Rafa já tinha visto quase de tudo na sua vida. No jardim de infância tinha visto duas de suas professoras se beijando. Na escola, quando mais jovem, tinha visto sem querer um colega ficar nu no vestiário. Numa festa de universitários, tinha presenciado uma garota mais nova que ele sendo forçada a transar. Tinha até mesmo visto Rael, seu ex-namorado, fazendo uma coisa imaginável, que Rafa jamais pensava que ele faria.

Mas ele nunca tinha visto um morto.

Balu não tinha nenhum traço de expressão no rosto congelado e os olhos, aqueles olhos felinos não se moviam, não piscavam. Ele meio que esperou que o garoto se levantasse e rugisse de brincadeira, assustando Rafa como da última vez... Mas ele não o fez.

– Cadê a Anna? – perguntou Fernando a Andressa e Eduardo, tentando ao máximo ignorar a expressão de dor de Rafa.

– Não sabemos – Andressa respondeu. – Nós estávamos indo pegar umas armas no depósito quando eles começaram a invadir.

– Como isso aconteceu? – Fernando questionou. – Achei que a Giulia tinha colocado alguns arqueiros dela na frente da cidade para...

– Acontece que eles não foram o suficiente – Eduardo respondeu friamente. – Perdemos alguns arqueiros... Eles não conseguiram segurar.

– Atiradores de Elite – Fernando assentiu com paciência. – São bons de mira mesmo.

Andressa estremeceu.

– Não deveríamos ir checar se eles chegaram até a Anna? E se eles...

– Me mataram? Não.

Todos, menos Rafa, se viraram a tempo de ver Anna andando pelos escombros, as mãos livres e astutas enquanto segurava uma arma que não parecia pertencer a ela, uma arma maior que seu próprio braço. Layane e Giulia pairavam atrás dela, parecendo cautelosas.

– Não conseguiram nem passar pela porta – Anna continuou. – E Giulia deu um jeito de espanta-los.

– Você a matou? – Fernando perguntou, se referindo a Carolina, a Chefa dos Atiradores. Da ultima vez que a vira, ela estava estirada no chão, com uma flecha na mão, parecendo impotente.

Giulia revirou os olhos.

– Eu bem que gostaria que a vadia precisasse apenas das armas pra se proteger, mas ela não precisa. – Fernando então notou várias marcas de arranhões no pescoço dela.

– Ela fugiu? – perguntou Eduardo.

– Fugiu – Layane assentiu. – E sem a caixa.

– Isso é estranho – Fernando falou confuso. – Ela estava disposta a matar eu e o Rafa mais cedo por causa do Triscele. Por que fugiria? O que a faria mudar de ideia?

– Porque ela estava testando – Layane respondeu. – Ela quer muito a caixa, mas não seria louca de vir aqui e tentar pegar diretamente, ela sabia que não ia conseguir passar por nós.

– Mas ela atacou diretamente – Andressa gesticulou para a área ao redor. – E definitivamente conseguiu passar por nós.

Anna balançou a cabeça, parecendo irritada – uma irritação diferente da normal.

– Aquilo não foi um ataque de verdade, confie em mim. Se ela quisesse mesmo teria matado a todos. Ou melhor, a muitos – seu olhar pesou sobre Rafa. – Carolina é esperta e adora estudar um terreno, medir as forças antes de lançar as mãos no que realmente quer.

– Ela arriscaria perder os próprios Atiradores?

Anna riu.

– Nenhum Atirador importa quando se trata do que ela realmente quer. E agora ela quer a caixa. Ela deixaria todos os seus Atiradores morrer.

– Isso significa que ela vai tentar de novo? – perguntou Giulia afagando a mão direita.

– Só quando tiver certeza de que vai conseguir.

Eduardo começou a andar pra lá e para cá, parecendo nervoso.

– Nós vamos fazer o que até lá? Esperar?

– Não, vocês vão seguir os rastros dela – Anna respondeu ajeitando os óculos de modo eficiente. — Vamos aproveitar que a vadia nos deu uma brecha de saber aonde ela e o resto de sua gangue vem se escondendo.

Todos pareciam ansiosos com a ideia, olhando o resto dos escombros com expressões vingativas, mas Fernando olhou por sobre o ombro.

– Tudo bem, mas você ainda não tomou a decisão mais importante – ele olhou para Rafa. – O que vamos fazer com ele?

Anna relaxou os ombros — enquanto Giulia murmurava a palavra “importante” — mexendo os dedos e parecendo visivelmente mais animada.

– É realmente curioso como ele conseguiu abrir a caixa – ela respondeu, avaliando o garoto que ainda não tinha se virado. – Mas por mais que eu goste de mistérios, o Livro das Sombras não fala nada sobre prender ou matar quem saiba sobre nós... Ainda mais quando esse alguém salva um de nós uma vez.

– Ou mais de uma – Fernando acrescentou.

– Que seja – Anna deu de ombros. – Rafa é livre para tomar suas próprias decisões, se ele quer ir para casa, pode ir.

Fernando meio que esperou que assim que Rafa ouvisse aquilo se virasse, revirasse os olhos e dissesse “Até que enfim”. Mas Rafa ainda parecia congelado ao olhar Balu, como se a visão do corpo jazido do garoto desligasse todo o sistema de seu cérebro.

Assustado com aquilo, Fernando se moveu até ele e tocou seu ombro gentilmente.

– Rafa...

– Uma criança – Rafa soltou o ar ao falar, os olhos brilhando. – Eles atiraram em uma criança.

Fernando hesitou em falar algo e Eduardo pigarreou atrás deles.

– Que te sirva de aviso, antes de entrar nisso tudo – sua voz tinha aquele mesmo tom no estacionamento no dia anterior. – Tantos os Wendigos, como os Demônios e Atiradores e outras criaturas são assim. Eles não hesitam em matar, até mesmo crianças como o Balu. Esse é o mundo em que vivemos, engula isso e se acostume!

– Eu não vou me acostumar com nada! – Rafa guinchou, tirando a mão de Fernando por reflexo. – Eu não tenho que me acostumar com nada. Vocês me arrastaram pra tudo isso!

– Você abriu a caixa, pra começar – Eduardo rebateu.

– E eu lá ia saber que uma máfia inteira de Atiradores estava atrás dela antes de fazer isso?!

– Facção – murmurou Layane. – Eles são uma Facção, não uma máfia.

– Eu não ligo. Eu não queria entrar nessa coisa toda com vocês antes disso tudo – ele olhou o corpo de Balu. – E agora certamente não quero entrar. Quero que me levem para casa, agora!

Andressa parecia decidida a falar algo, mas então Anna deu um passo à frente com um sorrisinho promissor se alargando nos lábios.

– Como quiser.

De repente a visão de Rafa embaçou e todos ao redor dele viraram borrões inexpressivos. Mas mesmo com isso ele conseguiu ouvir Fernando dizer:

– O que pensa que esta fazendo com ele? Não pode orbitar ele daqui!

– Tem alguma ideia melhor, gênio?!

– Na verdade tenho sim, e com certeza não vai precisar desintegrar ninguém para fazer isso.

Rafa esperou ouvir algo mais, porém o mundo começou a girar e ele deixou seus joelhos cederem enquanto sentia mãos conhecidas não o deixarem cair.

No sonho, Rafael conseguia ouvir a voz de uma garota. Ela falava bem rápido, em um tom fino e repicado e Rafa não sabia dizer se ela estava rindo ou chorando.

O chão no sonho parecia estar se movendo sob os pés dele e tudo o que ele podia ver era uma fumaça branca ao seu redor.

A garota andava de um jeito suspeito, como se a cada vez que seus pés devessem tocar o chão, eles apenas continuassem em frente, movidos por uma força desconhecida.

– Você sabe quem eu sou? – a menina perguntou de costas para ele, o cabelo preto medonho encarando Rafa. – Você sabe onde... Eu fico?

Rafa tentava lutar contra a força que o empurrava para a frente, louco para ver o rosto da garota. Mas nada adiantava, ele continuava sendo puxado.

– Alguém te contou sobre mim? – a garota ria, quase como se não pudesse se conter. – Falou? Falou que eu existo?

O cabelo dela começou a chicotear e Rafa se inclinou para ver seu rosto. Porém, na mesma hora, quase como se propositalmente, o sonho se moveu para outro abruptamente.

Dessa vez tinha outra garota, mas esta era mais velha, mais madura que a outra. Na mão segurava uma espada e, enquanto a girava na frente do corpo, parecia dizer coisas, mas a voz ficava abafada e Rafa não entendia.

Na cena entrou mais outra garota, parecendo ter a mesma idade e esta tinha as mãos erguidas em punho, como se só precisasse lutar com elas e mais nada.

Elas se cruzaram brevemente e Rafa queria poder ficar para ver quem tinha ganhado, até que um par de olhos dourados tomou conta de todo o sonho, jogando a nevoa para longe, apagando as garotas e a garotinha.

Rafa focou no olho enorme e dourado e, sem saber por que, o acertou com um soco...

Rafa despertou arfante. Suas mãos tatearam a superfície abaixo dele e encontraram a resistência do colchão de sua cama de solteiro.

Rafa deu uma avaliada ao redor, esperando encontrar um cabelo loiro lindo à vista, mas apenas encontrou seu familiar, normal e apático quarto.

Acima da cama dele estava o mesmo janelão de vidro. Em um lado do quarto, seu armário de madeira branca com os tênis jogados de qualquer forma e uma toalha pendurada em uma das portas. Do outro lado, seu iMac estava desligado sob a mesinha, a cadeira reclinável imóvel.

Ele deu uma olhada debaixo da cama e pode ver o carregador de seu celular jogado no carpete. Tudo parece a mesma coisa, ele pensou se sentando na cama, Eu voltei pra casa, esta tudo normal.

Mas ao invés de trazer conforto, o pensamento trouxe algo novo para ele, uma sensação de incomodo. De repente aquele quarto estava quieto demais... Confortável demais.

Rafa olhou a hora no celular pousado no criado mudo ao lado da cama. 23h40. Ele piscou e olhou a data rapidamente. Era domingo, domingo à noite.

Sua mente fez as contas e logo ele calculou – uma coisa em que ele não era tão bom – que tinha dormido por mais de um dia inteiro. Lembrou-se de que ainda era de dia em La Iglesia antes de ele... O que tinha acontecido mesmo para ele acabar desmaiando?

Justo quando ele estava prestes a pousar os pés no chão, a porta de seu quarto abriu e ele xingou baixinho quando sua mãe parou na porta do quarto.

O cabelo loiro da mãe de Rafa vivia sempre cacheado e selvagem, cobrindo os lados da face e escondendo as maças do rosto um pouco. Os olhos brilhantes traziam um realce ao rosto, a fazendo parecer mais sabia.

– Finalmente acordou – ela entrou no quarto, os braços cruzados e Rafa logo engoliu em seco, se lembrando de que tinha sumido por dois dias.

Sua mãe podia ser bonita, mas do que tinha de beleza tinha de intolerância.

– Mãe, me des...

– Seu amigo nos explicou tudo – ela o interrompeu, se sentando na beira da cama.

Rafa franziu o cenho ao se interromper. De repente, notou que sua mãe não parecia assim tão brava quanto ele esperava.

– Amigo? – ele repetiu pensando se ela estaria falando de Eduardo e Fernando.

Ela franziu o cenho.

– Ele é só amigo? – perguntou, mas então balançou a cabeça. – Bem, ele explicou porque você não voltou para casa ontem. Assumiu toda a culpa.

– Foi é? – a voz de Rafa ficou rouca, enquanto ele refletia o que ele poderia ter explicado. Será que Fernando... Ou Eduardo... Tinha contado tudo a ela? – Assumiu a culpa pelo que?

– Você provavelmente não se lembra de muita coisa. Depois da escola vocês saíram como tinham combinado que fariam, ele disse algo sobre um Loft de uma amiga chamada Anna. Vocês ficaram lá por muito tempo e logo depois foram até uma boate.

Nesse momento Rafa estava com a mente girando com a palavra “Loft” – aquilo era eufemismo para a La Iglesia? -, mas não deixou de perceber o olhar um pouco severo da mãe.

– Uh, sim – ele assentiu. – Não era exatamente uma boate...

– Não fique com medo, eu não me importo tanto – ela continuou enquanto Rafa mordia o interior da bochecha. – Já estava bem tarde quando chegaram na boate e seu amigo disse que você queria ir embora, mas eles não deixaram.

A palavra sequestro pairou na boca de Rafa, mas ele nada disse.

– Você bebeu muito e dançou. E bebeu tanto que acabou passando mal. Eles decidiram cuidar de você no Loft e, na manhã seguinte eles decidiram que te levariam assim que você se recuperasse da ressaca.

– Na manhã seguinte? – Rafa guinchou. – Eu não cheguei hoje?

– Não, chegou ontem de manhã.

De manhã, Rafa pensou se perguntando se eles tinham voado outra vez no helicóptero de Layane – ou de Anna, que seja.

– E eu só acordei hoje?

A mãe assentiu.

– Fiquei com muito medo, mas seu pai mediu sua pressão e estava tudo bem. Só disse que você precisava dormir bastante.

Rafa suspirou e penteou o cabelo preto com os dedos, se lembrando vagamente do sonho com as garotas estranhas... E com o olho dourado enorme.

Ele levantou a cabeça lentamente.

– E você não esta pirando e me colocando de castigo por uma semana por que...?

Para sua surpresa a mãe riu.

– Eu tenho que te lembrar que eu já fui jovem, como você? – ela olhou a janela vagamente. – Um dia fora de casa, sério? Acha que isso vai nos deixar preocupados?

Rafa deu de ombros.

– Eu esperava por carros de policia e fotos minha espalhadas pela rua – ele comentou decepcionado.

– Bom, nós registramos seu desaparecimento – ela confessou. – Mas assim que voltamos da delegacia você chegou logo depois. Ficamos aliviados, mas uma detetive que ia cuidar do seu caso não pareceu muito satisfeita.

– Coitada – Rafa respondeu. – Então você e o papai nem ficaram preocupados? Eu deveria sumir mais vezes.

– Nem foi por isso, foi mais pelo jeito como seu amigo nos explicou tudo.

Rafa piscou.

– Como assim?

– Ele parecia tão sincero – ela comentou, parecendo distraída. – Parecia realmente arrependido de ter levado você com eles. Ele me pediu desculpas pela irresponsabilidade e disse que não ia acontecer de novo. Parecia tão... Arrependido, nem consegui ser um pouco grossa com ele.

Aquele tinha que ser Fernando, Rafa pensou. Dos poucos dias em que o conhecia já sabia como ele era. Sempre dando patadas, mas ficando todo certinho quando as coisas ficavam sérias. Era fácil imaginar ele arrependido.

– Ele é mesmo só seu amigo? – a mãe perguntou, de repente.

Rafa corou inevitavelmente, mas fez que sim com a cabeça.

– Só um amigo – ele comentou. – Ele e os outros – ele se referiu a Andressa e Eduardo.

– Yanca também parecia legal – ela respondeu. – Seu irmão ficou na ponta dos pés para falar com ela.

Rafa revirou os olhos, nem um pouco surpreso com o comportamento do irmão mais novo.

– Rogério é movido a isso – ele franziu o cenho de repente. – Se hoje já é domingo e já é noite, isso quer dizer que...

– Obviamente amanhã você tem aula – ela assentiu. – Mas pode descer até lá embaixo na cozinha, eu tenho certeza que você deve estar com fome.

Rafa assentiu. Apesar dos Wendigos, Demônios e Lobos que tinha visto ainda estava com muita fome. Em La Iglesia também não tinha nenhum fast food, não que ele tivesse perguntado.

Ao descer na cozinha brilhante, seus olhos tentaram se ajustar a claridade enquanto ele abria a geladeira. Um croissant congelado estava a sua espera em um pratinho bem enfeitado.

Ele o pegou mecanicamente e colocou para esquentar no Microondas, enquanto deixava o pensamento ir para longe. Sua memória estava meio turva, mas ele podia ouvir Andressa xingando, ver Eduardo parado no canto da cozinha e Fernando entrando pela janela.

De repente tudo parecia tão quieto como no quarto e Rafa não sabia ao certo se gostava daquilo. Ficou esperando mesmo que alguma coisa fizesse o microondas explodir, mas tudo o que pode ouvir era o zumbido do prato que girava dentro.

– O bom filho a casa torna, que clichê.

Rafa se virou, esperando que fosse alguém de mais, só que seus olhos se decepcionaram ao ver que não era o mesmo cabelo loiro.

– Roger – ele quase cuspiu o nome. – Que ótimo te ver.

– Eu posso dizer o mesmo – ele percorreu a bancada da pia e pegou uma maçã. – Não podia ficar fora só por mais um dia?

– E deixar você se apossar do meu quarto? – Rafa retrucou. — Não, obrigado. Odiaria ver meu quarto virar um depósito.

– E não é que você adivinhou meus planos? – riu o mais novo. – Mais um dia e você não dormiria em uma cama.

Rafa revirou os olhos, ignorando o irmão.

– E então? Quem era aquela gata que trouxe você ontem? Você não mudou de lado de novo, não é?

O microondas apitou e Rafa o abriu para pegar o prato, deixando um cheiro delicioso de croissant infestar a cozinha.

– De qualquer forma, eu acho que não – Roger prosseguiu. – Porque também tinha aquele cara, o loiro. Ele é o seu novo namorado? Pensei que o nadador que apareceu ontem era seu namorado. Você anda traindo ele?

Com essa Rafa teve que hesitar o lanche só a centímetros da boca.

– Quem? – ele questionou.

– O nadador – o irmão prosseguiu. – Rosivaldo ou Roberval sabe...

– Roberto – ele corrigiu. – O que ele estava fazendo aqui?

– Ele apareceu aqui ontem, ele e um bando de amigos seus – ele comentou. – Ele não vai andar pelado por aqui não, vai?

– Que bando de amigos?

Rogério deu de ombros.

– Aquele chato do Lucas, sabe? E aquele outro gordinho que vive atrás dele. Depois apareceram mais três garotas... Duas delas com o mesmo nome. E teve outra, uma beeem gata, alta e gostosa com uns peitos...

– Taffara?! – ele guinchou deixando o croissant cair no prato de novo. – O que ela estava fazendo aqui?

– Era o que seus amigos estavam tentando descobrir ontem. Aquela de mechas no cabelo até saiu na porrada com ela.

Rafa passou as mãos no cabelo, aflito, já pensando no clima de tensão enorme que devia ter infestado a casa. Taffara, Lucas e Vick em um só lugar, os três que sabiam... Devia ter sido um inferno.

– Elas brigaram por causa de alguém chamado Henrique – o irmão citou. – Conhece?

Rafa quase sentiu vontade de engasgar enquanto fazia que sim com a cabeça.

– Parece que a gostosa estava tentando te culpar por algo – Roger então olhou para o prato. – Ainda vai comer isso?

Rafa fez que não enquanto ele pegava o prato.

Então Taffara esteve aqui e o tentou fazer parecer culpado? Mas isso não fazia sentido. Ela sabia que Rafa não era exatamente o culpado. Não diretamente, ao menos.

De repente ocorreu a ele que ela não se importava. Sendo ou não sendo culpa de Rafa era mais do que obvio que ela tentaria o fazer parecer culpado de tudo. Porque ela o odiava.

E para Taffara sentir ódio já era o suficiente.

Na manhã seguinte, a ficha de Rafa ainda não tinha caído. Sua rotina começou como sempre, mas ele se sentiu como se estivesse seguindo um roteiro de um desconhecido, como se aquele estivesse longe de ser quem ele era.

No carro de seu pai ele tentava se recostar tranquilamente no banco do carona, enquanto Roger fazia gestos obscenos para ele pelo retrovisor.

Até mesmo a musica Sad Girl da Lana Del Rey que ele ouvia com o fone de ouvido plugado no celular parecia nem sequer haver com ele. Não parecia ter a mesma melancolia de antes; mas ainda era melancólica.

O pai estacionou na frente da escola e Rafa desceu do carro depressa.

– Vai voltar pra casa hoje? – brincou Roger, dando um sorriso levado.

– Divirta-se na escola, filho – o pai sorriu e então acelerou com o carro para a estrada.

Rafa ajeitou a mochila nas costas e começou a andar, ciente de cada par de olhos o encarando. Uma garota levantou o olhar do celular e cutucou a amiga. Outro garoto assobiou e Rafa mostrou o dedo do meio. Até mesmo as provocações dos outros colegas não funcionavam – ele continuava se sentindo diferente.

Ao futricar em seu armário no corredor, ele pegou as apostilas de física mecanicamente, se sentindo nem cansado e nem um pouco a fim de estudar.

Estava prestes a fechar seu armário mecanicamente quando notou uma figura para ao lado dele.

– Senhor Capoci – o professor e monitor Miguel Ávila, que ele tinha mandado ir se foder na sexta-feira, tinha um apito de prata preso a um cordão que caia suave em sua camiseta polo azul marinha.

– Professor – ele cumprimentou com a cabeça. – O que deseja?

– Fiquei sabendo que desapareceu esse final de semana – ele logo foi falando.

– E as noticias voam – Rafa murmurou. – É, sumi sim.

O monitor franziu o cenho, como se esperasse uma reação menos calma.

– E pra onde?

– Eu sou obrigado a responder? – Rafa perguntou dando um sorriso de desdém.

Uma veia apareceu na testa do mais velho, mas ele não se intimidou.

– Achei que depois de certo incidente, eu ao menos merecia um pedido de desculpas formal.

Rafa deu de ombros.

– Desculpa ter mandado você se foder – ele respondeu.

– Eu disse formalmente.

– Desculpa ter mandado você se foder, por favor?

O Sr. Ávila suspirou, mas então assinou algo em sua prancheta.

– Quero que o senhor vá até a minha sala no intervalo – ele ordenou. – E aí discutiremos uma possível... Punição adequada para o que o senhor fez.

O monitor então marchou para longe enquanto Rafa consultava as regras da escola mentalmente, se perguntando se aquilo podia ser considerado assédio.

Rafa achava que o dia não ia ficar mais interessante até que saltos irritantes começaram a irromper pelo piso de linóleo.

– Quão azarenta uma pessoa pode ser na vida? – ele se perguntou, baixinho.

– Isso depende – Taffara parou de andar, se colocando atrás dele. – Se a pessoa mandou seu namorado embora e acabou com sua vida, eu acho que ela pode sofrer muito com azar em longo prazo.

Rafa suspirou e se recostou no armário, avaliando ela.

– Vocês garotas más não tem um hobby? Ou qualquer coisa do tipo?

– Eu poderia ter um hobby – Taffara fingiu pensar mesmo a respeito. – Mas estou ocupada demais arruinando sua vida.

Rafa balançou a cabeça, de repente lembrando-se de algo.

– Não só a minha, pelo visto. Além de baixa agora você sai aos tapas com garotas? Debaixo do meu teto?

Taffara riu.

– Isso é você tentando me fazer me sentir mal? – ela balançou a cabeça. – Ah, Rafinha, se você soubesse o quanto eu não me sinto – ela disse Rafinha de um modo que fizeram as costas de Rafa se arrepiar.

Ele engoliu em seco, se sentindo corajoso.

– Escuta, você pode me provocar todos os dias. O quanto quiser, eu não ligo. Mas deixe meus amigos fora disso tudo, ok?

Taffara sorriu ainda mais, como um Coringa.

– Mas os seus amigos são os que mais estão envolvidos nisso tudo. Na verdade, você até namorou um deles, não é?

Ele sentiu a mão coçar para bater nela.

– A culpa não é só do Rael.

– Não mesmo – ela concordou. – Mas é nele em que eu me baseio em culpar. E deve ser um inferno para você saber que eu vou fazer algo com ele, e que você não pode fazer nada a respeito.

Era tanta coisa a assimilar naquela pequena ameaça especifica dela que Rafa teve que se apoiar ainda mais no armário.

– Nos vemos por ai – ela começou a andar de novo, mas parou para olhar pelo ombro. – Quer dizer, a menos que você não se esconda.

Enquanto ela seguia pelo corredor, Rafa tentava parar de sentir medo ao olhar para ela. Ele sabia que podia explodir ela ali mesmo, mas então veio à mente que ele não sabia nem controlar o que ele podia fazer. O que o fazia pensar que podia controlar agora?

Ele se virou para ir para a aula, mas então esbarrou em um garoto magricela de óculos, do tipo que Anna usava, com cabelo castanho lambido e um rosto tão branco quanto o dela.

Era Rodolfo Alves. Um dos garotos que costumavam fumar maconha no banheiro masculino. Era um péssimo sujeito e ninguém entendia o que ele falava, ou era pelo menos o que Rafa havia escutado.

– Desculpa – Rafa foi logo dizendo. Ele meio que esperou que Rodolfo sorrisse e dissesse que estava tudo bem, mas ele o fitou com os olhos escuros e vazios.

Depois de um segundo ele ainda o ficou fitando.

– Desculpa – Rafa repetiu. – Isso quer dizer que eu sinto muito.

Rodolfo piscou uma vez, bem lentamente, e continuou o fitando. Rafa não tinha paciência e logo quis mandar ele para aquele lugar, mas Rodolfo virou a cabeça de lado, de um jeito melancólico.

– As pessoas ao seu redor sempre se machucam?

E com aquela ele se afastou, deixando Rafa abalado, seu pensamento caindo de forma horrível no rosto paralisado de Balu.

TRABALHO DE FISICA

Nome: Rafael Capoci N°: 31

Nome: Roberto Borges N°: 32

O que é onda?

R: Você tá brincando né?

R: Elevação e depressão da camada superficial de uma massa líquida

O que é som?

R: Me diz por favor que você esta brincando.

R: É a propagação de uma frente de compressão mecânica ou onda mecânica; é uma onda longitudinal, que se propaga de forma circuncêntrica, apenas em meios materiais.

O que é energia?

R: Pergunta pra sua mãe.

R: Tudo que existe no universo é alguma forma de energia, ela está presente nas estrelas, no espaço e em todos os planetas.

O Sol é uma estrela que fornece energia para nós em forma de luz e calor, fazendo com que parte dessa energia vá para os alimentos, e quando os seres vivos comem os alimentos, recebem uma parcela dessa energia para alimentar os seus corpos.

– Terminamos? – Rafa perguntou olhando a folha de almaço em cima da carteira em que Roberto rabiscava.

Roberto largou a caneta ao lado da folha e chamou o professor com um aceno. O homem gorducho veio até eles, acenou com a cabeça para eles e se afastou.

– Terminamos – Roberto respondeu, alongando os braços enormes.

– Tenho que admitir – Rafa se apoiou com um cotovelo na mesa. – Estava bem fácil.

Roberto riu.

– É, pra quem realmente fez – ele brincou. – Mas e ai Rafa, como você esta?

– Estou bem – Rafa respondeu com simpatia. Era sempre bom falar com Fernando, ele era educado e gentil. Rafa admirava a paciência dele com as coisas.

– Mesmo? – Roberto questionou. – Não que eu queira ser fofoqueiro como os outros estão sendo, mas você não...

– Desaparecido? – ele completou balançando a cabeça. – Não, eu só acabei indo em uma farra com alguns amigos meus e voltei muito tarde.

– Ah – Roberto assentiu. – Então foi isso.

– Sim.

– Eu conheço esses amigos? – ele respondeu. – São da escola?

– Não, são de longe – bem de longe, Rafa acrescentou. – Nós fomos a uma boate e ficou meio tarde – a mentira ia se encaixando muito bem na frase, para a surpresa dele.

– Fiquei preocupado – Roberto respondeu, desviando os olhos.

Rafa o olhou e então se lembrou de algo.

– Meu irmão disse que você foi lá, no sábado – ele comentou.

Roberto enrubesceu um pouco, se lembrando de alguma coisa provavelmente constrangedora na visita.

– É, eu fui – ele respondeu olhando corajosamente para ele. – Depois do que aconteceu lá no anfiteatro eu queria te dizer para não dar bola para o povo lá na escola.

– Não precisava Roberto – ele sorriu. – Não tínhamos conversado antes? Eu posso lidar com isso.

– Eu sei, mas... – ele tentava se explicar, os olhos verdes brilhando. – Eu precisava ver você.

Aquela declaração deixou Rafa surpreso e logo ele notou que Roberto estava mais do que vermelho. De repente ele se lembrou do que o irmão Roger tinha falado na noite anterior: “Ele não vai andar pelado por aqui não, vai?”.

Por acaso Roberto... ?

– Precisava? – Rafa se inclinou, curioso. – E por quê?

– Porque somos amigos – Roberto respondeu apressado. – Não somos?

– Sim, claro – Rafa deu de ombros. – Você é muito legal comigo, Roberto. Tipo, legal demais. Fico até sem graça com isso.

– Não fique- Roberto pediu com intensidade. — É pra isso que serve os amigos, não?

Rafa sorriu de volta e os dois ficaram um bom tempo nisso.

A sineta tocou e Rafa pegou suas coisas antes de acompanhar Roberto até a porta. Ele meio que esperava andar com ele no corredor, mas um vulto o puxou com tudo.

– Onde você se meteu? – Lucas reclamou, atraindo olhares dos outros alunos.

Por reflexo, Rafa soltou seu braço com tudo.

– Bom dia pra você também! – Rafa rebateu.

Lucas revirou os olhos.

– Nem vem com essa. Você sumiu o final de semana inteiro!

– Eu estava com uns amigos! – Rafa rebateu.

– Amigos interessantes – Lucas concordou com um olhar viajado, mas então recobrou a consciência. – Se eles são tão seus amigos assim por que praticamente te arrastaram daqui?

Rafa se lembrou de Andressa o jogando pra dentro do carro enquanto Lucas ficava na sozinho na calçada, a expressão um pouco magoada.

– Eu não fui arrastado – ele respondeu tentando soar verdadeiro. – Nós combinamos de sair naquele dia.

– Ah, é? – Lucas ergueu as sobrancelhas. – Legal esses seus novos amigos. Por que até uma semana atrás eu nem fazia ideia de quem eles eram?

Rafa pressentiu que o amigo não ia se deixar acreditar na mentira dele, então resolveu usar outro método.

– Porque eles querem falar comigo, não com você – ele respondeu, soando meio arrogante.

Lucas escureceu um pouco os olhos, mas não deixou barato.

– Ah, é? Bom, eu não quero que eles me levem até uma boate e me deixem beber até chegar a passar mal. Deus me livre de ter amigos assim!

Rafa suspirou, se cansando rapidamente.

– Olha Lucas, eu apenas saí com eles, tá legal? E foi só uma vez! Eu não vou trocar você ou algo assim do tipo. Por que esta pegando tanto no meu pé?

Lucas também suspirou, parecendo arrependido também.

– Tá legal, tá legal – ele ergueu os braços. – Eu acho que apenas fiquei preocupado. Eu e o João fomos até a sua casa, depois do que tinha acontecido, queríamos consolar você. Mas você não estava lá e seu irmão disse que você tinha sumido. Ficamos preocupados, eu e a Vick achamos que a Taffara...

Rafa recuou um pouco.

– Espera um segundo – ele interrompeu. – Nós? Vick?

Lucas lhe deu um olhar envergonhado.

– É, ela estava lá...

– Sei – Rafa respondeu apertando os olhos. – Ela estava lá... E você também. Certo?

– Não é nada disso que você esta pensando, nós nos esbarramos...

– Aham – Rafa assentiu, rindo. – Acho que se esbarraram sim. Qual é Lucas, esta tentando me enganar? Você estava na minha casa, conversando com a garota por quem você tem uma queda desde a sexta série!

Lucas enrubesceu.

– Isso não quer dizer nada – ele balançou a cabeça. – Nós só conversamos...

– Posso imaginar – Rafa sorriu. – Deve ter sido bastante interessante.

Os dois ficaram se encarando e logo Lucas estava dando socos nas costas dele e os dois começaram a se jogar no chão, batendo um no outro de brincadeira.

– Veados – um cara passou zunindo por eles.

– Vem aqui que eu te mostro o veado – Rafa chamou antes de se virar para o amigo. – Que babaca.

– É – ele se virou para o amigo. – Ei, desculpa por surtar, eu só fiquei preocupado.

– Tudo bem, eu entendo – Rafa respondeu compreensivo. – Me desculpa por sair daquele jeito na sexta, com a Yasmin.

– Tá tudo bem – Lucas respondeu. – Tá tudo bem se você me der detalhes sobre ela nesse exato momento!

Os dois riram e logo Rafa se esquecia da sensação irritante que tivera de manhã.

Um pouco depois, Rafa andava hesitante no corredor até a sala do Sr. Ávila. A porta estava aberta e Rafa estranhou um pouco ao entrar e ver a luz apagada.

A sala tinha uma poltrona preta atrás de uma mesa e uma cadeira sem encosto para quem quer que ele fosse receber na sua sala. No canto Rafa podia ver um vaso com um cactos e no outro ele via uma estante cheia de registros que ele teve vontade de espiar.

Mas a sala estava vazia, a poltrona virada de costas para ele.

– Sr. Ávila? – ele chamou, soando como aquelas loiras burras de filme de terror.

Ele olhou a poltrona e pode ver uma mão pousada no encosto.

– Oh, não – ele começou a recuar da sala, mas esbarrou no corpo musculoso de alguém. Ele olhou, levou um susto e recuou um pouco mais para dentro da sala. – Que merda você esta fazendo aqui?

Eduardo estava de braços cruzados, usando uma jaqueta preta de couro – hum, sinto cheiro de couro – e uma camiseta azul por baixo. Ele não respondeu a pergunta de Rafa e fechou a porta, deixando Rafa sozinho.

– Ei! – Rafa pegou na maçaneta. – EI! ME TIRA DAQUI!

– Pare de gritar – uma voz pediu do lado de dentro. – O que vamos falar pra direção se eles nos encontrarem aqui?

Ele procurou pela origem da voz, mas então a poltrona se virou e nela Fernando se revelou. Estava com o cabelo loiro um pouco bagunçado e usava uma camiseta arregata de linho branco.

– O que você esta fazendo aqui? – ele perguntou, não sabendo se sentia choque ou alivio ao ver ele.

– É uma pergunta bem difícil – Fernando respondeu se levantando e andando para se sentar na mesa. – Nós estamos em uma missão então não sei se posso te dar muitos detalhes.

Rafa revirou os olhos.

– Tem razão, não conte – ele respondeu de repente irritado. – Como eu já disse antes, eu não quero mesmo entrar nesse mundo louco de vocês.

Fernando suspirou e olhou para fora da sala por um segundo antes de se aproximar dele.

– Olha me desculpa – ele murmurou. – O Eduardo não é exatamente o nosso poço de delicadeza.

– Percebe-se – Rafa retrucou.

Fernando sorriu.

– Eu concordo. Mas é que ele meio desse jeito mesmo, ele faz de tudo para honrar as regras do TAP.

– Por mim tudo bem, Fernando – ele assentiu. – Mas não precisa se desculpar por ele, tá? É desnecessário ver você fazendo isso.

– Na verdade, não muito – Fernando comentou. – Nós meio que precisamos de você.

Rafa franziu o cenho.

– Como é que é? Por quê?

– Bom, Anna nos pediu para seguir os rastros dos Atiradores, se lembra disso?

– Mais ou menos – Rafa respondeu, o sonho da noite passada filtrando seus pensamentos. – Ela disse que era melhor começarem a seguir eles antes que perdessem o rastro.

– Isso – Fernando assentiu. – E nós o fizemos. Agora advinha onde estão eles?

Rafa estremeceu.

– Aqui.

– Exatamente! Eles estão bem aqui, em Vallywood, nessa área.

– Ok – Rafa procurou se acalmar. – E o que vir até aqui na minha escola tem a ver com tudo isso?

– É aí que você entra. Encontramos algo no meio do caminho — no bosque atrás da sua escola, pra ser mais exato.

– No bosque? – Rafa repetiu. – Eu passo. Tem experiências naquele bosque que... Honestamente, eu recuso a me recobrar.

– Experiências? – Fernando questionou dando a ele um olhar meio profundo e inquisitivo.

Rafa percebeu que ele ia ficar só encarando e então começou a corar.

– Deixa quieto – ele balançou a cabeça. – E o que eu tenho mesmo a ver com isso tudo?

– É difícil explicar – Fernando revirou os olhos. – Você tem que ver com os próprios olhos.

– Eu não vou ver nada – Rafa discordou. – Da última vez que eu saí de fininho da escola, vocês me levaram para uma viagem até um deserto por dois dias!

– Tecnicamente te sequestramos – Fernando deu de ombros. – Mas você não precisa sair de fininho, não vai ser depois da escola também, vai ser à noite.

– À noite? – Rafa estremeceu. – Ah, melhor ainda! É hoje que eu vou viver de recordações!

– Você fica falando disso toda hora – Fernando reclamou. – Mas nunca fala exatamente o que é. Da pra parar com isso?

– Desculpa – Rafa balançou a cabeça. – Olha, eu não sei se posso confiar em vocês de novo.

– Por favor – Fernando se aproximou mais, insistente. – Nós precisamos mesmo da sua ajuda, Rafa.

– Ah... Eu... Não sei... Eu – ele lutou para se concentrar, Fernando estava perto demais, os olhos azuis fitando os dele no escuro de uma forma muito insistente. – Eu tenho que ver.

– Por favor, tente – Fernando pediu a voz em um sussurro. – Estaremos no estacionamento da sua escola, no lugar aonde nos vimos pela primeira vez.

– Ok – Rafa respondeu, não sabendo bem o que dizer. A lembrança de Fernando atrás dele deixando ele um pouco...

– Mais tarde, então? – perguntou o outro.

– Vou pensar, já disse – Rafa rebateu. – Tenho que pensar também em uma forma de enrolar meus pais.

– Se quiser que eu te ajude nisso – Fernando sorriu malevolamente.

– Não obrigado, eu não gosto da ideia de alguém transformando minha mãe em massa de modelar. Ela praticamente ficou hipnotizada por você.

Fernando deu de ombros.

– É compreensível – ele respondeu, dando a ele um olhar significativo.

– Engraçadinho – ele retrucou.

Fernando começou a se mover para sair, mas então algo ocorreu a Rafa.

– Mais uma coisa.

– O que? – Fernando se virou, a mão já na maçaneta.

– Onde esta o Sr. Ávila?

Fernando deu um sorrisinho secreto e então abriu a porta.

– Peça para alguém checar o armário de vassouras mais tarde.

E com isso ele saiu, deixando Rafa rindo silenciosamente no escuro.

Mais tarde, naquele mesmo dia, Rafa andava com muita pouca coragem no meio do estacionamento solitário da Vallywood High School.

Faltavam só mais alguns passos para ele chegar onde ele tinha sido surpreendido por Fernando, mas ele não gostava muito da ideia de ser o único ali.

Quando enfim chegou ali, parou de andar e tentou ver alguma coisa que indicasse Fernando e os outros. Mas não tinha nenhum carro ou helicóptero parado perto dali. Ele então suspirou e cruzou os braços, esperando por algo.

Um movimento de um corvo no telhado da escola o surpreendeu um pouco, mas ele mal se mexeu, tentando não pensar nas inúmeras coisas que podiam aparecer para ele ali.

Mas qualquer coisa, ele sabia que podia agitar suas mãos, explodir algo ou criar uma barreira – podia não dar certo, mas ele ao menos tentaria.

Ele se lembrou então de quando os Atiradores cercaram ele e Fernando – a adrenalina percorrendo suas veias ao levantar as mãos para se defender.

Nunca tinha brigado na vida, mas o Lobo e o Demônio se chocando fizeram com que ele ficasse com medo de si mesmo – o que diabos ele era?

– Eu disse a você que ele ia vir.

Rafa se virou e viu duas figuras de cabelos escuros andando na direção dele.

Andressa estava com uma blusa amarela de ombro só e uma calça jeans, o cabelo preso em um coque alto, formando um rabo de cavalo. Eduardo tinha as mesmas roupas de antes, mas a espada amarrada nas costas era um acréscimo.

– Disse mesmo – ele comentou, parecendo decepcionado ao passar duas pratas para ela.

Andressa ficou toda agitadona, mas logo Rafa se moveu irrequieto para perto deles.

– Onde esta o Fernando? – ele sussurrou.

Eduardo lançou um olhar nostálgico para a lua no céu enquanto Andressa o olhava e ia ficando menos animada.

– Ele teve que resolver uns assuntos – ela respondeu, desviando os olhos. – Pediu que viéssemos.

Rafa franziu a testa.

– Isso não faz sentido. Por que ele não viria? Foi ele quem me pediu pra vir aqui.

– Eu sei – Andressa assentiu. – Mas ele ficou mesmo ocupado esta noite.

– Não importa muito – Eduardo comentou. – Vamos logo até o bosque e...

– Talvez importe sim – Rafa rebateu teimoso. – E se eu não quiser ir até que vocês me digam por que realmente o Fernando não esta aqui?

Andressa esboçou um sorriso, pegando ele pelo braço.

– Aí eu vou ter que insinuar que você esteja querendo demais a presença dele – ela sacou a familiar agulha e piscou para ele.

Rafa tentou engolir o bolo que se formava na garganta enquanto os seguia. Ficou surpreso ao admitir para si mesmo que não estava com medo. Sua mente pingando com a duvida: Onde Fernando estava?

Eles começaram a subir uma subida meio íngreme até o bosque.

Eduardo na frente, com os ombros enormes se movendo. Andressa logo atrás, ainda com agulha fiel na palma das mãos; Fernando seguia molengamente logo atrás, as pernas começando a se mover com menos vontade a cada passo.

O bosque era realmente lindo mesmo em uma noite assustadora como aquela, Rafa teve que admitir. Eles passaram por uma arvore bem familiar para Rafa e adentraram em uma parte ainda mais escura que ficava parcialmente iluminada pela lua.

Rafa continuou andando até que Andressa colocou o braço na frente, bloqueando a passagem.

– O que foi? – ele questionou assustado.

– É aqui – Andressa murmurou.

– Aqui o que?

Eduardo se moveu para frente, apertando os olhos.

– Olhe para baixo, um pouco mais em frente.

Rafa o fez e no começou só achou o chão, verde e sujo, mas a medida que ia olhando mais a frente, seus olhos encontraram uma forma familiar para ele.

Desenhado na relva, o símbolo do Triscele dominava o bosque, as três espirais se estendendo no chão e ganhando um tom meio cinza pela luz da lua.

– Como você abriu a caixa – Eduardo começou, se colocando ao lado dele para não ter que falar alto. – Nós achamos que você deveria ter alguma experiência em abrir ou desvendar coisas que tenha ele.

Rafa continuava encarando o símbolo ao falar:

– O que vocês querem que eu faça?

Eduardo hesitou e trocou um olhar com Andressa.

– Eu não sei – ela respondeu. – Fernando apenas disse para levarmos ele até aqui, não me deu mais nenhuma instrução.

– Como assim você não sabe?! – ele reclamou. – Achei que você tinha prestado atenção no que ele tinha falado!

– Ele disse apenas para trazer ele até aqui! E eu lá vou ficar prestando atenção em cada coisa que o Fernando diz? Eu virei o que? Um gravador?

Os dois começaram a discutir, acabando com todo o silêncio da noite com suas vozes ecoando, mas Rafa continuou encarando os símbolos.

As espirais eram incrivelmente feitas, com tal perfeição que fazia Rafa perder o folego. Ele se ajoelhou de leve na grama e tocou a espiral mais inferior. A última.

De repente, algo aconteceu. Cada espiral, começando pela qual Rafa tinha tocado, assumiu um brilho dourado e surreal, clareando todo o bosque.

Ele ouviu Eduardo e Andressa pararem de discutir, ao mesmo tempo em que uma forte brisa começou a vir da direção contrária da deles, fazendo a camiseta xadrez de Rafa balançar contra o vento.

Ele ouviu um sussurro e viu algo em sua mente.

– Forte de Canto – ele sussurrou brevemente antes de começar a tremer e desmaiar mais uma vez.