Notas iniciais
Depois de aaanos em hiatos (anos nao né, povo!) finalmente resolvi dar as caras. Gostaria de me desculpar mais uma vez pelo atraso na postagem, tive uns sérios problemas pessoais e de saúde e além de quase nao ter tempo, quando tinha, o bloqueio criativo era maior. Espero que gostem do capítulo. Nao está muito dinamico mas esperem pelas emoçoes dos próximos capítulos, que agora que estou de férias, espero que saia em breve. A música do cap é Elastic Heart da Sia Beijinhos!!!

"E mais um foi por água abaixo
por que não posso conquistar o amor?
E posso ter pensado que éramos um só
Queria lutar nessa guerra sem armas"

Uma dor excruciante tomava conta do peito de Richard. Pior do que perder sua amada, era deixá-la ali aos prantos como uma criança que morre de frio. Mas o que fazer? Seu orgulho tinha uma dimensão maior que o planeta Tamaran, e ele não aguentava mais toda aquela situação. Sua indignação não necessariamente girava em torno de perder o amor de sua vida para um processo totalmente burocrático, mas sim pelo fato de não entender como uma pessoa conseguia abdicar tanto de sua própria felicidade pelo bem de outras pessoas. Era ela amorosa demasiadamente, ou ele era o grande egoísta da história? Essa pergunta fazia seu sangue ferver ainda mais.

"E eu queria isso, queria muito isso
Mas havia tantas bandeiras vermelhas
Agora mais um vai por água abaixo
Sejamos honestos, não confiarei em ninguém"

— Asa Noturna! Está na escuta? – Dick ouviu o comunicador integrado na nave. Era seu ex-mentor.

— Sim, Batman! Estou aqui!

— Gostaria que você trabalhasse em um caso, esta noite. Babs vai te ajudar.

— Entendo... – ele deu uma última olhada para o grande planeta branco e vermelho, que aos poucos se afastava, duas palavras cosumariam sua decisao – Estou pronto!

GOTHAM

Richard era um detetive nato, assim como Bruce. Não era a toa que este último confiava diversas investigações sem qualquer preocupação ao ex-pupilo. Bárbara também era uma investigadora excepcional, e antes do acidente pelo qual o morcego lamentava todos os dias, ele acreditava que ela tinha o melhor de dois mundos; acreditava também que ela e Asa conquistariam o mundo juntos. Alguma coisa no caminho não deu certo.

Enquanto Bárbara passava as coordenadas, Dick se jogava pela noite observando os passos de Pinguin. Suas atividades suspeitas geraram certo alerta no homem-morcego que naquele momento tentava lidar com Coringa numa outra parte da cidade. A vontade de Asa Noturna era de colocá-lo na parede ali mesmo e acabar com toda aquela ansiedade. Sua impulsividade natural aliada ao estresse extraterrestre o estava deixando preocupado quanto ao andamento da missão. Era só observar, mas ele queria mais. Estava a fim de bater em alguém. Amaldiçoou o fato de quando estava junto de seus amigos comendo pizza ou falando besteiras noite a dentro, os vilões e bandidos faziam questão de aparecer e destruir tudo, e agora que ele queria extravasar toda sua raiva, parecia que todos os maus moços estavam juntos assistindo o jogo da NBA felizes e contentes no galpão da alegria.

Algumas horas se passaram e Dick voltara pra mansão. Ele não fizera questão de tirar o uniforme e logo se direcionou para o laboratório em que Bárbara estava. Viu que o jovem Robin não estava em casa, provavelmente também partira em alguma missão.

Fora instantâneo. Assim que Richard entrou na sala, um terrível pensamento tomou conta da cabeça de Bárbara. “Ele era a definição da palavra ‘maravilhoso’”. Infelizmente parecia ainda mais atraente quando estava com raiva. Sem a máscara, seus olhos se mostravam impetuosos — embora ele tivesse se segurado a noite toda-, os músculos do seu rosto estavam rijos pelo estresse, e o caminhar decidido até o monitor da direita trouxeram a tona tantas lembranças boas. Ter trabalhado com ele nesses últimos meses trazia de volta os velhos tempos, e nos velhos tempos o amor deles residia.

— Eu não consigo entender! – ele começou um pouco alterado, enquanto digitava alguns comandos – Esses caras não aprendem. Se eu tivesse um plano perfeito, que no final desse errado, eu levasse uma surra e ainda terminasse preso, eu não iria tentar de novo. É burrice!

— É mesmo complicado – Oráculo respondeu com a voz fraca, como se estivesse dado pouca ou euma ateçao a oservaçao de Dick.

— O que houve? – ele se virou e a olhou com mais calma. Estava mais linda que o normal naquela noite.

— Nada – sorriu.

Trocaram olhares por algum tempo, e como se estivesse cometendo um pecado, Dick também sentiu saudades dela. Pensou em como era incrível a capacidade das ex’s de virem à tona sempre que ele conseguia ficar bem. Sentiu que ela pegara de leve em suas mãos, e involuntariamente ele se aproximava do rosto dela. Ainda com as cabeças em transe, uma parte lúcida sabia o que estava prestes a acontecer. Dick Sentiu de novo o cheiro daquele perfume que ele nunca foi capaz de esquecer, e que ela nunca foi capaz de trocar porque sabia que ele gostava. Sentiu também a quentura em ambos os rostos, loucos pra se encontrarem e compartilharem os lábios. Mas aquele calor foi tomado por uma onda de água fria. Babs viu quase que instantaneamente os olhos de Dick murcharem de um segundo para o outro.

— Não consigo. – ele soltou a frase permanecendo na iminência de beijá-la. Ele não conseguia se mover e mantinha seu olhar fixo em Bárbara. Ela sim, fez questão de trazer seu tronco de volta à cadeira, mantendo novamente uma distância saudável de seu passado.

— Desculpe, eu não deveria...

— Não é culpa sua.

— Eu sou responsável pela nossa separação. Sei que não posso voltar atrás... Não agora.

— Não é que você não possa voltar atrás. É que eu não sou mais o mesmo e... – ele se demorou um pouco mais nessa frase – infelizmente... acho que a palavra é “infelizmente”... – ele disse a si mesmo também – eu amo a Kory. Não consigo mais deixá-la... Embora eu tenha acabado de fazer isso.

Babs não disse nenhuma palavra. Ela entendia completamente tudo o que ele acabara de dizer. Na verdade ela já entendia aquilo antes mesmo de sentir vontade de beijá-lo. Ela não sabia se ainda o amava. Talvez um beijo pudesse libertá-la desse fantasma que era o desastroso término entre eles. O que ela sentia estava longe de ser rancor. No fundo não sabia se era arrependimento ou remorso por ter deixado para trás o amor de alguém que estava disposto a dar o mundo pra ela. Ela sorriu, sabendo que algum dia descobriria. Esse dia não era hoje.

— Eu vou embora – ele se levantou – conte ao Bruce nosso progresso... – O silêncio novamente preencheu a sala, enquanto ela o encarava, mas de repente um sorriso irrompia na face dos dois, quase como um tratado de paz, ainda que não houvesse nenhuma guerra.

O arrependimento caía como uma montanha nas costas do rapaz, flashes da imagem da ruiva chorando dominavam sua cabeça enquanto ele cortava as ruas com sua moto, em direção à Torre. Mas envolto por tantos sentimentos ruins, um muito bom era capaz de amenizar o sofrimento: seu coração não reconhecia mais Babs como a mulher de sua vida. Era fácil dizer que a tinha esquecido quando ele não a via, e tinha a doçura de Kory todos os dias, mas agora, frente a frente com aquela que pra ele representava o mundo, ele se sentia livre. Já não “pertencia mais a ela”. Não mais.

"Você não me destruiu
Ainda estou lutando por paz"

Uma ducha de água fria foi o início do processo de reflexão, mas mal ele sabia o que o aguardava: era um turbilhão de reflexões. Assim que saíra do banho, caminhou decidido até o quarto de Estelar; era como se ele o chamasse, talvez fosse o cheiro dela que estava lá, talvez fosse só a necessidade de senti-la perto dele de novo. Passeou pelo local, sentiu o cheiro de suas roupas, sentou na poltrona onde ela se sentava com Silkie, e olhou sem perspectiva para o céu através da parede de vidro, até que uma pequena caixa ao lado da cama redonda da tamaraneana lhe chamou bastante a atenção, principalmente pelo fato de ele nunca tê-la visto. E tomado por um sentimento proibido de bisbilhotagem, ele resolveu abri-la, e lá estava o turbilhão de reflexões.

Era um caderno não muito grande com a capa aveludada, alguns detalhes bordados e várias gravuras de bichinhos, ele riu tamanha a fofura do objeto. Agora ele lembrava que fora um presente de Mutano há dois aniversários atrás, lembrara da expressão de felicidade naqueles olhos verdes. Com coragem, ele pôs-se a abrir. Tinha medo do que viria pela frente, tinha medo de que fosse algo como um diário, e esse medo se materializou em seu coração quando depois de folhear por alguns segundos, seus olhos encontraram o título “Minha três mortes”.

"Eu tenho uma pele grossa e um coração elástico
Mas sua lâmina pode ser muito afiada
Eu sou como um elástico, até que você puxe com muita força
Eu posso disparar e mover-me rapidamente
Mas você não me verá desmoronar
Porque eu tenho um coração elástico"

" Tres vezes eu morri... nao literalmente, é claro! Senao, quem estaria escrevendo esses relatos?" Embora o texto tivesse começado de maneira assustadora, ele ria com a discreta ingenuidade que havia ali. Era a própria Estelar, em letras sinceras e ligeiramente garranchadas. Sentiu-se um tanto orgulhoso, a escrita dela havia melhorado consideravelmente " Minha primeira morte foi completamente figurada embora tivesse sido quase literal. Estar a beira de dizer adeus a esse mudo nao seria tao doloroso se tudo isso nao tivesse sido causado pela minha propria familia.

Diferente de mim e Ryand'r, Koma nunca foi capaz de absorver energia solar, por isso ela nao voava. Num planeta totalmente governado pelas emoçoes, ela era a escolha perfeita para ser a nova governante já que eu e Ryan éramos muito temperamentais — eu diria que ainda somos — e infantis. Ela sempre foi madura desde criança. Saber que sua deficiencia a impediria de se tornar o que ela vinha idealizando desde cedo, gerou nela uma fúria que caiu com todas forças sobre mim. No momento em que aconteceu eu só fiquei assustada e isso quase me impediu de me defender, mas por muitas noites sofri com a tentativa dela de me matar em Okaara nos treinos de combate, ela era minha melhor amiga, se ela estivesse feliz, eu tambem estava. Se por ventura estivesse triste, assim eu tambem iria ficar. O ódio dela era tao grande que erradicou todo e qualquer bom sentimento entre nós, se é que algum dia ouve um bom sentimento por parte dela... Pensar nisso me trazia ainda mais dor. O mais estranho foi que sofri muito mais quando ela foi embora, quando foi banida.”

"E ficarei acordada durante a noite
E sejamos honestos, não fecharei meus olhos
E sei que posso sobreviver
Vou andar através fogo para salvar minha vida"

A cada linha, a curiosidade de Dick se acentuava ainda mais. Tudo aquilo nao era segredo pra ele, mas poucas vezes ele ouvia Kory falar daquele assunto, e ali ela estava tão entregue, escrevendo algo que para ela era difícil falar em voz alta. Tomado pela euforia, ele continuou a ler o diário, livre, por saber que nao seria pego, mas tenso pelo medo do que viria a seguir.

“ Como se nao bastasse todo o sofrimento que suas atitudes me causaram, Koma mostrou seu ódio ainda mais ao nos entregar pra Cidadela, nossos maiores inimigos... Fui vendida como escrava em troca de paz ao meu planeta, e nada foi tão doloroso quanto olhar os rostos de meus pais me vendo ir embora naquelas terríveis condiçoes. Torturas, humilhaçoes e maus tratos fariam parte da minha rotina. Confesso que tinham dias em que eu simplesmente queria desistir de resistir, porque pior que a morte lenta de meu corpo, era a degradaçao da minha mete. Acho que ali, morri mais uma vez.”

"E eu quero isso, quero muito a minha vida
Estou fazendo tudo que posso"

Dick queria parar para respirar e refletir, como se quisesse digerir tudo o que lia. Sentia agora ainda mais raiva do que quando tirou seus pés de Tamaram. O planeta fazia parte de dois dos momentos mais terríveis da vida de Estelar, e agora ela estava lá, mais uma vez se sacrificando por ele. Ele teria começado um ataque de fúria e um acesso de ódio se nao tivesse visto seu nome bem no parágrafo seguinte.

“ Ainda bem que resisti! Tentar fugir dos gordanianos Foi a decisão mais instintiva e esperançosa que tomei. Foi a melhor coisa que aconteceu pois conheci meus amigos e principalmente o Robin. Eles fez tantá coisa pra tentar me salvar, que por um momento eu achei que talvez essa fosse a missão mais importante de sua vida. Beijá-lo para conseguir entender o que ele e os outros falavam, de alguma maneira pareceu significar algo mais, pois ele reagiu de uma forma que nunca me esqueço. Hoje sei o que significa, porque foi com esse mesmo ato que ele acabou me matando...”

Richard respirou. Olhou pela janela. Um “mais que diabos?” invadiu seu pensamento. Continuou.

“Seu cuidado em me fazer entender como as coisas funcionavam por aqui me encantava. Ele era gentil, atencioso e muito, mais muuuito paciente, pelo menos comigo. Aos poucos ele se tornou a pessoa que eu sempre queria por perto. Na época eu ainda nao entendia o que era amor, mas sei que já era isso que eu sentia. Tudo desandou quando aos poucos nos afastávamos, ele parecia mais frio, mais distante, e isso nao acontecia com os outros do grupo. Cheguei a achar que ele me odiava quando no meu aniversario surpresa em que todos participaram e fizeram com que eu me sentisse amada e especial, ele mal falou comigo e ficou no quarto o dia todo. Mas nada foi pior que aquele dia: Ele me encarou durante todo o café da manha. Parecia que estava fazendo um registro mental pra um retrato falado. Eu nao sabia como agir, mas quando algo me veio aos lábios para cortar aquele clima, ele simplesmente se levantou da mesa e saiu. Nao me contive em ir escondida atrás dele. Grande erro. Ele estava indo se encontrar com outra mulher, e pude fazer parte dos detalhes do encontro. Ele a beijava como eu gostaria de ser beijada por ele. Embora se movesse bruscamente, ele a tratava com cuidado, quase o mesmo o cuidado que tinha comigo no inicio de tudo. Sofri muito com meus problemas familiares, mas aquele era um novo tipo de sofrimento. Uma dor que eu nao conhecia antes e que me tomou de uma forma tão grandiosa que mal conseguia respirar. Aquilo foi bem ruim, mas seguir os dias fingindo que nada tinha acontecido foi umas das coisas mais difíceis que já fiz.”

"E então mais um vai por água abaixo
É difícil perder quem eu escolhi"

O homem no quarto nao sabia se sentia vergonha ou tristeza... Bem, talvez vergonha fosse a melhor opçao, nao só por lembrar o quanto fez Estelar sofrer ao nao admitir seus sentimentos, mas por te-la abandonado mais uma vez. Pensou em si mesmo e na raiva que sentia, mas nao pesou o fato de que aquela era a casa dela e que seu povo já tão sofrido via nela esperanças de que seu planeta nao fosse governado por um tirano qualquer, e sim por aquela a quem o trôno fora prometido desde sempre, a doce e guerreira Koryand’r. Nao pensou que talvez aquele era o momento em que ela mais gostaria que ele estivesse a seu lado, afinal ela já tinha perdido quase todas as pessoas que amava e que se importavam com ela e mesmo que fosse assumir um compromisso com outro homem, era claro que ela o amava. Ele tinha se esquecido disso quando passou por aquela porta? Tinha esquecido do quanto ela lutou por aquele amor?

Em meio a relatos tão cortantes, ele se sentiu feliz por ter ido ali e achado o diário; O diário que lhe mostrou o quanto Estelar era muito mais forte do que parecia, e que ela não precisava dele para ser uma pessoa melhor, mas que mesmo assim fazia questão de te-lo em sua vida, como parte mais que importante e isso o fez amá-la ainda mais.

"Você não me destruiu
Ainda estou lutando por paz

Eu tenho um coração elástico"

Ele precisava voltar ates que ela morresse pela quarta vez.

Notas finais
*Pessoal, o parágrafo em que Kory é escravizada pela Cidadela e logo depois está fugindo dos gordanianos pode ter parecido confuso mas pelo que me lembro dos quadrinhos os gordanianos se aliaram a Cidadela e rolava uma espécie de troca de favores, escravos por exército. Pode ser explicado mais la na frente.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.