​A calmaria que se seguiu ao surto de Caelum era enganosa, como o silêncio que precede uma nevasca. No escritório que lhe fora cedido, Julian finalizava uma carta. A pena corria rápida pelo pergaminho, selando não apenas um compromisso diplomático, mas o desejo de ter os seus por perto no momento mais importante de sua vida.

​A Mensagem do Lobo

​“Pai, Mãe,

​Astúria não é apenas o reino que vim proteger. Tornou-se o lugar onde encontrei o que nunca busquei: um motivo para fincar raízes. Recebi a benção do Rei Gaspar. Vou me casar com a Princesa Aria.

​Preciso da presença de vocês para o noivado e o matrimônio. E, por favor, tragam Catarina. Sei que as outras irmãs reclamarão, mas o espírito dela é o que melhor entenderia o que estou vivendo aqui. Venham depressa. O inverno de Valória pode ser rigoroso, mas o calor deste novo laço é o que manterá nossa casa unida ao Sul.”

​Ele selou o envelope com o brasão do urso e entregou ao mensageiro mais rápido.

​O Desembarque no Porto

​Duas semanas depois, as trombetas ecoaram pelas muralhas de Astúria. Um navio de madeira escura e velas cinzentas, robusto o suficiente para enfrentar os mares mais bravos, atracava no porto real.

​A família Heraldrick estava presente em peso. Gaspar e Claire vestiam suas melhores sedas, e Aria, ao lado de Julian, usava um vestido verde esmeralda que realçava seus cabelos ruivos, os olhos brilhando de ansiedade.

​Quando a passarela desceu, a figura imponente do Conde Valmor e da Condessa Elara surgiu. Atrás deles, uma jovem de cabelos escuros e olhar vivaz saltou quase antes da hora: Catarina. Ao ver o irmão, ela rompeu o protocolo e correu para um abraço que quase os derrubou.

​— Você está vivo! — ela riu, afastando-se para olhar o rosto dele. — E com marcas de briga? Julian, o que você andou aprontando neste reino ensolarado?

​— Protegendo o que é meu, Cat — Julian respondeu, abraçando-a novamente antes de apresentá-la à Aria. — Alteza, esta é Catarina. A única que realmente consegue me fazer perder a paciência em Valória.

​Aria sorriu, sentindo uma simpatia imediata pela moça. — Seja bem-vinda, Catarina. Julian fala muito de você.

​O Quarto das Sombras

​Enquanto os risos e os cumprimentos preenchiam o porto, a ala oeste do castelo permanecia em um silêncio sepulcral. Richard e Katrina tentaram, mais de uma vez, convencer Caelum a descer para receber os convidados de honra, mas a resposta era sempre a mesma: o som de uma trava sendo batida.

​Caelum estava sentado no chão de seu quarto, cercado pelos destroços que ainda não permitira que os criados limpassem. Ele olhava para a janela, vendo de longe a movimentação das carruagens voltando do porto.

​Ele sabia que Julian agora tinha reforços. Sabia que a família de Valória estava ali para consolidar o que ele considerava o roubo de sua vida. A presença de Catarina, a irmã de seu ex-melhor amigo, era apenas mais um lembrete do mundo que ele agora desprezava.

​— Deixe que comemorem — ele sussurrou para a escuridão do quarto, a voz carregada de um rancor frio. — O banquete de noivado ainda não aconteceu. E sombras não precisam de convite para aparecer.

​Caelum não era mais o escudo de ninguém; ele era uma ferida aberta no coração de Astúria, esperando o momento em que a dor se transformaria em algo muito mais perigoso do que apenas quebrar móveis.