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1 único
Eu acordei com os gritos da minha mãe dizendo que não presto pra nada e, infelizmente, tive que concordar. Nesse dia eu teria que entregar à escola o meu teste de vocação e ela teve razão quando me chamou de delinquente, porque ainda não havia respondido nenhuma questão por não saber o que eu quero para o futuro. Eu estava fadado a fracassar ou, quem sabe, poderia ser um pescador? Não sei exatamente o que faz o mar ser interessante pra mim... talvez sejam as minhas lembranças de quando era criança, eu costumava passar na casa de veraneio do meu pai até ele arrumar outra família. Sim, eu sou uma desgraça.
Estava frio e ajeitei melhor o meu cachecol, depois busquei a bicicleta na garagem e fui até a escola. Naquela manhã já estava atrasado e, portanto, seria de bom grado se as ruas não mudassem de lugar como sempre acontecia. No entanto, demorei para achar a escola e quando eu cheguei, tive que ficar na detenção por ter perdido a primeira aula. Algo que achei redundante, não estaria perdendo outra aula dentro daquela sala?
Quando retornei, o sinal para o intervalo tocou, mas ainda encontrei meus amigos na classe, bem risonhos e felizes, como nunca vi... até eles não precisam de mim?
— Ah, Zoro! Pensei que dessa vez você não encontraria o caminho da escola. — Disse meu amigo Luffy e logo depois vi Usopp dando dinheiro a Nami, provavelmente haviam feito uma aposta se eu encontrava a escola ou não.
— Estava na detenção. — Respondi sem graça. — Do que estavam falando?
— Sabe o que é, Zoro?! — Usopp pousou com peso a sua mão no meu ombro. — Hoje é o aniversário de Sanji!!
Após ouvir isso, meus olhos miraram naquele loiro sobrancelhudo imbecil automaticamente. Sanji era o novato, mas que se enturmou com a turma facilmente. Fácil até demais, realmente ser loiro e ter olhos azuis é um privilégio — e eu ainda não conhecia todos da minha turma, ele até mesmo me culpou de mal humorado, dizendo que a tez da minha testa vivia enrugada, sempre me direcionando palavras que eu nunca ouvi. No entanto, meu grupo não se importava com a sua popularidade, na verdade eles viam algo em Sanji. Era certo que Luffy fazia amizade com qualquer um, mas quando vi até Nami cedendo aos seus charmes... Ou ele aos dela, Sanji era gado e Nami era bonita, então Nami ganhou um escravo.
— E o que tem isso? — Disse e o vi fuzilando meus olhos. Pra ser sincero, era legal provocar aquele idiota privilegiado de beleza e bons costumes. Aposto que era a mãe dele quem lustrava seus sapatos sempre tão brilhantes. Engomadinho.
— Nós decidimos sair logo depois da aula! Tamo querendo ir no churrasco aqui do lado! — Luffy me respondeu e logo depois começou a babar.
— Com que dinheiro?
— Cada um paga a sua parte, você tá zerado?
— Com Nami extorquindo o meu dinheiro o tempo todo, fica difícil.
Nami pôs as mãos na cintura e já estava certa de dizer algo, mas Sanji se meteu: — Não fale assim da Nami-san!!
Eu tive uma grande vontade de lhe dar uma porrada porque ele não sabia o quanto eu trabalhava pra ter a minha grana, mas passei a correr pra porta da sala e só ouvi Luffy dizer "acho que ele vai passar o intervalo lá fora". Meus próprios amigos não me conheciam... não sabiam a vida miserável que eu tinha e voltei a lembrar do teste de vocação. O que eu serei no futuro? Não tinha tempo para brincar como eles.
— Nossa, a tez da sua testa está terrível hoje.
Olhei pra trás e me encontrei com Sanji, ele me observava com as mãos no bolso. Estávamos no terraço da escola e eu me escorava no parapeito — até cogitei a ideia de me jogar dali. — O que você quer?
Ele ficou um tempo quieto e se aproximou até parar ao meu lado, depois retirou um maço do bolso e pegou um cigarro. Eu não disse nada, apesar de nunca ter pensado em vê-lo fumando algum dia. — Se importa? — Ele quis saber se o cheiro me incomodaria.
— Não.
Ficamos em silêncio, até ele resolver quebrá-lo. — Você me parece estar passando por uma barra... estou enganado?
— Ah... é só o teste de vocação... no nosso grupo parece que ninguém tá tendo dor de cabeça com isso, só eu tô perdido...
Ele assoprou uma fumaça. — Sério? Você me aparenta saber o que fazer.
Eu ri. — Tá querendo bancar o cara legal comigo, sobrancelhas?
— Claro que não, marimo. Só faço isso com as das damas.
— Então, por que está aqui?
— Ué, não é obvio? — Eu pisquei os olhos sem entender e ele continuou: — Porque somos amigos.
Meus olhos se abriram. — Ham? Isso é papo pra boi dormir, a gente não consegue ficar 1 segundo sem trocar farpas!
— Bem... — Ele olhou o seu relógio de pulso, suspendendo um pouco a manga de seu casaco — Já passou mais de um segundo e ainda não me sinto furioso o suficiente pra te jogar daqui de cima.
Eu comecei a rir. — Seria um favor se você fizesse isso.
Mas Sanji se espantou com o que ouviu, o frio outonal ficou de repente mais frio e eu percebi que havia deixado minhas luvas no armário. No entanto, só nesse momento que reparei também que ele tremia de frio, os cabelos esvoaçavam com o vento cortante e suas mãos desnudas tremiam sobre o parapeito. Talvez ter dito sem querer o que havia de mais frágil em mim fez com que eu o enxergasse como uma pessoa qualquer. E eu pensei que com ele aconteceu o mesmo, agora era a tez da sua testa que enrugava e no seu olhar havia preocupação.
— Me dê suas mãos. — Eu disse e ele se assustou, mas me deu as mãos sem perguntar por quê.
Eu simplesmente as coloquei dentro do meu casaco. — Será que posso colocar as minhas no seu? — Ele fez que "sim" com a cabeça, mas desviando o olhar, sua pele estava vermelha. — Sou muito feio pra você não me encarar?
Ele voltou a olhar pra mim, dessa vez bravo. — Não é isso, marimo idiota! Mas é porque... somos dois homens.
— E daí? Ninguém tá vendo e, puxa!, como minhas mãos estão mais quentinhas!
— Idiota, para de gritar! Alguém vai nos ouvir!
Comecei a rir. — Está me dizendo que não confia na sua masculinidade que tanto se orgulha?
— Que eu me orgulho? — Ele de repente ficou triste. — É... é isso que meu pai cobra de mim quando vou lustrar meus sapatos... — De repente fez um movimento pra trás. — É, sabia que essa conversa não chegaria a lugar algum...
Eu imediatamente recoloquei as mãos de Sanji no meu casaco. — Não, não vai embora... desculpa, eu não sabia...
Ele respirou fundo, rendido. — Meu pai me acha muito sensível, ele gosta de tipos como você...
— Como "eu"? — Dai me lembrei da minha mãe gritando nos meus ouvidos. — Hahaha, minha mãe me odeia! — Sanji já não se importava de eu fazer barulho e eu achei que muito menos de sermos pegos, seu rosto continuava vermelho e eu senti suas mãos apertarem mais firme o meu corpo. — Como sabe que sou gay?
— Eu não sabia. — Ele respondeu com os olhos fixos no meu.
Dei um sorriso de lado e resolvi me aproximar, Sanji chorava quando lhe dei um beijo naquela manhã fria de outono.
— Feliz aniversário, sobrancelhas... — Lhe fiz um carinho no rosto e lhe dei outro beijo.
Continuei não sabendo o que ser no futuro, mas o presente não estava tão ruim como eu pensava.
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