A penumbra do quarto era cortada apenas pela luz das brasas na lareira, criando um cenário de entrega absoluta. O silêncio era preenchido apenas pelo som das respirações entrelaçadas, até que três batidas firmes e autoritárias na porta fizeram o mundo parar.

​— Caelum? Sei que ainda está acordado. Precisamos conversar — a voz de Richard ressoou, pesada e inconfundível.

​O pânico foi instantâneo. Em um movimento coreografado pelo desespero, Catarina rolou para o lado, agarrou seu vestido e deslizou para debaixo da imensa cama de carvalho, sumindo nas sombras das colchas de seda.

​Caelum, tentando desesperadamente controlar o fôlego e puxando o lençol até a cintura para esconder a nudez e a confusão, sentou-se na cama.

​— Pode entrar, pai — disse ele, a voz um pouco mais aguda do que o normal.

​Richard entrou, fechando a porta atrás de si. Ele caminhou pelo quarto com as mãos nas costas, parando perto da janela antes de se virar para o filho. Debaixo da cama, Catarina prendia a respiração, sentindo o pó do tapete pinicar seu nariz e vendo as botas de couro do sogro a poucos centímetros de seu rosto.


​— O que houve com vocês dois? — Richard perguntou sem rodeios. — No café da manhã pareciam dois cúmplices de um crime, e agora me dizem que você passou a tarde "ensinando estratégia" a ela.

​— Estamos apenas tentando manter a paz, pai — respondeu Caelum, fingindo um interesse súbito em ajustar o travesseiro. — Catarina é... volátil. Encontramos um meio-termo.

​— Meio-termo? — Richard soltou um riso seco, dando um passo em direção à cama. Catarina encolheu-se ainda mais. — Caelum, eu conheço você. Ontem você parecia um cão ferido, pronto para mandar o mundo para o inferno. Hoje, você parece um homem que ganhou a guerra e o tesouro.

​— Talvez eu tenha apenas aprendido a ignorar o deboche dela — mentiu Caelum, sentindo uma gota de suor escorrer por sua têmpora.

​— Escute bem — Richard inclinou-se, apoiando a mão no poste da cama, perigosamente perto de onde Catarina estava escondida. — Se você realmente quer essa moça, não brinque com o fogo. Valória é uma aliada poderosa, mas a honra de uma loba do Norte não é algo que se possa manchar sem consequências. Se houver algo acontecendo que eu precise saber...

​— Não há nada, pai! — Caelum interrompeu, rápido demais. — Estamos apenas sendo... civilizados.

​O Perigo Passa

​Richard estreitou os olhos, seu instinto de guerreiro captando que havia algo errado no ar — um perfume de gardênias que não pertencia ao quarto de um príncipe solitário. Ele olhou para o chão, vendo uma pontinha de seda escura que não parecia ser um lençol.

​Caelum seguiu o olhar do pai e, em um ato de puro reflexo, chutou levemente a barra da colcha para cobrir o que quer que estivesse aparecendo.

​— Vá dormir, Caelum — disse Richard, finalmente, com um meio sorriso que indicava que ele sabia muito mais do que dizia. — Só lembre-se de que, em Astúria, até as paredes têm ouvidos. E, às vezes, debaixo das camas também.

​Richard virou-se e saiu, fechando a porta com um clique definitivo.

​Caelum esperou dez segundos antes de soltar um suspiro de alívio. Catarina saiu de debaixo da cama como um furacão, tossindo por causa da poeira e com o cabelo totalmente bagunçado.

​— "Civilizados", Caelum? — ela sussurrou, subindo na cama e jogando um travesseiro nele. — Quase morri sufocada ali embaixo enquanto você falava sobre "estratégia"!

​Caelum a puxou pela cintura, rindo pela primeira vez da situação.

— Ele sabe. Eu tenho certeza de que ele sabe.

​— Se ele souber e contar para o meu irmão, você vai ter que aprender a estratégia de "como fugir de um duelo com Julian" — Catarina brincou, mas logo se calou quando Caelum a beijou novamente, apagando o susto com a urgência que só o perigo de serem descobertos conseguia criar.