Notas iniciais
Primeiro capítulo que narra a trajetória de vida de uma psicopata.

Londres, 17 de agosto de 2012.


Era uma sala com paredes pintadas em tons acinzentados, não tinha mais do que quatro por quatro metros, em um dos cantos do teto havia mofo, noutro canto havia uma câmera, no centro da sala havia uma mesa triangular de metal e uma cadeira de cada lado. Na parede norte havia um espelho, atrás dele com certeza havia alguém observando, era uma típica sala de interrogatórios, daquelas que se vê em filmes. Samira fora colocada lá por dois policiais, estava algemada com as mãos para frente e apoiadas na mesa. Seu cabelo negro, como a noite sem lua, estava bagunçado como quem acorda de manhã, mas sua face não apresentava sinais de sono. Sua pele era clara, os olhos, de um azul profundo que se destacava em contraste com a negritude de sua sobrancelha e cabelo. Não ­havia maquiagem em seu rosto. Trajava uma calça capri de malha, uma camisa branca simples e nos pés um par de sapatilhas pretas. Estava ali há cerca de dez minutos e ninguém aparecera.

"Já estou pronta" pensou, na certeza de que alguém do outro lado do espelho estivesse observando. Ela estava certa, do outro lado da sala estavam quatro pessoas a observa-la. O delegado Michael Russel, um homem de cerca de 50 anos com os cabelos já grisalhos e uma barba por fazer. Peter Allen, o inspetor de polícia que acompanhou e desvendou todo o caso, tinha cerca de trinta e quatro anos, tinha feições japonesas. Simon Chapman, um psicólogo calvo e gordo. E por fim, Lara Palmer, uma policial que valia por dois homens, era bela e tinha trinta e seis anos, tinha há pouco se divorciado por conta seu engajamento exacerbado na carreira. Michael se levantou, trocou um olhar com Lara e disse aos outros companheiros presentes.

– Estou indo lá, vamos tentar tirar algo dela.

– Cuidado com ela, – Advertiu Lara – ela domina as palavras e consegue tirar as suas antes que perceba. É uma das pessoas mais calculistas que já vi.

– Já estou sabendo disso, temos uma ficha repleta de adjetivos inacreditáveis. – Dizendo isso, Michael virou-se e saiu.

Parou diante da porta que ligava à sala onde Samira se encontrava e respirou fundo e entrou. Samira olhava para a porta e logo que ele abriu a porta, seus olhares se encontraram, os olhos dela eram bastante penetrantes e transmitiam segurança, ela não parecia nervosa, muito menos com medo. Um frio gélido percorreu o corpo do delegado, ele não imaginava que uma mulher tão linda seria capaz de fazer tudo aquilo que estava descrito na sua ficha. Esforçou-se para não parecer surpreso com sua beleza, nunca antes ele estivera tão perto dela. Sentou-se à mesa, exatamente, de frente para Samira. Os olhos de Samira o acompanharam até que ele se sentou.

– Samira Fisher Cox, sou o delegado Michael Russel, estou aqui para esclarecer algumas dúvidas. Vejamos... Oito homicídios, duas tentativas de homicídio, tortura, sequestro e cárcere privado. Esse sãos crimes pelos quais você está sendo acusada, foram encontrados vestígios de sangue no seu apartamento, equipamento cirúrgico com suas digitais e outros abjetos com manchas de sangue , como: Machadinhas, alicates, talheres e outros. — Respirou fundo — Como você avalia a aparição desses objetos no seu apartamento? — levantou os olhos do papel que tinha à mão e olhou para a mulher.

Samira olhava para algum lugar distante, não estava mais encarando o delegado. Michael esperou por cerca de trinta segundos e percebeu que não haveria resposta. Entendendo isso, avançou em fazer mais uma pergunta.

– Poderia descrever como era o seu casamento com Luke Marshall? Poderia também descrever como eram suas rotinas?

Samira continuava olhando para longe. Parecia ficar mais bela a cada segundo aos olhos de Michael. Do outro lado do espelho, estavam todos apreensivos. Novamente, nenhuma resposta foi ouvida. O delegado jogou a papelada com acusações e provas em cima da mesa e disse.

– Temos aqui muita coisa para te incriminar, você pode ajudar a aliviar a barra para o seu lado, é só nos ajudar. Claro que não tem obrigação de nos dizer nada, mas gostaríamos que usasse um pouco a razão aqui neste momento.

Mais um silêncio inquebrável de Samira foi a resposta ao delegado. Michael estava acostumado a lidar com esse tipo de gente. Estudou a expressão de Samira por um segundo e, sem segundas intenções, olhou na direção que Samira olhava. Ao lado da porta havia uma pequena placa que dizia "Você tem o direito de permanecer em silêncio; tudo o que você disser poderá e deverá ser usado contra você no tribunal. Você tem o direito de ter um advogado presente durante qualquer interrogatório. Se você não puder pagar um advogado, um defensor lhe será indicado."

– Então é isso? – Indagou Michael – Quer um advogado? – Voltou os olhos para Samira que, para sua surpresa, agora olhava fundo nos olhos dele. Samira permaneceu em silêncio.

– Você é realmente boa com jogos, não é? Tudo bem, vamos continuar com isso mais tarde. — Michael levantou-se e foi em direção à porta, quando sua mão tocou a maçaneta uma voz irrompeu o silêncio.

– Quero meu advogado.

Michael sentiu o mesmo frio de antes. Olhou para Samira e disse.

– Retomaremos essa conversa quando ele estiver aqui. – Dizendo isto, saiu.

Poucos segundos depois, dois policiais se encarregaram de levar Samira de volta para a cela que estava.

***


Londres, 1985

Era uma tarde fria dos típicos invernos europeus, situada em área campestre, estava situada a mansão dos Ryan's. O principal membro dessa família Mikhail Ryan, era um verdadeiro magnata no ramo de imóveis, possuía a sua própria corretora e contava com uma vasta equipe de funcionários que ocupavam dois andares em um prédio comercial no centro de Londres. Ele era conservador, por isso viviamos em uma área mais isolada da cidade com a família, ele estava na casa dos cinquenta anos e dispunha de um corpo ainda atlético, seus cabelos estava ligeiramente grisalhos e o cenho apresentava rugas que lhe davam um ar mais rígido. Repousava em sua cadeira no seu escritório particular, situado em nossa própria residência, era uma sala em formato de hexágono, ladeada por vastas estantes abarrotadas de livros de todos os gêneros. A porta que ficava literalmente à sua frente estava aberta e por ela entrava uma melodia suave. Na sala ao lado estavam suas filhas favoritas Emma e Dora, eram gêmeas, ambas com treze anos, elas davam muito orgulho para os pais. Emma tocava piano, e Dora tocava violino, elas eram ensinadas por sua mãe, Dana, uma professora de música que parara de exercer o seu cargo ao se casar aos 27 anos com Mikhail. Dana regia as filhas.

– Um, dois, três, quatro – repetia ela, sucessivamente – foquem no compasso.

– Dê-nos alguns minutos para descansar, mãe – pediu Dora — Meus dedos doem.

– Claro, perdoe-me – desculpou-se – Meia hora e voltamos por mais uma hora.

Dana dirigiu-se para o escritório do seu marido.

– Querido, sabe que não deve trabalhar tanto, aproveite esses momentos em casa.

– Mas... – Mikhail hesitou – Tudo bem. Quais são os planos?

– Vou precisar de mais algum tempo com as meninas, vou terminar de aperfeiçoar a noção de tempo delas, elas são dois prodígios. – Gabou-se – E então faremos alguma coisa para dois. Quem sabe ir ao parque? Podemos deixar as crianças com a Marian.

Marian era a governanta da casa, tinha seus sessenta e poucos anos, foi babá de Dana durante sua infância, tinha por ela um amor de filha, mas não deixava de chamar Dana de Senhora. Marian dedicava-se às meninas tanto quanto Dana e se sentia feliz por trabalhar com uma família tão íntegra, exceto por... — Neste momento entrou correndo pela sala uma criança, Samira, portava um coelho morto em mãos e cintilava de alegria, estava totalmente imunda, mas isso lhe fazia bem, sempre que podia, brincava no jardim. Sua mãe não conteve a ira.

– Samira! – Gritou, perplexa com o que via – O que significa isto?

– Não é lindo, mamãe? – dizia Samira, com a maior naturalidade – Quero deixá-lo no meu quarto.

– Eu não... Eu não consigo ligar com isso — disse entre soluços para seu marido — Seja pai.

A expressão séria do seu pai fez com que ela, uma criança de nove anos, percebece que fizera algo que não devia, na realidade sabia que estava errada.

– Vai me bater papai? — Perguntou com voz chorosa.

– De que me adiantaria — Disse ao que as palavras pareciam irromper por sua boca sem seu concentimento — Não há mais com o que gastar com você, terapias, aulas de arte, e você só vem nos decepicionando, Samira. Você devia se espelhar em Emma e Dora, verdadeiros prodigíos na música, enchem-me de orgulho, na sua idade elas já faziam apresentações escolares e recebiam aplausos, enquanto você recebe advertências. — A voz de Mikhail desceu uma oitava — Jogue este bixo fora, e procure Marian, ela vai cuidar de te higienizar, sabe lá que doença ele pode ter.
Samira tentou persuadí-lo, mas foi em vão, seu pai era autoritário e jamais voltava atrás com suas palavras, apesar disso, nunca conseguira fazer com que Samira o obedecesse por completo, ela sempre distorcia suas palavras para fazer coisas erradas e culpar os pais por não terem dado um aviso claro. Assim, aquele fim de semana passou, tão depressa quanto qualquer um outro porque os pais de Samira estavam sempre impondo obrigações e deveres às suas filhas, aulas de costura, francês e música.
Mikhail amava suas filhas, até mesmo Samira, apesar de seu comportamento animalesco, mas ainda tinha esperanças de ter um filho homem, que herdasse seu império e o substituísse nos negócios.


– Acordem minhas queridas — Dizia Dana à Emma e Dora, já era segunda – O café já está na mesa, vocês não podem se atrasar, esperaram tanto por esse dia!

Hoje, a escola que as meninas frequentavem iria fazer uma excursão com os alunos da sétima série, Dora e Emma esperaram ansiosas por esta excursão. Iriam visitar uma fábrica de chocolates. A ideia deixava as pequenas garotas à todo vapor, afinal, eram crianças, e como qualquer outra criança, amavam guloseimas. Não demorou muito para que estivessem prontas, estavam descendo as escadas às pressas para irem logo para o carro. Na sala de estar Dana estava aos berros com Samira que queria, a todo custo, ir junto com as irmãs à excursão.

– Não, Samira, essa viagem não é pra crianças da quarta série, mas para crianças da sétima — berrava Dana.

– Mas eu quero ir! — retrucava Samira — Se eu não for à viagem, também não vou à escola.

– Pois então fique.

Dana sabia que aquela discursão não levaria a lugar algum, Samira era teimosa e não pararia enquanto não tivesse o que queria, então, por medo de que Samira aprontasse qualquer coisa, Dana preferiu que ela ficasse em casa.

O motorista da família já estava no portão da frente, esperando pelas garotas. Dana despediu-se de Dora e Emma com um beijo na testa de cada uma e desejou-lhes uma boa viagem. As meninas mal ouviram o que a mãe disse e já estavam praticamente dentro do carro. Uma hora depois da saída das meninas, Mikhail saiu em seu carro para trabalhar, estava de bom humor e despediu-se de Dana da mesma maneira que ela despediu-se das meninas, com um beijo na testa. Agora a casa estaria em silêncio e Dana cuidaria da casa junto à Marian se não fosse a presença de Samira, que incomodou à todos os empregados durante toda a manhã. Samira corria, quebrava coisa. Era totalmente imprudente e inconsequente, brincava sempre de atirar balões d'água do segundo andar da casa, no jardineiro que trabalhava logo abaixo. Já estava preparada para arremessar um balão da janela do seu quarto quando a mãe irrompeu porta adentro.

– Não se atreva, Samira.

Samira abriu a mão e o balão caiu, por sorte, com o grito de Dana o jardineiro olhou pra cima e conseguiu desviar do balão d'água.

– Ops, caiu, mamãe — choramingou a criança como se fosse inocente.

– Samira, eu não aguento mais suas atitudes desrespeitosas com todas as pessoas que entram nessa casa – Dana falava com muita raiva — Não posso nem trazer convidados aqui sem que você me envergonhe. Você vai fazer mais sessões de terapia a partir da próxima semana, e passará as tardes numa escola de artes, vamos ver se você vai gostar de pintar o sete por lá.

Então Dana lembrou de um fato. Certa vez, convidara alguns membros do conselho educacional para debater assuntos referentes à festa de caridade, que a corretora de seu marido custearia. Estavam em cinco membros do conselho, sendo apenas um homem. Emma e Dora tocaram uma bela canção, receberam e aplausos e elogios e logo se ausentaram para que os adultos tratassem dos assuntos de adultos. Antes que começassem, Samira chegou toda sorrisos e disse que também tinha uma canção, todos se compadeceram e queriam ouví-la, Samira soltou um pum e disse: Apreciem. E saiu correndo. Dana ficou mortificada de tanta vergonha, pediu desculpas várias vezes. Samira ficou de castigo por um mês depois do ocorrido.

Nesse momento Marian interrompeu os pensamentos Dana.

– Senhora, telefonema para você.

– Do que se trata?

– Não sei, mas disseram que era urgente.

Dana desceu as escadas, com certeza era mais uma ligação do departamento de artes que pedia a volta de Dana às salas de aula para ensinar música. Eles ligavam de ano em ano e diziam que era urgente. – Dana pegou o telefone com brutalidade.

–Alô ... Sim, Dana Ryan. — O semblante encrespou-se — Como é? Minhas filh... — Nesse momento Dana desmaiou e foi amparada por Marian. Samira ouviu Marian pedindo ajuda e desceu logo para ver o que era. Dana já estava cercada e empregados que lhe acudiam. Um deles já dispunha de um copo de água, que devia conter algum calmante, Samira nunca soube. Dana estava aos prantos e só gritava "Não, não, não...". Marian avistou Samira estatalada na escada e tratou de ir falar com ela, Marian levou Samira até o quar e sentou-a na cama.

– O que aconteceu? — Perguntou Samira.

– Samira, aconteceu uma coisa um pouco desgradável... — Marian escolheu as melhores palavras para contar — O ônibus que levava suas irmãs sofreu um pequeno acidente, Emma e Dora estão no hospital, mas não se preocupe, vai ficar tudo bem, elas logo estarão aqui tocando sua melodias maravilhosas que alegram nossos dias.

Samira estudou a expressão esperançosa de Marian por alguns segundos e logo soltou.

– Que bom que eu não estava lá, ficar em casa foi uma boa escolha mesmo, deixei de morrer – Samira levantou e saiu cantarolando.
Marian sabia que samira não tinha modos, mas nunca esperou que ela não tivesse sentimentos, ficou completamente chocada com a reação de Samira. Logo que se recompôs decidiu descer e ver como estava as coisas com Dana. Desceu as escadas e encontrou Dana já saindo pela porta.

– Onde vai, minha senhora?

– Não vou ficar aqui enquanto minhas filhas sofrem num hospital.
Sem dizer mais nenhuma palavra, apressou-se em sair e entrar no carro que partiu com toda velocidade ao hospital.

Desde casada, Dana colocou a família em primeiro lugar, assim como sua mãe lhe ensinara. Ela se dedicava totalmente ao lar mesmo tendo tantos empregados, suas filhas eram suas prioridades, fazia de tudo para satisfazer seus desejos e lhes dar uma vida boa. Sua dedicação a Mikhail não poderia ser comparada à dedicação que tinha para com as meninas, mesmo assim, ela era uma boa esposa, satisfazia os desejos do seu marido, o fazia feliz. Mikhail também sentia-se sortudo por tê-la ao seu lado, nunca, realmente, soube o porquê de Dana se encantar por ele. Logo de princípio, ele imaginava que fosse por puro interesse, mas ao conhecê-la melhor, percebeu que não seria esse o motivo, ela era carinhosa, verdadeira e atenciosa, de qualquer forma, se fosse apenas fingimento, ela fazia muito bem. De mais a mais eles eram felizes um com ou outro.
Enquanto se dirigia para o hospital, Dana ligou para o escritório do marido, ele estava em reunião e a ligação foi recebida por sua secretária, uma jovem moça que sempre soava irônica ao telefone. Dana estava com o pavio curto e tratou a moça com toda a ignorância que nunca revelou. Fez parecer urgente, e realmente era. Por fim, conseguiu fazer com que ela chamasse seu marido em meio à reunião, ao atender, Mikhail já sabia que era algo ruim, pois Dana nunca ligava para ele em seu horário de serviço.

– O que aconteceu, meu bem? — Perguntou ele.

A secretária olhava atentamente para Mikhail como se pudesse ouvir o que era falado do outro da linha, logo percebeu a expressão de seu chefe ficar completamente distorcida, ela soltava "Ahs" e "Ohs", parecia procurar palavras pra dizer qualquer coisa, mas as palavras lhe fugiram. Em pouco mais de um minuto no telefone ele desligou e pediu à secretária que dispensasse todos os executivos da sala de reunião e que pedisse desculpas por tamanho transtorno. Assim que o o elevador chegou ao andar que ele estava, ele entrou e apertou logo um botão, o elevador desseu na mesma pressa que ele. Chegando lá em baixo, correu para o carro e dirigiu-se para o hospital. O trânsito estava bom, não era horário de pico e ele levou no máximo sete minutos para chegar ao seu destino. Encontrou Dana logo no saguão principal, ela estava aos prantos.

– O que disseram os médicos? — Perguntou ele

– É grave, as duas. Emma está com insuficiência respiratória e corre risco de uma hemorragia interna. E Dora... — soluçou — já está em coma.

– Acalme-se, querida. Vai ficar tudo bem, sei que vai, sempre fica.

Ali ficaram os dois, de prontidão, aguradando notícias. E enquanto isso, Samira estava em casa, no jardim, especificamente, colhia flores e parecia uma menina muito dócil. Marian a observava de longe e ponderou sobre seus pensamentos a respeito da criança. Talvez ela não tivesse falado aquelas coisas terríveis por mal. Tinha apenas nove anos, talvvez não soubesse o real sentido da morte porque nunca ocorrera com alguém por perto. Marian se aproximou.

– Sua mãe ligou, Samira.

Samira levantou os olhos das flores e olhou para Marian que estava ao seu lado. Ignorou completamente as palavras de Marian e apressou-se em perguntar

– Flores amarelas, ou violetas?

– Amarelas, pequenina... Preparando flores para receber suas irmãs? Tenho certeza que elas vão amar. — Sorriu getilmente.

– Não, não, Marian. – retrucou – Essas aqui são para a coroa de flores... Aquelas que ficam em cima do caixão. – soltou uma gargalhada maliciosa e saiu correndo com as flores na mão.

Marian demorou muito para digerir aquela frase de Samira, realmente, acreditava que ela não tinha mais salvação. Aquele foi o estopim para o fim da paciência que Marian tinha com Samira, decidiu que a partir dali não lhe faria vontades, trataria a garota à rédea curta.

As palavras de Samira não estavam erradas, depois de um mês no hospital Dora veio a falecer. Dana ficou péssima, assim como Mikhail e todos que a conheciam. O velório aconteceu na casa deles, receberam muitas pessoas, pessoas que nem mesmo se lembravam de um dia ter conhecido, era evidente a tristeza estampada nos rostos de todos, Samira não dera as caras durante o velório todo. Os pais preferiram não contar à Emma sobre a morte de sua irmã, temiam que ela piorasse. Sempre que Emma perguntava sobre o estado da irmã, sua mãe dizia " Está melhor ". No fundo, ela acreditava que Emma sabia o que realmente se passava. Sua vida resumia-se em ficar no hospital, cuidando de Emma. Samira sentia-se excluída e passou a odiar mais ainda a irmã, e desejava sua morte. Seu pai era um homem de negócios e passava pouco tempo em casa, e o resto de tempo que tinha, passava no hospital com sua esposa e filha. Samira ficou totalmente sobre os cuidados de Marian, isso durou cerca de três meses. Samira mal via os seus pais, seu rendimento na escola, que já era ruim, caiu brutalmente. Ela pouco se importava, passava a maior parte do tempo desenhando e aprontando. Mas antes de completar três meses de internação, Emma teve uma infecção generalizada e veio a falecer. Sua mãe ficou inconsolável, não aguentou sequer comparececr ao velório, que desta vez foi numa capela. O pai, estava triste mas só chorava quando ninguém estava olhando. Samira agora era filha única e pensou que finalmente teria toda a atenção de seus pais. Mas não aconteceu. Dana se culpava por ter deixado suas filhas irem àquela viagem. Tentou processar o colégio, mas foi provado que o motorista do ônibus escolar estava correto, e que o motorista do caminhão que colidiu com ele era o verdadeiro culpado por estar embriagado, e já estava preso. Dana e Mikhail receberam uma indenização, mas pouco ligavam pra isso, dinheiro não lhes faltava. Dana adoeceu, entrou em depressão, passava a maior parte do tempo chorosa, tinha perdido praticamente todas as suas reações, não cuidava da casa, não cuidava de si mesma. Foi levada à força ao médico que lhe prescreveu uma medicaçõ forte para que pudesse se recuperar. Assim estava a vida de Samira, uma bagunça.

Em uma quinta-feira, Samira foi acordada por Marian, que tinnha sido sua mãe nos últimos tempos, se arrumou para ir à escola e desceu para o café. Ao chegar lá embaixo, para sua surpresa, não viu sua mãe, ela sempre chegava primeiro para o café, mesmo depois da morte de suas filhas, até porque mal dormia, passava maior parte das noites chorando. Em seguida seu pai chegou para o café.

– Onde está a mamãe? — Perguntou ao seu pai.

– Esta noite ela decidiu dar um chance ao sono, está dormindo, gostaria que ninguém interrompesse, ela precisa descansar, tem passado muito tempo se preocupando, – Tomou um gole de café – ela agora está, com certeza, se recuperando.

Nenhuma outra palavra foi dita naquele café da manhã, assim que terminou, Mikhail saiu em seu carro pessoal. Samira foi levada pelo motorista particular. Ainda sentia a diferença de ser levada sozinha à escola, não tinha mais que dividir espaço com suas irmãs. De todos na família, Samira foi a que menos sentiu falta das irmãs, passava horas remexendo os armários delas à procura de maquiagens, roupas e morria de rir quando encontrava algum sutiã. Por vezes foi interceptada por Marian.
Mais um dia entediante na escola se passou para Samira. As aulas eram sempre entediantes, todas, ela debochava da cara dos professores, sempre recebia advertências e seu pai comparecia com frequência na escola. Ela voltava pra casa, já era quase verão, ela estava extasiada com o verde das árvores, lembrou-se das últimas férias de verão que passou na Espanha com sua família, e ficava irritada ao mesmo tempo, porque tinha certeza de que pelo estado emocional de sua mãe, não iria viajar sequer para outro bairro. Então, por um instante, desejou que suas irmãs não tivessem morrido, mas logo lembrou que, mais cedo ou mais tarde, ela seria o centro das atenções de seu pai e sua mãe. Não havia a mínima possibilidade de sua mãe chorar pra sempre, ela pensava. Então, chegou em casa. Logo que desceu do carro, Marian Advertiu.

– Sua mãe ainda está dormindo, não faça muito barulho .

– Marian, eu nunca faço barulhos, – retrucou em tom de deboche – sempre estou quieta, e além do mais, estou de luto.
– Não brinque com essas coisas, Samira!

– Não me lembre deste tormento, oh — Samira se jogou no chão e fingiu um desmaio, logo que pôde, levantou e saiu correndo. Já entrou em casa gritando — Quero comer!!!!

Marian chegou atrás, carregando a mochila de Samira.

– Disse para você não gritar, Samira. Por favor, respeite sua mãe.
Samira fez logo silêncio, não porque Marian pediu, mas porque avistou a mesa de refeições. Fartura. E ela nem tinha que disputar o melhor pedaço de carne. Samira comeu até não poder mais.

Eram quatro da tarde, Marian achou que Dana já dormira muito, e achou por bem acordá-la para dar-lhe pelo menos um chá. Foi à cozinha, preparou um chá com biscoitos e subiu as escadas. Bateu à porta do quarto de Dana.

– Dana!? Trouxe um chá e uns biscoitos, aqueles de leite que você adora – disse com a voz suave. Não houve resposta – Senhora?
Marian abriu um pouco a porta e viu Dana caída no chão, deixou cair a banjeija que levava nas mãos, apressou-se em acudí-la, não muito longe de onde ela estava caída, Marian encontrou uma caixa vazia de Escitalopram, um dos antidepressivos que faziam parte do tratamento de Dana. Marian ficou perplexa com o que via. Logo que recuperou um pouco a razão, checou o pulso de Dana, era fraco, mas ainda tinha batimentos.

– Senhora!!! — Marian sacudia Dana, mas não obtinha resposta. — Senhora!? – Começou a gritar — Alguém me ajuda, ajuda!!

Logo, o jardineiro que estava na cozinha chegou ao quarto, Marian reportou à ele o que sabia e ele foi chamar uma ambulância. Nesse tempo, Samira chegou ao quarto.

– A mamãe também morreu? – Perguntou da porta.

Marian já estava saturada da garota, não aguentava mais ouvir a voz dela. Marian só estava trabalhando na casa ainda por causa de Dana, gostava delacomo uma filha, mas agora que sentia um repúdio à criança, achou que ela devia ouvir umas verdades bem duras para que pudesse ter um pouco de decência.

– Ela não morreu, ela foi assassinada... Você a matou sua pirralha! – Marian fervia em raiva – Se você desse a ela um mínimo de orgulho, ela ainda teria um motivo para viver. Mas você é o pesadelo de qualquer pessoa. Você é um monstro.

Samira começou a chorar e correu para seu quarto, trancou a porta, sentou no chão, então começou a rir. Ria como se alguém estivesse lhe fazendo cócegas. Por ali ficou o resto do dia, pintando em seus cadernos de desenho como sempre fazia.

Dana foi levada ao hospital. Mikhail chegou uma hora depois, Marian havia ligado e dado a notícia. Havia horas que ele tinha chegado no saguão e que ninguém lhe dava notícias, e Marian não contou que foi um tentativa de suicídio. Após cerca de quatro horas, foi abordado por um médico legista.

– Mikahail Ryan!?

– Sim, sou eu — Disse meio desorientado.

– Eu lamento muito tudo que aconteceu. E... – Foi interrompido.

– Ela morreu?

– Foi... suicídio.

– Não, não. Ela não faria isso. Ela... – ficou sem palavras.

– Foi encontrada uma caixa de antidepressivos ao lado da cama dela, nós fizemos todos os exames, fizemos a autopsia e foi comprovado que o causador da sua morte foi o remédio. Não é o primeiro caso de superdose que vemos aqui. O remédio em excesso, agiu como veneno causando convulsões, taquicardias, arritmias, depressão respiratória. Todos esses fatores juntos acabaram por levá-la à morte, eu realmente lamento.

– Eu já enterrei duas filhas, está me dizendo que vou enterrar minha esposa também?

– Ela já chegou em est... – foi interrompido pelos gritos de Mikhail.

– É pra cá que vêm as pessoas para serem curadas e morrem – Gritava para todos no saguão – Minhas duas filhas e minha esposa vieram pra cá e morreram! Será que se eu pegar um gripe aqui, morro também?

– Senhor, por favor, está causando tumulto – Advertiu o médico.

– As pessoas sabem que estão entrando pra morrer aqui?

Com um surto de emoções Mikhail derrubou um filtro de água, saiu quebrando tudo que via pela frente. Pegava uma cadeira para jogar em qualquer canto quando foi detido por dois guardas. Foi conduzido à uma sala separada no hospital onde, ofereceram-lhe calmantes que ele rejeitou, depois o diretor do hospital prestou solidariedade ao homem e quando tinha certeza que ele estava calmo, o liberou para ir embora.

O velório de Dana foi reservado, apenas para parentes e amigos mais próximos, foi realizado em Windsor, cidade natal de Dana e que fica à sudoeste de Londres. Mikhail, Samira e Marian foram juntos. Houve uma pequena pregação da parte de um pastor e todos oraram por alguns minutos. Quando já estavam voltando para o carro Marian pediu um minuto para falar com Mikhail. Samira já estava no carro.

– Bom, sei que esse não é um bom momento para tratar deste assunto, – Falava Marian – mas é o momento que posso. Trabalhei em sua casa durante muito tempo e realmente amava aquele lugar, mas não vou conseguir trabalhar lá todos os dias e me lembrar da pequena Dana. Eu cuidei dela desde que ela era uma garotinha, e agora ela se foi. É como perder uma filha. Vou ficar aqui em Windsor, tenho uma irmã que mora aqui e já se propôs a me acolher.

– Tudo bem – Disse desanimado – Você tem todo direito. Mas sempre que quiser, pode voltar, estaremos de portas abertas, Marian. Não deixe de nos visitar.

– Claro, visitarei. – Disse com um meio sorriso — Foi um grnade prazer estar com você. – Virou-se e foi embora.

Só depois de entrar no carro que Mikhail percebeu que Marian não se despediu de Samira. Olhou pelo retrovisor e viu Samira sentada no banco de trás, ela olhou diretamente para o pai, tambpem pelo retrovisor, ele quebrou o silêncio.

– Somos eu e você.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.