Salvo Como Rascunho
1 Rascunho
“Eu te amo, mas não deixo você me destruir”
Crazy – Madonna.
Eu olhava para ele.
A luz era roxa e o lugar era muito quente.
Eu já o conhecia, de outras festas, já havíamos inclusive nos beijado várias vezes em outras festas, mas dessa vez era diferente, ele tinha vindo comigo. Já havíamos nos encontrado em várias festas, porém aquela era primeira que a gente ia juntos.
Nós não nos dávamos muito bem fora das festas, o tempo que passávamos juntos era sempre meio embaraçoso sabe, sempre tinha algo que provocava desconforto, não entre nós, não era um desconforto que nos deixava mal um com o outro, mas sempre tinha algo, ou alguém, no meio que nos deixava mal, mas não ali, não nas festas. Quando estávamos juntos em festas era tudo perfeito… Eramos um tipo de casal que só dava certo nas baladas. Éramos o tipo de pessoa que só consegue ficar bem em baladas.
Que tipo de gente que só consegue ficar bem em baladas? Estávamos fadados ao fracasso desde o começo…
Mas não naquela noite, aquele foi o carnaval mais lindo da minha vida!
Ela também estava lá comigo, minha amiga mais antiga, nos conhecemos desde o ensino fundamental, somos irmãs de alma. Eu estava muito feliz! Eu tinha ele ao meu lado e eu sabia que o que tínhamos era real, eu nunca duvidei, embora ele tenha duvidado do que senti por ele, eu nunca o fiz.
Tudo o que tínhamos usando estava começando a bater.
Lembro-me como se fosse hoje, eu fecho os olhos consigo sentir ele tocando a minha pele. Sues lábios encostados nos meus e eu sentindo que não estava sozinha.
Eu havia me sentido muito sozinha depois do fim do meu casamento. Fazia dois anos que não me envolvia com ninguém. Claro, eu transava, mas não me relacionava com ninguém emocionalmente a mais de dois anos. Não da maneira que ele conseguiu.
Ele conseguia olhar minha alma pelos meus olhos, coisa que eu não permitia que ninguém fizesse a muito tempo, mas ele conseguia. Mesmo antes de eu desistir de tentar me proteger, ele já conseguia penetrar todas as minhas defesas.
Eu sempre fui muito impulsiva sabe? Mesmo jovem, eu já tinha um casamento fracassado no meu passado e um amor que cometeu suicídio, então eu aprendi, desde cedo, a me proteger de tudo o que pudesse me fazer mal. Alguns mais pessimistas que eu diriam que eu “me fechei para o amor”, o que não é verdade! Eu sempre me permiti viver o amor com todas as suas facetas, todos os seus traumas e seus pesares, assim como eu sempre quis e procurei viver o melhor, o melhor do companheirismo, o melhor do sexo, o melhor do sentimento.
Eu o amava muito, eu o amava mesmo, porém desde o começo eu sentia. Sempre houve entre nós uma barreira, que foi justamente o que aconteceu naquela noite, foi o primeiro sinal claro que eu essa barreira sempre existiu entre nós.
Eu volto ao momento em que lembro dele me beijando. Meus olhos fechados, porém eu conseguia sentir a cálida luz vermelha do segundo andar da balada, o tal “inferninho” que era a nossa parte favorita da balada, passando pelas minhas pálpebras.
Eu conseguia sentir a pulsação do seu coração nos meus lábios enquanto nos beijávamos. É impossível que não seja amar o que sentíamos um pelo outro. Era calor, nossos corpos estavam quentes, mas a música era ótima!
Depois daquele beijo, voltamos ao bar que ficava no andar debaixo da balada para irmos ao bar e resolvemos dançar naquele ambiente.
A luz de lá alternava, mas a cor que mais aparecia era o roxo. Eu lembro-me bem pois eu gosto do roxo. É uma cor que me deixa feliz. Desde sempre e creio que para sempre, o roxo é a cor da minha alma.
Eu olhei para o lado, juro, foi questão de SEGUNDOS, eu fechei os olhos e dancei uma música (não lembro qual, mas lembro até que foi meio ruim) e quando abri meus olhos, estávamos eu e minha amiga. Ela me olhou e eu perguntei “-cadê ele?” e ela apenas ergueu os braços e fez sinal de que não sabia.
Por uns instantes tudo ficou preto. Foi meio estranho, eu fiquei em silêncio dentro de mim. Metade era emoção, metade eram as drogas. Mas eu fiz a única coisa que pude fazer, eu fechei meus olhos e deixei a música me levar. Eu não podia deixar a loucura me levar, eu não podia surtar, não com tudo que havia no meu cérebro e no meu sangue naquela noite. Se eu deixasse acontecer, talvez eu não voltasse.
Essa é a merda, essa é a parte que ninguém nos conta sobre a droga, seja ela qual for, seja qual for a que você usar, elas só podem te dar a falsa ilusão do que elas prometem te dar. Se qualquer coisa te distrair, se qualquer coisa te fizer mal, se qualquer coisa te tirar do eixo, você está sujeita a viver um pesadelo, um pesadelo do qual você, mesmo com os olhos abertos, você não consegue acordar.
Eu deixei a música me levar para um lugar bom, para um lugar confortável e com a minha amiga, ela que sempre esteve comigo, mesmo conhecendo meus erros e falhas do modo que ela, e apenas ela, além de mim, conhece, ela decidiu ficar. Sempre decidimos ficar um pelo outro. Ela sempre esteve comigo e eu sempre estive com ela. Ela estava lá comigo, eu não tinha motivos para me preocupar. Ela tinha a mim e eu tinha a ela. Sempre foi assim. Assim seguimos.
Então começou aquela música, aquela música da Rihanna que smepre toca no fim da festa em que sempre nos encontramos. Love on The Brain, e pela primeira vez, em algum tempo, eu não tinha você lá comigo. Daquela vez, não passamos love on the brain inteira nos beijando.
Como pode, essa vez ter marcado tanto? Como pode essa lembrança ruim ser maior do que todas as outras boas das outras noites em que terminamos nos beijando?
Mas, enfim aquela noite acabou. Felizmente, para mim (egoísta, eu confesso) acabou bem. Não tive nenhuma bad trip.
O outro dia chegou e eu o chamei, via DM no twitter, sempre foi a nossa rede favorita para comunicação. Ele não me respondeu naquele dia. Esse sempre foi o traço dele que mais nos distanciou, ele nunca responde, e eu chamava sempre. Eu queria falar sempre e ele não via necessidade em comunicação. Há alguém certo? Há alguém errado? Erro ou diferença? Mas com minha ânsia por comunicação, o pouco que ele respondia sempre terminava sem despedidas.
E mais um dia.
E mais um dia.
E no outro dia, uma resposta.
Mas uma resposta que demorou, mas não foi vaga. Ele disse “você não me olhou nos olhos”. Eu até hoje não consigo entender o que ele quis dizer com aquela frase, e isso me martela até hoje.
Como eu não olhava nos teus olhos? Eu permitia você ver através de mim pelos meus olhos, como você pode não sentir que eu olhei nos seus olhos? Eu olhei, eu juro que achei que tinha olhado. Eu olhei!
Eu fiquei a semana toda pensando. Eu analisei todos os cenários, todas as possibilidades e achei uma solução. Eu achei que deveríamos começar a nos vermos fora da balada, afinal, que tipo de gente que só consegue ficar bem em baladas? Eu queria uma relação saudável.
Mas tivemos várias conversar, aí descobri que a minha definição de “relacionamento saudável” era completamente diferente da dele. Eu achava que o natural era que quissemos nos falar todo dia. Eu achei que o natural é que nos quissemos estar bem juntos, mas ele me disse que ele queria estar bem sozinho para assim poder estar bem junto comigo.
Eu fiquei em total estado de choque e não consegui palavras para expressar. Acreditem, esse é um defeito meu. Eu não consigo expressar tudo o que sinto, as palavras me falham. Mas o que eu queria dizer é que para mim, estar feliz com alguém é inerente que eu esteja bem comigo, porém ele queria ser feliz sozinho, e se sobrasse um tempinho, ele seria feliz ao lado de alguém. Eu creio que não seja um defeito, mas você nota a sutileza?
É horrível esse momento em que notamos que precisamos reconhecer que há diferenças irreconciliáveis. Eu representando o amor romântico e ele o amor desapegado. Eu não sei, e nem quero, te dizer qual dos dois é melhor, porém são as formas que amávamos.
Nós nos amamos, o sentimento existe, porém cada um ama a sua maneira.
Ele aceitou, disse que deveríamos nos ver fora da balada, então ele veio dormir na minha casa. Era carnaval, seria a primeira noite que passaríamos juntos que não fosse em uma balada, mas querendo estar juntos. Seria a primeira noite!
E aqui começam os tempos felizes.
Nós íamos juntos a balada, você dormia na minha casa após a festa, passamos um dia juntos, o máximo dois, porque sempre surgia alguma coisinha (“a energia tá ruim”, “eu não gosto do seu amigo X” “eu não consigo me dar bem com a sua colega de quarto” e aquela baboseira toda que eu não gosto nem de me lembrar…) . Um final de semana você me levou n sua casa, convidou um amigo, claro, você precisava de mais gente, eu e você nunca era o suficiente, mas você me convidou e mais um amigo.
Você lembra como aquela noite começou promissora? Foi divertido até, teve uma chuvinha de verão e enquanto íamos pra sua casa, paramos em uma praça fumar um baseado, eu, você e o chato do seu amigo, mas que eu queria conhecê-lo. Eu estava aberto a me provar errado, coisa que você não fez pela minha amiga.
A noite foi incrível! Tomamos LSD e bebemos vodca. As nossas preferidas! Rimos, ouvimos música e foi legal. Conversamos horrores! Os nossos papos e os papos dele, o seu amigo. Eu consegui relevar tudo aquilo e mesmo com um doce na cabeça eu consegui ficar de boa. Meu autocontrole é incrível, eu admito. Lá pelas 04h ele foi embora e eu pensei “não vou me convidar para dormir aqui”. Achei que como era a minha primeira noite lá, eu deveria ser convidada para ficar. E eu fui convidada para ficar.
Não lembro de você dizendo para eu ficar, mas lembro de você pegando minha mão, mas lembro-me de você dizendo no dia seguinte que esperava que eu ficasse. Aliás, o outro dia foi incrível! Eu lembro que ficamos na cama o dia praticamente inteiro. Você dormiu mais do que eu, pois o seu sono era mega desregulado na época, e eu fiquei vendo desenhos e vendo clipes na TV.
Lembra que assistimos animações e comemos o beijinho que você fez? Eu me senti tão feliz! Foi incrível, tão bobinho quanto uma propaganda de margarina ou uma comédia romântica pode, e deve, ser.
Mas aí a paranoia chegou. Você lembra que ela sempre chegava? Mas é o que eu já disse, sempre havia um desconforto. Dessa vez o desconforto foi comigo. Eu sabia que você não gostava de muito apego, então eu decidi ir embora. Eu preferi não ficar na sua casa para você não enjoar de mim. Esse vinha sendo meu maior medo a algum tempo sabe?
Desde que eu havia perdido o meu mais antigo amigo porque eu fiz ele enjoar de mim, essa vinha sendo minha maior insegurança. Então, eu fui embora. Você, fofo, veio comigo um pedaço do caminho.
No outro final de semana, fomos a uma festa. Não era na nossa balada preferida, era no nosso “plano b”. Aquele lugar que acabávamos indo apenas por não ter outra opção, quando a nossa favorita não abria.
E olha como erra porra de mundo é pequeno! Eu e você nos conhecemos porque você seguia meu mais antigo (ex)amigo e você me via “sendo incrível” nos stories dele. Você lembra daquele em que “jogava o cabelo e atuava?” rs. Você costumava falar dele.
Naquela noite horrível, ele estava lá, meu mais antigo (ex)amigo, seu namorado (que me odeia, mesmo eu já tendo pedido perdão várias vezes), e alguns amigos em comum meus e dele. Nessa noite meu autocontrole falhou. Eu fiquei muito mal, eu realmente caí numa bad trip, mas eu tinha você lá comigo, você segurou minha mão, disse que estava comigo, falou que me amava e repetiu várias vezes que a hora que eu quisesse ir embora, nós iríamos (porém, não sei se foram as substâncias dentro de mim ou se de fato uma lembrança, eu disse várias vezes que queria ir embora e você não quis ir, então, pra não acabar com a sua noite, eu fiquei).
Teve o outro final de semana também. Aquele em que ele ficou.
Foi o nosso melhor final de semana! Ele veio até minha casa.
Você veio e ficou o final de semana inteiro! Nós estávamos ouvindo música bem alto, as luzes estavam apagadas e nós nos beijávamos enquanto a cálida luz laranja da iluminação da rua entrava janela. Acabamos bebendo demais e você decidiu deitar.
Você deitou nos meus braços. Disse que queria ficar abraçado em mim e assim dormiríamos. Você deu um sorriso e disse que “mesmo sendo aquariano” você queria ficar abraçado em mim.
“eu me viciei na tristeza pra não te perder”. Poucas músicas tem o poder de descrever a nossa história tão bem quanto “say goodbye” do Jaloo e BADSISTA.
No outro dia nós tomamos um doce e colocamos uma luz negra no meu quarto. Eu liguei as luzes de led e nos divertíamos TANTO! Estar com você naquele quarto era tudo o que eu precisava.
Nós transamos, mas não estávamos unidos em um só como havia sido da outra vez. Eu estava 100% lá com você, mas me senti só. Eu sabia que você estava lá fisicamente, porém parecia ser apenas isso mesmo.
No domingo, você foi embora às 6h e foi muito estranho dormir só naquela manhã.
Eu te amava tanto, eu te amava tanto naquela época! Eu tentei! Eu precisava ficar bem com ele, então eu fui atrás da droga mais fácil que conseguiria naquela noite com a pouca grana que eu tinha e fomos pra nossa balada.
Só eu e você, e fomos só eu e você a noite toda! Nós dançamos, nos beijamos, fumamos, bebemos… eu te amava tanto que nem fiquei com ódio quando você deixou uma carreira inteira cair no chão da balada (mas confesso que o meu riso foi para esconder o choro). Quando eu pensava em você, você sempre era o meu número um.
Aí começou aquele papo. “você tem que ser feliz sem mim” “eu sou feliz sem você” “eu consigo ser feliz com você, mas eu sempre penso em mim antes”. E você está coberto de razão, seu grandessíssimo filho de uma puta! Eu quis pensar assim a vida toda sabe, eu me amo, eu sou feliz comigo, porém quando estou com alguém eu quero uma felicidade compartilhada, e não duas felicidades reunidas. Não há certo ou errado nesse caso, há pontos de vista completamente opostos! E ali foi o começo do fim.
Aí vieram os tempos horríveis.
Março de 2020, o mundo entra num apocalipse em decorrência do pior governo democraticamente (infelizmente) eleito da história do país que não estava preparado para lidar com o COVID-19, o famigerado “corona”, tempo difíceis!
Então as comunicações humanas se reduziram ao eletrônico. Às redes sociais. Um pesadelo, ainda tenho esperanças de isso tudo ser apenas um delírio coletivo e nós acordarmos após um blackout coletivo no meio do carnaval!
O contato humano se reduziu a computadores e celulares. Eu não tinha problema algum com eles, eu até gostava, porém quando virei refém dele, a perspectiva mudou um pouco. Enfim, o fato é que agora para falar com ele, a único meio era o celular.
Aí vieram os vácuos.
Se fosse em outras épocas, eu nem ia ligar! Porém agora, tudo torna-se tão grande e afeta tanto! Eu sempre fui uma pessoa tão ansiosa! Então eu ia dormir e acordava esperando uma mensagem sua. Isso tornou-se um hábito, e me fazia muito mal. Eu sei que você não tem responsabilidade nenhuma quanto a minha ansiedade, esse é um problema apenas meu, porém eu já havia dito antes, ele sabia.
Você sabia.
Minha mágoa é que você dizia “sempre que precisar, eu estou aqui” só que você raramente estava. No começo, eu consegui me dar bem com a questão toda de nos vermos apenas em baladas e nos “amarmos” apenas por uma noite e isso acontecer de novo só seis dias depois, o problema é que quando começou a ir para fora da balada, depois que nos olhamos nos olhos e dissemos várias e convincentes vezes que nos amávamos, eu achei que isso mudava alguma coisa.
Houve inúmeras argumentações que foram deixadas de lado antes de virarem brigas, porém um dia eu não consegui segurar, aquele dia eu precisava falar! Eu falei tudo o que estava me afetando e ele leu tudo e disse que compreendia. E FOI ISSO! Eu estava justamente reclamando da frieza e ele foi frio! Foi a primeira vez que eu pensei que merecia mais. Creio que não é pedir demais retribuição ao que eu estou oferecendo.
Estávamos fadados ao fracasso. Não porque havia alguém certo e alguém errado, apenas pela diferença entre nossa forma de amar. Eu sou uma vítima do aprisionamento do amor romântico e você uma vítima do vazio das relações líquidas de hoje em dia.
Essa argumentação terminou muito mal. Havia uma hora em que eu simplesmente não conseguia mais falar. Eu apenas lia o que você dizia, e eu juro que não sei o que CARALHOS eu disse pra te deixar com tanta raiva, mas você resolveu me magoar. Você disse umas coisas que não foram legais, umas feridas que não vale a pena comentar agora sabe, ainda são muto recentes, mas no final ele disse que… você lembra-se do que disse?
“e agora eu vou fumar um baseado e não quero ler mais nada”.
Eu respirei fundo, mandei um print pra minha melhor amiga e não te respondi mais. Eu te exclui de todas as minhas redes sociais e te bani. Eu fiz exatamente o que você disse e, de mim, você não leu mais nada.
Aí você me acusou de não te amar.
Passadas lgumas semanas, um dia eu acordo e há una mensagem sua me acusando de não te amar, você disse que eu havia “inventado” toda essa história porque eu queria apenas “te pegar”.
Eu poderia ter dito um milhão de coisas, como por exemplo o fato de que você tem um pau delicioso, porém não é o melhor, muito menos o último do mundo, ou que a minha vida sexual não se resume apenas a homens (inclusive, o coisa mais ANTIGA esse troço de gênero! Até eu que sou de outra geração acho isso tosco), ou ainda que, felizmente, nunca me faltou sexo, mas não, eu nascido sob o signo de escorpião tive que deixar as emoções tomarem conta.
Deixei claro o quanto aquilo me ofendia, mas conversamos e tudo ficou bem.
E ficou bem mesmo sabe, juro que não estou tentando me convencer disso, eu acreditei mesmo, pois nos dias seguintes eu não o chamei todo dia, ele me chamou algumas vezes (praticamente um milagre), trocamos memes, foi divertido, eu conseguia passar uma noite de sono bem, eu conseguia acordar e não correr pras redes sociais para ver se tinha alguma notificação sua.
Aí, você me disse que o que havia te deixado com tanta raiva na briga foi a situação da cobrança. Então a luz laranja acendeu novamente.
Eu não estava cobrando ele de nada. Eu sabia muito bem o que tinha feito, tanto o meu silêncio nesse tempo todo havia sido o fato de que eu aceitei as consequências dos meus atos. Tanto achei que havia dado certo, pois você veio atrás de mim.
Olha como eu sou idiota?!
Então eu continuei com o “alerta” ligado. Os contatos começaram então a ficar cada vez mais raros.
Será que haviam tido, de fato, mais contatos dele ou era apenas eu me enganando?
Um dos meus piores defeitos, ficar preso dentro da minha cabeça.
Ficamos uns dois dias sem nos falar e eu mandei uma mensagem. Não lembro exatamente o que, mas era sobre eu te amar.
Você não me respondeu.
Na noite seguinte eu notei que estava ficando ansiosos novamente com as notificações. Então que disse que havia “entendido a mensagem”. Eu silenciei você em todas as redes.
Vocês conseguem notar como ele consegue certas coisas comigo que ninguém nunca havia conseguido?! Todos, TODOS os meus relacionamentos anteriores, fossem amorosos ou não, quando eu dizia “adeus”, era “adeus”. Quando eu colocava um basta, era o fim, porém com ele eu não conseguia! O máximo que eu conseguia era silenciá-lo, então foi o que eu fiz. Silenciei em todas as redes, já que não nos seguíamos em mais nada.
E então eu fiquei leve. Dessa vez, por mais que ainda sem um “adeus” formal, eu havia pensado antes de fazer, eu havia agradecido ao universo tudo que vivi com você, porém decidi deixar no passado. E novamente segui em frente.
Uma tarde qualquer eu chego e recebo um print de um tweet seu dizendo que sente minha falta. Dois dias depois eu respondi.
Os últimos dias, embora os mais recentes são os mais obscuros na minha memória. Tivemos uma conversa muito agradável nos dois primeiros dias. Reforçamos o quanto nos amamos e você comentou que deveríamos nos ver.
Eu já tinha um ponto de vista muito diferente. Eu achava que nos deveríamos deixar isso passar por agora, que deveríamos esperar esse apocalipse acabar e que nosso reencontro seria orgânico e seria lindo.
Você me disse que estava trabalhando pra que pudéssemos ficar juntos. E mais uma vez você disse “sempre que precisar, eu estou aqui!”.
E a nossa rotina maldita se repetiu pela última vez.
Eu chamei, você não respondeu.
Eu estava com a cabeça DESTRUÍDA naquele dia e precisava mesmo conversar. A ansiedade havia chegando “com só dois pé na cara”.
Você não respondeu.
No outro dia, ele também não respondeu.
Na noite do segundo dia eu recebo um “sobre o que você queria conversar?”.
Então, eu não respondi.
E mais um dia passou, e eu também não respondi.
Eu não ia dar mais uma cena por quem estava pouco se fodendo pra mim. Alguém que vivia bradando por aí o quão feliz e independente é sem mim, e que só pensava em mim quando sobrava um tempo da sua incrível, feliz e sorridente vida.
No terceiro dia eu acordei com as ideias no lugar. Eu percebi que o meu comportamento estava sendo meio infantil sabe? Como é que vamos resolver as coisas se não há dialogo? Quer dizer, qual é, eu havia reclamado anteriormente de que você tinha me deixado no vácuo e agora como eu ia fazer isso?!
Eram 7h da manhã. Eu peguei meu celular e tinha uma mensagem sua.
Era uma notificação do twitter, a nossa rede social preferida para comunicação.
“agora, eu quero que você se exploda.
de coração.”
Eu fiquei uns 15 minutos olhando para o celular. Aquela tela preta, impessoal, onde havia um robô transmitindo a mensagem de que a pessoa que eu amo quer que eu me exploda.
Eu tentei olhar seu perfil, mas você me bloqueou no twitter.
Eu não fui atrás de vocês nas outras redes, nem irei.
Até hoje a única coisa que eu consigo fazer em relação a isso é o quanto eu fico feliz de que essa atitude partiu de você. Felizmente, como eu nunca consegui te bloquear, o bom é que foi você quem me bloqueou. Eu não conseguiria, ao menos não agora.
Eu sei que nos amamos, porém eu sei também que o amor apenas não é tudo.
Por que nós vamos prolongar essa situação se sabemos o quanto nos faz mal?
Eu não sei quanto a você, porém agora eu preciso pensar em mim. Quero que você fique bem, eu realmente quero do fundo do meu coração que você encontre alguém que seja feliz ao seu lado da maneira que vocês se entenderem, porém o que eu sei é que, infelizmente, essa pessoa não sou eu. Eu queria, eu tentei ser, juro que tentei, porém eu sempre soube que estávamos fadados ao fracasso.
Creio que fracassamos, não porque não fomos felizes juntos, pois houve momentos de genuína felicidade, mas fracassamos por sermos muito diferentes.
Bom, era basicamente isso que eu queria falar.
Estava a algum tempo pensando em como te mandar isso, para que possamos por um final nessa história, mas então eu notei que não tem motivos para abrir essa ferida novamente. Vamos deixar que ela se recupere.
Melhor chorar pela dor da recuperação do que de ansiedade.
Então, por isso eu não enviarei essa carta a você. Eu vou apenas salvar como rescunho. Creio que isso é o que foi toda a nossa história.
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