A manhã em Astúria surgiu com uma luz vibrante, mas nada brilhava mais do que a tensão renovada — e agora cúmplice — entre o Príncipe Herdeiro e a Loba do Norte. Na mesa do café da manhã, o silêncio habitual foi substituído por um jogo de palavras que deixava todos os presentes em um estado de total confusão.

​Caelum cortava sua fruta com uma precisão cirúrgica, mas seus olhos azuis não saíam de Catarina. Ela, por sua vez, bebia seu chá com uma elegância desafiadora, sustentando o olhar dele com um sorriso de canto que escondia segredos da noite anterior.


​— Lady Catarina — começou Caelum, a voz carregada de um veludo perigoso. — Notei que a senhora parece... exausta esta manhã. O ar do Sul por acaso está pesado demais para seus pulmões nortistas, ou a senhora passou a noite lutando contra fantasmas no seu quarto trancado?

​Catarina soltou uma risadinha, seus olhos brilhando com o deboche que agora era puro carinho.

— Fantasmas são fáceis de lidar, Vossa Alteza. O problema são os invasores teimosos que acham que podem ditar as regras do meu sono. Mas devo admitir... o "ar do Sul" teve seus momentos interessantes durante a madrugada. Quase me fez esquecer o quanto o Príncipe pode ser... ruidoso quando quer atenção.

​Julian parou a caneca de café no meio do caminho, olhando de um para o outro com a testa franzida. Aria arqueou uma sobrancelha, observando a mão de Caelum, que parecia relaxada demais para alguém que, até ontem, estava em pé de guerra.

​Diálogos de Confusão

​— Do que vocês estão falando? — perguntou Katrina, olhando para o filho com desconfiança. — Ontem vocês não conseguiam ficar no mesmo salão sem que o gelo cobrisse as paredes.

​— Oh, minha querida mãe — Caelum respondeu, sem desviar os olhos de Catarina. — É que eu decidi que a paciência é uma virtude real. E a Lady Catarina... bem, ela precisava de uma lição sobre como não se perder nos corredores do castelo.

​— Uma lição que eu espero que não precise ser repetida tão cedo — rebateu Catarina, inclinando-se para a frente. — Embora o "instrutor" tenha sido surpreendentemente... dedicado à tarefa.

​— Dedicado? — Caelum riu, um som baixo e rouco. — Eu diria que fui apenas caridoso com uma estrangeira confusa.

​— Caridade? — Catarina debochou, chutando levemente o pé de Caelum por baixo da mesa. — Você estava mais para um náufrago agarrado a uma tábua de salvação.

​A Reação do Conselho Familiar

​Gaspar olhou para Richard, que apenas deu de ombros, igualmente perdido.

— Eles estão brigando de novo ou... estão se elogiando? — sussurrou o rei.

​— Eu não entendo esse dialeto que eles falam — resmungou Richard. — Parece que estão se insultando, mas os olhos deles parecem querer incendiar a mesa de tanto desejo.

​Aria, percebendo a marca quase imperceptível de um beijo no pescoço de Catarina que a gola do vestido não escondia totalmente, soltou uma risada abafada e trocou um olhar cúmplice com Julian.

​— Acho que o "cortejo" foi retomado, tio — disse Aria, voltando a comer. — Só que do jeito deles. Com espinhos e mel.

​Caelum levantou-se, estendendo a mão para Catarina com um sorriso que prometia mais do que meras palavras.

— Com licença, família. Tenho que mostrar à Lady Catarina uma nova... "estratégia" de defesa no gabinete. Ela parece ter muita dificuldade em entender certas posições.

​— Vou com prazer, Vossa Alteza — Catarina aceitou a mão dele, levantando-se. — Mas tente não reclamar se eu derrubar sua guarda de novo. Você sabe que eu não tenho piedade de príncipes pretensiosos.

​Eles saíram do salão trocando farpas carinhosas, deixando os pais e o rei em um silêncio absoluto, tentando processar como o ódio mortal se transformara naquela estranha e magnética harmonia.