Notas iniciais
Olá pessoal! Passando pra atualizar, afinal demorei quase dois meses pra atualizar, então pra compensar hoje tem capítulo novo!! Espero que gostem!

Richard preparava sua nave para sair da Terra, mas seu coração e cabeça já tinham saído há muito tempo. A viagem demorou mais que o normal, talvez porque ele estivesse com pressa demais, ou talvez porque seus amigos não estavam ali para alegrar aquele “passeio” – que pela voz de Victor, não seria nada muito bom.

Enquanto chegava ali naquele planeta de aparência hostil, ele sentiu aquele cheiro ligeiramente desagradável – pelo menos para Richard, era. Talvez essa suave repulsa por Tamaran se devesse ao fato de estar acostumado com a Terra, e achar que lá era o melhor lugar do mundo, ou talvez em seu inconsciente, Tamaran representasse muitos momentos ruins vividos pela mulher que amava. Ele não sabia o que era, mas também não ficava pensando muito nisso.

Um grupo de soldados já se preparava para recebê-lo, e ao descer da nave reparou que todos, embora em forma, estavam com uma aparência abatida e triste.

– O que houve? O que “tá” acontecendo? Cadê a princesa Koryand’r? – Ele perguntava a cada um dos homens, enquanto caminhavam em uma direção, mas ninguém respondia até que puderam avistar os longos cabelos vermelhos de uma mulher debruçada sobre um caixão no meio do salão do rei.

– Eu não acredito nisso!!! – Estelar dizia entre lágrimas, debruçada em cima do homem grande e corpulento que tinha um semblante sereno e pacífico. Era Galfore.

Garfield estava do lado da amiga, tentando consolá-la, mas era quase impossível. Ela já chorava ali em cima há mais de uma hora e o choro nem mesmo diminuía. A dor sentida por Kory parecia não ter fim. Ele era a única lembrança feliz da infância dela, não tinha o seu sangue, mas ela o considerava como a única família, ainda quando seus pais eram vivos. Galfore era muito mais que uma babá, ele estava lá nos primeiros passinhos de bebê da princesa, era quem a acalmava nas noites ruins cheias de pesadelo, a livrava sempre que se metia em encrenca, ainda que isso trouxesse problemas para ele, com o rei. Ele chorava todas as noites quando Kory foi praticamente vendida pelos pais aos gordanianos, em troca de paz, e a mocinha ainda o fez prometer que não iria atrás dela, Kory o queria vivo e servindo a Tamaran quando ela voltasse. A garotinha sabia que ia voltar, ela aprendeu com Galfore a nunca desistir. Agora ela via como uma maldição, parecia que bons reis nunca ficavam muito tempo no poder.

Ciborg e Ravena olhavam a cena com uma expressão vazia, três olhos tristes e um mecânico que só tinha vida porque estava aceso. Na verdade todos os Titãs ali eram órfãos. A dor da tamareana era algo comum a todos, mas não menos dolorosa, até porque era o primeiro “pai” que ela perdia que realmente a amava. Era como se estivesse sendo órfã pela primeira vez.

“Ele era tão forte”, ela pensava, “Tão saudável e cheio de vida”. Ela buscava possibilidades, explicações, mas mesmo que as tivesse, nada justificaria.

Dick se aproximou da menina que ao sentir seu toque, já virou para abraçá-lo, ela sabia que ele tinha chegado, porque instantaneamente as amarras de seu coração pareciam se afrouxar. Afrouxar, não desatar.

– Dick! Dick! – soluçava – O meu knofca!!!

– Eu sei... – ele dizia triste abraçado a ela, acariciava suas madeixas como estivesse buscando consolo em algum lugar para oferecer à moça, até que seu olhar encontrava um outro que era verde e estava igualmente triste, era Mutano a sua frente, com um semblante conformado, e ali nos olhos do amigo verde encontrou a força que precisava. – Eu sei...

A noite não foi das melhores para Kory, ela foi levada aos seus aposentos e depois de muito chorar, acabou dormindo. Numa outra sala os Titãs se reuniam com o que seria o grande conselheiro do imperador, e seu filho Edmi’r.

– E quando foi que isso aconteceu, conselheiro? – Richard perguntou ao homem corpulento de estatura baixa.

– Foi hoje, logo cedo — assim que ocorreu pedi para que meu filho Edmi’r fosse ao planeta que acolhe a princesa, para avisá-la.

Edmi’r fez um aceno de cabeça ao ouvir seu nome. Era um rapaz que diferente do pai era alto e com ombros bem largos. Devia ser um guerreiro do planeta, então possuía um bom físico. A cor de seu cabelo era bem semelhante à de Kory, e os olhos igualmente verdes como o dela, contrastavam com sua cor bronzeada. Dick o mirou por um tempo, mas nada falou.

– Aconteceu algo de diferente nesses últimos dias? Algum confronto, um novo inimigo, uma nova rotina? – Mutano perguntou.

– Não, tudo está exatamente como estava há meses atrás... – Bem, vocês são amigos da Koriander, sei que querem o bem dela, mas não há mais nada que possamos fazer, infelizmente. O Galfore era um grande amigo meu. Um grande homem, com um grande coração. Mas não podemos ficar nessa questão por muito tempo. Tamaran precisa andar.

“Tamaran precisa andar”, não soou muito bem para Dick. Algo ruim estava por vir. Ele sabia.

O homenzinho e seu filho saíram de cena, deixando quatro heróis curiosos no local.

– Esse cara me pareceu bem estranho – Garfield começou – “Não vamos nos ater a essa questão, Tamaran precisa andar”... É óbvio que ele queria tomar o lugar do pofca!

– Knofca! – Rachel o corrigiu.

– Mas por que matar? – Vic se questionou. – O Galfore já era um senhor de idade, mais dia menos dia a morte viria visitá-lo.

– Talvez o conselheiro estivesse dizendo a verdade – Rachel passeou pela pequena sala – Uma morte natural não é algo duvidoso para um homem como o Galfore que vem resistindo há muitas gerações, há muitas guerras. O corpo não tinha sinais de alguma violência e eu não senti nada diferente internamente, sei lá, talvez uma infecção, ou falha nos órgãos mas... acho que temos que nos preocupar com outras coisas agora.

Enquanto a discussão se seguia, Dick ainda estava preso em “Tamaran precisa andar”, ele olhava para seus amigos, ouvia o que diziam, mas sua mente estava bem distante dali. Ele se perguntava como estava Kory, se ela havia dormido realmente, se não estava tendo pesadelos com suas mãos presas em correntes gordanianas... se ela chamava por ele.

“Depois da noite de tempestade, o dia sempre nasce mais bonito” ... Não com Estelar. Não funcionava. A dor que sentia na manhã seguinte era equivalente a quando recebera a notícia no primeiro momento. Vivia o aquele instante de angústia milhares de vezes, sentada em sua cama redonda tamareana – não tão macia e confortável quando a terrestre... Tamareanos foram criados para sobreviverem a ambientes hostis – e toda a cena se repetia como num loop infinito: Ela observando o doce olhar com o qual Sarah observada Cyborg consertar uma peça, o que a lembrou que tinha afazeres antes de sair com Dick. A atmosfera calma e leve mudou repentinamente ao ver a expressão triste e confusa de Ravena, que naturalmente foi o prelúdio de uma visita nada agradável. Edmi’r estava lá, com suas imponentes roupas roxas mostrando parte de seu tronco integralmente ferido e cheio de cicatrizes de combate, eram como as cicatrizes dela, de feridas que jamais seriam esquecidas. Mas ali naquela sala, palco de tantos momentos bons, divertidos e engraçados, uma nova ferida se formava, mas não uma ferida física por onde jorraria sangue, era uma por onde jorrariam sentimentos, e disso a doce ruiva tinha muitos.

Kory não era contava fatos, ela os revivia sempre que abria a boca. Era por isso que evitava falar de todas as coisas ruins que a aconteceram, ela sabia que novamente o sentimento a preencheria. Registrava seus melhores e piores momentos no que os humanos chamavam de “diário”. Era sempre bom passar pelos registros felizes revivê-los, mas o lado obscuro de sua vida ficaram nas páginas que estavam em moscas. Ela queria tê-lo ali. Queria registrar mais esse momento, e reabrir o lado do diário que mais detestava, mas era preciso. Ela descobriu que depois de escrever seu sentimento iria ali junto e tudo ficaria bem. A morte de Galfore era uma tragédia que desencadearia outros problemas, mas ela não era mais a Estelar adolescente e confusa, ela era uma mulher que deveria bater de frente com seus problemas por mais duros que fossem. A dor estava ali, mas dois homens em sua vida, a fizeram ser uma mulher forte e decidida... Um deles jazia no jardim real do planeta, e o outro onde estava? Mesmo no meio de tanta angústia havia espaço para ela se lembrar do entusiasmo que sentia só de pensar na linda tarde que passaria com Dick. O que ela queria é que tudo se consertasse, que tudo ficasse bem e ela pudesse estar com ele de novo. Mas até mesmo ela sabia que ainda teria que resolver muitas coisas antes que pudesse ir embora pra casa. Mas até disso ela desconfiava: de sua volta pra casa... Essa dúvida abria um buraco em seu peito, ao mesmo tempo em que ela se caía na frase “voltar pra casa”, mesmo estando em Tamaran.

Deixou que a água percorresse seu rosto, e procurava um meio de se banhar. Ela teria um dia difícil e sabia disso. Atravessou a porta desejando do fundo de seu triste coração que pudesse haver tempo para abraçar seus amigos terráqueos.

Não foi possível.

– Princesa Koryand’r! – um soldado a abordava — Todos os conselheiros do rei estão te esperando para uma reunião, eles a aguardavam sair de seus aposentos, quando estivesse bem... E creio que seja algo bem importante – o rapaz acrescentou ao ver o olhar da ruiva assumindo outra direção: a direção dos aposentos dos visitantes... Os terráqueos.

– Tudo bem – o desapontamento era nítido em sua voz quase falha, e ela seguiu para o lugar que poderia decidir seu futuro.

SALA DE REUNIÕES

A última lembrança de Kory daquela sala estava tão distante, era a época em que seus instintos infantis a dominavam. Junto de sua irmã Komand’r ela via o grande Myand'r, imperador de Tamaran entrar na sala de reuniões com os conselheiros. Ouvir atrás das portas era algo que as duas adoravam fazer e sempre excluíam o caçula Ryand’r. Num desses dias de travessura ouviram a grande discussão sobre quem seria o sucessor do trono caso algo de ruim acontecesse ao imperador – eram tempos de guerra. Era para sem uma simples e convicta decisão, principalmente para o rei, a favorita era Komand’r. Ela era a mais velha e tinha o pulso firme necessário para governar um planeta, o rei estava convicto ainda que fosse uma simples adolescente. Mas Komand’r não absorvia a energia solar, por isso não era capaz de voar, sendo assim uma escolha inviável segundo os conselheiros. Apesar de concordar, Myand'r não escondia sua insatisfação, era perceptível em sua voz. O que era assustadora e igualmente perceptível era a mudança do olhar da irmã mais velha do lado de fora, seu ouvido não mais colado à porta. Kory via florescer um olhar de ódio na irmã, que se acentuou no “é claro que a melhor escolha é a a próxima filha: Koriander!” que puderam ouvir mesmo distantes da porta. Komander saíra correndo pelo grander corredor e desde aquele dia elas nunca mais ouviam conversas juntas atrás da porta.

–Bom, senhorita Kory! – o grande conselheiro bradou ao ver a moça de cabelos ruivos adentrar a sala – Precisamos conversar! Infelizmente sofremos uma grande perda – enquanto dizia o senhor baixinho, Kory reparava num olhar insistente em sua direção. Era Edmi’r – Galfore era pra todos aqui um exemplo de homem, um bom governante. Mas precisamos preencher seu lugar. Tempos de guerra estão se aproximando, e um líder será preciso...

Kory digeria aquelas palavras com dificuldade. Onde aquela conversa terminaria?

– Tendo em vista que você é a próxima no trono, é do consenso de todos aqui... que a senhorita deve governar!

Um soco no estômago havia acabado de atingir Kory invisivelmente, perdera o ar, e antes que visualizasse sua imagem como próxima governante, sua mente automaticamente procurava soluções para fugir daquele destino, que ela nunca quisera. Novamente ela estava ali, naquela sala onde todos discutiam e iam contra a realeza, afirmando que ela deveria assumir aquele posto... Mas dessa vez ela estava dentro da sala.

– Não! Isso não é possível!

–É sim princesa! – um dos outros conselheiros se levantava da cadeira. Não em tom autoritário, mas em um confuso do porquê a moça não aceitaria seu posto reservado desde que ela nascera.- Você é a próxima...

– E Ryand’r?

– Kory – Edmi’r começou e ela não reconhecia aquela intimidade – Todos sabemos que Ryan se foi... Ele se culpa por tudo que aconteceu ao planeta, a você, ele se foi... Ele não vai voltar...

O silêncio reinou enquanto o olhar de Kory se perdia no vazio.

– Bem princesa – o grande conselheiro tentou continuar – Para que assuma seu posto, você deve se casar – “casar” ele disse, nesse momento uma nostalgia invadia a alien – e deve ser com um nativo. Pela regra seria eu – ela o olhou abruptamente – mas sou um homem velho, e cansado – ele sorriu – então... seria Edmi’r... O seu noivo – “noivo”, ele disse. Estaria ela numa viagem temporal?!

Edmi’r mais uma vez ouvia seu nome e abaixava a cabeça. Ele seria completamente honrado ao se casar com a princesa e mulher mais bonita que já conhecera, mas ele sabia... Sabia que o grande amor da vida dela estava por perto, bem ali naquele planeta. Sabia que ela estava desmoronando.

E ela estava. Mais o vez o vazio preenchia seu olhar. O conselheiro não mentia. Essas eram as regras, esse era o seu dever. Mas como deixar tudo. Como deixar a Terra? Como deixar sua vida super heroína, a cidade, os criminosos, os monstros? Como deixar seus amigos? Como deixar Dick? Abrir mão de seu grande amor, justamente quando tudo parecia tão bem... Estava ela destinada a nunca ser feliz com ele?

Saber da notícia parecia ruim... Mas contar para os outros... os terráqueos... seria ainda pior.