Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
27 Espetáculo e farpas
As águas da cachoeira de Prata caíam com uma força ensurdecedora, o único som capaz de abafar os pensamentos caóticos de Caelum. Ele precisava do frio, do impacto, de algo que lavasse o cheiro do banquete e o gosto amargo da conversa na capela. Ele mergulhou, deixando a correnteza castigar seus ombros e a água gelada anestesiar sua pele.
Quando ele finalmente emergiu, sacudindo os cabelos escuros e limpando a água do rosto, o silêncio da floresta foi quebrado por um som seco e rítmico.
Clap. Clap. Clap.
Caelum congelou. Ele se virou bruscamente, a água escorrendo pelo seu peito largo e pelas cicatrizes que marcavam suas costas. Encostada em uma carvalheira secular, com os braços cruzados e um sorriso insolente nos lábios, estava Catarina.
— Uma performance e tanto, Duque — ela disse, a voz projetada para superar o barulho da queda d'água. — Tenho que admitir, para um homem tão cheio de sombras, você até que dá para o gasto sob a luz do sol.
A fúria de Caelum subiu instantaneamente, mas ele se manteve mergulhado até a cintura, os olhos faiscando.
— Você não tem um pingo de decência? — ele rosnou, a voz vibrando de indignação. — Saia daqui, garota. Agora!
Catarina soltou uma risada curta, desencostando-se da árvore e caminhando lentamente até a margem, sem desviar o olhar nem por um segundo.
— Decência? Eu vim atrás de um pouco de paz, longe dos brindes melosos do meu irmão, e encontro um espetáculo gratuito — ela deu de ombros, sentando-se em uma pedra plana. — E não me chame de "garota". Meu nome é Catarina, mas para você, acho que "seu pior pesadelo" serve bem, já que você parece ter medo de qualquer coisa que não seja o seu próprio ego ferido.
Caelum ignorou o comentário. Ele caminhou até a margem oposta, pegando sua túnica escura e vestindo-a com movimentos rápidos e agressivos, mesmo com o corpo molhado. Ele não disse uma palavra, agindo como se ela fosse apenas um inseto incômodo.
— O silêncio é a sua melhor arma, Caelum? — ela continuou, provocando-o. — Ou você está apenas processando o fato de que eu te vi sem a sua armadura de arrogância? Sabe, você fica muito menos assustador quando está tremendo de frio.
Ele terminou de amarrar as botas e finalmente a encarou, o rosto rígido como mármore.
— Você é tão irritante quanto o seu irmão, mas com metade da inteligência dele. Eu não estou tremendo, e certamente não estou interessado nas suas observações de província.
— Inteligência? — Catarina levantou-se, caminhando em direção a ele com um passo decidido. — Inteligência é saber quando uma batalha está perdida e seguir em frente. Você, por outro lado, se comporta como um idiota que prefere se afogar na própria amargura do que admitir que o mundo não gira em torno das suas tragédias.
— Você não sabe nada sobre mim ou sobre este reino — ele disse, passando por ela como uma ventania.
Catarina segurou o braço dele por um breve segundo, apenas o suficiente para fazê-lo parar.
— Eu sei o que vejo, Duque. E o que eu vejo é um homem desperdiçando a vida porque não aguenta ver outra pessoa usando uma coroa que ele nunca teve coragem de reivindicar. Você se acha um mártir, mas aos meus olhos? Você é só um idiota com sorte de ser bonito.
Caelum puxou o braço com força, os olhos azuis encontrando os dela em um choque de eletricidade e ódio.
— Guarde suas lições de moral para os seus cavalos em Valória, Catarina.
— Ah, eu vou guardar! — ela gritou enquanto ele se afastava pela trilha. — Mas da próxima vez que quiser se esconder do mundo, tente um lugar menos público. Ou pelo menos aprenda a nadar mais rápido, antes que sua dignidade termine de afundar!
Ela o viu desaparecer entre as árvores, sentindo uma satisfação estranha. Caelum era impossível, mas pela primeira vez em muito tempo, Catarina sentiu que alguém finalmente havia sacudido o pedestal de gelo onde o Duque de Astúria se escondia.
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