voltou a ficar tingido com o mais sombrio escarlate. Como nos primeiros dias de sua existência mortal, a cor, o cheiro acre, a viscosidade daquele líqüido...
Pareciam reais demais, e sequer faziam parte de suas lembranças. Era algo mais antigo, antes do campo coberto de neve e do vampiro sedento...
Quando Kaname despertou-a de seu sonho humano, o vermelho não maculava mais a neve, mas seu corpo e alma.
E era o sangue de Kaname. Ela o sentia, em sua mente, correndo em suas veias. Aquele sangue a inebriava, tomava todos os seus sentidos, como se a única razão de ainda existir era para provar daquele néctar. Apreciar seu gosto, até a ultima gota sorvida e então, só então, após ter se deliciado com aquele sabor, engoli-lo, para que levasse aquele calor por todo seu corpo.
Ela ouvira dizer que para desenvolver laços sentimentais, os de sua espécie bebiam o sangue de outra pessoa. Mas seus sentimentos por Kaname eram claros desde... sempre. Aquele amor que lhe dava vertigens e que a incendiava quando seus olhares se cruzavam... Não, beber o sangue dele era sentir o prazer egoísta de ter os sentimentos que ele guardava por ela revelados, como se fosse capaz de ler seus pensamentos. Se fosse verdade, no entanto, era a maneira cruel dele dominá-la por completo. E por mais perverso que fosse aquele pensamento, não se importava.
Atravessar o longo corredor que a levaria até o quarto do irmão, abrir a porta e com um sorriso hesitante dizer-lhe que tinha sede, apenas para receber o sorriso terno e a mão de Kaname a puxando para si...
Eram os meios para saciar seu vício mais perverso:
Sentir-se, primeira e única, dele.
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