Saint Agnes Academy - Interativa
6 Defesa Pessoal
Notas iniciais
POV Johanna Parker
Virei a esquerda, entrando no corredor norte. Leonardo vinha logo atrás de mim, ainda que contrariado. Abri a porta da sala de música, enfiando a cabeça para dentro. Ela não estava lá, e nem na sala de jogos, ou em uma sala de aula, ou na biblioteca, o que não era novidade alguma para mim. Bufei, fechei a porta e continuei minha procura.
– onde diabos essa garota se meteu – resmunguei, um pouco impaciente.
– ela não saiu da casa, o carro dela ainda está na garagem – disse Leo, um tanto irritado.
– mesmo assim, não consigo acha-la em lugar algum – falei.
– a gente acha ela – disse Leo – ela não pode ter evaporado.
Trinquei os dentes, mas não pude discordar, ela, realmente, não podia ter evaporado. Abri a próxima porta, sala da família, vazia. Leo ficou um pouco aéreo demais quando abri aquela porta, como se tentasse disfarçar. Ignorei, não tinha tempo para isso, precisava achar boboca da minha prima.
– eu já não sei mais onde procura-la – falei, frustrada – onde ela está? Como alguém pode sumir assim, dentro da própria casa?
– podendo ficar invisível – respondeu Leo.
– o que nossa prima não faz – falei – se ela pudesse, já tinha entrado escondida nos bastidores de Thor, o mundo sombrio, só para ver o Chris Hemsworth trocando de roupa.
– não duvido nada – disse Leo – embora, eu prefira não pensar na nossa velhinha dessa forma.
Olhei para ele, minha raiva ficou ainda mais fresca.
– alias, por que, em nome de Carl Johnson, você foi contar o segredo da Claire daquela maneira? – perguntei, irritada.
Leonardo deu de ombros, um tanto cauteloso, eu não estava nada contente com isso.
– uma hora viria á tona, não acho que foi um mau negocio – falou.
– incrível, foi um belo golpe de sua astúcia – falei – agora estamos aqui, procurando pela nossa prima, que, em um ataque de fúria, derrubou minha estante de livros do escritório.
– isso não foi tão grave, eu coloquei no lugar – disse Leo.
– ela amassou meu Livro de Ouro da Mitologia, é claro que foi grave, imbecil – rosnei.
Leonardo revirou os olhos, continuei caminhando pelo corredor, abrindo todas as portas que via pela frente, até que me choquei contra Gabe no corredor.
– cuidado Jo! – falou, ligeiramente espantado pelo súbito contato – eu sei que é a sua casa, mas, pode me machucar.
– santa preocupação – resmungou Leo.
Revirei os olhos, saindo dos braços de Gabe, que me segurava, devido o impacto.
– vou prestar mais atenção, não se preocupe, obrigada – falei – não viu a Claire por ai, viu?
– a Claire? Eu acho que não – respondeu, me olhando – só na hora do café, no espetáculo histórico do Leo.
Olhei para meu irmão, que fez uma careta e desviou o olhar.
– valeu, Gabe – resmungou – muito obrigado.
Gabe riu, revirei os olhos e olhei meu amigo.
– enfim, eu preciso acha-la – falei – se a vir em algum lugar, me avise.
– pode deixar, Jo pancada – falou, relembrando meu apelido da época do colegial.
– tudo bem, Gabe Ghost – retribui.
– droga, Jo – reclamou, fazendo uma careta um tanto fofa – eu odeio esse apelido, nem pareço um fantasma.
– parecia na época – disse Leo, dando um meio sorriso sarcástico – costumava aparecer do nada, como se brotasse do chão.
Ri, era verdade. Gabriel tinha o dom de passar despercebido quando queria, mesmo sendo difícil, já que chamava atenção onde passava.
– vá lá, ache sua prima, eu não vou mais atrapalhar – disse Gabe, passando a mão no cabelo, no meu cabelo – até mais tarde.
Assenti, ele passou por mim pelo corredor e sumiu, na direção da sala de jantar. Leo ficou me olhando com uma cara estranha, ignorei e continuei á andar pelo corredor, procurando Claire.
– eu acho que ela não está no banheiro, você já está começando á exagerar – disse Leo, fitando os sapatos enquanto andava.
– ela é velha, mas também precisa ir ao banheiro de vez em quando – falei, entrando no elevador.
– até você admite que ela é velha – disse Leo, entrando junto comigo.
Revirei os olhos, apertando o botão certo.
– não posso negar a idade da loirinha, ainda que não aprove seu modo de expressar a idade dela – falei.
Leonardo revirou os olhos, sacudi a cabeça, que otário.
O elevador parou, saí logo em seguida, deixando Leo para trás.
– espera aí, papa-léguas – ironizou Leo.
– anda mais rápido, lesma paralitica – retruquei, empurrando a porta o quarto de Claire.
O cômodo estava vazio, o tom de rosa Pink das paredes me fazia sentir uma boneca Barbie, e o cheiro de perfume de grife me dava dor de cabeça. Leo bateu a cabeça na prateleira onde Claire guardava as temporadas de suas series favoritas, tinha até mesmo uma maquete do Titanic lá, ao lado da Barbie e do Ken.
– você não soube educar sua prima – resmungou Leo, indicando a bagunça em cima da cama dela.
Bufei, colocando alguns dos ursinhos de pelúcia de volta em seus respectivos lugares.
– eu não pude fazer isso, já que ela já era velha quando eu nasci – falei, tirando uma franja da cara – aliás, ela nunca teve costume de tirar esses bichos da cama, pobre tia Margareth.
Atirei o ultimo pônei colorido em cima da prateleira e dei um giro no quarto, mesmo estando vazio, era estranho.
– ela ainda guarda as primeiras bonecas dela, acho que a infância dela ainda não acabou – resmungou Leo, tirando uma boneca antiga do lugar.
– com certeza, ela já esta na adolescência – falei, abrindo a porta do armário dela.
Leo engoliu em seco, deveras, a porta do armário estava completamente decorada por pôsters e fotos de celebridades masculinas em traje de banho.
– uma criança faria isso? – perguntei, sarcástica – acho que não. Claire só é infantil.
– fecha essa porta, estou ficando nauseado – reclamou Leo, desviando o olhar das imagens.
Ri, joguei um beijo para a foto do Taylor Lautner só para provocar meu irmão, que bufou, e fechei a porta. Virei para encarar meu irmão, ela ainda bufava.
– eu ainda mando derrubar essa porta – resmungou.
– exagerado – falei – onde procuramos agora? Já rodei essa casa inteira atrás da peste loira.
– deixa a Claire para lá, ela vai ficar de mal conosco até o sábado – disse Leo, fazendo um gesto irritado com a mão – ela precisa do meu cartão de crédito, vai ficar tudo bem.
– de mal com você – corrigi – eu não fiz nada, a culpa foi sua.
– jogando a culpa nos outros, isso é feio – disse Leo, irônico.
Dei dois passos em sua direção, esquecendo de Claire por um segundo.
– você não pode dizer nada, pode? – falei – afinal, eu era apenas uma criança.
Leo murchou um pouco, infeliz por ver que eu tinha lembrado disso.
– outra vez esse assunto, Jo? – disse, um pouco baixo – eu já pedi desculpas, o que você quer de mim?
– nada – falei, afastando-me dele – só não esqueça que o erro não foi meu.
Deixei as coisas de Claire para trás, assim como Leo, e saí pela porta.
– eu vou continuar procurando – falei, lançando-lhe um olhar por cima do ombro – você não precisa.
Deixei-o para trás, recordando outra vez, da culpa irracional que meu irmão me fez sentir durante anos.
Flashback On
O barulho infernal dos sapatos da delegada ainda ecoava em meus ouvidos, mesmo depois de já termos saído de sua sala. O cheiro de papel era mais forte aqui, na sala de espera. Mas o cheiro de fumaça ainda não saíra de mim, ou de Leo. Meu irmão estava sentado do outro lado da sala, separado de mim. Eu ainda chorava, tentando fazer a fita da minha blusa voltar ao lugar, falhando outra vez.
Passamos as ultimas duas horas tentando explicar o que tinha acontecido á delegada, mas, nada que pudessem fazer, nada que pudessem dizer, iria mudar o fato de que meu pais tinham acabado de morrer, bem na minha frente.
Baixei a cabeça, triste demais para descrever, apenas sentindo aquele buraco no peito arder como se estivesse sendo assada em uma churrasqueira gigante. Ainda que eu desconhecesse a sensação de se queimar, eu sabia que doía, e sabia pelo rosto retorcido de meu irmão. Suas ataduras estavam um pouco sujas, melecadas com algum tipo de remédio para queimaduras, remédio que não funcionava, ele ainda gemia de dor, deixando a perna dura, para não encostar o ferimento em nada. Levantei meu rosto, meu irmão chorava baixinho, sem olhar para mim. Seu rosto estava retorcido,exibindo em alta frequência todos os seus sentimentos, como uma televisão. Levantei, um tanto tremula, anda não me recuperara completamente da queda, os paramédicos me mandaram ficar quieta. Andei vagarosamente até meu irmão, ele não levantou o rosto, e fechou os olhos. Sentei ao seu lado, colocando a mão em seu braço, tentando chamar sua atenção.
– Leo – chamei, minha voz saiu fraquinha.
– o que você quer? – perguntou, rudemente.
Pude sentir raiva em sua voz, só não sabia o porquê.
– a mulher disse que vão mandar a gente para outra família – falei.
– eu ouvi – resmungou, ainda sem me olhar.
Engoli em seco, estava com medo.
– eu não quero ir – falei – eu estou com medo.
– eu sei – falou, abrindo os olhos e fitando meu rosto.
Funguei, recomeçando á chorar.
– eu quero o papai e a mamãe, quero eles aqui comigo – falei, chorando.
Leo levantou, tremendo. Fiquei com mais medo ainda, eu sabia o que aconteceria em seguida.
– eles não podem vir, eles estão mortos! – falou.
– não diz isso – reclamei – não diz como a delegada disse, isso é ruim.
Meu irmão me encarou, seus punhos estavam fechados, eu podia ver as veias de sua mão saltadas pela pressão do ato.
– ruim? – falou – não, não é ruim. É a verdade!
– Leo, não faz isso – chorei, com medo.
Leo fungou, ia dizer mais alguma coisa, mas aquele policial entrou.
– a prima de vocês acabou de chegar – anunciou.
Ele parecia entediado, mascava aquele chiclete como se fosse uma lhama mascando grama, sua barriga protuberante anunciava-se em seu uniforme, dando a impressão de que os botões cederiam á qualquer momento. Engoli em seco, um tanto aliviada. Leo nem mesmo me olhou ao sair da sala, precisei quase correr até ele.
– Leo, Jo! – chamou.
Era loira, aparentava ter uns quarenta e poucos anos, seu rosto familiar e seus olhos verdes claros me fizeram chorar ainda mais.
– prima Raven – falei, correndo ao seu encontro.
Ela abaixou-se, abraçando-me e abraçando Leonardo ao mesmo tempo. Ela também chorava, mas parecia bem mais aliviada ao nos ver. O peso de meus ombros pareceu aliviar-se um pouco, a preocupação que eu tinha quase sumiu. Não iríamos para uma família desconhecida, iríamos com Raven.
– precisa assinar alguns papeis antes de levar os menores – disse aquele policial.
Raven fungou, depositou um beijo na testa de cada um e levantou. Procurei a mão de Leo, mas só achei seu punho cerrado, preparado para derrubar outra parede.
– Ravenna Anastácia Parker – chamou a delegada.
Tia Raven, que na verdade era nossa prima, limpou uma lagrima e assentiu. A alta e magra delegada gesticulou, indicando a pilha de papeis em cima do balcão. Raven assinou os papeis, olhando para nós de vez em quando. Eu sei que ela era nossa prima, mas a chamávamos de tia, só pelo fato dela cuidar da irmã, que era uma criança, á muito tempo. Aproximei-me do meu irmão, ele não queria me encarar, só olhava tia Raven.
– tudo certo – disse a delegada – você já pode leva-los.
Raven assentiu, pegou-me no colo, apertando-me com força.
– vai ficar tudo bem – falou – eu vou cuidar de vocês.
Leo abraçou-a pelas suas pernas, era tudo que ele podia fazer, mas Raven não ligou, apenas nos apertou com mais força, levando-nos para fora daquela delegacia. Ela me soltou para eu entrar no carro, acomodei-me na assento infantil, enquanto Raven colocava Leo ao meu lado, fechando a porta do carro.
– primos – disse uma garotinha ao meu lado.
Devia ter uns dez anos, ou mais, não soube dizer na época. Mesmo que pudesse, seu exterior era completamente diferente do interior.
– eu sinto muito – falou, e parecia não saber mais o que dizer.
Assenti, confusa e triste demais para ligar para a falta de tato de Claire. Baixei a cabeça, logo os solavancos da estrada ocultaram os tremores de meu corpo, em meu choro silencioso. Leo mantinha as mãos trancadas em punhos, sem dizer uma palavra. Seu silencio estava começando a me incomodar, eu estava nervosa, sabia que ele estava com raiva, mas não sabia exatamente do que.
– Leo? – chamei, chorosa.
Ele fechou a cara, sem olhar para mim. Fechou os olhos, tremendo de raiva.
– a culpa disso é toda sua – falou baixo, mas a frieza em sua voz não deixava isso barato – você e uma aberração, Jo.
Parei de repirar, assim como Claire, que ouvira tudo, estando logo ao meu lado.
– não diga isso – pedi – por favor, a mamãe disse para você não dizer isso.
– a mamãe não está aqui, e nunca mais vai estar! – gritou, sua voz estridente chamou atenção de Raven – você os matou, você é um monstro, uma aberração.
– Leo, não diz isso – pedi, chorando ainda mais.
Ele me olhou, ele ainda era muito pequeno, mas já possuía aquele olhar frio.
– você é um defeito, um aborto da natureza – falou – e matou nossos pais porque não conseguiu se conter, já era de se esperar algo assim, vindo de um bicho estranho como você.
– não fale isso! – disse Raven, estacionando o carro – Leo, não fale isso. Ela é só uma criança!
Mas já era tarde, eu já tinha percebido que ele falava a verdade. Sem querer, eu cai na minha própria armadilha, me enrolei em uma teia de aranha, e Leo era a aranha. Cometi um erro, um erro respeitável. Usei a minha obediência, do jeito que meu pai sempre dizia.
Eu acreditei no meu irmão mais velho, e baixei a cabeça, aceitando o que ele tinha dito.
Flashback off
Virei outra esquerda, indo parar no meu quarto, dessa vez. Abri a porta, Ash estava lá dentro, deitado na minha cama.
– Ash! – guinchei.
– au! – respondeu, com a cabeça no meu travesseiro, como quem mandasse-me calar a boca.
– que folgado – resmunguei – mas, a culpa é toda minha.
Sentei na cama, ele logo tratou de botar a cabeça em minha perna, esperando carinho. Sorri e pus-me á acariciar a cabeça do cão, suspirando.
– eu que te acostumei á dormir comigo, não é mesmo? – perguntei, dando uma risada abafada – afinal, quem resiste á essa sua fofura?
– Au – concordou, fechando os olhos outra vez.
Sacudi a cabeça, ainda que fosse um folgado, esse Ash era minha maior alegria. Meu cão já tinha dormido outra vez, sorri, e resolvi deixa-lo em paz. Levantei da cama, suspirando. Procuraria por minha prima uma outra hora, agora, eu preferia almoçar.
Sai do quarto, tentando não pensar em uma das piores desavenças que já tive com Leo.
A do dia do acidente, o dia em que eu fora chamada de monstro, por quem mais amava no mundo.
POV Henry Philips
Depois de um almoço normal, na medida do possível, já que todos á mesa eram mutantes, a tarde foi, no mínimo, normal. Passei a maior parte dela andando por aí, matando o tempo, já que não ia fazer a atividade extracurricular da segunda, que era a aula de espanhol. Estava começando á pensar que o numero de surpresas diárias tinha se esgotado, quando encontrei a tal Claire.
Francamente, ela não podia ter 80 anos, não com aquele rosto, não com aquele corpo.
Ela estava parada no meio da passarela de acesso que ligava os dois pontos da casa, eu o tinha encontrado hoje mais cedo, já que acordei um pouco mais cedo que os outros. Eu ainda tinha meus sentidos em alerta, por conta do meu passado, onde eu precisei deles, levando em conta onde eu morava. Voltando á loira, Claire estava parada no meio da passarela, olhando para o quintal. Parecia pensativa, distante.
Eu ainda lembrava do café da manhã, lembrava do numero exato que Leonardo dissera. Para alguém da sua idade, ela estava bem conservada.
Enfiei as mãos nos bolsos da jaqueta, fui andando á passos lentos em sua direção. Encostei-me na grade de proteção, ainda que não visse o motivo de ter uma, quem cairia ali?
Nem me pronunciei, não precisei, mesmo sendo uma velha, Claire não deixava seu lado “bad Girl”de lado. Nem me mexi, apenas senti que estava sendo observado. Lancei um olhar rápido para a garota ao meu lado, ela me espiava pelo canto do olho. Ela tinha endireitado sua postura, empinava o traseiro, debruçada sobre a grade, fazendo um biquinho e exagerando no movimento das respirações, tentando dar mais volume á seu peito. Dei um meio sorriso, revirando os olhos. Garotas como ela são impossíveis, mas, garotas velhas com esse tipo de comportamento, já era outro nível.
– então, como foi estar presente na segunda guerra mundial? – perguntei.
Ela arquejou, acho que ela não estava acostumada á ouvir aquilo de alguém.
– o que disse? – perguntou, um pouco alterada.
Tive vontade de rir, mas me contive. Queria curtir mais um pouco.
– eu disse, como foi estar presente na segunda guerra mundial? – repeti, lançando-lhe um rápido olhar.
Ela bufou, cruzando os braços, irritada.
– eu não estava presente na segunda guerra mundial! – guinchou.
– qual é? Eu não sou perito em matemática, mas sei que já devia estar viva nessa época – falei, provocando-a com um sorriso – de que ano você é? 30? 31?
– o que você tem á ver com isso? – perguntou, irritada.
– 29? – continuei, envelhecendo-a ainda mais – 28?
– 1934! – rosnou, batendo o salto alto no chão de mármore polido, quase trincando-o – nasci em 02 de janeiro de 1934!
Dei um sorriso, ela cruzou os braços outra vez, derrotada.
– então, como eu perguntei antes, duas vezes – falei, escorando as costas na grade de proteção para fita-la – como foi estar presente na segunda guerra mundial?
Ela bufou, quase pude ver fumaça sair de suas orelhas.
– eu não estava presente, como podia? – falou – eu era um bebê, literalmente. Só comecei á andar uns dez anos depois de nascida, como poderia prestar atenção em uma guerra?
Abri um sorriso lento, ela estava entregando as respostas com uma facilidade incrível.
– já tinha televisão naquela época? – perguntei.
– em que isso tem relevância? – perguntou, ficando um pouco confusa.
Sorri, encarando-a fixamente.
– já, ou não? – perguntei, forçando as palavras.
Ela me encarou, um pouco mais calma.
– já, embora, só termos conseguido uma depois da guerra – respondeu.
Meu sorriso cresceu, ela respirou fundo, tentando ficar mais calma.
– por que você está perguntando essas coisas? – perguntou, tentando esconder o leve tremor em sua voz.
Dei de ombros, ela me encarou.
– informação é bom, uma vez ou outra – falei, depois dei um sorriso malandro – levando em conta que é muito raro eu encontrar uma enciclopédia dos anos 30.
– ora, seu... – rosnou, levantando a mão.
Segurei seu punho á uns cinco centímetros de meu rosto, tentando não rir.
– não, senhora – falei, dando um ótimo destaque á ultima palavra.
Ela grunhiu, puxando o braço para soltar-se de mim. Deixei-a livre, Claire fungou de raiva.
– não sou uma enciclopédia dos anos trinta, você deveria me respeitar – chiou, mas sua voz não foi firme o suficiente, ela ainda era uma adolescente fora de época.
– claro, desculpe-me – falei, fingindo espanto – deve-se respeito aos mais velhos, onde meus modos foram parar?
Ela arquejou, estufando o peito.
– modos? Que modos? Seu bruto! – gritou, insana de raiva
– os que minha mãe me ensinou – falei, sarcasticamente.
– pois pode enfiar seus modos lá onde o sol não bate! – guinchou, irritada.
– eu não sabia que essa era expressão era tão velha – provoquei.
Ela bateu o pé no chão outra vez, rosnando de raiva.
– velha é a senhora sua avó! – gritou.
– que você deve ter conhecido, já que é da época dela – falei, calmo.
Acho que peguei pesado, só acho.
O lábio inferior de Claire tremeu, ela baixou o punho que erguera para tentar me bater e virou ás costas para mim, dando uns três passos trêmulos para longe de mim. Suspirei, segurei seu punho, impedindo-a de ir mais longe que aquilo. Claire tentou puxar seu braço outra vez, mas eu não deixei. Eu era um encrenqueiro, mas acho que acabei magoando a velhota, e tinha meu orgulho.
– me deixa em paz! – falou, sua voz tremeu – já chega de pisar em mim.
Droga, eu tinha experiência de vida suficiente para saber quando uma garota estava chorando. E ela estava, ainda que não fosse uma garota, não exatamente.
– eu não estou pisando em você – falei, tentando não deixar meu constrangimento transparecer – eu só estava brincando.
Ela virou, deixando-me ver seus olhos molhados e suas poucas lagrimas caindo.
– brincando? Eu sei que estava brincando – falou, um pouco mais firme – eu não sou mais criança, sei quando caçoam de mim, e era o que você estava fazendo.
Soltei seu punho, para deixa-la ir, não queria um sermão de uma jovem idosa. Claire aproximou-se de mim, deixando sua testa á uns dez centímetros de meu queixo, olhando para cima para poder encarar meu rosto.
– você não sabe quantas vezes eu aguentei essas piadinhas, brincadeiras de gente como você. Garotos brutos, mimados e que se acham por usarem jaquetas de couro – falou, quase na ponta dos pés – vocês acham que eu sou de ferro? Pois eu não sou. Eu sou uma pessoa normal, como todas outras. Meu único defeito foi nascer diferente, foi não crescer quando deveria.
Resolvi ficar calado, ela já estava no embalo, pois sua voz não vacilou nem um segundo.
– tem ideia do quanto é difícil? Do quanto foi horrível para mim, ver meus familiares morrendo, um por um, e eu ter de ficar sozinha com meus primos que são muito mais novos que eu? – perguntou, sua voz estava ficando mais embargada – viu como Leonardo me tratou lá em cima? Ele faz isso á dezenove anos, desde que entendeu minha mutação. Meus próprios parentes caçoaram de mim, minha própria mãe me rejeitava de vez em quando.
Ela deu mais um passo, eu quase podia sentir seus anos de inibição preencher o espaço.
– eu fui criada pela minha irmã mais nova, ela cresceu e morreu me vendo como uma criança, e nem mesmo ela pode me entender direito – falou, um pouco mais baixo – eu me apoio nos meus primos, eu nunca trabalhei, ou fui para a escola. Tem ideia de como é para mim?
– desculpe – falei, mas ela me calou, colocando dois dedos na minha boca.
– calado, eu ensaiei isso por sessenta anos, não me atrapalhe – falou, antes de tomar outro fôlego – sim, eu sou velha, e não tenho vergonha disso. Minha família me amou e me criou, eu cresci por ultimo, e posso não chegar á morrer. Vou viver para sempre, e vou lembrar desse dia durante muito tempo.
Tirei seus dedos de sua boca, ela fechou a cara, ainda chorando.
– desculpa – falei, sem ser interrompido dessa vez – desculpa, Claire.
Ela me estudou com o olhar, confesso que me senti estranho, já que estava diante de uma múmia jovem furiosa.
– muita gente já me pediu desculpa, muita gente já me fez chorar – falou, fungando e derramando outras lagrimas – eu já liguei demais para isso, sou velha demais para perder tempo com um menino.
– eu não sou um menino – protestei.
– para mim, é – falou, estufando o peito outra vez.
Fiquei encarando-a por um tempo, ela parecia seria, tão seria quanto pensei que seria possível.
– pois então, não perca seu tempo com esse menino – falei – velhota.
Ela piscou, depois caiu no choro outra vez, sem nem ao menos tentar sair do lugar.
– eu cansei! Já chega! – gritou, em prantos – eu desisto! Já posso morrer!
Suspirei, revirando os olhos.
– não, você ainda não viveu tudo – falei – você ainda é jovem, em certo modo.
Ela levantou o rosto, chorosa. Sustentei seu olhar, ela respirou fundo, e fez uma coisa que me deixou espantado.
Ela me abraçou.
– obrigada – falou, sua voz saiu fraquinha – você é a primeira pessoa que me diz isso em setenta e três anos.
Respirei fundo, sacudindo a cabeça. Ela me apertou mais, e eu acabei retribuindo seu abraço, sem jeito. Eu não pretendia virar o ombro amigo dela, mas também não ia empurra-la e sair andando como se nada tivesse acontecido.
– não precisa agradecer – falei, tentando soar sincero – você é velha, mas dá um banho em muita garotinha por aí.
Ela riu, aconchegando-se em meu peito.
– eu sei, tive muito tempo para cuidar do corpo – falou.
Rimos, ela se acalmou, parando de chorar e me soltando.
– valeu, Henry – falou, dando um meio sorriso – você é um garoto legal.
– como você está errada – falei – eu não sou nada legal, sou um irresponsável e encrenqueiro.
Ela riu, secou o rosto e fungou.
– não, não é – falou – alguém assim teria me empurrado e saído andando como se nada tivesse acontecido.
Se ela soubesse...
– ta bom, chega de sentimentalismo – falei, fazendo cara de mal – garotinha.
Ela deu um sorriso maroto, sorri também.
– como se você fosse mais velho que eu – falou, rindo.
Revirei os olhos, sacudindo a cabeça. Claire olhou para o céu, respirando fundo.
– já deve estar na hora do jantar – falou – está quase escuro.
Olhei para o céu, era verdade. O sol já começava á baixar, o clima estava ficando um pouco mais frio, indicando que teríamos uma noite agradável.
– eu vou entrar, passei o dia todo fugindo das desculpas vagas de Leo e Jo – disse Claire, dando um sorriso simples – até mais tarde.
– até – respondi.
Ela piscou, e saiu andando pela passarela, como se treinasse para um desfile de moda. Por um segundo, só por um segundo, eu percebi que por mais superficial que Claire parecesse, ela ainda era uma garotinha assustada por dentro. E precisava de afeto, ou outro termo cheio de frescura.
Tirei um maço de cigarros do bolso, pegando um deles. Girei o cigarro nos dedos por um minuto, pensando no que tinha acontecido a pouco. Acho que nunca passei tanto tempo conversando com alguém, sem provocar uma bela briga. E eu sempre provocava uma briga, não importava com quem fosse.
Posso atribuir esse meu temperamento ao tempo em que eu fui criança, antes dos meus pais me adotarem. Acho que acabei desenvolvendo esse temperamento agressivo na época em que vivi nas ruas, onde eu precisava dele, ou viraria purê em dois dias.
Deixei esses pensamentos de lado, acendi o cigarro o coloquei-o na boca, decidido á deixar o passado para trás.
– ei, Henry! – chamou-me alguém.
Era Claire, ela sacudia a mão, chamando-me.
– está na hora do jantar – falou – você vem?
Assenti, ela sorriu, parada no mesmo lugar, como se me esperasse. Dei um pequeno sorriso, percebendo que achara minha distração.
Confesso, ela era uma bela distração.
POV Karen Marie Northman
Sentei á mesa, suspirando. Tinha sido um dia longo, tive cinco horários de aulas, fiz a extracurricular, corri em volta do jardim perseguindo Lohan, meu cão, e, por fim, assisti uma disputa de vídeo game, entre Rick e Daniela, jogando Battlefield 4, na qual, Daniela foi a vencedora. Só consegui descansar um pouco durante o por do sol, onde eu preferi ficar um pouco sozinha para variar. Desde que cheguei, estou ocupada demais tentando fazer amigos que acho que esqueci um pouco de mim mesma. Nesta tarde, eu preferi ficar com Lohan no jardim, pensando na falta que sentia da minha mãe.
Mas, meu momento reflexivo já passou, já voltei á ser a velha Karen de sempre. No caso, agora, estou bem contente, assistindo uma briga entre os irmãos Jones, bem na minha frente.
– só não perde a cabeça porque está grudada no pescoço – praguejou Sky, bufando.
Lee revirou os olhos, também bufando.
– como se você nunca tivesse esquecido de nada antes – retrucou, revirando os olhos outra vez – e não é tão grave assim.
– não é tão grave? – guinchou Sky, apertando os punhos – você esqueceu meu PSP naquele hotel em Vegas!
– quem mandou você não ter cuidado com suas coisas – disse Lee – aquele troço me custou os olhos da cara!
– se fosse com o seu dinheiro – disse Sky, sarcástica – e quem estava jogando era você, era sua responsabilidade.
– você cuidou das malas, era seu PSP, sua responsabilidade – disse Lee.
Dei uma risadinha, aqueles dois eram como cães e gatos.
– esses dois não tem limites – cochichou Cindy.
Assenti, sacudindo a cabeça e rindo baixinho. As portas da sala de jantar foram abertas, Johanna entrou de cara fechada, seguida por Leonardo, também com a cara fechada.
– não a vemos á 12 horas – disse Johanna, impaciente.
– ela esta em casa, fica calma – disse Leonardo, monotomo.
– como eu posso ficar calma? – perguntou Johanna, lançando um olhar irritado ao irmão – lembra da ultima vez que vocês discutiram?
– ela conhece essa casa melhor do que ninguém, melhor do que você – disse Leonardo, sentando na cabeceira – ela deve estar em alguma brecha ou atrás de alguma porta. Ela nunca foi das mais maduras.
Johanna bufou, eu quase pude ver fumaça saindo de suas orelhas, que pareciam estar ficando mais vermelhas. As portas foram abertas outra vez, a Parker mais nova, ou mais velha, entrou, acompanhada por Henry. Leonardo ficou menos tenso, apontou para a prima com a faca e arregalou os olhos.
– aí está ela, vossa excelência – disse, encarando a irmã – eu disse que ela estava aqui.
Johanna respirou fundo, um pouco aliviada, antes de lembrar do ponto principal.
– onde a senhorita estava? – perguntou, quase soltando fogo pelas ventas – tem ideia do quanto eu fiquei preocupada?
– eu estava por aí, e eu sei que vocês estavam me procurando, eu estava te evitando – disse Claire, com raiva.
Enquanto as primas furiosas trocavam olhares furiosos, Henry sentou, discretamente. Algo me disse que ele não estava com vontade de entrar no fogo cruzado.
– se você tivesse aparecido antes, teria me poupado de horas e horas de procura, dando voltas nessa casa toda – disse Johanna.
– se vocês não tivessem me provocado, eu nem teria começado á fugir, em primeiro lugar – retrucou Claire.
Essa foi boa, Johanna foi obrigada á baixar sua bola, enquanto Leonardo estava alheio á discussão.
– eu sei disso, á propósito, eu estava te procurando para dizer algo importante – disse Johanna.
– estou aqui, diga – disse Claire, um tanto fria.
Johanna deu um pescotapa em Leonardo, que quase engasgou-se com sua pizza de calabresa.
– o Leo que falar uma coisa pra você – disse Johanna.
Leonardo fechou a cara enquanto Johanna exibia um sorriso sínico, ele já devia saber que não se pode ganhar uma discussão com uma mulher.
– o que é? – perguntou Claire.
Leonardo olhou para a prima, sua irmã sentou-se na outra cabeceira, saindo de cena.
– eu quero pedir desculpas – disse Leonardo, contrariado – desculpe por ter feito você passar vergonha na hora do café.
– é mesmo? – disse Claire, ainda fria – você acha que eu me envergonho?
Leonardo assentiu, Claire estufou o peito.
– eu não sinto vergonha da minha idade, se é o que você pensa – disse – eu posso ser velha, mas dou um banho em muita garotinha. Não é mesmo, Henry?
Henry, que estava tentando ser discreto, engasgou-se com algo que não pude distinguir, e Claire fez questão de dar tapinhas em suas costas, aumentando ainda mais o constrangimento do cara. Quando finalmente conseguiu respirar normalmente, Henry disfarçou, fingindo interesse em um prato de sanduiches á sua frente.
– então, eu te fiz uma pergunta – disse Claire, quase gritando no ouvido de Henry – dou um banho em muita garotinha, não dou?
– claro que dá, minha querida. Olha só tudo isso, como dá banho – disse Lee, manifestando-se do nada, assustando Sky, que estava do seu lado – aliás, se quiser ajuda no seu banho, eu ficarei muito feliz em ajuda-la.
Johanna e Leonardo tiveram reações simultâneas, ela tomava suco, ele comia pizza, mas, ambos quase cuspiram o conteúdo em suas bocas. Claire deu uma piscadela para Lee, e pareceu bem mais contente. Henry ficou aliviado por ter escapado do rumo que a conversa estava tomando, Sky deu uma cotovelada no estomago do irmão.
– para de falar merda, idiota – disse ao irmão.
Lee massageou a barriga, um pouco sem ar.
– pare com isso, Lee – disse Johanna, tentando não ficar com raiva.
– ela é muita areia para o seu caminhãozinho – disse Leonardo.
– o que quer dizer com isso? – perguntou Lee, fingindo-se de desentendido.
– ele quer dizer que minha prima não é para o seu bico – respondeu Johanna.
Ai, essa foi no ego. Mas Lee não ligou, na verdade, ele olhou para Johanna com um sorrisinho provocador.
– e você, minha querida – disse, como se não fosse nada de mais – seria para o meu bico?
Leonardo levantou com força, furioso. Gabe agitou o braço, lançando Leonardo de volta na cadeira, sem toca-lo. Ele devia ser um telepata, dos fortes.
– calma, Leo. O garoto só está brincando – disse William.
– eu tenho certeza que ele não vai fazer isso outra vez – disse Gabe, olhando severamente para Lee.
– não, ele não vai fazer – disse Sky, apressando-se á intervir – ele só estava brincando.
– que bom, eu não queria expulsar um aluno logo no primeiro dia de aula – disse Johanna, ligeiramente irritada – mas, não vou tolerar esse comportamento outra vez.
– respeite seus professores, rapaz – disse William – você não vai querer deixa-los com raiva.
Leonardo ainda tentava levantar-se da cadeira, mas Gabe ainda o impedia, apenas olhando-o de forma firme. E parecia que alem de mantê-lo sentado, Gabe também o calava. Graças á Deus, eu estou ciente de que se Leonardo pudesse falar, ele xingaria Lee dos piores nomes possíveis. Eu estava um pouco encolhida na cadeira, e fiquei assim pelo resto do jantar, junto com a maioria dos alunos. Lee continuava com aquele sorriso provocador, Sky lançava á todos olhares envergonhados, mas quando olhava para Lee, deixava claro que aquela seria uma longa noite para ele. Os outros alunos foram retirando-se calmamente, devagar, saindo com cautela. Henry aproveitou a saída de alguns alunos e foi junto, tentando não chamar muita atenção. Levantei devagar, tentando não sair correndo, ou ficar tensa outra vez. Percebi que Lee levantou logo depois de mim, fiquei um pouco em pânico, mas respirei fundo, e tentei sair do lugar o mais calma possível. Uma vez no meu quarto, pude soltar o ar com força, e relaxar.
Resolvi tomar um banho, vesti um pijama confortável e me joguei na cama, pensando no quão fascinante o dia tinha sido. Com toda certeza, teríamos dias bem “animados” naquela escola. Fechei os olhos, deixando o sono me pegar.
***
Acordei com o som agudo do meu despertador novo. Procurei ver as horas, só para ter certeza de que estava atrasada. Eram seis e meia da manhã, ou seja, surpreendentemente, eu não estava muito atrasada. Mesmo assim, pulei da cama, acordando com minha energia de sempre. Lohan ainda dormia, embolado no carpete do quarto. Acariciei sua barriguinha e fui ao banheiro, fazendo minha higiene matinal e tomando um bom banho logo em seguida. Saí do banheiro ainda enrolada na toalha, abri minha mala e hesitei por um segundo. Uma foto estava bem em cima da pilha de roupas, peguei-a.
Era minha mãe e eu, uma semana antes do anuncio da lei. Estávamos em uma feirinha de artesanato de rua, eu estava com um sombreiro mexicano na cabeça, minha mãe ria, mas não ficava atrás com sua mascara de carnaval. Sorri, passando os dedos pela extensão da foto. Eu estava com muita saudade da minha mãe, e estava um pouco preocupada. Eu sempre a ajudava, cuidava dela. Minha mãe sempre me criou sozinha, foi a mãe solteira mais responsável que eu conheço. Eu devo tudo á ela, e não me arrependo de todas as noites que passei em claro, ajudando-a com os afazeres caseiros, ou, dos dias em que eu equilibrei escola, trabalho e cozinha. Sorri, coloquei a foto em um porta retratos vazio e coloquei-o em cima da minha cômoda, como um lembrete, de que eu não estava sozinha, e que minha mãe era meu apoio.
– au – latiu Lohan.
Olhei para meu cão, ele balançava seu pequeno rabo, sua língua estava para fora.
– com fome? – perguntei
Ele começou á pular no mesmo lugar, agitado, como sempre. Sacudi a cabeça, sorrindo das loucuras de meu cão. Coloquei sua ração em sua vasilha, Lohan atacou o alimento, faminto. Ri, vesti minhas roupas, penteei os cabelos e terminei o que tinha que fazer em quinze minutos, tempo recorde. Falando em tempo recorde, Lohan terminou de devorar sua comida em cinco minutos, mais rápido do que de costume. Peguei meu calendário de aulas, a primeira aula do dia seria a de Defesa Pessoal, com Leonardo. Dei dois pulinhos, ansiosa pelas aulas, já que adorava estudar. Guardei a folha de papel dentro do bolso da saia que vestia, para depois perceber que em uma aula de defesa pessoal, esse tipo de roupa podia não ser a melhor escolha. Decidi colocar um short de malha por baixo, assim não apareceria nada que não deveria.
Olhei para o relógio, seis e cinquenta e cinco, eu estava em cima da hora. Abri a porta do quarto e quase corri para fora, trombando com Stiles no caminho.
– desculpa! – guinchei, ajudando-o á equilibrar-se.
– quanta energia – ele disse, franzindo o cenho – como consegue?
Dei de ombros, dando um pequeno sorriso.
– eu não consigo ficar de bom humor quando acordo muito cedo – resmungou.
Realmente, para alguém que esta sempre gentil e sorridente, Stiles estava mal.
– você está bem? – perguntei.
– estou, só não curto acordar cedo, é isso – respondeu, conseguindo dar um meio sorriso.
– okay – falei.
Aprumei-me e continuei á andar pelo corredor, desci as escadas, com aquela energia ainda presente. Abri as portas da sala de jantar, apenas dois alunos já tinham levantado, e eram Christopher e o garoto que chegara ontem, Michael. Sentei perto do cereal de chocolate, servindo-o em meu prato. Estava muito silencio, e eu já estava começando á me sentir mal.
– bom dia – falei.
– bom dia – respondeu Christopher, com um sorriso.
– bom dia – disse Michael, educadamente.
Sorri, foi bom ouvir a voz deles, eu me sentia bem melhor agora. Sky e Lee entraram no lugar, os irmãos riam e falavam algo um com o outro. Relaxei um pouco, o som de vozes conhecidas encheu o ambiente, logo, a maioria dos alunos já estava á mesa. Duas das professoras, Jasmine e Bianca entraram, conversando educadamente. Ambas sorriram para nós, sorri de volta, radiante, sorrisos mudam o dia de uma pessoa, e são revigorantes. Sky sentou ao meu lado, Lee sentou ao lado da irmã. Cindy entrou, sorriu para nós e sentou-se ao lado de Michael, na minha frente.
– bom Dia – falei, sorrindo para eles.
– bom dia – respondeu Cindy.
– oi Karen – disse Sky.
– Karen – disse Lee, observando o prato cheio de pizza á sua frente.
Sorri, o som de conversas encheu o ar, agora sim, aquilo estava parecendo uma escola.
– cheguei – disse alguém.
Era Claire, a garota entrou no salão, desfilando e acenando para os garotos, nenhum deles lhe deu muita bola.
– uma garota bonita – comentou Michael, falando baixo.
– exatamente, viu só tudo aquilo? – disse Lee, ficando um pouco empolgado.
– fala serio, ela tem 80 anos – disse Sky.
– 80 anos? – disse Michael – interessante.
Lee deu um grande sorriso.
– finalmente, alguém me entende – falou.
Michael riu, baixando o olhar para seu copo de suco.
– quando eu disse que era interessante, eu estava me referindo ao fato dela não ficar velha – disse Michael – andei me informando.
– finalmente, alguém me entende – disse Sky.
Michael riu outra vez, Lee fez um movimento com o garfo em sua direção.
– eu tenho certeza de que não foi só isso – falou.
– eu tenho certeza de que foi – retrucou Sky.
– e eu, tenho certeza de que vocês dois são muito unidos – disse Michael, com um toque de ironia.
Lee riu, ainda animado.
– já viu a primeira aula de hoje, Lee? – disse Cindy, com um certo sorriso – eu não ficaria tão contente se fosse você.
– o que é? – perguntou Lee, ligeiramente mais serio.
– Defesa Pessoal – disse Cindy – adivinha quem é o professor?
Lee grunhiu, Michael o olhou.
– ele estava certo ontem, cara – disse – se fosse com você, e sua irmã, eu sei que você faria o mesmo.
Lee pensou um pouco, Sky sorriu para Michael. Pensei sobre o assunto, não foi lá muito sensato da parte de Lee, irritar o cara mais forte da casa, sendo ele, nosso professor de Defesa Pessoal. Eu tenho certeza de que Leonardo iria pegar bem “leve”com Lee hoje.
– eu não ligo, não é como se ele pudesse me matar – disse Lee.
Neste momento, Leonardo, que estava na cabeceira da mesa, deu um rápido olhar na direção de Lee. Posso jurar que não foi um olhar afetuoso.
O primeiro sinal tocou, indicando a primeira aula. Leonardo levantou-se com um sorriso enorme, como se não pudesse esperar para quebrar alguns alunos fracos e indefesos.
– vamos lá? – chamou – venham todos comigo, hoje vamos conhecer a sala especial.
Virei com tudo, encarando o professor.
– a sala especial, aquela que só é acessada por uma senha? – perguntei.
– exatamente – respondeu Leonardo.
Levantei quase que de imediato, morrendo de curiosidade. Eu não fui a única empolgada, a maioria dos alunos levantou-se, agitada. Michael devia estar voando, já que só chegou ontem, nem devia saber onde ficava a tal sala.
– sigam-me – disse Leonardo.
– essa eu não perco – disse Claire.
– perde sim – disse Johanna, barrando a passagem da prima no corredor – ontem você passou o dia todo á toa por aí, hoje você vai arrumar seu quarto.
Claire ficou indignada, mas não pôde com Johanna. Logo, a mais nova/velha subia as escadas, bufando.
– infantil – resmungou Johanna, sacudindo a cabeça.
Seguimos Leonardo pelo corredor, á cada passo, eu ficava mais ansiosa. Estava morrendo de curiosidade desde o tuor da Claire, onde ela não conseguiu abrir a porta, disse que Johanna tinha mudado a senha. Íamos todos juntos pelo corredor, seguindo Leonardo, que parecia estar sorrindo, mas eu não tinha certeza, já que ele estava de costas. Choquei-me contra Matheus quando Leonardo parou, eu sorri, sem graça.
– foi mal – falei, baixo.
– sem problemas, eu também não sabia que ele ia parar – disse Matheus.
Sorri, Leonardo puxou o tal teclado da parede, digitou algo que não pude distinguir, virou-se para nós e deu um sorriso.
– agora vem a parte divertida – falou.
O teclado recolheu-se, voltando para seu lugar na parede. Quase pude ouvir a musica de suspense, todos estavam sob a mesma bolha de expectativa, eu quase tremia de curiosidade. O leve clique ecoou, prendi a respiração. A porta abriu-se, saindo de seu lugar sozinha, graças á um mecanismo próximo ás dobradiças. Um corredor foi revelado, dei uma espiada. Ele dava acesso á um elevador grande, as portas metálicas eram impecáveis, sem um amassado sequer.
– e não era bem isso que eu esperava – disse Lee.
– é porque ainda não fomos até o fim, senhor Jones – disse Johanna, dando um pequeno sorriso – permitam-me.
Acompanhei com o olhar os movimentos de Johanna, a mulher entrou no corredor e apertou um botão redondo e prateado, assim como as portas do elevador. Esperamos, nossa professora virou-se em nossa direção, sorrindo.
– em um segundo – falou.
Esperamos por dois segundos, e o elevador emitiu um toque baixo e elegante. As portas abriram-se, revelando algo muito luxuoso por dentro. Á uns oitenta centímetro do chão, um espelho começava, ladeado por corrimões em um tom de prateado muito brilhante. O teto era vermelho, um tom escuro, semelhante á sangue.
– entrem – disse Johanna, indicando o elevador com o dedo indicador, o esmalte vermelho cintilou – dez por vez, por favor.
Entramos juntos, Lee, Sky, Cindy, Matheus, Michael, Talita, Henry, Christopher, Jost e eu. Johanna entrou junto conosco, acho que foi por isso que ela veio, para ajudar o irmão á guiar-nos. A mulher apertou um botão no painel do elevador, que logo emitiu outro toque suave e elegante. Eu estava um pouco mais relaxada, achando que o elevador nos levaria á outro andar acima de nós. Então uma musica começou á tocar, e o elevador começou á descer. Johanna arquejou ao ouvir a musica que tocava, depois passou a mão na cara.
– Claire deve ter alterado o disco do sistema interno de som – falou, expirando pesadamente – eu devia ter conferido isso ontem, sinto muito.
Enquanto ela falava, a musica rolava solta, e, se não estivéssemos em um elevador, eu dançaria. Johanna trincava os dentes enquanto a Lady Gaga cantava The Edge Of Glory. Era uma boa musica, dançante até, mas Johanna não parecia curtir muito, não dentro de um elevador carregado de estudantes, a caminho de uma instalação reservada, para a aula de defesa pessoal. Refreei uma risada, a Parker loira parecia fazer de tudo para irritar os primos, e conseguia.
O elevador emitiu outro toque, a musica foi abafada, e as portas foram abertas de forma suave. Johanna saiu na frente, parecia aliviada ao parar de ouvir a musica que a prima colocara. Deu um sorriso e indicou o espaço á frente, convidando-nos á sair do elevador. Fui á passos empolgados, seguindo os outros. O elevador fechou-se e subiu outra vez, para trazer os outros alunos.
– esperamos aqui por um segundo – disse Johanna, olhando no relógio acima do elevador – não deve demorar.
Esperamos por uns dois minutos, um olhando para a cara do outro. Lee, Jost e Henry eram os únicos que não pareciam ansiosos, os outros estavam com expectativa, mas, um pouco mais calmos do que eu.
O elevador emitiu o toque, as portas abriram-se, exibindo Leonardo e os demais alunos. Leonardo ria, fitou a irmã, divertido.
– ouviu só isso? – perguntou – essa Claire realmente não tem limites.
Johanna trincou os dentes, com cara de quem comeu e não gostou. Algo me diz que ela não ficou tão animada com a ação da prima quanto o irmão.
– vamos, o tempo está passando – disse Johanna, cortando o papo do irmão.
– tempo precioso – disse Leonardo, dando outro daqueles seus sorrisos estranhos.
Demos as costas ao elevador, adentrando em outro corredor largo e muito bem decorado, com quadros e pinturas bonitas.
– nessa ala aqui, temos a sala de treinos, a enfermaria e a sala de informática – disse Johanna – achamos melhor deixar essas coisas no subterrâneo, assim teríamos mais espaço e privacidade.
– para o caso da Swat invadir o prédio? – chutou Edward.
Rimos, pude ver que os irmãos Parker prenderam o riso.
– não exatamente – disse Leonardo – vocês vão ver com Gabe que tem certas coisas que os humanos não gostam que façamos.
Johanna riu, revirando os olhos para o irmão.
– ele fala como se não fossemos humanos – falou.
Dei uma risadinha, Leonardo guiou-nos para a ultima porta do corredor. Ou melhor, a melhor e mais bonita porta do corredor. Eram portas duplas de mogno, aquela madeira boa, com maçanetas entalhadas em prata.
– exagero ao extremo – disse Johanna, apontando para os detalhes finos da porta.
– nem me fale – disse Leonardo.
O Parker do gênero masculino abriu as portas, sorrindo.
– bem vindos á sala de treinos – disse, empurrando as portas e entrando.
– nossa – disse Anah, de boca aberta.
Também fiquei de boca aberta, deveras, a sala era incrível. A principio, era enorme. O chão era de dois tipos, do tipo comum, e com um tipo de tapete especial, pro caso de alguém cair durante os treinos. As paredes eram em um tom cinza muito bonito, as lâmpadas no teto eram grandes, a luz forte iluminava todo o ambiente, sem deixar um cantinho sequer nas sombras. Estantes com acessórios e pufes estavam separados em um canto, como se não tivessem muita importância ali em baixo. Bonecos alvo em tamanho real estava posicionados em um outro espaço, já que a sala era enorme, eles não ocupavam todo o espaço. No fundo, tinha uma instalação, sensores e fios prendiam-se nas paredes de vidro, o chão tinha mais sensores, tapetes sensores.
– gostaram? – perguntou Leonardo – tudo isso aqui é para vocês aprenderem á se defender.
Eu ainda estava boquiaberta, mas já estava me recuperando. Só de imaginar as aulas incríveis que teríamos ali, eu já dava pulinhos no mesmo lugar.
– como hoje é o primeiro dia, vou apenas encenar alguns golpes – disse Leonardo – sugiro que prestem bem atenção, na sexta feira teremos outra aula, aí sim as coisas ficam interessantes.
Leonardo entrou em uma cabine, que eu julguei ser o vestiário, já que saiu com roupas próprias para lutar.
– como ainda estamos no começo, vou apenas dizer o que pretendo fazer com vocês – disse Leonardo.
Ele pegou um boneco, posicionou-o de frente para nós, para que pudéssemos ver o que ele faria.
– vou pegar leve, só vou ensina-los alguns golpes básicos – disse Leonardo.
O professor preparou um soco, seu punho foi de encontro com o rosto do boneco, que caiu no chão. Leonardo riu, levantando o boneco e sorrindo para nós.
– vão precisar de força nesse – ele disse – com muita técnica, socos assim podem derrubar um cavalo.
Fiquei empolgada, a ideia de lutar bem era ótima.
– um conselho, a técnica é mais importante que a força em certos golpes – disse Leonardo, reposicionando corretamente o boneco – com o impulso certo, a mínima quantidade de força fica letal.
Ele deu um soco no boneco, usando pouca força. Mesmo assim, o boneco caiu outra vez.
– viram? – perguntou, sorrindo – bater é uma arte, tão complexa quanto as outras matérias.
Ele posicionou o boneco uma terceira vez, sorriu para o alvo e olhou para nós.
– não vão precisar de canetas ou cadernos nessa aula – falou, olhando sugestivamente para Lorena, que tentava anotar algo em seu caderno – só sua memória já vai ser suficiente.
Leonardo deu outro soco no boneco, sem nem olhar para seu alvo desta vez. Fiquei impressionada, era realmente incrível.
– só com bonecos fica fácil – ele disse – eles não podem se defender. Que tal um voluntario?
Não vi ninguém levantar a mão logo de cara, Leonardo deu um grande sorriso.
– Johanna? – chamou.
Johanna negou com a cabeça.
– hoje não – falou – talvez outro dia.
– claro, ainda estamos no começo – disse Leonardo – outra coisa, precisarão de condicionamento físico.
Bruna piscou, um pouco estranha.
– o corpo não precisa ser perfeito, só precisa estar preparado – disse Leonardo – acostumem-se á pratica de exercícios, nem precisarão de perfeita forma física.
– a academia lá em cima está disponível – disse Johanna.
Leonardo posicionou outro boneco, deu-lhe um soco diferente dos outros, esse vinha de baixo.
– esse foi um golpe básico do boxe, chama-se gancho – disse Leonardo – o macete aqui é o ângulo, ele sempre é bem indicado quando vamos encerrar um conjunto de golpes.
Ele arrumou o boneco outra vez, dando dois socos iguais, com mãos diferentes.
– esses são socos básicos, os primeiros da luta – disse Leonardo.
Ele massageou os punhos, sorrindo para nós.
– para o treinamento básico, é necessário saber desses três carinhas – falou – agora, cada um de vocês vai pegar um boneco, e me mostrar o que aprenderam.
Beleza, eu prestei atenção, ai ser fácil. Fomos até a área dos bonecos, escolhi um aleatoriamente, mas, francamente, o rosto dele era feio que dói. Voltamos para a área em que Leonardo aguardava, posicionei meu boneco, pensando no que ele tinha feito á pouco. Dei os dois primeiros socos no rosto do boneco, que era mais duro do que eu pensava.
– ai – gemi, sacudindo as mãos.
– tudo bem aí? – perguntou Leonardo.
Assenti, ele sorriu e continuou dando voltas em volta de nós. Concentrei-me em fazer o que Leonardo tinha dito, menos força, mais técnica. O resultado foi bem melhor, consegui virar o rosto do boneco, e dei o tal do gancho. Gostei do que tinha feito, era minha primeira vez na luta, e eu estava me saindo bem, eu acho.
– muito bem, vocês foram muito bem, logo no primeiro dia de aula – disse Leonardo, sorrindo – é bom ter alunos que sabem bater.
– e é bom manjar das lutas – disse Lee, brincalhão.
Johanna sorriu, guardando a revista que folheava. Leonardo olhou para o relógio, depois fez uma careta.
– infelizmente, nosso tempo acabou – falou – vamos subir.
Mas eu ainda estava aquecida, todos procuraram espreguiçar-se, eu não. Peguei meu boneco alvo e dei vários outros socos nele, ficando cada vez melhor. Claro que eu não ficaria perita em luta em apenas uma aula, mas eu acho que estava me saindo muito bem.
– é isso aí, Karen – disse Leonardo, voltando de dentro do vestiário – a luta não pode esperar, muito bem.
Sorri de forma quase maníaca, Johanna sorriu, sacudindo a cabeça.
– já vai infecta-los com seu vicio logo no segundo dia de aulas deles aqui? – disse.
Leonardo riu.
– vou tentar – confessou.
Os irmãos riram, dei o ultimo soco em meu boneco, empolgada.
– isso! – torceu Lee.
Sorri, dando outro soco no pobre alvo.
– incrível! – torceu Edward.
Dei mais dois socos, inspirada pelos incentivos.
– se não formos agora, vocês vão perder a aula de história – disse Johanna.
– deixe-os, Jo – disse Leonardo.
– eu juro que mato o próximo que me chamar de Jo – disse Johanna, lançando um olhar mortal para o irmão – odeio esse apelido.
– odeia o apelido, ou quem te chamava assim? – perguntou Leonardo.
– eu não odeio nossos parentes – disse Johanna, falando mais baixo.
– eu não estava falando deles — disse Leonardo – e você sabe disso, não sabe?
Johanna respirou fundo, um pouco seria demais.
– vamos leva-los á Gabe – disse, quebrando o silencio que durou um segundo.
Leonardo expirou pesadamente, também serio.
– vamos, pessoal – chamou, acenando.
Fomos, um á um, seguindo-o pelo corredor. Dei um ultimo soco no meu boneco, como se dissesse adeus, e segui os outros.
O resto do dia passou muito rápido, as aulas quase não me prenderam a atenção, eu ainda estava aérea, pensando na aula de defesa pessoal, e não discussão que presenciara. Eu ainda não entendia muito bem os rolos da família Parker, mas já tinha certeza de uma coisa, eram mais complexos do que eu pensava.
No jantar, eu nem estava com fome. Comi rápido e voltei para o meu quarto, sem nem conversar muito com os outros. Eu estava com sono, efeito da queima de energia na aula de defesa pessoal. Leonardo tinha razão, eu precisava de exercícios, estava destruída.
Tomei banho, vesti meu pijama, joguei-me na cama, respirei fundo e relaxei. Decidida á mudar minha rotina, iria acordar mais cedo, e faria exercícios. Todos os dias.
Eu nunca fui mulher de ter preguiça, e não era agora que eu ia começar á ser.
Fechei os olhos, pronta para mudar.
POV adicional/especial/sensacional.
James Lancaya
Subi os degraus da escada, dando um pequeno sorriso. Abri as portas da entrada, passando pelos diversos sistemas de segurança, sem perder tempo em nenhum deles.
– Lancaya – cumprimentou-me Boris, o chefe da segurança.
– olá novamente, Boris – falei, dando um sorriso simpático.
Ele acenou para mim, entrei no elevador puxando a carteira de cigarros do bolso da jaqueta de couro preta. Apertei o botão certo, em cerca de quinze segundos, eu já estava no andar certo. Saí do elevador, indo pela minha rota de sempre. Pisquei para Martha, a moça da limpeza, e entrei na sala certa.
– chefe, cheguei – falei, usando a palavra chefe com um tom brincalhão.
– James, trouxe as noticias, espero – disse.
Sentei na poltrona á sua frente, Sr. Ashford me encarou, esquadrilhando-me com os olhos.
– as aulas naquela escolinha detestável já começaram – informei – fiz tudo como o senhor mandou, e nem fui pego.
– descobriu o que eu pedi? – perguntou.
Sorri, girando o cigarro entre os dedos.
– e alguma vez eu já falhei com o senhor? – perguntei.
Sr. Ashford sorriu, aprovando meus atos.
– muito bem, James – falou – eu sabia que você era o garoto certo.
Sorri, levantando da poltrona. Fui em direção á janela, olhando através do vidro da casa. A noite estava apenas no começo, muitas pessoas ainda rodavam lá em baixo, sem rumo algum na vida, assim como eu estava, á uns anos atrás.
– posso executar o plano? – perguntei – estou ansioso para botar a mão naquela relíquia.
Sr. Ashford riu, fitando-me.
– ambição é uma benção, muito bem – disse – dois dias, como o combinado.
Assenti, sorrindo para a imagem da rua á minha frente.
– os Parker vão ficar bem surpresos – falei.
– se vão – disse o Sr. Ashford.
Ri, imaginando o momento em que eu executaria a primeira parte do plano. Encaminhei-me á porta, dando um ultimo olhar ao chefe antes de sair.
Dei as costas á casa, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta e entrando em um bar qualquer, á dois quarteirões de distancia. Analisei bem, meu olhar focou-se em minha próxima presa. A garota ruiva nem percebeu que estava sendo observada, até o momento em que eu choquei-me contra ela, de propósito.
E a primeira parte da minha rotina estava feita, a garota já tinha encantado-se.
IMAGENS DOS PERSONAGENS QUE TIVERAM POV NESSE CAP.
Henry Philips

Karen Marie Northman

James Lancaya (Porque tão lindo?)
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