Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
21 O Doce Sabor do Recomeço
Os dias que se seguiram transformaram a rotina do palácio. Aria, que antes fugia de suas responsabilidades, agora encontrava todos os pretextos possíveis para estar perto da ala dos guardas nobres. Ela mesma trocava as compressas de Julian e fazia questão de que ele tivesse as melhores refeições, ignorando os olhares de desaprovação que vinham da mesa real.
A tarde estava silenciosa quando Aria caminhou pelos corredores carregando uma maçã vermelha e brilhante, colhida do pomar favorito de seu pai. Ela bateu suavemente na porta dos aposentos de Julian e entrou antes mesmo de ouvir a permissão.
Julian estava sentado à beira da cama, sem a túnica pesada, apenas com uma camisa de linho fino que deixava transparecer as ataduras em suas costelas. Ele sorriu ao vê-la, um sorriso que não carregava segundas intenções, apenas um alívio genuíno.
— Uma maçã para o seu escudo, Alteza? — brincou ele, tentando se levantar, mas soltando um pequeno gemido de dor.
— Fique sentado, Julian — Aria ordenou com uma doçura firme, sentando-se em uma cadeira próxima a ele. Ela entregou a fruta. — Você lutou por mim. É o mínimo que posso fazer para garantir que sua força volte logo.
Julian segurou a maçã, mas seus olhos verdes não se desviaram dos dela. Ele a deixou sobre a mesa de cabeceira e buscou a mão de Aria, envolvendo-a com a sua.
— Aria... o que eu disse no jardim, antes daquela briga... eu falei sério. Eu não vim para Astúria para roubar o lugar de ninguém, mas meu coração não segue ordens militares. — Ele fez uma pausa, a voz tornando-se mais grave e honesta. — Eu estou perdidamente apaixonado por você. Não como uma princesa em um pedestal, mas pela mulher corajosa e teimosa que conheci nestes dias. Se você me der uma chance, eu passarei cada dia da minha vida provando que você tomou a decisão certa ao me escolher.
Aria sentiu um nó na garganta. Por um segundo, a imagem de Caelum — o beijo no jardim, a fúria nos olhos dele, a infância compartilhada — cruzou sua mente como um fantasma. Mas, ao olhar para Julian, ela não sentiu o peso da tragédia ou do pecado. Ela sentiu paz.
— Julian — ela começou, apertando os dedos dele. — Eu não vou mentir para você. O que eu vivi com o meu primo foi... intenso. Foi uma vida inteira de expectativas e sentimentos confusos que explodiram quando ele voltou. Mas o que ele me ofereceu foi dor, segredos e uma fuga constante.
Ela respirou fundo, sentindo-se finalmente livre de um fardo invisível.
— Eu também gosto de você, Julian. Muito. Com você, eu não sinto que estou cometendo um crime por querer ser feliz. O que eu tive com o Caelum... agora eu entendo que foi uma parte da minha história, um capítulo que precisava ser encerrado para que este pudesse começar. Aquilo ficou no passado. O meu presente, e o meu desejo, é você.
Julian puxou a mão dela e a beijou com uma devoção que fez as pernas de Aria tremerem. Não era o beijo urgente e proibido de Caelum, mas um pacto de lealdade e afeto.
Do lado de fora, no corredor escuro, uma sombra se afastou da porta. Caelum, que viera em um momento de fraqueza para tentar pedir desculpas ao amigo e à prima, ouviu cada palavra. Ele apertou o cabo da sua espada até que o metal rangesse. Ele ouvira o que precisava: ele agora era oficialmente "o passado". E, enquanto Aria e Julian sorriam um para o outro dentro do quarto, Caelum mergulhava em um isolamento que prometia mudar o destino de Astúria para sempre.
Fale com o autor