Salvação
1 Eleanor Beamont
Notas iniciais
"Às vezes sinto como se fosse só eu
Que não consegue tolerar o reflexo que vê
Eu gostaria de poder viver um pouco mais
Olhar para o céu, e não só para o chão."
— Million Years Ago, Adele.
Não importava o quanto tentasse resistir, Eleanor Beamont sempre era atormentada pelos seus sonhos. Não havia remédio ou tratamento intensivo que lhe livrassem das malditas lembranças de seus pais. Era tão nova quando os perdera... Ela tinha tudo e, de uma hora para outra, isso mudou. E os sonhos que tinha era apenas uma recordação daquilo que nunca mais iria poder desfrutar: uma família de verdade.
Ali, deitada na cama, refletia sobre a possibilidade de passar o resto do dia em seu quarto. Toda manhã era a mesma história, saia de um paraíso para que quando colocasse os pés no chão, voltasse ao seu inferno particular. Porém, ela resistia ao desejo de continuar trancada em seu refúgio. Prometia para si mesma e para seus pais que tentaria lutar, resistir, aos abusos que sofria em sua casa.
Depois de tanto debater, finalmente seus pés tocaram o tecido felpudo que compunha o carpete azul de seu quarto. Automaticamente seus dedos vagaram até o antigo rádio ao lado da cama o ligando em sua estação preferida. Lembrava bem de como seu verdadeiro pai costumava fazer o mesmo... Essa era uma das muitas manias que Eleanor não perdeu com a idade.
A menina caminhava até a janela de seu quarto tentando desviar dos objetos espalhados pelo chão, sua maioria livros e sapatos, em meio a escuridão. Seu quarto era relativamente grande e ainda mantinha a mesma decoração infantil que escolhera ao ser adotada com oito anos. Ela se recordava bem daquela época onde Clarissa, sua mãe adotiva, se preocupou em transformar todos seus desejos em realidade. E a garota caíra perfeitamente na farsa de família perfeita que havia sido submetida.
Após as cortinas abertas, os primeiros raios de sol iluminaram o quarto apesar do intenso cinza que o cobria. Demorou-se ali observando aos jardins de sua casa enquanto um lave garoa caía contribuindo para a atmosfera melancólica do dia. Hoje era dia vinte e três de Novembro, início do inverno, e também seu aniversário de dezesseis anos. “Não que alguém se importe.”, pensou ela.
Além disso, era sexta feira. O dia em que começaria a sofrer por antecipação ao sábado, quando a verdadeira tortura começava. Fim se semana em família. Sábado para ela era sinônimo de regras, sorrisos falsos e muitas mentiras. Era quando fingia ter uma família perfeita, os amar e ser amada por eles, o que não passava de uma ilusão. Entretanto, não havia muito mais o que se esperar da elite de Manhattan.
Sorriu ao lembrar-se do maravilhoso café da manhã que, muito provavelmente, Angelis, a cozinheira, estaria preparando especialmente para ela. Angelis fora sua primeira aliada dentro daquela casa quando a máscara dos Harkneys finalmente caiu. Sentia-se sozinha, era apenas uma criança, e a esperança de voltar a ter uma família fora arruinada no momento em que a adoção foi finalizada.
No rádio uma música calma irradiava energias positivas por todo o ambiente, energias que seriam mais do que necessária para aguentar mais um dia na escola... Dedicou-se a arrumar sua cama, deixaria a bagunça do quarto para mais tarde se tivesse tempo. A colcha azul marinho foi abandonada perfeitamente alinhada junto ao colchão e alguns ursos de pelúcia acabaram jogados para o canto deixando livre a passagem.
Quando finalmente ficou satisfeita com sua organização relâmpago, Eleanor se dirigiu ao banheiro. Ainda eram seis horas, ou seja, tinha tempo de sobra para se arrumar. A farda do uniforme já passada em um cabide foi vestida e os logos e lisos cabelos escuros presos em um rabo de cavalo alto.
O uniforme desagradava a todos menos a ela. Tratava-se apenas de uma saia pregueada xadrez em tons escuros, uma camisa social e um blazer preto com o emblema de GrintWell High. Havia também as meias três quartos, o sapato, poderia ser de sua preferência, o que, no caso, eram suas botas Valenttino. Nunca foi de se preocupar muito com moda, lembrava-se apenas de se divertir com sua mãe comprando roupas, mas depois de sua morte, muitas coisas deixaram de ser interessantes para ela.
Avaliando o cômodo, ela nunca chegaria à conclusão que uma adolescente dormia ali. Além do carpete azul bebê, as paredes eram todas adornadas com desenhos seus de quando era mais nova. Havia fotos também, as que trouxera consigo e algumas recentes tiradas na câmera de Summer, sua melhor amiga. Um lustre lindo pendia em cima de sua cabeça, um pouco empoeirado, igualmente ao velho conjunto de chá de porcelana. Sim, este quarto era digno de uma princesa. Uma princesa com seis anos...
Terminou de ajeitar o material na mochila a tempo de ouvir o arranhar de madeira vindo da porta. Chanel deveria estar realmente faminto para recorrer a ela, os dois não se davam bem de maneira alguma. Por influencia de Clair, acreditava. Pegou sua pasta em cima da escrivaninha e sua mochila e só então abriu a porta dando de cara com o gato.
“Você certamente está desesperado, não é?”, perguntou acariciando o pelo do animal apenas para irritá-lo. Recebeu um miado estridente como resposta. “Vem, eu vou te alimentar.”, fechou a porta atrás de si e se dirigiu a cozinha.
Entrou no cômodo e bastou para ser invadida pelo maravilhoso cheiro de pães frescos. Angelis logo que reparou em sua presença ali abriu um enorme sorriso. A senhora limpou suas mãos gorduchas em um pano e se dirigiu a Eleanor.
“Bambina Ellie, meus parabéns querida!”, exclamou envolvendo Ellie em um caloroso abraço. A menina sorriu, ao menos teria Angelis para parabeniza-la.
“Obrigada Angelis! Fico feliz que lembrou.”, disse enquanto abria um dos armários da cozinha retirando de lá a ração orgânica para gatos.
“Como esqueceria?! Dezesseis anos é uma data importante! Quem diria bambina? Estás crescendo tão rápido...”, Angelis murmurou a ultima parte mais para si mesma que para a menina, parecia-lhe que no dia anterior Ellie chegava a casa. A pobre menina, tão pequena e já havia sofrido uma perda tão grande. E para piorar tudo tivera de sair da França para um país completamente diferente... Tudo isso para viver com a família Harkney.
“Apenas mais um ano de vida, má cherrie.”, Ellie lhe dirigiu um pequeno sorriso antes de pegar o cesto com os pães e ir para a sala de refeições.
Depositou o cesto no centro da elegante mesa de mármore escuro, apenas cinco dos dez lugares estavam postos. Ellie aguardou em pé a frente de seu lugar de sempre aguardando que o patriarca da família e sua gangue descessem. Não demorou muito e logo a voz estrondosa do Sr. Harkney se fez ouvida.
O homem alto entrou no recinto falando ao celular, um aceno de cabeça foi tudo que foi direcionado a ela. Após ele sentar, Eleanor puxou sua própria cadeira e os dois aguardaram o restante da família descer. Graças aos ensinamentos de sua mãe, Ellie sabia a tremenda falta de educação que era não esperar os outros para começar a se servir. Não que eles fariam o mesmo por ela.
O barulhos de saltos contra o piso soava e logo mais duas garotas apareciam na porta. A primeira era Clair com seus cabelos loiros organizados em perfeitos cachos, esta era um pouco mais baixa que a irmã, mas ainda sim ameaçadora. Seus saltos Dior a faziam ganhar mais altura. Atrás vinha Delavine, era uma cópia um pouco mais aprimorada de Clair, ao invés dos traços fortes e da pouca altura, ela possuía feições finas e dispensava saltos, não que ela o fazia. As duas eram gêmeas e em questão de caráter eram idênticas.
“Não deixarei você escolher com que carro chegaremos a festa! Da última vez fomos em um porshe vermelho! Não vou ser motivo de piada de novo por sua culpa!”, soltou Delavine enquanto sentava-se a mesa sem ao menos cumprimentar alguém.
“Era o carro favorito do Scott! Sabe que queria que ele me notasse naquela época. E o carro nem era tão feio assim...”, Clair resmungou. Eleanor teve que controlar o riso, lembrava-se bem daquela noite. Ela realmente conseguiu chamar a atenção de Scott com o carro, na verdade, toda a atenção foi direcionada ao carro.
“O que é tão engraçado?”, Delavine sentada em frente a Clair fitou Eleanor. A morena apenas deu de ombros e então as outras duas voltaram a sua “conversa”.
Enquanto observava seu prato vazio Ellie se permitiu voar longe. Naquele momento ela tinha apenas seis anos e estava prestes a completar sete. Aquele foi o ultimo aniversário que comemorou com seus pais. O senhor Beamont era um musicista inglês famoso enquanto sua mãe era uma das melhores empreendedoras da França. Costumavam viajar muito, e estavam em meio a uma viajem naquela semana.
Seu pai estava em turnê e as levou junto. Estavam em Paris e graças a sua mãe conseguiram um quarto com uma vista privilegiada da Torre Eiffel. Na hora de a colocarem para dormir o pai e a mãe dividiram espaço na enorme cama de casal com ela. Seu pai tocava no violão e sua mãe tentava o acompanhar no vocal em algumas partes, mesmo que totalmente desafinada. Eles cantavam a música dela...
“Daddy's little girl paints the world with her magic wand
Daddy's little child breathes new life to the morning time for me
Though we're apart, her thoughts follow me
When I come home, Ellie smiles with the dawn
Ellie smiles, and she radiates the glow around her halo
When she plays, Ellie smiles
On a summer day, Ellie smiles
A new day, Ellie smiles
Daddy's little girl ties a ribbon around my heart
Daddy's little child waves goodbye to the ocean tide that sweeps me
Though we're apart, she's a part of me…”
[N/a.: Essa música existe e é maravilhosa. Apenas troquei “Molly” por “Ellie”, se quiserem ouvir o link está nas notas iniciais para os engraçadinhos que as pularam. Bye!]
Seus pais haviam ficado no hotel aquela noite. Quando o relógio soou o início do dia seguinte, os dois bateram a porta com um cupcake com uma velinha acesa em mãos e cantarolando um “parabéns para você”. Tudo estava perfeito aquele momento, lembrava-se de encarar a janela e pedir a sua fada madrinha que aquilo nunca acabasse. Era seu único desejo de aniversário... mas, não foi concedido.
“Eleanor!”, voltou a realidade após ouvir a voz estridente de Clarissa. Nem havia notado sua chegada. A elegante mulher possuía os cabelos loiros preso em um coque alinhado e o colo e orelhas adornados por jóias.
“Acho que alguém perdeu o resto de senso que possuía.”, Clair sussurrou enquanto Delavine apenas sorriu debochada.
“Desculpe, o que a senhora disse?”, perguntou ignorando as duas garotas.
“Hoje após a escola Clair e Delavine irão ao shopping comprar os vestidos para seus bailes de debutante, irá acompanha-las. E é plausível que compre um para você também.”, sim, coincidentemente as meninas Harkneys também completavam dezesseis aquela semana. Então, como o Sr. Harkney afirmou a um tempo atrás, não havia necessidade de dois bailes, logo, “seus bailes de debutante” se referia a ela também. Infelizmente.
“Tudo bem.”, disse.
Todos ali já se serviam e distraídos em suas futilidades, mal perceberam quando um cupcake de mirtilos foi colocado sorrateiramente no prato de Eleanor. Ainda abalada pela recente memória, apenas deu um triste sorriso em direção a Anne.
P.O.V. Eleanor Beamont
O motorista estacionou em frente ao portão principal onde o fluxo de alunos fardados entrando e saindo era enorme. Desci do carro me despedindo de Jarvis, o motorista. Respirei fundo uma... duas vezes antes de atravessar os portões. Andar pelo campus de GrintWell High nunca foi uma coisa fácil para mim. Clair e Delavine se distanciaram instantaneamente de mim, poucas pessoas ali sabiam que tínhamos algum parentesco, quem dirá que somos irmãs. Ando a passos rápidos para dentro do prédio.
Tudo que queria poder dizer era que passava despercebida por ali, mas não era assim que funcionava. Eles me enxergam... e caçoavam disso. Eu sei o quanto garotas podem ser bem maldosas quando querem e meninos também. Ignorei os olhares que se direcionavam a mim, eu sabia que boatos corriam a meu respeito. Falsos, claro. E apesar de saber exatamente quem os começou resolvia por não tirar satisfações. Não vale apena.
Parei em frente ao meu armário, faltavam alguns minutos para o primeiro sinal. Peguei os livros que precisaria e guardei alguns das aulas seguintes. Estava cogitando a ideia de ir a procura de Suny quando um furacão cacheado atravessou meu caminho. Bom, se Maomé não vai a montanha... No meu caso, a montanha deveria ser um pouco mais paciente.
“Olá, raio de Sol!”, disse rindo da figura parada ao meu lado. Summer tinha as mãos apoiadas nos joelhos e tentava veemente recuperar o fôlego perdido na recente corrida.
“Será que eu...”, ela levantou o indicador me pedindo um minuto. Revirei os olhos enquanto a ajudava a se reerguer. Summer e exercícios não combinavam de jeito algum, além de sedentária, ela tinha um problema no coração, ou seja, qualquer movimento brusco ela fazia um drama. “Sou a primeira a te desejar feliz aniversário?!”, gritou enquanto seus braços envolveram meu pescoço. Apesar de ter provado um pouco do cabelo dela correspondi.
“Desculpe desapontar você, mas é a terceira pessoa.”, nos desvencilhamos e passamos a caminhar em direção a sala de Literatura.
“Não me diga que...”, o rosto dela variou entre a incredulidade e susto. Posso imaginar o que se passou por sua cabeça
“Não, eles não lembraram. Porém, Angelis e Anna sim! Na verdade, acho que até Chanel me desejou um miado de aniversário...”, tentei parecer indiferente, sei o quanto ela sente por algo que está fora do controle dela, e nesse caso do meu também.
“Triste.”, falou encerrando o assunto.
Summer prendeu os cabelos em um coque alto deixando sua estatura um pouco maior. Ela batia um pouco acima dos meus ombros e acredite, não sou uma pessoa alta. Ela tinha uma beleza contrastante comigo, não que eu chegasse aos seus pés, ela era realmente bonita, mas não tinha o padrão de todas ali.
Era notável a nossa diferença de personalidade, enquanto Summer era extrovertida e falava com todos por onde passava, eu apertava o passo para sair logo dos corredores. Ninguém ali gostava de mim, ninguém nunca se aproximou de mim pelo menos, além de Suny, claro. Coisa que até hoje não entendo...
As poucas pessoas que me dirigiam um olhar que não fosse de desprezo, só falavam comigo quando Summer estava ao meu lado. Sei que ela não admitia que me destratassem e como ter a amizade da filha de um dos homens mais ricos da cidade importava para eles, torciam o nariz, e nada de comentários a meu respeito.
Não tiro crédito dela da sua popularidade, na verdade, não havia como não gostar dela. Summer sempre se preocupava com todos a sua volta e eu sei bem disso, pois eu sou seu principal alvo, além disso, ela é totalmente flexível quanto às variações de panelinhas. Até mesmo na grande comunidade das Queen’s bee, a qual minhas irmãs pertenciam, ela parecia se encaixar. Porem, ela tinha um problema com seguir padrões e regras.
“Eu comprei um presente para você!”, cantarolou. Eu não esperava, já esperando. Sabia que não importava o quanto eu dissesse ela viria com um presente.
“Não acredito que comprou algo!”, ela me entregou uma pequena caixinha retangular e chata. Havia um enorme laço cor de rosa e colagens em toda a caixa, ri disso, isso era tão... ela.
“Hey! Personalizada by me, baby!”, disse como se estivesse em um comercial. Abri a caixa encontrando uma pulseira prateada em meio a um monte de papel brilhante. Eu... fiquei sem palavras, tomei-a nos dedos e controlei o nó que havia em minha garganta.
Era cheia de pingentes com detalhes coloridos, havia uma pequena Torre Eiffel, França, um coração azul, minha cor favorita, um pequeno Sol, Summer, um livro, literatura, um violão, papai e uma rosa em homenagem a mamãe. Havia pequenas bolinhas também, mirtilos. Sorri quando identifiquei a sigla AT de “Alex Turner”, meu primeiro amor musical, também ali.
Não havia palavras para descrever aquele presente. Olhei para Suny e sei que ela entendeu que eu adorei. Ela estendeu o pulso indicando em sua própria pulseira o pingente com um “E&S BFF” gravado em uma letra minúscula em uma estrela.
“Você é impossível Sis...”, tive que engolir o choro. Cruzamos nossos braços e voltamos a caminhar.
“Uma garota só faz 16 uma vez Sis. E eu nem preciso dizer que minha mãe ficou louca por uma, né? Ela pirou com a ideia de nós três termos pulseiras da amizade.”, gargalhei quando a vi revirar os olhos.
Três tempos de aula e logo o intervalo começou. Nessas horas eu queria poder me trancar no banheiro para sempre. Summer sempre se juntava a algum dos grupos extracurriculares aos quais fazia parte, e claro, ela sempre me chamava para sentarmos juntas, mas eu sempre invento uma desculpa para não ir.
“Não me por em meu devido lugar” é o que as meninas daqui julgam como justificativa pela implicância delas. Aquilo, a sociedade escolar, é uma hierarquia onde Clair e Delavine fazem parte do topo, logo, todos a seguem e os que não seguem terminam mal. Elas decidiam quem você deve ou não deve gostar.
Nunca entendi onde esse ódio todo que sentem por mim começou, tentei ser amiga delas quando éramos pequenas. As seguia por todo canto e era feita de gato e sapato por elas, eu não conhecia a maldade, e vinda de crianças da minha idade me assustou. Depois de um tempo eu percebi o que estavam fazendo, elas me obrigavam a fazer coisas que eu não queria e me esnobavam a todo tempo. Quando éramos crianças, eu não me deixava abalar. Devolvia na mesma moeda, mas agora, depois de oito anos eu finalmente cansei.
Viver em guerra todos os dias me cansava. Brigas pelas quais eu não via sentido me cansava. A atitude delas me cansava. E isso foi o suficiente para eu desistir. Só não sabia que isso faria tudo piorar... elas não me deixaram em paz. Eu sou uma covarde, e isso ainda vai me matar um dia. Eu já perdi todas as minhas forças, estou psicologicamente desgastada. Então eu só tentava manter as coisas como estavam e me manter ao máximo fora do caminho de qualquer um nesse colégio. Assim, talvez, e apenas talvez, eu sobreviva ao colegial.
Terminamos as aulas e incrivelmente ninguém veio me importunar. Ah, a magia do aniversário... Despedi-me de Summer na saída e corri em direção ao carro, onde Delavine e Clair aguardavam impacientes.
“Se perdeu, Débi?”, disse Clair entrando no carro. Revirei os olhos para o estúpido apelido “Débiloide”, e me preparei para uma tarde de compras com as duas.
Desisti de seguir Delavine e Clair pelo shopping a um bom tempo, elas entraram em umas cinco lojas e saíram com pelo menos dois vestidos de baile de cada. Meus pés doíam e minha cabeça também, ouvi-las falar baboseiras sobre outras pessoas, até mesmo de suas amigas me deixavam enjoada. Então, resolvi procurar alguma loja que possa ter algo do meu gosto. Andei mais uns minutos até encontrar uma.
Sweet Devocion by Morco Vitton.
Possuía uma temática mais romântica, e o rosa e tons terra predominavam a coleção exposta, é o Outono ainda estava em alta. Eu não participei da organização da festa, mas assisti a tudo, então sei que nenhum vestido que encontre aqui, poderá competir com o tema da festa. Pelo que elas pretendem, a festa será um baile de gala com o tema Hollywood, as loucas querem mesmo se sentir famosas. Pelo tema ser esse, eu precisava de algo discreto. Então aqui está perfeito.
Puxei um vestido azul claro por extinto, este que, pelo que parecia, estava para ser retirado por ser da ultima estação. Assim que o posicionei em frente ao corpo para analisá-lo uma voz meio nasal surgiu atrás de mim.
“Não, não mesmo.”, o homem de estatura mediana e com um engraçado sobretudo negava veemente com a cabeça.
“Não gostou?”, disse em desânimo. Tudo que eu mais quero é encontrar um e sair logo para a praça de alimentação, estou faminta.
“Pode ter sido eu a tê-lo desenhado, mas isso não sai daqui a não ser para o lixo. Isso foi da coleção primavera!”, ele tomou o vestido de minhas mãos e então voltou a me encarar.
“Marco Vitton!”, lembrei. Ele assentiu e me estendeu a mão.
“Eleanor Harkney.”
“Não acredito! Uma Harkney no meu atelier!”, ele vibrou ao ouvir meu sobrenome, mal sabe ele que eu sou a Harkney errada. “Você precisa de um super vestido! Debutante, certo? O seu baile de aniversário está dando o que falar por aqui, menina! Vejamos... Brilho! Sim, precisamos de brilhantes!”, ele correu para entre as araras e eu o seguia pelos corredores, eu nem havia dito a ele o que eu queria! “Precisamos de algo vermelho e...”.
“Espera!” gritei atrás dele e só então foi me dado atenção, dele e de outras clientes que estavam na loja. “Desculpe, eu falei alto.”, disse sentindo o rubor subir as minhas bochechas.
“É... Perdão, eu me empolguei um pouco... O que lhe agradaria mais?”, disse mais polidamente agora me dirigindo um pequeno sorriso.
“Algo simples e bonito. E nada de grandes decotes ou vestidos vermelhos, por favor. – disse sorrindo. Observei-o não conseguindo esconder o descontentamento, porém logo seu rosto se iluminou. Acho que devo me preocupar.
“Tenho um vestido perfeito!”
Comprei um vestido que eu adorei. Ele era tudo o que eu pensava e mais um pouco, não foi necessário experimentar mais. Pedi para entregarem em casa e então voltei a minha incessante caminhada tediosa ao redor do shopping. Resolvi desta vez ir direto a praça de alimentação. Precisava comer algo. Fui a uma lanchonete bar, ela tinha um caráter rústico e me lembrava tavernas dos filmes de época. Fiz meu pedido e procurei uma mesa distante do balcão para me sentar. Ainda tínhamos duas horas, Clair e Delavine demorariam muito mais que isso para terminarem. Não imagino quando uma das duas se casarem, ai sim verei o verdadeiro problema.
Me distraí batucando os dedos na madeira da mesa e apenas voltei a realidade quando dois pratos eram postos a minha frente. Hambúrguer e batatas, melhor combinação. Iria começar a devora-lo mas algo me impediu. Azul. Sim, um azul intenso me encarava, olhos claros, hipnotizantes e extremamente aterrorizadores para uma garota como eu.
Poderia passar horas os observando... sim, como poderia... Porém minha consciência recobrou mais rápido, o que eu estava fazendo?! Resolvi me concentrar no meu prato, belisquei algumas batatas, mas estava inquieta de curiosidade para saber de quem eram aqueles olhos e se sua atenção ainda estava direcionada a mim.
Um garoto, ou homem, me encarava. É, depois de duas vezes não é mais coincidência. Teria sido se agora ele tivesse desviado, mas não. Intenso e fixo, era a discrição para seu olhar. Assisti um sinal de sorriso surgir em seu rosto, mas logo desapareceu. Tinha certeza que estava atordoada nesse momento. Provavelmente havia uma ruga entre minhas sobrancelhas e minhas mãos suavam. O que está acontecendo?
Fui a primeira a quebrar contato novamente. Abaixei a cabeça e tentei controlar a respiração, desde quando eu perco o ar com uma simples mal encarada? Convivia com isso o tempo todo! Me recompus e então resolvi checar novamente o cara. Talvez se forçasse a vista, conseguiria saber se o conheço de algum lugar.
Nada.
A mesa antes ocupada estava vazia e pude enxergar umas notas apoiadas em baixo do copo pela metade de cerveja. Sim, ele esteve ali, eu não estou ficando louca.
Engoli o jantar rapidamente, havia perdido a fome e não estava me sentindo bem. Resolvi ocupar-me com outras coisas. Precisava me dar um presente de aniversário, lembrei. Todo ano compro a mesma coisa e esse ano não seria diferente. Meu pai costumava me presentear com fitas de cabelo sempre que voltava de alguma viajem a qual não podia me levar, era simples, mas eu as amava. Ainda amo, na verdade.
Passei em uma loja de artigos infantis e escolhi a única ali que não se parecia com as que eu já tinha. Era amarela, não como ovos, sim como creme de manteiga. Apertei entre minhas mãos e juntei ao peito quando saí da loja, ela me trouxe tantas lembranças... Quando vi já estava correndo para a porta que dava passagem a área externa do Shopping. Quando cheguei a me sentar em um dos bancos meu rosto já estava banhado em lágrimas. Quentes e abundantes.
“Daddy's little girl ties a ribbon around my heart…”
Me abracei tentando me manter aquecida. Uma brisa cortante passava por mim. Minha cabeça doeu mais do que nunca naquele momento, lembranças e mais lembranças... Encarei o laço e tudo que rondava pela minha cabeça durante esses últimos dias foi dito em voz alta, para ninguém em especial. Não havia ninguém perto de mim. Eu precisava descarregar, contar a alguém tudo que eu guardava para mim, mas não tinha coragem. Queria que tudo passasse... que essa dor incessante se esvaziasse junto com as minhas palavras.
Eu poderia ter morrido de saudades naquele momento. Eu queria sentir o cheiro dos biscoitos da minha mãe, queria ouvir meu pai cantar minha música, queria estar na França...
Eu queria gritar com eles e perguntar o porque não me levaram com eles! Porque me deixaram aqui sozinha?! Eu sentia tanta raiva! Eu estava com raiva de mim e queria cutucar mais e mais na minha ferida.
Eu queria tanto que minha mãe tivesse comigo hoje comprando vestidos. Meu pai reclamaria da nossa demora e eu não ligaria de rodar todo o shopping com ela. Provaria vestidos vermelhos e decotados, porque sabia o quanto meu pai ficaria obsesso se nos víssemos com eles. Seria tão engraçado...
Agora eu ria e chorava, eu acho que estou morrendo aqui. Minha cabeça rodava, lembranças e mais lembranças... Como é possível eu ser tão fraca! Havia tantos iguais a mim que sofreram coisas muito piores, vivem coisas muito piores.
Eu queria tanto me sentir vazia. Fiquei um tempo apenas me concentrando em tentar voltar ao normal, não queria sentir mais nada...
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